domingo, 30 de dezembro de 2018

Do jornalismo bota-fogo

J.-M. Nobre-Correia
Quando os média esquecem que o seu futuro e até a sua sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural…
Historicamente, a função de emoção sempre coexistiu com a de razão. Os “ocasionais” parajornalísticos, aparecidos em finais do século XV por essa Europa fora, relatavam factos de atualidade com incidência na vida dos meios dirigentes. Mas, um pouco mais tarde, os “canards”, para um público mais popular, falavam de sobrenatural, de milagres, de crimes, de catástrofes naturais mais ou menos excitantes.
Com a industrialização da imprensa no século XIX eclodiu também a prática jornalística propriamente dita. E, progressivamente, foram-se decantando dois tipos de imprensa de informação geral. A que dava a prioridade à exposição e interpretação serenas dos factos, a que se dedicará a chamada imprensa de referência. E a que privilegiaria o que era de natureza sensacional, mais preocupada com ingredientes bem condimentados e que se chamará imprensa “popular”. Passando esta a ser dominante em termos de vendas, a partir dos anos 1860.
Esta segunda tendência será reforçada com a chegada da rádio, dos seus “diretos”, dos seus jornais a várias vozes e as suas gravações dos mais diversos sons: gritos, risos, choros. O que acontecerá sobretudo a partir dos anos 1950. Tendência reforçada ainda com a imagem animada e a invasão dos lares europeus pela televisão nos anos 1960-70.
A desmonopolização do sector audiovisual nos anos 1970-80, fruto conjugado de novas tecnologias e de um novo “ar do tempo” cultural e político, desencadeou uma terrível lógica da concorrência. Todas as artimanhas serão doravante usadas para atrair o público, aumentar as audiências e fazer falar das próprias “exclusividades”. Tanto mais que a dita desmonopolização provocou uma incomensurável fragmentação do tecido social e uma cada vez maior incomunicabilidade entre grupos sociais que deixaram de partilhar temáticas de diálogo e até mesmo linguagem. Situação que a internet, a partir da segunda metade dos anos 1900, virá a acentuar de maneira exponencial.
Em fins do século XIX e início do século XX, os média foram um instrumento de integração social e um catalisador do sentimento de cidadania em democracias balbuciantes. E os destinos da imprensa e da informação jornalística estavam então intima e dialeticamente ligados aos da democracia política e do pluralismo sociocultural. Progressivamente, nestes últimos decénios, os média passaram a ser fatores de fragmentação social e de individualização dos comportamentos.
Com a perda de audiência de todos eles (considerados individualmente), resultado de uma infindável proliferação, os média de informação passaram a privilegiar acontecimentos e personagens disruptivos. Acontecimentos embora menores, mas que dão o sentimento de que, decididamente, nada funciona nesta nossa democracia. Personagens líderes ultra-egocêntricos de sindicatos, ordens ou ligas que fazem declarações e propõem ações quantas vezes inaceitáveis e até antidemocráticas.
No seu umbigo-centrismo, estes personagens perceberam bem que a boa estratégia para passarem constantemente nos média, e sobretudo na televisão, é fazerem declarações mais ou menos aterrorizantes : ausência de aulas ou de avaliações  nas escolas, atrasos em atos médico-cirúrgicos decisivos, riscos de incêndios fora de controlo,… E os média, esquecendo-se da responsabilidade social do jornalismo, põem-nos em evidência e até favorecem, reforçam este tipo de atitudes. Agindo de facto como verdadeiros bota-fogos de situações capazes de constituir autênticos atentados à democracia legalmente constituída.
Pensam eles, média e jornalistas, que vão assim conquistar público e alargar as suas audiências. Na realidade, vão apenas cobrir-se de descrédito, levar cada vez mais os cidadãos com um pouco de sentido crítico a afastar-se, a deixar pura e simplesmente de frequentá-los. Sobretudo quando boa parte destes cidadãos tem (erradamente) o sentimento de que poderão encontrar nas chamadas “redes sociais” a informação de que precisam, dispensando assim a produção dos jornalistas.
Os média de informação geral estão assim a cavar a cova em que se hão de enterrar. Esquecendo que o seu próprio futuro, a sua própria sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural. Quando o jornalismo bota-fogo atual consiste inequivocamente num convite irresponsável para uma “democratura” com que os órfãos do salazarismo tanto sonham…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 28 de dezembro de 2018, p. 46.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um “comentador” do antigamente…

