segunda-feira, 4 de julho de 2016

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais frequentados no dia-a-dia, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares assíduos, relacionamento fácil, sociabilidade mais concreta, baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se discorra repetidamente sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva em situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de inverter a acentuada tendência para o despovoamento.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que tudo o que faz largamente falta “no interior” virá necessariamente por acréscimo desse desenvolvimento. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem a situação como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos “do interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos profissionais de saúde a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte, na melhor das hipóteses, de uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa sobretudo em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja possível adquirir publicações que não façam parte do consumo mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora dos propostos como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se no Portugal da tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…

Original do texto publicado no diário Jornal de Notícias, Porto, 4 de julho de 2016, p. 34
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Publica-se em seguida a primeira versão do texto que, por razões editoriais, teve que ser reduzida pelo autor de 4 780 para 4 404 carateres :

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias todas modernaças que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há de facto “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais entre os quais é partilhada a vida diária, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares mais frequentes, relacionamento humano mais fácil, sociabilidade mais concretamente viável, mais baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que, porém, nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se use interminavelmente da palavra sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores quase unânimes que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva numa situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de provocar uma inversão na tendência permanente para o despovoamento desde há largos decénios.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que todo o resto, tudo o que faz largamente falta “no interior”, virá necessariamente por acréscimo desse tal desenvolvimento económico. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que manifestamente pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação possível no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem esta situação pessoal como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos residentes “no interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a normal e indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos escassos profissionais de saúde a serem levados a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte de, na melhor das hipóteses, uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos, verdadeiros “académicos TGV”, residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite todavia ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa largamente em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja realmente possível adquirir livros e publicações que não façam parte do consumo corrente mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora daqueles propostos por vezes como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se neste Portugal a que atribuem essa tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa as instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países europeus : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…