domingo, 20 de julho de 2014

Um potencial a explorar


J.-M. Nobre-Correia
África : Apesar da revolução das telecomunicações e das novas configurações acionísticas das empresas, os média continuam a ignorar cegamente os países lusófonos…

Tem-se falado muito nas últimas semanas do português como ”terceira língua europeia no mundo”. E até como primeira “no hemisfério sul”. Mas de pouco ou nada tem servido este estatuto nas estratégias editorial e comercial dos média portugueses. Não se aproveitaram os formidáveis desenvolvimentos das telecomunicações para procurar implantar a imprensa nos países que têm o português como língua oficial. As iniciativas em rádio e em televisão são modestas. E a internet tem pura e simplesmente sido descurada.

Quando se pensa em implantação dos média portugueses no mundo lusófono, é aliás no Brasil que antes do mais se pensa. Só que, no Brasil, os médias tradicionais (imprensa, rádio e televisão) apresentam um nível de desenvolvimento superior aos de Portugal. Pelo que só um investimento muito pesado e uma forte originalidade editorial poderiam levar média portugueses a conseguir conquistar o mercado brasileiro.

Mas, nos países que têm o português como língua oficial, há os africanos, que apresentam um evidente potencial de expansão. Porque as elites e as nascentes classes médias não se satisfazem com os média locais (em termos de informação como de divertimento). E porque estes mesmos meios sentem a necessidade de uma informação vinda da Europa, em termos de conteúdos como de maior independência editorial e liberdade de expressão.

Os franceses compreenderam isto no que diz respeito ao continente africano. Havia já o semanário Jeune Afrique, Radio France Internationale, as televisões TV 5 Monde, France 24 e Africa 24, e os sítios de informação Slate Afrique e Le Point Afrique. Sediada em Lião, Euronews vai lançar Africanews (que emitirá nomeadamente em português), o grupo Lagardère prepara Gulli Africa (para os jovens, também em português) e Canal +  um A + africano (a partir da Costa do Marfim). Le Monde em linha prepara uma secção África para o fim do ano e Le Figaro um sítio específico. Mas, apesar da presença de capital africano, os média portugueses continuam à espera…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 12 de julho de 2014, p. 43.