sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Em nome da História


J.-M. Nobre-Correia
Política : Portugal tem sido ao longo dos séculos um país de emigrantes. E foi demasiadas vezes um país que obrigava muitos dos seus a procurar refúgio em terras mais tolerantes. É agora tempo de pagar o seu tributo…

A atualidade recente em matéria de migrantes e refugiados suscita reações marcadas mais pela emoção do que pela razão. Não que a emoção não seja legítima e estimável, que o é. Mas, nesta como noutras matérias, pelo menos num segundo tempo, convém procurar reagir com a razão. Até porque esta atualidade recente tem já longos meses de vida. Sem que as autoridades políticas da União Europeia, e mais especificamente de Portugal, tenham procurado seriamente soluções realistas, concretizáveis. E sem que os cidadãos, os simples cidadãos, se tenham mostrado suficientemente interessados em suscitar estas ou outras soluções e em participar na sua concretização.
É possível que, como disse em tempos Michel Rocard (então primeiro ministro socialista francês), a Europa não possa “acolher toda a miséria do mundo” [1]. Mas há deveres morais a que a Europa não pode eximir-se. Até porque, em grande parte, os homens, mulheres e crianças que procuram nestes últimos tempos instalar-se na Europa foram vítimas de guerras que europeus (com ou sem aliados estado-unidenses e a maior parte das vezes por instigação destes) desencadearam irresponsavelmente em países do Próximo Oriente e do Médio Oriente, assim como no Norte de África e na África Subsaariana, sem esquecer os Balcãs e até as intervenções agora na Ucrânia.
Economia e cultura
É certo que a Europa, e mais particularmente a União Europeia, debate-se com sérios problemas de desemprego e de coabitação cultural. Desemprego que atinge nalguns países valores de 10, 20 e mais por cento. E, não sendo boa parte dos candidatos à instalação na Europa gente com uma evidente formação escolar e profissional, isso fará aumentar a concorrência nos postos de trabalho a baixo salário e descer assim ainda mais o nível deste salário. Enquanto que a coabitação entre populações com origens étnico-culturais diferentes bastante marcadas nem sempre tem sido fácil nos países onde são já demograficamente importantes. Com tendência a constituírem-se em “comunidades” fechadas sobre si mesmas e a recusarem os parâmetros culturais e as condutas comportamentais das sociedades de acolhimento.
A Europa tem porém o dever moral de acolher estas populações desvalidas, em procura de paz e de uma vida melhor. Mas tem também o dever de prever um enorme esforço de formação e de verdadeira integração destes homens, mulheres e crianças no seio das sociedades dos seus Estados membros. Com os deveres e os direitos dos outros cidadãos, e sem marginalizações que só poderão trazer futuras dificuldades para as sociedades de acolhimento. De modo a que estes “novos europeus” venham a reforçar o peso demográfico da União Europeia e a relançar uma desejável nova dinâmica social, económica e cultural.
No caso português, este dever moral de acolhimento tem múltiplas razões de ser. Não só porque Portugal também participou, à sua escala, em algumas das intervenções militares já evocadas (e convém recordar aqui a célebre Cimeira das Lajes, nos Açores, em março de 2003, onde foi acertada a intervenção militar contra o Iraque de Saddam Hussein). Mas também porque Portugal colonizou durante seis séculos populações de outros continentes, praticando a partir delas um intenso e abominável tráfico de escravos, e nelas manteve atrozes guerras coloniais durante pelo menos treze anos (para falar apenas nas dos anos 60-70 do século passado). Ou ainda porque tem sido ao longo dos séculos um país de emigrantes levados a procurar uma vida melhor em países estrangeiros. E um país de intelectuais e opositores obrigados a procurar refúgio em paragens mais tolerantes, clementes e generosas.
O tributo devido
País que deu ”novos mundos ao mundo”, Portugal não pode agora ficar fora da História e das vagas humanas que a atravessam. Não só porque, manifestando abertura e generosidade em relação a uma cruel crise humanitária desconhecida há mais de 70 anos, fará frente à desertificação do seu “interior”, à preocupante erosão demográfica e ao inevitável envelhecimento da sua população. Mas também porque tem assim a ocasião de pagar o tributo que deve há muito, há demasiado tempo, à História e a uma Humanidade que tantas vezes soube acolher os portugueses em procura de pão e de liberdade, numa palavra : de felicidade…




[1] Declaração que deu lugar as versões ligeiramente diferentes em 1989 e 1990, e, em seguida, a diversas versões apócrifas…


Texto publicado no semanário Fórum Covilhã, Covilhã, 8 de setembro de 2015, p. 20.