quarta-feira, 21 de setembro de 2016

"Exclusividades" instrumentalizadoras

J.-M. Nobre-Correia
Média : Em média com redações pobres em meios humanos e financeiros, há notícias que aparecem regularmente que mais não são do que fruto de manobras de grupos de interesses ou de ambições puramente pessoais…

De repente, um jornal anuncia a futura nomeação de tal pessoa para tal importante lugar. Geralmente, a “exclusividade” é de um só jornal. Por razões evidentes, tal notícia aparece muito raramente em vários jornais aos mesmo tempo. E, boa parte dos jornalistas, que vivem no interior do mecanismo de “fabricação das notícias”, compreende logo do que se trata. Ou, pelo menos, quais são as hipóteses possíveis por que tal notícia surja assim inesperadamente.
Mas os consumidores de informação, os cidadãos, desconhecem o percurso de tal notícia e como é que foi depois eventualmente repercutida noutros jornais. Até porque estes não querem dar a impressão de estar menos bem informados do que aquele que anunciou a exclusividade. Sobretudo agora que os média funcionam cada vez mais em termos de informação em tempo real.
Ora, o facto é que tal exclusividade é em boa parte dos casos fruto de uma manobra. Suponhamos que se trata de um lugar importante numa instituição pública. O que quer dizer que a nomeação da pessoa anunciada terá por origem o(s) partido(s) da maioria governamental. Ou resulta de acordos constitucionalmente indispensáveis entre partidos capazes de reunir a percentagem de votos prevista pela legislação em vigor na matéria.
Como surgiu então a “exclusividade” ? Primeira hipótese : dirigentes do(s) partido(s) da maioria hesitam, não têm a certeza que a pessoa em questão seja bem aceite nos meios ligados à atividade da instituição de que se fala. Lançam então um “balão de ensaio” que servirá para testar o nome da pessoa e ver que reações provocará. Positivas, e a dita pessoa terá então grandes probabilidades de ser oficialmente proposta. Negativas ou bastante moderadas, e o(s) partido(s) da maioria apressar-se-á(ão) a dizer(em) publicamente que nunca foi questão de tal pessoa !
Segunda hipótese : correm rumores nos corredores do poder a propósito da nomeação possível de tal pessoa. E a(s) oposição(ões) política(s) ou profissional(ais) apressa(m)-se em lançar rapidamente o nome da pessoa para os média, de modo a “queimá-la”, a eliminá-la suficientemente a tempo, mobilizando meios sociopolíticos e jornalísticos. E o(s) partido(s) da maioria não ousarão avançar um nome que tanta hostilidade ou reticência suscita.
Por vezes surge uma terceira hipótese : a fuga da “exclusividade” tem por origem o próprio interessado ou, pequena variante, o círculo de relações mais íntimo do interessado. Vendo este que o seu nome foi esquecido, que não foi sequer evocado pelos seus correligionários, é ele mesmo ou alguém do seu círculo de relações que provoca a “fuga” do nome para um média. De modo a que quem tem o poder de decisão, e não se tinha lembrado do nome, possa encarar tal hipótese de nomeação.
Esta terceira hipótese torna difícil uma “fuga” para diferentes média ao mesmo tempo. O que levaria os responsáveis das redações a perceber mais facilmente que se encontram perante uma instrumentalização bem montada em favor da pessoa em questão. Instrumentalização que se torna tanto mais transparente quando a pessoa é evocada na “peça” do média, fazendo declarações que não sejam as de clara recusa de tal hipótese e de total desinteresse pelo lugar na dita instituição…

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