sexta-feira, 13 de junho de 2014

Um anacronismo absurdo


J.-M. Nobre-Correia
Os monárquicos em geral, e os monárquicos portugueses em particular, adoram contos de embalar com reis, rainhas, príncipes e princesas. E recusam ver o que há de escandaloso e absurdo em tais narrativas…
A demissão de Juan Carlos de Borbón tem posto em êxtase essas relíquias de “Ancien Régime” que são os monárquicos portugueses. Gente, por vezes inteligente e culta, que se põe a fazer considerações totalmente desprovidas de bom senso. Dizendo por exemplo que as monarquias são um modelo de estabilidade e moralidade, e as repúblicas se caraterizam pela instabilidade e a corrupção. Limitando por vezes tais afirmações às monarquias do norte e às repúblicas do sul da Europa. Demonstrando assim, no primeiro como no segundo casos, cegueira ou desonestidade.
Começando pela distinção enganadora entre o norte e o sul da Europa, esses monárquicos pseudo-subtis esquecem voluntariamente a diferença histórica entre ética protestante e ética católica. E, que se saiba as repúblicas finlandesa ou suíça não são menos éticas do que as monarquias do norte. São-no até bastante mais, porque a imoralidade, a hipocrisia, a ganância, a corrupção e a usurpação de privilégios das monarquias do norte como do sul têm sido postas em evidência nestes últimos decénios, para não irmos mais longe. Quando os sistema mediáticos dominantes praticamente por toda a Europa interiorizaram uma inacreditável deferência pelos meios dominantes e, claro está, por estes meios dominantes “pela graça de deus” que são os reis, grão-duques e demais príncipes.
Ora, a este clima de imoralidade, hipocrisia, ganância, corrupção e usurpação de privilégios, nenhuma monarquia europeia parece escapar. Nos casos britânico, neerlandês, belga, luxemburguês, espanhol ou nessa monarquia de opereta que é monegasca, tudo isso é por demais evidente. E para evocar apenas a atualidade, as guerras entre reis, rainhas e príncipes, que datam, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial e atingem atualmente um elevado grau de comicidade na Bélgica. Com Albert de Saxe-Coboug, pai do atual rei, Philippe de Saxe-Cobourg, a protestar porque o Estado “só” lhe paga por ano 923 mil de euros de reforma (enquanto que Beatrix van Orange-Nassau, nos Países-Baixos, recebe 1,4 milhão de reforma não submetida a imposto !) !
Quanto à monarquia espanhola, nem vale a pena falar : a atualidade é por demais conhecida e significativa. Mas — para além mesmo das acusações atuais contra Elena de Borbón e o seu marido, Inaki Urdangarin — talvez convenha recordar aos monárquicos voluntariamente esquecidos que Juan Carlos de Borbón foi escolhido e educado pelo ditador Francisco Franco. Que matou o irmão Alfonso quando veio de férias ao Estoril, onde vivia a família (num “acidente” com uma arma de fogo segundo a polícia salazarista). Que prestou juramento ao Movimiento franquista ditatorial e fascizante. Que não foi por acaso que os seus pais e irmãs não assistiram à sua entronização. E que The New York Times avaliou a sua fortuna a nada menos de 1 800 milhões de euros, quando não tinha “praticamente nada” por alturas do falecimento de Franco !
Convém talvez recordar também todos os reis e demais famílias reais que colaboraram com o nazismo (na Itália ou na Bélgica) ou em golpes de Estado fascizantes (como na Grécia). Ou que, embora sejam “grandes trabalhadores dedicados” (como afirmam as propagandas oficiais), se descobre regularmente que andam em caçadas por África (caso de Juan Carlos de Borbón) ou de férias no sul de Espanha (caso de Baudouin de Saxe-Cobourg), no sul de França ou de Itália (no caso de Albert de Saxe-Cobourg, seu irmão e sucessor) : estes dois últimos, quase nunca se encontravam em Bruxelas quando se desencadeavam crises governamentais e tinham que apressadamente regressar à capital em avião expressamente enviado para o efeito !
Mas, para além de tudo o mais, os monárquicos portugueses dar-se-ão conta do ridículo de reis, grão-duques e príncipes vestidos como árvores de Natal, carregados de medalhas e de demais faixas, brincando aos oficiais militares das diferentes armas (segundo os dias, mesmo quando já não se aguentam nas pernas !) ? Do ridículo de ver crianças e adolescentes providos dos mais diversos títulos (infante, príncipe, duque,…) quando ainda nada fizeram e, muitas vezes, nada farão ? Do ridículo e escandaloso que é ver homens e mulheres acederem ao lugar de chefes de Estado só porque são o filho ou a filha primogénito do anterior monarca, seja qual for o seu grau de inteligência, cultura, competência ou apetência ?
Sejamos sérios : ser chefe de Estado pela simples razão que se é filho ou filho do chefe de Estado precedente é um anacronismo perfeitamente antidemocrático. E só quando os cidadãos de um país escolhem livremente quem deverá presidir aos destinos da nação se pode realmente falar de democracia…
Há algo de tremendamente chocante em ver aquele que foi designado arbitrariamente por um ditador sanguinário, que impôs uma guerra civil atroz e derrubou uma República democraticamente eleita, decidir agora que o seu filho será chefe de Estado. Um pouco de lucidez e de dignidade não fariam nada mal aos monárquicos portugueses, praticantes da cegueira, da má-fé e do absurdo…