domingo, 18 de maio de 2014

Em devida perspetiva



J.-M. Nobre-Correia
Correio da Manhã : O sucesso do grande diário popular é de facto muito relativo, quando comparado a casos em que as condições de base são bem menos favoráveis…
Mesmo nos meios jornalísticos e mediáticos, o Correio da Manhã é considerado como um caso de sucesso. E não há dúvida que, a situação da imprensa em Portugal sendo o que é, o jornal fundado por Vítor Direito em 1979 foi o que, de todos quantos nasceram no pós-25 de Abril, mais solidamente se implantou. Só que, à escala da Europa, este sucesso é muito relativo.
A caraterística mais evidente do Correio da Manhã é a de ser o único diário com caraterísticas ditas populares a dominar o mercado num país latino. Em Espanha e em Itália são os diários ditos de referência que dominam em termos de difusão paga. Em França, o diário regional Ouest-France, de Rennes, domina com 733 078 exemplares vendidos, os nacionais de referência Le Figaro (317 225) e Le Monde (275 310) ocupando a segunda e a terceira posições. E mais : nestes três países não existem pura e simplesmente diários populares no sentido técnico da palavra.
Apesar deste estatuto singular, o Correio da Manhã está muito longe de atingir o nível de penetração de muitos dos seus congéneres europeus. Assim, por exemplo, o Kronen Zeitung, de Viena. A Áustria conta 8,46 milhões de habitantes (menos do que os 10,56 milhões em Portugal). Mas é um país que partilha a língua da Alemanha e da maioria da Suíça, para falar apenas destes países. O que quer dizer que qualquer pessoa residente na Áustria pode muito bem decidir não ler jornais austríacos, mas sim os dos países vizinhos.
Ora, apesar destes dados demográfico e linguístico (quando, em termos editoriais, Portugal tem a sorte de dispor de uma língua própria), um diário como Kronen Zeitung tem uma difusão paga de 809 990 exemplares, quando abundam os diários populares na Alemanha como na Suíça alemânica. Por seu lado, o Correio da Manhã fica muito modestamente pelos 111 297 exemplares. O que quer dizer que o seu potencial de desenvolvimento é teoricamente considerável. Mas isso suporia outra estratégia comercial e sobretudo uma clara e inovadora estratégia de regionalização…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 10 de maio de 2014, p. 43.