sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Prólogo de uma crise anunciada


J.-M. Nobre-Correia
Política : Dia após dia, o Partido Socialista afunda-se na ausência de uma liderança credível e de reais projetos alternativos. Enquanto que a esquerda radical vai continuando a viver por procuração as mutações políticas na Grécia e em Espanha…

Num país onde o futebol é tema largamente privilegiado por média e conversas “de café”, é natural que a “cultura” futebolística impregne a vida social. E é também o caso da política : as lutas partidárias são vistas e comentadas em termos de eterna rivalidade benfica-sporting, desprovidos de racionalidade e obedecendo a sentimentos de pura emoção.
Foi de certo modo isto que aconteceu quando António Costa desafiou António José Seguro, querendo substituí-lo na secretaria geral do Partido Socialista. Costa via que a opinião pública estava cada vez mais dececionada com o governo de direita, que as sondagens começavam a ser favoráveis ao PS e que uma crise governamental não parecia de todo impossível. Pelo que via já despontar no horizonte um sedutor lugar de primeiro ministro…
Uma oposição inconsistente
Na altura, poucos foram os que se interrogaram sobre as divergências políticas de fundo que poderiam opor os dois rivais. Pelo que a oposição foi antes do mais interpretada em termos de benfica-sporting. Havia os adeptos de um e os adeptos do outro, com maior ou menor convicção. E os que não estavam satisfeitos com um ou com o outro, ou que a rivalidade os deixava indiferentes, resolveram apesar de tudo votar por Costa, esperando que algo mudasse enfim no PS. Que fosse dada uma nova dinâmica social ao partido e que o PS elaborasse um verdadeiro programa alternativo de governo capaz de propor novas perspetivas à vida política e económica do país.
Meses depois, a verdade é que nada mudou no PS. Que sondagens sucessivas mostram claramente que o esperado sobressalto da opinião pública não teve lugar. E que, na devida altura, lá para setembro-outubro, o PS corre seriamente o risco de não ficar parlamentarmente em condições de constituir governo [1]. Perspetiva que parece tornar-se cada dia mais provável.
Mais provável até porque, ao adotarem uma atitude totalmente diferente para com José Sócrates e para com os casos PT e BES (para evocar apenas dois casos de atualidade) [2], e ao prolongarem a detenção preventiva do ex-primeiro ministro, o procurador Rosário Teixeira e o juiz Carlos Alexandre jogam indubitavelmente contra o PS. Enquanto que a inércia e as “gafes” de Costa tudo fazem para que o PS não ganhe credibilidade como partido reformador e social de esquerda.
No rol das “gafes” mais recentes de Costa há a proposta de isentar o Benfica de uma dívida de 1,8 milhão de euros à Câmara de Lisboa e legalizar sete edifícios construídos ilegalmente pelo mesmo clube. Proposta que não mereceu a sã rejeição desejável por parte de uma opinião pública anestesiada nesta matéria, que não ousa sequer discutir a decisão parlamentar de transladar os restos de um falecido jogador de futebol para o Panteão Nacional.
Mas a “gafe” politicamente mais significativa é a do discurso pronunciado perante a comunidade chinesa em Portugal, por altura do novo ano chinês. Costa afirmou então que Portugal está “hoje numa situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos”. Subentendido : melhor do que quando o PS assumia o governo ! O que, em si, não é propriamente escandaloso : o que é lamentável é que, como um pouco por toda a parte no resto da Europa, os líderes de oposição não sejam capazes de reconhecer eventuais virtudes à ação dos partidos no poder.
O que há de facto escandaloso é que, sobre a situação económica do país, Costa diga uma coisa para consumo interno dos portugueses e diga exatamente o contrário a um público estrangeiro, nesta caso chinês, em nome de um pretenso “patriotismo”. Mas mais escandaloso ainda é que Costa preste homenagem aos “investidores chineses [que] disseram presente”, investindo em Portugal. Quando esses “investidores chineses” mais não são do que representantes de uma ditadura capitalista ultra-selvagem que, sob a carapaça de comunismo, pratica um esclavagismo social intolerável.
Os outros como modelo
Dias muito sombrios poderão pois anunciar-se para o PS. E a demissão de Alfredo Barroso, um dos fundadores do partido, poderá dar o sinal de retirada para outras personalidades mais. Mas os dias do PS poderão ser tanto mais sombrios que as possibilidades muito teóricas de encontrar aliados à sua esquerda parecem cada vez menos prováveis. Porque parece por demais evidente que o PCP e o BE não sairão da tradicional posição de partidos de contestação, puramente tribunícios, recusando toda e qualquer aliança com o PS. Enquanto que o novo Livre-Tempo de Avançar não parece dar sinais tangíveis de implantação social e, por conseguinte, de futura forte repercussão eleitoral.
A esquerda radical situada entre o PS e o PCP não só se encontra seriamente fragmentada como desprovida de projetos de governação audíveis fora dos cenáculos intelectuais da orla litoral norte. Preferindo, ilusória e irresponsavelmente, dar a prioridade a manifestações de solidariedade com o Syriza grego e o Podemos espanhol. Quando a coerência e a operacionalidade do governo do Syriza ainda estão por demonstrar (o que não deve, é claro, pôr em questão a solidariedade com o povo grego). E quando daqui até às eleições legislativas de novembro-janeiro (pois ainda não foram fixadas), o Podemos ver-se-á confrontado com uma série de eleições autonómicas e municipais que poderão esvaziar seriamente os resultados de sondagens que o colocam atualmente como o partido com mais intenções de votos.
A inércia e a ausência de projeto governamental alternativo por parte do PS, assim como a fragmentação da esquerda radical e a inexistência de projetos políticos suscetíveis de serem plebiscitados pelos cidadãos eleitores, abrem as portas à permanência da direita no governo. Uma direita cada vez mais conservadora e vindicativa que procura afincadamente reconstruir uma certa velha ordem social e económica…
Só a formação de uma larga federação das organizações de esquerda radical, capaz de negociar em pé de igualdade com o PS (e por que não com o PCP ?…), seria de natureza a impedir que tal aconteça e a abrir perspetivas realmente novas. Deixarão porém as rivalidades no seio desta esquerda radical dar lugar a este indispensável realismo ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, “O deslize das placas tectónicas”, in Notas de Circunstância 2, 6 de fevereiro de 2015.
[2] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Duas legítimas interrogações », in Notas de Circunstância 2, 24 de fevereiro de 2015.