terça-feira, 17 de junho de 2014

Interrogações de um estrangeirado perplexo


J.-M. Nobre-Correia

Um após outro, os diários deste país (mas não só eles) vão desaparecendo. E Portugal é dos países europeus que contam com menos títulos. Para não falar já no facto que boa parte dos diários por aí publicados são claramente insuficientes em termos de cobertura dos diferentes aspetos da atualidade.
Uma após outra, as redações vão-se esvaziando. Quantitativamente e até qualitativamente. Porque, no entender dos editores, é preciso reduzir os custos. Equipas menos numerosas têm evidentemente custos mais baixos. Como têm custos mais baixos equipas mais jovens, contando com menos antiguidade. E juventude que quer dizer também, na maior parte dos casos, menos experiência, menos competência. E o que não é indiferente para os editores e diretores : maior maleabilidade, maior flexibilidade.
Uma crise que vem de longe
É por demais evidente que, desde há seis anos, a crise dos investimentos publicitários acentuou a crise da imprensa portuguesa. Acentuou mas não a desencadeou, porque de facto a crise vem de longe, de muito longe mesmo. Desde quando, nos tempos do salazarismo, pelo menos, a censura destruiu largamente a capacidade de aparecimento de verdadeiros editores e empresas de edição. Como destruiu largamente a prática de um autêntico jornalismo, no que diz respeito à procura da informação no terreno e à ponderada interpretação das componentes determinantes da atualidade. Enquanto que os bancos, tomando conta de quase todos os jornais diários e dos mais importantes semanários, destruíram o que restava ainda de iniciativa editorial privada no país.
O 25 de Abril constituiu evidentemente um marco fundamental da história dos média, dando nascimento a uma condição essencial do exercício das profissões de editor e de jornalista : a liberdade. Só que, a maneira como, durante longuíssimos anos, sucessivos governos e partidos políticos (sem exceção) abordaram a questão dos média e da informação, destruiu a quase totalidade do que existia por ocasião do levantamento militar [1]. E a destruição continuou durante muitíssimos anos ainda, porque os verdadeiros editores e gestores de jornais quase não existiam. E porque a grande maioria dos jornalistas vieram diretamente do militantismo político, primeiro, ou, agora, de demasiadas escolas superiores de todos os géneros e que muito raramente têm alguma coisa a ver com a formação jornalística.
Perante a situação trágica qua acaba de ser evocada (cada vez menos jornais em papel, redações cada vez menos numerosas e, por consequente, número de jornalistas no desemprego cada vez maior), há algo de surpreendente, de espantoso : a lânguida apatia que domina o sector ! E esta apatia reina particularmente no meio jornalístico. Sem que haja verdadeiramente explicações concretas, indiscutíveis (históricas, culturais, sociológicas), para tal situação.
Quando se vê o que se passa aqui ao lado, em Espanha, em França ou na Itália — países geográfica e culturalmente próximos, em que a situação da imprensa diária até se assemelha mais à de Portugal do que à dos países escandinavos, por exemplo —, a apatia portuguesa é incompreensível. O número de diários digitais, em linha, que foram criados por equipas de jornalistas nestes três países é enorme. Por vezes com equipas que contam mais de uma trintena de jornalistas, sem falar nos administrativos. Propondo por vezes diários gratuitos, vivendo da publicidade. Mais raramente diários por assinatura e sem publicidade, por vezes com várias dezenas de milhares de assinantes (mais de 90 mil no caso de Mediapart, em França, seis anos depois do seu lançamento) e algumas vezes com uma rentabilidade confirmada ano após ano (no caso de Mediapart, nos últimos três anos).
Em Portugal, assistimos a uma viragem histórica com o lançamento do Expresso Diário em 6 de maio e do Observador em 19 do mesmo mês. O primeiro ligado ao semanário Expresso e produzido pela sua equipa, sendo o segundo uma verdadeira iniciativa autónoma (“pure player”, dizem os anglófonos). Mas como é possível que se tenham esperado tantos anos antes que algo de verdadeiramente significativo nos planos editorial e jornalístico tenha acontecido ? Porquê este atraso de uns sete ou oito anos em relação às primeiras criações de jornais digitais autónomos em França, por exemplo, quando a diversidade de diários neste país é bem mais vasta do que em Portugal ?
Como explicar esta falta de iniciativa ?
Mas, para quem viveu dois terços da sua vida no estrangeiro, a principal interrogação continua a ser : como explicar esta falta de iniciativa da parte de tantos profissionais experientes que se encontram no desemprego ? Eliminados os custos importantes da produção técnica e da distribuição dos jornais impressos, o que impede que se constituam equipas coerentes de jornalistas, comungando de um mesmo projeto editorial, acompanhadas por administrativos experientes que frequentaram por vezes durante anos, e que estas equipas lancem vários jornais em linha ?
O leque de projetos possíveis é vasto, dada a paisagem mediática em desertificação avançada que é a portuguesa : diários generalistas ou especializados, com publicidade ou sem ela, gratuitos ou a pagamento, nacionais, regionalistas ou à escala da lusofonia,… Porquê então este amorfismo ? Preferirão os jornalistas portugueses o desemprego à perspetiva de se lançarem em iniciativas de que serão eles próprios responsáveis ?
Interrogações de um estrangeirado perplexo ? Ou abordagem não-depressiva, com um olhar diferente e razoavelmente positivo sobre a realidade mediática e jornalística portuguesa ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Razões que explicam a miséria », in Notas de Circunstância, n° 6, fevereiro de 2014 ;
J.-M. Nobre-Correia, « Um momento da história em perspetiva », in Notas de Circunstância, n° 8, abril de 2014.