domingo, 25 de maio de 2014

Uma gramática própria

J.-M. Nobre-Correia
Rádio : Se o “Programa da manhã” da Antena 1 é globalmente insatisfatório, emissões houve ou há que são o que de melhor se pode esperar de um serviço público…
Já aqui se disse sobejas vezes que o “Programa da manhã” da Antena 1 não está à altura do que melhor se faz nas rádios públicas generalistas europeias. E até se explicaram as insuficiências da conceção da grelha e da execução de boa parte das suas componentes. É possível porém que haja programas de qualidade no resto do dia. Mas a rádio é sobretudo um média da manhã. E daí que o “Programa da manhã” seja tantas vezes evocado.
No cinzentismo geral Matinal, houve ou há todavia programas que foram ou são do que melhor se faz em rádio. E do que melhor se pode esperar de uma rádio de serviço público. Assim essa pequena maravilha que era “Um lugar ao sul” de Rafael Correia. Uma autêntica pérola em que, no melhor jornalismo de reportagem e de entrevista, se procedia a uma recolha de usos e costumes, de histórias, adágios, poemas, cantilenas e músicas das gentes deste país ligadas antes do mais à terra, ao campo, à ruralidade. Com um senão talvez : o de privilegiar largamente o país ao sul do Tejo, como se a norte e nas ilhas pouco ou nada tivesse interesse.
Há hoje, aos sábados de manhã, as emissões de Ana Aranha. E, atualmente, estas formidáveis (e formidavelmente trágicas) “Histórias clandestinas”. Construídas com talento, conduzidas com tato, deixando falar os entrevistados, não os interrompendo a todo o momento, fazendo embora as perguntas indispensáveis. Respeitando as especificidades da radiofonia, fazendo intervir os necessários separadores e procedendo à indispensável montagem. Emissões de uma extrema utilidade, para que os jovens saibam. E indispensáveis, para que a História não esqueça.
Estes exemplos provam claramente que há gente na RDP-RTP com talento. Jornalistas e produtores que sabem bem que, em rádio, pôr emissões “no ar” não consiste unicamente em pôr um encartado da profissão diante de um micro, lendo textos preparados ou, pior ainda, falando atabalhoadamente de improviso. Mas que há que concebê-las e realizá-las segundo uma gramática que é própria da rádio…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 17 de maio de 2014, p. 43.