J.-M. Nobre-Correia
Público de terça-feira 27 de novembro publicou nada menos de dois « comentários » de Augusto M. Seabra : um sobre um realizador de cinema e outro sobre um cantor de ópera. Confesso nunca tal ter visto num diário de referência europeu, onde os comentários de cinema e de ópera são assumidos por especialistas diferentes e claramente confirmados em cada uma destas áreas culturais.
Ora, o dito Seabra procede no caso do cinema como no caso da ópera com uma incrível ligeireza, inadmissível num diário de referência.
No primeiro texto, Seabra afirma a certa altura, a propósito do filme Antes da Revolução « que Bertolucci fez na sua cidade — também a cidade de Verdi —, Parma ». Ora Verdi nasceu em Roncole (que se chama hoje Roncole Verdi !) na província de Parma, o que não é a mesma coisa que a cidade de Parma.
Por outro lado, Seabra despacha em grande velocidade o filme Novecento de Bernardo Bertolucci : « Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900 ». Sem se dignar explicar por que é « desastrado ou mesmo horrendo », quando é isso que um leitor espera de um crítico de cinema : quais as razões técnicas e estéticas que o levam a fazer tais afirmações a propósito de um filme que muitos consideram no entanto como uma verdadeira obra prima ?
Quanto ao texto sobre o falecimento do cantor Álvaro Malta, o dito Seabra permite-se afirmações tão aproximativas como « E foi aí que, salvo erro em 1971 ». Ora, a obrigação de um especialista é de verificar precisamente os dados que avança antes de escrever sobre qualquer assunto, sobretudo se é considerado e se considera como especialista na matéria.
Seabra faz jornalismo no segundo decénio do século XXI como se fazia ainda nos últimos decénios do século XIX, quando os leitores tinham praticamente acesso apenas ao “seu” jornal. Só que um século e meio passou sem que manifestamente Seabra se tenha dado conta e continue a fazer um jornalismo inaceitável hoje em dia, sobretudo num diário de referência. É que, agora, os cidadãos podem ter acesso a uma multiplicidade de fontes de informação e darem-se assim conta das insuficiências pedantes de certos “comentadores”…

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Estas estranhas anomalias

J.-M. Nobre-Correia
Os média portugueses inventaram o estatuto e até a profissão de “comentador” que bota “opinião” em regime de concessão…
O jornalismo português sofre de enfermidades que o impedem de se situar ao nível do que de melhor se faz no resto da Europa. E uma dessas enfermidades é a que reúne duas estranhas anomalias : a superabundância dos “comentadores” todo-o-terreno em regime de concessão e a entronização de políticos profissionais como “comentadores”.
Os “comentadores” titulares (“residentes” !) dos média portugueses são de facto uma espécie de concessionários de espaço em papel ou em linha, ou de tempo de antena. Espaço com periodicidade e enquadramento preestabelecidos. E até, pasme-se, com variações de “escrita” autorizadas e adornos da intervenção do “comentador” estabelecidos por este…
Nesse espaço concessionado, o “comentador” escreve ou fala sobre o que lhe apetece. Sem sequer se concertar previamente com a redação que o acolhe. Ou então, no audiovisual, é-lhe anunciado o tema da emissão em que vai afrontar outros “comentadores” (quase sempre os mesmos). Uma confrontação numa espécie de pugilato em que procurará ocupar o máximo de tempo e impedir que os adversários falem, cobrindo com as suas intervenções as tomadas de palavra destes…
Mas o que há ainda de mais trágico nesta conceção do “comentário” é que os “residentes” são-no porque se autoproclamam competentes em tudo. E quando abordam temas que o leitor, ouvinte, espetador ou internauta conhece, é manifesto que a ignorância dos ditos “comentadores” é por vezes incomensurável. Só que são “bons clientes”, como se diz nos média francófonos : falam bem e têm garbo, possam embora dizer banalidades para encher o espaço ou o tempo que lhes é concedido…
Como se todas estas insuficiências não bastassem, para terem audiência e suscitaram reações nas edições em linha ou nas chamadas “redes sociais”, os “comentadores” recorrem à agressividade. Atacando rivais de média concorrentes. Atacando outros “comentadores” do média de que são “residentes”. Ou, sublime perfídia, criticando e mesmo chantageando a direção do média que lhes paga como “residentes”. Quando não insultam gratuitamente uns e outros, ou brincam aos irresponsáveis engraçadinhos…
Da “concessão” que lhe foi atribuída, muitos “comentadores” aproveitam para fazer a própria promoção (profissional ou narcísica) ou para ganhar mais ou menos faustosamente a vida. Mais do que isso : a falta de escrúpulos reinando, fazem referência às suas próprias vidas privadas e atividades profissionais ou a funções em que estão implicados. Enquanto vão “comentarizando” em vários média, de modo a ganharem mais notoriedade e dinheiro, provocando uma inacreditável concentração dos “fazedores de opinião”…
Mas o requinte máximo deste “comentarismo” é quando os profissionais da política são entronizados “comentadores”, com rubricas permanentes na imprensa, na rádio, na televisão ou em linha. Como se um profissional da política fosse naturalmente capaz de se alhear dos seus interesses partidários, tomar as devidas distâncias e analisar serenamente a atualidade nacional, internacional ou estrangeira.
A grande confusão nos média portugueses é que tudo é considerado “opinião”. Quando há uma diferença fundamental a fazer entre a “tribuna” de opinião e a “análise” de atualidade. Em princípio, a “tribuna” não tem titulares permanentes. É antes um espaço aberto em que personalidades da vida política, social, económica, cultural,… intervêm quando consideram deverem tomar posição sobre temas de atualidade e explicitar esta posição, propondo a um média uma contribuição puramente pontual.
A “análise” constitui ao contrário uma rubrica regular (e até mesmo diária), que surge em função da atualidade ou de maneira periódica (muitas vezes semanal). Nela, jornalistas seniores do próprio média, incontestáveis especialistas do assunto, ou personalidades exteriores de reconhecida autoridade na matéria, propõem perspetivações de um tema ou situação. Deixando os leitores, ouvintes, espectadores ou internautas tirar as próprias conclusões, reformulando eventualmente as suas próprias opiniões.
O que se faz na grande maioria dos média de informação portugueses pouco ou nada tem a ver com os géneros nobres do jornalismo que são, nomeadamente, a crónica, a análise, a entrevista, o debate. Antes pelo contrário, dizem sobretudo respeito a uma “recreatividade” que em nada contribui para uma informação jornalística de qualidade…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística(Almedina)

