sábado, 7 de outubro de 2017

Do desdém à breve lisonja

J.-M. Nobre-Correia
Política : Entre duas campanhas eleitorais, o cidadão é cuidadosamente mantido à distância da res publica. Depois, durante breves dias, parece quererem dar-lhe atenção, porque precisam do seu voto…

O mesmo acontece noutros países europeus, diga-se desde já. Mas os políticos não parece darem-se conta do que isso tudo tem de artificial, deixando um rasto de encenação falsa aos olhos dos cidadãos.
Começam por pôr cartazes, mais ou menos gigantescos e um pouco por todo o lado (segundo as posses financeiras dos candidatos), poucas semanas antes das eleições. Cartazes em que a mensagem central é a foto deles próprios, acrescentando uma breve divisa (um slogan) quantas vezes vazia de conteúdo real.
Depois, já em plena campanha eleitoral, põem-se a meter nas caixas do correio uns desdobráveis em que se atribuem amiúde estatutos socioprofissionais espantosos e avançam propostas de ação mirabolantes e até irrealistas. Organizam depois uma reuniõezitas à pressa em que espalham muitos sorrisos e abraços, pronunciam algumas palavras de circunstância e até se põem à escuta das “pertinentes” intervenções dos presentes. E, lá mais para o fim da campanha, começam a percorrer ruas, festas, instituições e cafés, distribuindo a torto e a direito mãozadas e beijinhos mesmo a quem nem sequer conhecem.
E é aqui que está o problema. Entre duas eleições, mandatários políticos, militantes partidários e potenciais candidatos são incapazes de proximidade com os conterrâneos. Incapazes de os cumprimentarem, de conversarem um pouco com eles, de trocarem impressões sobre a vida quotidiana e a gestão pública. Incapazes de organizarem reuniões periódicas para, como mandatários, darem conta da gestão pública e, como militantes ou futuros candidatos, discutirem esta gestão e proporem alternativas devidamente preparadas. Incapazes portanto, uns e outros, de implicarem regularmente os cidadãos na vida da sua terra, da sua região, do seu país.
Países há no entanto, por esse Europa, onde os mandatários políticos asseguram “permanências sociais”, geralmente durante o fim de semana, para poderem estar à escuta dos eleitores e procurarem resolver problemas a que estes estão confrontados. Há quem os critique acusando-os de “clientelismo” e é verdade que isso até acontece. Mas o facto é que tais permanências se traduzem num contacto real entre responsáveis da coisa pública (da res publica) e simples cidadãos periodicamente chamados a serem eleitores.
Daqueles que elegeu, o cidadão espera explicações sobre projetos e decisões. Mas espera também poder ser consultado regularmente, nomeadamente no que diz respeito a iniciativas que delinearão o futuro da sua terra, da sua região e do seu país. E não é ignorando-o entre dois períodos eleitorais que depois o cidadão poderá dar crédito aos que só se lembram em véspera de eleições que afinal o dito cidadão até existe e poderá votar.
É verdade que o que acontece em Portugal acontece também noutros países europeus. Mas não há então que admirar se, cá como lá, há uma taxa de abstenção cada vez maior nas diversas eleições locais, regionais, nacionais ou presidenciais. Ou se as sondagens sobre o mundo da política e dos políticos dão resultados tão desastrosamente negativos. Sinais por demais inquietantes sobre a crise de democracias cada vez mais formais, puramente formais…

Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 7 de outubro de 2017.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

O erro do descendente

J.-M. Nobre-Correia

Política : Felipe Borbón fez ontem um discurso em que provou a sua inaptidão para assumir as funções de chefe de Estado…

Quem viveu toda a vida profissional e quase toda a vida de adulto numa monarquia sabe de maneira muito clara duas coisas. A primeira é que príncipes e principezinhos podem ser mentecaptos, não conseguirem ter sucesso no ensino “normal” (e é uma delícia ouvir falar antigos professores deles !), mas acabarão a maior parte das vezes por obter um “canudo” numa universidade estado-unidense privada qualquer. Como acabarão sempre por ostentar uma série de condecorações em fardas militares (por vezes de mais do que uma “arma”), quando nem sequer fizeram qualquer serviço militar regular. Como acabarão por ter uma “lista civil” que lhe dará um salário mensal de umas boas dezenas de milhares de euros, embora não trabalhem, não façam nada, à parte umas viagens e uma presenças puramente simbólicas em mundanidades oficiais.
Mas, segundo ponto, o cidadão que viveu em monarquia sabe também que príncipes ou reis não podem ter publicamente opinião sobre nada. Que têm que ser unanimistas, inodoros e incolores. E que, na melhor das hipóteses, quando têm mesmo que botar discurso, se limitarão a declarações passe-partout, de que ninguém discordará. Declarações por ocasião da festa nacional, do Natal ou do Ano Novo, de uma ou outra comemoração de data histórica, ou de qualquer grande acontecimento trágico nacional.
Ora, Felipe Borbón fez ontem uma declaração que prova que não percebeu estes princípios essenciais (e é significativo que o maior diário de Bruxelas, Le Soir, tenha escrito hoje que, na Bélgica, Philippe de Saxe Cobourg não poderia fazer o mesmo discurso). Que fazendo as declarações agressivas que fez em relação à Catalunha e aos catalães, mais não fez do que acentuar os sentimentos independentistas e republicanos destes. E não só : gente haverá por toda a Espanha que terá sentido um sério reforçar das suas convicções republicanas.
Ser chefe de Estado única e exclusivamente porque se é descendente de quem foi entronizado por um ditador (e foi-o contra o seu pai e apenas porque era neto da quem era) não prova que se disponha da inteligência, da cultura e da sensibilidade política indispensáveis para assumir a chefia de um Estado complexo que, como escrevia há muitos anos o sociólogo francês Henri Mendras, é o último império existente na Europa. Um império que está a dar sérios sinais de desmembramento…

Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, 4 de outubro de 2017.