sexta-feira, 16 de maio de 2014

Constantes em tempo de mudança


J.-M. Nobre-Correia
Estes últimos dias, a cobertura da atualidade pelos média audiovisuais (rádios e televisões) deixou uma terrível impressão : a de que, no fim de contas, pouco de essencial mudou na sociedade portuguesa em relação ao que ela era há 50 anos, em tempos de salazarismo.
É evidente que Portugal vive agora em democracia (pelo menos no plano formal). Que a liberdade de expressão é evidente : podemos sentarmo-nos à mesa de um café e dizermos o que quisermos. Como podemos ler os jornais e os livros que quisermos, ouvirmos as rádios que quisermos, vermos os filmes e as televisões que quisermos. Do momento, é claro, em que dispusermos dos meios materiais para poder fazê-lo.
Também é evidente, apesar de tudo, que as infraestruturas de que o país se dotou são sem comparação com o que eram nos anos 1960. E que, globalmente, as pessoas gozam de condições de vida incontestavelmente melhores do que nos anos do salazarismo. Apesar da crise atual. Apesar dos evidentes retrocessos a que assistimos nos planos económico, social e cultural.
Mas há constantes na sociedade portuguesa. E constantes que, de certo modo, até se acentuaram. Veja-se o caso das peregrinações a Fátima. Deste inacreditável desfile de gente a pé, ao longo das estradas, numa total imprudência (que tem algo de masoquista) em relação a aquilo para que existem as estradas : a circulação rodoviária. E imagina-se um só segundo que as televisões francesas se comportem de igual modo em relação a Lourdes ? Ou que as belgas deem uma importância comparável a Beauraing ? Ou mesmo, mais simplesmente, que nestes dois países se realizem desfiles parecidos ao longo das estradas ?
Veja-se também esta agitação totalmente irrazoável, para não dizer irracional, no que diz respeito ao futebol. Com os média a atribuírem uma importância descomedida a um encontro entre duas equipas. Com um exagero de emissões especiais, de “diretos”, de horas de transmissão, de enviados especiais sem conta, de entrevistas totalmente disparatadas. E as inquietantes interrogações que tudo isso suscita : onde está afinal a crise económica ? Onde estão os horários de trabalho ? Quando se vê esta gente toda a pagar viagens de avião e demais transportes, estadia (hotel, restaurante e cafés) e bilhete de entrada no estádio. E quando se vê esta gente toda ir a horas indevidas para a rotunda do Marquês de Pombal e para o aeroporto de Lisboa, à partida ou à chegada dos futebolistas (vencedores ou vencidos).
Fátima e futebol, como no tempo do salazarismo. E poder-se-ia acrescentar também o fado. O fado de Lisboa, é claro. Como se o de Coimbra não existisse. Como se não houvesse por esse país fora músicas bem mais interessantes do que esse canto alfacinha, quantas vezes ridículo na letra e na expressão vocal…
Portugal mudou. Mas os média portugueses persistem em favorecer a irracionalidade, numa total impunidade, em nome de uma pretensa “liberdade de imprensa”…