domingo, 21 de setembro de 2014

O reflexo de uma personalidade


J.-M. Nobre-Correia
Formas de tratamento : No relacionamento com os entrevistados, a degradação da linguagem utilizada pelos jornalistas traduz a lenta agonia das identidades editoriais…

O fenómeno é chocante na imprensa. Mas é-o ainda mais em rádio e em televisão. Até porque o olho tem uma capacidade de “desnatagem” do discurso que o ouvido não tem. Mas também porque o fenómeno tomou claramente uma dimensão maior na oralidade do que no escrito. Dimensão que se acentuou nestes últimos decénios. A ponto de, num mesmo média, a situação ter passado a ser totalmente incoerente e até mesmo caótica.
É de caos que de facto se trata quando se observa a maneira como os jornalistas contactam com as pessoas, se dirigem a elas ou as entrevistam. Quando se ouvem no mesmo canal de rádio ou de televisão, numa emissão após outra, ou até mesmo numa sequência após outra da mesma emissão, serem adotadas formas de tratamento diferentes. Há o que têm direito apenas ao nome próprio. Ou ao nome próprio dotado de um prévio Senhor ou Dona. Ou ainda do nome próprio e do apelido, com ou sem títulos de civilidade. Ou mesmo providos de títulos académicos ou profissionais.
Assim numa instituição da imprensa portuguesa, o Expresso, entrevista-se um antigo presidente da República ou o atual presidente de um banco tratando-os por “você”, ou um cineasta tratando-o por “tu”. Ou na mesma “matinal” da Antena 1, passa-se de um “Cristina, você” a um “professor” tal, ou a um respeitoso “Senhora Dona” tal. Ou num telejornal da RTP 1 utiliza-se um o “João”, outro o “Senhor João”, um o “você” e outro até mesmo o “tu”. Quando o entrevistado por vezes tinha idade para ser pai ou avô do desenvolto jornalista…
Dir-se-á que tal situação é consequência da evolução da língua falada. Trata-se porém, antes do mais, da degradação da chamada “boa educação” no relacionamento social. E, no caso concreto do jornalismo, do abandono do que constitui o tom, o estilo próprio de um média. Isto, claro está, quando os média são dirigidos por gente que sabe o que quer dizer um projeto editorial. O que quer dizer um conceito jornalístico coerente, com uma personalidade forte, claramente distinta da dos concorrentes…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 13 de setembro de 2014, p. 42.