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 17 de novembro de 2018, p. 62.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Breves notas de perplexidade…

J.-M. Nobre-Correia
Estas duas últimas semanas foram férteis em acontecimentos inquietantes sobre o nosso Estado de direito e a nossa Democracia …
Os acontecimentos das últimas duas semanas nos meios das Forças Armadas e da Justiça deixam um muito desagradável sentimento de que estas duas instituições vivem verdadeiramente em roda livre. À margem do Estado de direito e da Democracia. Sem se preocuparem muito nem com aquele nem com esta. E sem que os supostos autores dos atentados a um e a outra sejam imediatamente suspensos, postos fora do ativo, enquanto se desenrolam os devidos processos de instrução.
Este sentimento em relação às Forças Armadas e à Justiça é extensivo às chamadas forças da ordem, que são aliás teoricamente um elo de ligação entre aquelas e esta. Mas que se ilustraram estes últimos dias com comportamentos absolutamente inaceitáveis. Quer no que diz respeito à publicação de fotos intoleráveis. Quer no que se refere à recente manifestação em frente da Assembleia da República.
Num país de velha democracia como a Bélgica, por exemplo, toda e qualquer manifestação é pura e simplesmente proibida num perímetro bastante alargado em torno do Câmara dos Representantes e do Senado. Em Portugal, e pela segunda vez, as forças policiais tentaram assaltar a Assembleia da República. Sem que se proceda depois à devida investigação para que os líderes de tal inqualificável iniciativa possam ser judicialmente expulsos da administração pública.
As competências e as companhias
Numa relação indireta com o tema das Forças Armadas, põe-se o caso do ex-ministro da Defesa. E a questão que se põe é a de saber se, de maneira geral, é politicamente são nomear alguém para altas funções, quando essa pessoa manifestamente não dispõe das competências indispensáveis para assumi-las ? Professor de Direito internacional, o ministro demissionário foi estranhamente antes presidente de uma instituição reguladora dos média (a ERC) e mais recentemente ministro da Defesa. E neste último caso, era manifestamente imaginável, concebível, que a engrenagem das Forças Armadas, com os seus ritos singulares, o seu espírito de corpo e até mesmo de casta, o tragaria se necessário fosse na devida altura.
Reparo anexo : não impede que se tenha nomeado há menos de um ano um novo presidente da ERC sem que o novo titular tenha manifestado anteriormente a menor competência em matéria de média, de informação e de programação. Diz mesmo quem sabe que a razão que o levou a assumir tal cargo foi a de prolongar assim a data limite da sua reforma ! E é isto que de certo modo explica a quase inexistência de intervenção da ERC na por vezes calamitosa atualidade dos média em Portugal…
Noutra matéria totalmente diferente, a coordenadora nacional do Bloco de Esquerda, veio no Públicocom um texto assinado por ela e mais três líderes partidários. O ilustre desconhecido de uma De Rød-Grønne dinamarquesa não menos desconhecida por estas bandas extremo ocidentais da Europa. O controverso líder do não menos controverso Podemos espanhol. E o insuportável líder de La France Insoumise que, na sua verborreia ultra vulgar, se preocupa antes do mais em destruir o que resta da esquerda em França e do que historicamente constituía o substrato comum às formações de esquerda, um líder que aliás se encontra atualmente a braços com a justiça. A coordenadora nacional faria bem em escolher melhor as suas companhias a nível europeu e não esquecer o célebre “diz-me com quem andas”…
As derrapagens da inconsistência
Temos por fim um ex-presidente da República que, uma vez mais, vem a público com um livro em que faz apreciações de caráter de personalidades públicas com quem privou nas suas funções. Mas onde faz também “revelações” de conversas que institucionalmente, como chefe de Estado, teve com estas mesmas pessoas.
Numa velha democracia como a Bélgica, o rei recebe semanalmente o primeiro ministro, como recebe muitas outras personalidades da vida social, económica, cultural… Chama-se à conversa que então tem lugar “um colóquio singular”. E ninguém imagina vir cá para fora dizer em que consistiu a conversa. Como é evidente que o chefe do Estado nunca dará parte destas mesmas conversas.
Em vinte anos de poder, o precedente presidente da República nunca percebeu bem quais eram os seus deveres de Estado. E, é claro, nunca soube afirmar-se como homem de Estado. Não há pois que admirar que ele venha agora uma vez e outra a meter a pata na poça. Interroguemo-nos antes sobre as caraterísticas socioculturais de um povo que o elegeu tantos anos a fio…
No contexto europeu, os países que funcionam incontestavelmente melhor são aqueles onde as noções de Estado de direito e de Democracia estão solidamente enraizadas no espírito dos seus habitantes, por vezes há centenas de anos. Mas isso não é razão para desesperarmos de um Portugal em que os sintomas de disfuncionamento se vão repetidamente arrastando. Há porém que legislar serena e ponderadamente, de modo a reforçar solidamente os mecanismos de proteção do bom funcionamento do Estado de direito e da Democracia…

