terça-feira, 25 de novembro de 2014

Os parâmetros da nova equação


J.-M. Nobre-Correia
Média : O papel foi durante cinco séculos e meio o seu suporte tradicional. Pelo que a imprensa escrita aceitou mal a mutação para o digital. Sobretudo a local e regional cujas potencialidades são no entanto reais…

A imprensa escrita encontra-se num momento crucial da sua história. Há até quem se interrogue sobre a sua eventual sobrevivência. E sobretudo se, numa era de mundialização, a imprensa local e regional terá ainda futuro.
Mas, que mudou afinal nestes últimos dois decénios ? O papel deixou de ser o suporte único da imprensa escrita. Graças à internet e à digitalização, os jornais puderam deixar de ser impressos e de recorrer a complexas estruturas de distribuição. Paralelamente, ao texto e às imagens estáticas, passaram a poder propor sons e imagens animadas. E outra mutação fundamental : deixaram de ser “fechados” em dia fixo, a hora(s) fixa(s), para poderem realizar-se em tempo real, acompanhando os desenvolvimentos da atualidade.
Do papel para a internet
Num primeiro tempo, os jornais em papel procuraram ignorar a internet. Depois, passaram a pôr lá os mesmos textos ou apenas alguns deles, sem mais. Cometendo um erro estratégico com repercussões duradoiras e trágicas : o acesso aos conteúdos era gratuito. Queriam assim aumentar a audiência, de modo a aliciar publicitários e anunciantes. Mas fizeram perder valor ao conteúdo editorial…
A esta crise das receitas das vendas e das assinaturas, veio juntar-se a da publicidade. Porque muitos investimentos publicitários (e muito particularmente os “classificados”) foram transferidos para a internet. E, mais recentemente, assistiu-se a uma queda global destes investimentos como consequência da crise dos “subprimes”.
Evolução tecnológica e queda das receitas provocaram uma profunda crise da imprensa escrita, com o desaparecimento de muitos jornais em papel, por vezes prestigiosos e centenários. Crise também presente nos sectores da rádio e da televisão, mas particularmente notória na imprensa escrita.
A informação em tempo real não constituía uma novidade para a rádio e a televisão, capazes de praticá-la há largos anos. Mas constituía uma novidade absoluta para a imprensa, habituada às demoras da composição, da maquetagem, da impressão e da distribuição.
Graças à internet e ao digital, as fronteiras tradicionais entre média desapareceram, todos eles tendo agora a possibilidade de produzir textos, sons e imagens animadas. Mas também de propor aos internautas ligações para complementos de informação e de documentação. Ou de acompanhar a atualidade, as fronteiras da periodicidade de origem tendo igualmente desaparecido.
Todo e qualquer média deixou também de estar confrontado aos limites técnicos da difusão geográfica e passou a dispor teoricamente de leitores, ouvintes ou espectadores em todas as partes do mundo. As fronteiras geográficas desapareceram e, para além da barreira das línguas, qualquer internauta pode acompanhar a atualidade num país estrangeiro ao mesmo tempo que um cidadão deste mesmo país.
Na nova “aldeia planetária”
O mundo é agora uma “aldeia planetária”. Mas, paralelamente, os cidadãos sentem uma necessidade mais forte de ancoragem no seu meio imediato, no seu próprio “quintalzinho”. Pelo que os média locais e regionais têm resistido melhor do que os “nacionais” à mundialização da informação.
Porém, estes mesmos média locais e regionais compreenderam mais tarde do que os nacionais a urgência em lançar edições digitais. Até porque dispõem geralmente de menos meios financeiros para proceder a uma mutação que supõe equipas com competências diversificadas e, no caso da imprensa escrita, uma adequação a conteúdos áudio e vídeo.
Mas, com a expansão da internet, numerosas instituições e empresas passaram a utilizá-la para difundir os seus comunicados. E o leitor tomou consciência que muitas vezes os média locais ou regionais pouco mais propunham do que “comunicação”, sem tratamento jornalístico nem valor acrescentado.
Ora, os leitores só estão dispostos a pagar por jornais (em papel ou em digital) que lhes proponham conteúdos largamente inéditos, em termos de factualidade, perspetivação e análise. Com o devido rigor dos factos e a desejável estética da escrita e da ilustração. E assumindo a indispensável função democrática de contrapoder…


Texto publicado no semanário Fórum Covilhã, Covilhã, 25 de novembro de 2014, p. 7.