domingo, 31 de agosto de 2014

O horizonte proposto


J.-M. Nobre-Correia
Televisão : As caraterísticas que dominam os programas dos operadores de telecomunicações são a mediocridade e a omnipresença da produção estado-unidense…

Os portugueses admitem tudo. Suportam tudo. Habituam-se a tudo. Nomeadamente no que diz respeito aos operadores de telecomunicações. Operadores que praticam preços exageradamente elevados em comparação com os praticados em países europeus com poder de compra bastante mais elevado. Mas operadores que, em matéria de média tradicionais, propõem programas de televisão de uma inacreditável mediocridade.
Evidentemente, não se trata aqui de evocar a mediocridade congenital das televisões portuguesas. Mediocridade de que os operadores de telecomunicações não são responsáveis. Mas sim da mediocridade global dos programas de origem estrangeira que são propostos aos assinantes. Com numerosas televisões que emitem em línguas que só meia dúzia de funcionários de embaixadas estrangeiras compreenderão. E umas tantas televisões brasileiras cujo nível entra em concorrência direta com o das portuguesas…
O mais intolerável é o número de televisões de origem estado-unidense dos mais diversos géneros. Quando as televisões espanholas, francesas, italianas, britânicas, alemãs e até belgas, neerlandesas ou suíças são raras ou inexistentes. Embora Portugal faça parte da mesma área cultural. Para não falar de outros países de uma União Europeia de que Portugal até é membro. O que põe em evidência o facto da União Europeia ser antes do mais um mercado comum e não uma comunidade que partilha um projeto cultural, social e político.
Esta ausência do projeto comunitário é particularmente posta em evidência pela programação proposta em matéria de filmes. A predominância estado-unidense é aterradora. Como se o cinema europeu não existisse ! Um cinema todavia mais próximo das próprias realidades portuguesas. E um cinema que, como dizia Ingrid Bergman numa entrevista ao jornal Le Monde, tem sempre um pano de fundo social. Contrariamente ao cinema estado-unidense que é globalmente divertimento, distração, “entertainment”. O que convém perfeitamente aos paladinos da corrente ideológica que domina o país…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 23 de agosto de 2014, p. 43.