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sair desta aflitiva miséria

J.-M. Nobre-Correia
Portugal dispõe de uma paisagem mediática de informação que não está à altura de uma democracia moderna europeia…
Dentro de um mês, o XXI governo constitucional completará três anos de vida. E o balanço da sua ação é mais ou menos contrastado segundo o posicionamento político de quem faz a avaliação. Há porém um sector em que a ação do governo foi inexistente. Até porque os dois titulares que se sucederam no Ministério da Cultura não manifestaram o mínimo interesse pela matéria.
Ora, a situação dos média — é deles que se trata — é há longos anos caraterizada por uma profunda inadequação às necessidades de uma sociedade moderna em democracia. Não só porque a paisagem mediática impressa é a mais pobre de todas as da Europa ocidental, em termos de difusões como de pluralismo. Mas também porque as próprias paisagens radiofónica e televisiva são pouco diversificadas, no que diz respeito aos conteúdos como às estruturas de propriedade.
A triste realidade é que o 25 de Abril, o novo Portugal democrático, dizimou a imprensa do país. É certo que qualquer cidadão passou a ter o direito de criar um jornal (caso disponha dos meios financeiros indispensáveis para o fazer). E que todo e qualquer média pôde começar a praticar a liberdade de informar segundo a sua própria conceção (por vezes bem mais descomedida do que em países europeus de velha democracia). Mas, dos doze diários ditos “nacionais” de então, só o Jornal de Notíciassobrevive ao lado de três nascidos em democracia. Nos semanários generalistas “nacionais”, só o Expressonascido um ano antes ainda é publicado. Enquanto que a imprensa regional, mais numerosa hoje do que antes do 25 de Abril, é, com raríssimas exceções, extremamente frágil, pouco profissional e com difusões reduzidíssimas…
Por seu lado, a rádio e a televisão tiveram uma entrada em democracia a contracorrente do que se estava a passar na Europa ocidental. Enquanto os anos 1970 foram os da explosão das chamadas “rádios e televisões livres”, em Portugal as rádios foram todas fundidas na nova RDP pública, só a Rádio Renascençado episcopado tendo sobrevivido. As televisões privadas nacionais chegaram uma boa dezena de anos mais tarde do que as congéneres europeias. E não falemos sequer em rádios e televisões regionais que, com a exceção da Porto Canal, não existem.
A paisagem mediática portuguesa é pois de uma aflitiva pobreza. E, globalmente, mais pobre é ainda a informação jornalística proposta. Quando uma sociedade democrática tem uma imperativa necessidade de informação de qualidade tratando dos diferentes aspetos da atualidade, propondo aos cidadãos abordagens plurais e análises contrastadas desta atualidade.
As autoridades responsáveis do país deveriam pois favorecer a elaboração de um programa de desenvolvimento dos média existentes e de incentivação à criação de novos média de informação. Instigando, nas grandes regiões onde não existem, a criação de uns quatro diários regionais digitais, até porque as estruturas de impressão e de distribuição locais não existem. Fortalecendo os semanários com uma real implantação regional. Apoiando o reforço das redações dos diários ditos nacionais, nomeadamente em matéria de informação regional, internacional e da lusofonia, e incrementando as suas difusões. Estimulando também a criação de uma meia dúzia de rádios e de outras tantas televisões regionais devidamente espalhadas pelo território. Delimitando o perímetro das atuais televisões nacionais e impondo cadernos de encargos bem precisos de modo a evitar as derivas atuais.
É certo que as iniciativas governamentais na matéria são geralmente mal acolhidas pelos média instalados. O que não constitui pois uma tática política judiciosa em véspera de eleições europeias e legislativas… Mas a nova ministra da Cultura deveria considerar este dossiê como prioritário, de modo a poder ser abordado logo no início da próxima legislatura. Porque há verdadeiramente urgência em sair da inaceitável miséria atual. A não ser que o mundo político pense que é mais fácil governar sem média de informação. Sem média que possam agir como contrapoderes da sua ação. Sem que os cidadãos sejam convenientemente informados e possam assim ter a legítima pretensão de participar nos destinos da nação !…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público em linha, Lisboa, 24 de outubro de 2018.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Nova entrevista sobre o meu recente livro

