sábado, 1 de agosto de 2015

Para além da censura


J.-M. Nobre-Correia
Média : Em matéria de liberdade de informar, há toda uma série de entraves que agem em permanência no seio das nossas sociedades de democracia parlamentar e que convém absolutamente não esquecer…

É evidente que há pontos de vista totalmente diferentes. Mas, por uma questão de rigor, convém não abusar de termos como fascismo, ditadura, inquisição ou censura, por exemplo. De outro modo gera-se uma enorme amálgama na cabeça dos cidadãos menos prevenidos, que passam a confundir as noções mais elementares. E a não serem capazes de fazer as distinções mais rudimentares entre conceitos que têm aspetos próximos, é certo, mas que são apesar de tudo bastante distintos.
Vem isto a propósito de algumas reações (amáveis) ao texto intitulado “Uma indesejável confusão” [1] que tratava da utilização abusiva da noção de censura. Texto que não tinha, de modo algum, a pretensão de constituir uma abordagem enciclopédica daquilo que se poderão chamar “os entraves à liberdade de informar”.
No capítulo da minha Théorie de l’Information journalistique consagrado a estes “entraves à liberdade de informar” [2] são assim evocados : 1. As agências de informação, 2. As direções de comunicação, 3. A acreditação, 4. Os excluídos de gravação [“off the record”], 5. A conivência, 6. Os embargos, 7. As entrevistas escritas, 8. Os fornecedores de conteúdos, 9. Os anunciantes, 10. Os grupos proprietários dos média, 11. Os pilares e as redes [“corporações, partidos, sindicatos, associações, fraternidades e outras comunidades institucionalizadas”], 12. Os abusos do segredo administrativo e 13. A linha editorial.
Treze subcapítulos (num total de 26 páginas de texto bastante cerrado) que dariam cada um deles matéria suficiente para uma exposição pormenorizada. Que mais não fosse para que os cidadãos pudessem tomar consciência da realidade do funcionamento dos média e do jornalismo, para além mesmo da censura propriamente dita. Mas talvez a minha Théorie de l’Information journalistique venha um dia a ter uma edição em língua portuguesa…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, "A indesejável confusão", in Notas de Circunstância 2, 30 de julho de 2015. Texto que começou por intitular-se « Uma lamentável confusão ». Mas uma das vantagens do mundo digital é a de permitir introduzir modificações já depois de um texto ter sido publicado. No origem, o título esteve aliás para ser « Uma indesejável confusão » e, pensando bem, convém melhor este « indesejável » do que o « lamentável ». Até mesmo para abrir portas ao texto de hoje…
[2] Título do terceiro capítulo do livro que serviu de “sebenta” a uma das cadeiras de que fui professor titular durante exatamente 30 anos na Université Libre de Bruxelles : J.-M. Nobre-Correia, Théorie de l’Information journalistique, 21a edição, 2 volumes, Bruxelas, PUB, 2010, 397 p.