quinta-feira, 26 de março de 2015

A esquerda mais inapta…


J.-M. Nobre-Correia
Política : A desunião em França favorece grandemente a direita. A fragmentação em curso em Portugal tem grandes probabilidades de provocar o mesmo efeito. Num contexto socioeconómico e político bem mais inquietante…

Secretário geral da SFIO [1] de 1946 a 1969 e presidente do conselho em 1956-57, Guy Mollet declarou um dia : “a direita francesa é a mais estúpida do mundo” [2]. Só que, como o fazia notar recentemente o politólogo Alain Duhamel, tal sentença pode, sem hesitação, ser agora aplicada à esquerda francesa. Basta ver como a “direita republicana” (UMP-UDI) se apresentou unida nas eleições departamentais de domingo passado. E como a “esquerda republicana” foi incapaz de união frente a uma UMP de Nicolas Sarkozy cada vez mais neoconservadora e a uma Frente Nacional cujo substrato fascizante é inegável.
A fragmentação da esquerda fez assim que o Partido Socialista (e os seus aliados) tenha obtido 21 % dos votos, o Front de Gauche (Frente de Esquerda que inclui o Partido Comunista) apenas 6,1 % e a EELV (Europe Écologie Les Verts) uns modestíssimos 2 %. Dada a natureza do escrutínio, isto significa que o FG e a EELV se autoeliminaram da segunda volta, retirando porém um volume de votos importante à coligação PS-PRG (Parti Radical de Gauche) atualmente no poder. Situação que deixa de certo modo antever o que acontecerá também nas próximas eleições legislativas em Portugal.
Só que, aqui, a fragmentação do eleitorado de esquerda será ainda maior do que em França. Porque, para além da habitual disputa entre Partido Socialista e Partido Comunista (PCP), os eleitores serão confrontados a uma miríade de formações : PDR, PTP-Agir, Livre-Tempo de Avançar, Juntos Podemos-MAS, Bloco de Esquerda, mais os eternos PSR, MRPP e sabe-se lá mais quem ! Porque esta esquerda está minada por rivalidades e egocentrismos de vedetas cuja primeira preocupação é não sair de debaixo das luzes da ribalta mediática.
Ora, a situação portuguesa é incomparavelmente mais grave do que a francesa. Com uma direita neoconservadora cuja preocupação obsessional, omnipresente, é reconstituir as estruturas socioeconómicas “do antigamente”, do antigo regime. Pelo que não é com uma esquerda fragmentada para além do mais elementar bom senso que se poderá antever um novo curso da vida política portuguesa para depois das próximas eleições legislativas.
Enquanto na Grécia e em Espanha surgiram formações que conseguiram reagrupar boa parte da chamada esquerda radical [3], em Portugal a fragmentação avança e torna-se cada dia mais notória. É certo que a esquerda portuguesa tem uma história diferente da grega (marcada pela resistência à ocupação nazi e a guerra civil de 1946-49) e da espanhola (marcada pela guerra civil de 1936-39). Enquanto que é a história do 25 de abril de 1974 ao 25 de novembro de 1975 que marcará por algum tempo ainda o contencioso entre o PS e o PCP. Deixando dificilmente imaginar um entendimento governamental entre estas duas principais formações da esquerda.
Deverá concluir-se, à maneira de Guy Mollet, que Portugal tem a esquerda mais estúpida do mundo ? É verdade que ela desenvolve um prodigioso ativismo e uma impressionante irresponsabilidade para provocar a sua própria perda. Digamos em todo o caso que Portugal tem uma esquerda particularmente inapta para assumir as responsabilidades sociais e políticas que a situação atual exige e a que os cidadãos têm direito. Comprazendo-se num umbigo-centrismo de microcosmos intelectuais assaz distantes das realidades comezinhas das gentes deste país…
Federar a esquerda para além do PS e do PCP é porém de uma absoluta urgência [4]. Porque só a união faz a força. Para contrapor à aliança bicéfala permanente da direita. E para permitir coligar-se com quem (PS ou PCP) queira imprimir um novo curso à vida política e constituir uma autêntica alternativa reformadora e progressista marcada por uma preocupação absoluta : a justiça social num Estado de direito…



[1] A SFIO (Section Française de l’Internationale ouvrière) foi a formação política que, de 1905 a 1969, precedeu o Partido Socialista criado precisamente em 1969.
[2] Em francês : « La droite française est la plus bête du monde ». Podendo a palavra « bête » ser traduzida por estúpida como por burra…
[3] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « O deslize das placas tectónicas », in Notas de Circunstância 2, 6 de fevereiro de 2015.
[4] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Prólogo de uma crise anunciada », in Notas de Circunstância 2, 27 de fevereiro de 2015.