1-Qual a ideia que esteve na origem deste livro «Teoria da Informação Jornalística?

R-Durante 31 anos, dei a estudantes de Ciências da Informação e da Comunicação, na Université Libre de Bruxelles, uma matéria que mudou duas vezes de nome e que acabou por se intitular Teoria da Informação Jornalística. Como apoio às exposições orais desta matéria, publiquei um manual (Théorie de l’Information Journalistique) que teve 21 edições diferentes e várias reimpressões. Manual que alguns amigos portugueses me propuseram mais de uma vez que eu o publicasse em Portugal. Mas eu nunca tive a disponibilidade de tempo necessária para me ocupar de uma edição em português…

Regressado a Portugal, após mais de 45 anos de residência em Bruxelas, resolvi ocupar-me eu próprio da tradução e da devida adaptação : não se trata pois exatamente do mesmo livro, a edição em francês sendo bastante mais extensa. E decidi fazê-lo porque penso que não há livro nenhum do mesmo género publicado em português e tendo como autor um português. Há é verdade vários livros (não muitos) de caráter mais técnico, mais pontual. Pelo que, no ensino superior como nos meios mediáticos, se recorre então a edições brasileiras, por vezes espanholas ou anglo-americanas, com que isto poderá ter de insatisfatório. E o mesmo são obrigados a fazer os cidadãos portugueses que se interrogam sobre a evolução atual dos média e da informação jornalística.

Por fim, achei que, sair de uma abordagem puramente portuguesa e propor uma perspetiva europeia do tema, não seria desprovido de interesse : os leitores di-lo-ão…

2-Para quem há tantos anos estuda o Jornalismo, como analisa agora o tempo das "fake news"?

R- Sempre houve notícias falsas na história dos média, desde o nascimento da imprensa. Notícias voluntariamente falsas : por iniciativa dos média, para fazer vender papel ou aumentar audiências ; ou por iniciativa de meios exteriores aos média, para lançar descrédito sobre concorrentes, por exemplo. Ou notícias involuntariamente falsas : por incompetência ou/e precipitação dos média, para procurar anunciar um facto antes dos concorrentes, para ter uma “exclusividade”.

O que mudou radicalmente é o facto de, com a internet, os antigos recetores (leitores, ouvintes, espectadores) passarem a poder ser também emissores. Pelo que somos inundados de informações que têm por origem os meios jornalísticos (que em princípio respeitam um certo número de princípios técnicos e deontológicos), mas também por outras de origem conhecida ou perfeitamente anónima e que, na grande maioria dos casos, nada têm de jornalístico.

