quarta-feira, 3 de junho de 2015

Da teoria à prática da independência


J.-M. Nobre-Correia
Média : Num texto de opinião publicado no Público, Mário Crespo faz acusações graves globalmente inverificáveis. Só que, é uma evidência, a situação que evoca tomará cada vez mais extensão…

Não é muito habitual. Mas, ontem, o Público anunciava na primeira página um texto de opinião : “Angola / Mário Crespo revela ataque a Rafael Marques em Lisboa e critica silêncio português”. A direção havia de ter as suas razões para que o jornal fizesse tal anúncio…
No dito texto, Mário Crespo diz que “o suplício jurídico a que [Rafael Marques] está a ser sujeito em Angola […] está a ter grande destaque na imprensa internacional”. Mas que, “infelizmente em Portugal, com a excepção [do Público] e dos corajosos despachos que a Agência Lusa tem mantido sobre a tragédia de Rafael Marques, os relatos noticiosos, quando existem, têm sido extremamente cautelosos, numa estratégia óbvia para não melindrar o capital angolano que hoje controla a quase totalidade da imprensa diária em Portugal e tem influência determinante na radiodifusão privada, incluindo televisões”.
Mas Crespo vai mais longe evocando a sua experiência de antigo apresentador do “Jornal das 9 da SIC Notícias” : “No decurso da minha actividade jornalística, fui admoestado dos melindres que causavam as declarações que Rafael Marques fazia nos noticiários da minha responsabilidade. Numa das comunicações que recebi por escrito na sequência de um trabalho sobre os Diamantes de Sangue chegaram a tentar exigir um exame prévio dos meus entrevistados. Noutro episódio em que Rafael Marques denunciou no Jornal das 9 o conúbio entre o regime do MPLA e a revista Rumo, que a Impresa de Pinto Balsemão editava em Luanda, fui advertido dos problemas causados a ‘colegas’ que estavam a trabalhar em Angola. Foi neste ambiente que a SIC, por razões que a razão há-de sempre desconhecer, aceitou exibir em prime time, no seu canal principal, a extraordinária ‘entrevista’ de Henrique Cymerman a José Eduardo dos Santos”.
É claro que as afirmações de Crespo, com exceção daquela(s) que recebeu “por escrito”, não são facilmente verificáveis. Até porque qualquer tentativa de verificação redundaria muito provavelmente na palavra dele contra a palavra de outros. E até porque se imagina mal que atores ou testemunhas das “admoestações” evocadas tenham a coragem de pôr em questão os seus postos de trabalho ou, mais simplesmente, de afirmar publicamente que eles próprios não exercem com independência a profissão de jornalista.
Porém, seja qual for a verdade dos factos evocados por Crespo, convém não esquecer que ele foi alvo de um “cancelamento do [seu] contrato de trabalho” na SIC, o que o terá deixado amargo em relação ao grupo Impresa e ao seu agora presidente-não-executivo, Francisco Pinto Balsemão. Amargura tanto maior quanto é certo que, uma dúzia de anos antes da sua contratação pela SIC, Pinto Balsemão convidara Crespo para dirigir o diário A Capital de que o seu grupo acabara de tomar o controle, convite que traduzia certamente a estima que o editor tinha então pelo jornalista…
Mas convém também não esquecer que, digam lá o que disserem uns e outros, toda e qualquer prática jornalística se traduz sempre num certo dever de reserva em relação aos acionistas do média em que exerce um jornalista. Um dever de reserva imposto pela direção ou interiorizado pelo próprio jornalista  : a liberdade de informação em relação à atualidade que diz respeito aos acionistas é sempre escamoteada nos seus aspetos negativos ou inchada nos aspetos positivos.
Que a sucessão de movimentos na propriedade dos média a que se assistiu nestes últimos anos em Portugal tenha aspetos inquietantes, é uma evidência. Que o governo, a Assembleia da República e as diversas “autoridades” competentes não se preocuparam seriamente com isso, é também evidentíssimo. E as consequências disso serão cada vez mais palpáveis no tratamento da informação pelos média…