segunda-feira, 6 de julho de 2015

Se houvesse de facto democracia…


J.-M. Nobre-Correia
Política : O estrondoso resultado do referendo na Grécia abre uma semana crucial nos destinos da União Europeia. Resultado de que há que tirar todas as consequências em termos de funcionamento interno…

Suponhamos que a União Europeia era uma verdadeira construção democrática. E não uma democracia de fachada, puramente formal. Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu, deveria ter tido a decência de anunciar a sua demissão, uma vez conhecido o resultado estrondoso do referendo grego. E, não tendo esta decência, os parlamentares europeus unânimes, ou pelo menos na sua grande maioria, deveriam exigir tal demissão. Pela boa e simples razão que Schulz fez nestes últimos dias, e ainda no próprio dia do referendo na Grécia, declarações inadmissíveis, de um antiparlamentarismo primário.
E mais : os mesmos parlamentares europeus deveriam pedir a Jean-Claude Juncker e a Pierre Moscovici que se demitissem. Ou que, em caso de recusa, viessem, no mínimo, explicar aos eleitos do povo as razões que os levaram a repetidas atitudes de arrogância com os representantes de um governo grego democraticamente eleito. Devendo um voto dos parlamentares europeus sancionar comportamentos autoritários inadmissíveis com os representantes de um país soberano.
Mas, desenganemo-nos ! : a grande maioria dos profissionais da política consideram a política como o meio mais fácil para ganhar bem a vida e usufruir de vantagens a que o comum dos cidadãos não tem acesso. E para conservarem tais regalias estão prontos a tudo, a todas as volte-faces, a todas as renegações, se necessário for. Admirem-se depois que as eleições para o Parlamento Europeu atinjam tais baixos níveis de participação. E que, para além dos eurocratas e demais profissionais da política em Bruxelas, Estrasburgo ou Luxemburgo, os cidadãos europeus sejam largamente indiferentes aos destinos da União Europeia !
A derrota esmagadora infligida pelos eleitores gregos às instituições europeias lideradas por apparatchiks cortados das realidades sociais dos cidadãos deveria abrir portas a uma refundação da União Europeia. Uma União Europeia mais preocupada com o bem estar dos cidadãos e a justiça social, e menos servil perante os interesses de grandes grupos económicos e de lóbis dos mais diversos “corporatismos”. Uma União Europeia em que a Alemanha não possa pretender afirmar-se como novo potentado “über alles”, e conseguir pela economia o que não conseguiu com duas guerras, nem a Grécia ser tratada como nação menor de segunda ordem, fatalmente ocupada. De modo a que a dita União Europeia não venha a soçobrar num desmembramento acelerado do que constitui nos anos 1950 um grande e ambicioso projeto de paz e de progresso para os cidadãos europeus…