Ora, os meios dirigentes como os meios minoritários sempre procuraram influenciar os média e a prática jornalística, a maneira como os média dão conta da atualidade e a interpretam. Com a internet, a partir da segunda metade dos anos 1990, esses mesmos meios deixaram de ter obrigatoriamente que passar pelos jornalistas e pelos média tradicionais : passaram eles mesmos a emitir toda a espécie de notícias verdadeiras, aproximativas ou falsas.

Há um ditado que tem aspetos horríveis e que diz “não há fumo sem fogo”. Pelo que as notícias desprovidas de factualidade, de veracidade, deixam sempre um certo rasto de credibilidade ou pelo menos de dúvida. E como, com a internet e as chamadas “redes sociais” passou a haver milhões e milhões de emissores de notícias, passámos a ter de praticar mais do que nunca um sentido crítico particularmente agudo em relação às notícias a que temos acesso.

3-Pensando no futuro: ainda vamos a tempo de refundar o jornalismo e fazer dele uma peça essencial na vida das pessoas no século XXI?

R-O jornalismo no sentido mais autêntico e forte da palavra é cada vez mais necessário, dada a gigantesca proliferação dos média a que assistimos desde os anos 1960-1970 e sobretudo desde os anos 1990-2000. Para melhor gerirmos as nossas próprias vidas e melhor nos inserirmos na sociedade em que vivemos, todos nós temos cada vez mais necessidade de rigor na recolha, na hierarquização e no tratamento dos factos, assim como de uma mais valia exigente na interpretação e na análise destes factos.


Texto publicado na revista digital Novos Livros, Rio Tinto, 21 de outubro de 2018.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

É urgente repensar o telejornal

J.-M. Nobre-Correia
A RTP tem pouco a ver com uma televisão de serviço público. Os poderes públicos deveriam pois refletir sobre o seu futuro…
Enquanto dura a truanice em torno da direção da informação, seria bom que nos interrogássemos sobre o jornalismo que a RTP pratica nos seus telejornais. E sobre a qualidade da informação a que deveríamos ter direito, de modo a justificar a existência de uma televisão pública.
Os telejornais da RTP 1 são exageradamente longos, duas a três vezes mais do que os das congéneres europeias. Não porque os assuntos sejam abordados de maneira mais aprofundada. Antes pelo contrário : é a superficialidade que os carateriza. Tanto pela hierarquização adotada como pela diversidade temática limitada, como ainda pelo tratamento jornalístico elementar praticado.
A hierarquização dos factos é geralmente chocante. É verdade que não há ciência exata nenhuma nesta matéria e que posicionamentos editoriais diferentes explicam opções diferentes. Mas na RTP 1 as grandes constantes são : a atualidade sensacional (crime, acidente, calamidade natural, decisão com repercussões negativas na vida dos cidadãos,…), a politiquice partidária (seguimento reverente das deslocações e declarações — quantas vezes desprovidas de interesse — de líderes políticos) e a atualidade futebolística (com um desfile diário obrigatório de treinadores, jogadores ou presidentes, quando não de adeptos). Três matérias intercambiáveis no sumário como no alinhamento do telejornal.
Outra grande caraterística dos telejornais são “diretos” raramente justificáveis, simples ligações com “repórteres” que a maior parte das vezes nada viram, nada filmaram e, evidentemente, nada montaram. A “reportagem” é constituída pela imagem deles, mais, boa parte das vezes, a entrevista do presidente da junta ou câmara municipal, do chefe dos bombeiros, da PSP ou da GNR, dos advogados do “caso”, e por vezes uns “populares” de preferência chorões ou berrões !
Aproveitando esta estranha conceção dos “diretos” (que são em muitos aspetos a antítese mesmo do jornalismo), o telejornal é invadido por uma série de espertalhões. Porque, como por acaso, têm declarações importantes a fazer precisamente durante o telejornal, …evitando assim a natural seleção de passagens das ditas declarações por parte da redação.
A reportagem quase não existe. Como quase não existe a mais elementar pedagogia para explicar, por exemplo, assuntos de caráter económico e financeiro. Para além da imagem do jornalista, mais as eternas imagens da entrada do Ministério da Finanças e o não menos eterno plantão à porta do Ministério, os grafismos e quadros adequados ao assunto são raros.
Os faits diversconstituem grande parte da atualidade estrangeira e tratam sobretudo dos EUA. Aliás, as raras peças consagradas ao estrangeiro e ao internacional têm geralmente por origem agências de imagens estado-unidenses. E estas preocupam-se antes do mais com a clientela do mundo anglófono e, desde logo, propõem uma visão largamente anglo-americana da atualidade. Enquanto que os países da União Europeia, de que fazemos parte, são manifestamente descurados. Como é em geral negligenciado um elementar enquadramento de toda esta atualidade.
As atualidades “societal” e cultural são largamente ignoradas. Mas a futebolística é dada diariamente uma importância descomedida. Com intermináveis declarações nos dias antes, no próprio dia do encontro e nos dias que se seguem. Com enviados especiais para os mais longínquos países e encontros de somenos importância. Com um acompanhamento do que se passa em países onde se encontram jogadores ou treinadores portugueses ! Quando em televisões públicas europeias, durante dias a fio, a atualidade futebolística nem sequer é abordada…
Espectadores benevolentes dirão que o telejornal da RTP 2 “é melhor”, mais curto, melhor hierarquizado. Mas como justificar que numa televisão “culta e adulta” se vejam sequências com a mesma montagem de imagens e o mesmo comentário “off” da RTP 1 ? Que significa então um posicionamento sociocultural diferente dos canais ?
Contrariamente ao que por aí se afirma muitas vezes, quarenta anos depois da desmonopolização do sector na Europa, a existência de um televisão pública continua a ter razão de ser. Partindo do princípio que ela nos proponha uma programação e uma informação claramente distintas daquelas das televisões privadas. Não é o caso da RTP. Conviria pois que parlamentares e governo decidissem refletir sobre o assunto e impor-lhe um caderno de encargos indubitavelmente de serviço público…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro “Teoria da Informação Jornalística” (Almedina).


