domingo, 24 de agosto de 2014

A triste realidade...


J.-M. Nobre-Correia
Jornalismo : A atualidade recente provoca muitas críticas à prática da informação, quando a situação global dos média nacionais não permite de facto fazer muito mais…

Uma vez mais as acusações chovem sobre o jornalismo praticado em Portugal. A propósito sobretudo da atualidade referente ao BES. E também, mas muito menos, sobre o desfecho judicial dos acontecimentos ligados às mortes em dezembro na praia do Meco. Pelo que conviria salientar certas evidências que, aparentemente, não o são suficientemente.
A primeira destas evidências é a que leva a constatar que o “grande jornalismo” de investigação como de análise se pratica antes do mais nos grandes países. Isto é : nos países cuja demografia propõe uma audiência suficientemente larga aos média. Porque, ressalvadas algumas particularidades (nomeadamente em termos de informação regional), a estrutura de custos da produção editorial de um jornal é relativamente idêntica. Quando o potencial de rentabilização desta produção (em vendas, assinaturas e publicidade) é totalmente diferente : as receitas nos países grandes são maiores, por vezes mesmo muito maiores.
Se as receitas são maiores, a capacidade de investimento dos média no conteúdo editorial é evidentemente maior. Com mais meios humanos e financeiros : equipas de redação maiores, mais jornalistas no terreno, mais tempo a consagrar à recolha de elementos de informação como à perspetivação e à análise destes elementos. Ao contrário, quando o potencial de audiência é pequeno, os jornais (impressos, áudio, vídeo ou digitais) são levados a recorrer à “papinha feita”, pré-preparada. Isto é : aos comunicados de uns, às conferências de imprensa de outros, às declarações bombásticas de uns e outros, e às instrumentalizações de muitos…
Com audiências limitadas (e no caso da imprensa : miseravelmente limitadas), as redações “bordam” antes do mais em torno dos despachos da omnipresente Lusa. Acrescentando uns “bordados” mais, fruto da imaginação dos chefes ou da criatividade de um ou outro talentoso “jornaleiro”. Investigação, verificação, perspetivação, análise ? Diligências demasiado custosas para redações globalmente desprovidas de meios…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 16 de agosto de 2014, p. 43.