quarta-feira, 7 de maio de 2014

Estranha perceção da história

J.-M. Nobre-Correia

Futebol : Os média praticam uma hierarquização de valores cujas repercussões no funcionamento da democracia são preocupantes…

Esta infeliz iniciativa portuguesa que consiste em instalar televisores em tudo o que é cafés e restaurantes tem consequências. A primeira é massacrar quem quis ser cliente de um desses estabelecimentos, impondo-lhe telejornais e programas de uma rara mediocridade. A outra é ver cidadãos e jornalistas estrangeiros espantarem-se com a duração dos telejornais e a importância dada ao futebol. Porque, mesmo quando não falam português, percebem bem que é de futebol que tratam as imagens…
O que eles ignoram, pobres estrangeiros !, é que não é só na televisão que o futebol é assunto prioritário. O mesmo acontece na rádio e na imprensa (embora, em boa verdade se diga, esta não chegue ao desplante de encher as páginas unicamente com um tema futebolístico. Mas na televisão (pública ou privada), estes últimos dias, foi um fartote. Como se mais nada tivesse acontecido em Portugal e no mundo…
Quem considera que o mundo, a sociedade, a vida não giram em torno de homens em calções que correm atrás de uma bola, é obrigado a aguentar a ditadura do futebol. Ditadura de uma minoria, numerosa é certo mas minoritária, que confunde a procura dos cidadãos com a oferta que os média lhes propõem. E que lhes propõem em quantidades tais que os drogam, provocando uma evidente dependência.
Como compreender que treinadores de futebol tenham direito a conferências de imprensa diárias, religiosamente cobertas pelos telejornais ? Que se sigam devotamente os campeonatos espanhol e inglês (no mínimo) ? E que não haja jornalistas nem espaço para tratar assuntos culturais e científicos. Nem para explicar com clareza questões económicas. Nem para abordar seriamente matérias sociais da vida quotidiana. Admiremo-nos depois que, nesta “overdose” de futebol, os média descubram que, numa sondagem, um futebolista seja uma das 11 “personalidades dos últimos 40 anos que mais contribuiu para o País”. Triste perceção da história ! E terrível responsabilidade a dos média nesta grande baralhação de valores essenciais…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 26 de abril de 2014, p. 43.