Texto publicado no diário Público, Lisboa, na edição em linha de 16 de outubro de 2018 e na edição impressa de 17 de outubro de 2018, p. 38.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Entrevista : A propósito do meu recente livro


J.-M. Nobre-Correia foi sucessivamente investigador, assistente e professor no Departamento de Ciências da Informação e da Comunicação da Université Libre de Bruxelles, de 1970 a 2011. Regressado a Portugal, acaba de publicar Teoria da Informação Jornalísticana editora Almedina.
Qual a principal preocupação ao publicar uma obra que acaba por ser uma profunda viagem ao mundo do jornalismo?
A primeira preocupação foi de pôr na minha língua materna um livro que escrevi em francês e teve um total de 21 edições, com três títulos diferentes sucessivos que correspondiam aliás à própria evolução do título da cadeira de que fui professor titular nos anos académicos 1980-81 a 2010-11 na Université Libre de Bruxelles.
Por outro lado, penso saber que em Portugal os docentes do ensino superior passaram a ter por hábito propor bibliografias de livros e artigos em relação com a matéria de que são titulares, não redigindo eles próprios manuais que tratem dessa matéria. E daí que eu tenha pensado que seria possivelmente útil publicar um livro destes em Portugal, suscetível de interessar não só docentes e estudantes em jornalismo, mas também jornalistas que queiram refletir sobre a sua profissão, assim como simples cidadãos que se interrogam sobre a prática jornalística nos média.
Por fim, não me pareceu desprovido de interesse propor um livro sobre esta matéria numa perspetiva europeia (sobretudo francófona, mas não só), quando aquilo que se edita e lê em Portugal sobre esta matéria parece-me ser sobretudo de proveniência brasileira ou estado-unidense.
A que níveis considera que a liberdade de imprensa é hoje ameaçada?
Os média foram confrontados ao longo dos séculos (sobretudo a imprensa, também a rádio e a televisão) a práticas autoritárias da parte do poder civil como do poder religioso : censura (a partir de 1475), privilégio, autorização prévia…, toda uma série de mecanismos com vista a impedir que as pessoas tomassem conhecimento de informações que o poder queria absolutamente impedir que elas soubessem. Felizmente estes mecanismos de repressão desapareceram muito largamente nas nossas sociedades de Europa ocidental.
Mas a liberdade de circulação da informação é hoje confrontada a outros obstáculos. Com a proliferação dos média a partir dos anos 1960-80, o pluralismo dos média e da informação que tanto esperávamos deu de facto lugar a uma fragilização das redações. Assistiu-se então a uma gigantesca fragmentação das audiências. Pelo que os média passaram a dispor de menos receitas financeiras, em termos de vendas como de publicidade. Situação que foi ainda mais acentuada com o alargamento da internet ao grande público. E menos receitas significa menos meios humanos e menos disponibilidade financeira das redações para praticar jornalismo em termos de recolha, de verificação e de tratamento da informação.
Paralelamente, enquanto as redações perdiam capacidade de iniciativa, as empresas e instituições reforçavam cada vez mais os departamentos de comunicação e o recurso a assessorias especializadas, dispondo de meios muitos mais importantes do que os das redações. Estas passaram assim a aceitar “peças” (textos, ilustrações, sons, vídeos) vindas do exterior, desses departamentos e assessorias, concebidas em função dos interesses das empresas e instituições, ou dos seus mandatários, e não numa perspetiva de informação dos cidadãos.
Dito de outro modo : as redações deixaram de dispor do tempo e dos meios indispensáveis à cobertura de vastos aspetos da atualidade, que passaram assim a ser cobertos por não-jornalistas ao serviços de interesses que não são exatamente os dos cidadãos.
A prática do jornalismo de qualidade encontra-se ameaçada pela imediatidade da Internet? 
Sim e não ! Sim, na medida em que, como foi explicado na resposta anterior, há cada vez menos redações em condições de praticar um jornalismo de qualidade. Não, na medida em que a informação em tempo real praticada nomeadamente na internet, mas também em rádio e em televisão, pede cada vez mais que os cidadãos recorram a um jornalismo de qualidade na imprensa, na rádio, na televisão ou na internet para compreenderem a atualidade da sociedade em que vivem. Isto é : que recorram a um jornalismo de qualidade concebido com o devido recuo em relação aos acontecimentos, mas também com as devidas verificação, interpretação e análise dos factos, e as indispensáveis noções de competência, rigor e serenidade.
Num mundo globalizado e de distâncias entre regiões e povos cada vez mais curtos, ainda faz sentido em falarmos nos critérios geográfico, psicoafectivo e cultural no que toca à seleção da informação?
Claro que sim ! O mundo poderá ser cada vez mais uma “aldeia planetária”, mas nós sentir-nos-emos sempre mais interessados pela atualidade mais próxima de nós e dos nossos, mais afetados que somos pela atualidade que nos diz e lhes diz respeito.
O corte nas receitas publicitárias dos jornais impressos entrega a produção de notícias às agências de informação e aos fornecedores de conteúdos ou ainda é possível perspetivar organismos de comunicação social isentos e com uma demarcada linha editorial? 
A primeira agência de informação, Havas, nasceu em 1835. E ao longo da segunda metade do século XIX como durante todo o século XX, as agências de informação tiveram um papel cada vez mais importante na informação que era proposta pelos média. Até porque, depois dos “despachos” escritos, começaram a propor ilustrações e sobretudo fotos, mas também sons e vídeos.
Quanto àquilo que chama “fornecedores de conteúdos”, eles também existem há muitos decénios, desde os comunicados governamentais ou das forças armadas em conflito. A partir sobretudo dos anos 1960, os média europeus passaram também a receber cada vez mais comunicados de toda a ordem das mais diversas empresas e instituições, mas também de associações e de toda a espécie de organizações ou personalidades que consideram ter algo que deve ser anunciado aos média e levado ao conhecimento dos públicos destes.
Uma das caraterísticas dos jornais impressos de qualidade (como aliás dos jornais radiofónicos, dos telejornais ou dos jornais em linha de qualidade) é precisamente a de tomarem antes do mais a produção das agências de informação como a desses tais “fornecedores de conteúdos” como “alertas” que, depois de uma avaliação do interesse do tema evocado, os deverão levar a dar início a um trabalho de recolha de elementos fatuais, de cotejo destes com aqueles que os tinham alertado, de verificação desses elementos, antes de passar às etapas seguintes habituais do tratamento da informação.
Perante as dificuldades financeiras dos jornais impressos — particularmente acentuadas com a deslocação de boa parte da publicidade para a internet a partir da segunda metade dos anos 1990 e depois com a crise financeira dos anos 2007-08 —, temos que constatar que são os melhores jornais de referência diários ou semanais, “isentos” e com “uma demarcada linha editorial”, para utilizar os termos mesmo da pergunta, aqueles cuja leitura continua a ser indispensável para os meios dirigentes e para os meios sociais com um certo nível cultural e poder de compra. São aliás estes jornais de referência que resistem melhor, nalguns casos reforçando mesmo as suas posições em termos de vendas e de receitas, alcançando até audiências que nunca tinham atingido anteriormente. Porque, para além da informação bruta, puramente fatual, estes meios sociais precisam que esta informação seja posta em perspetiva, interpretada e comentada, para poderem fazer a sua própria opinião e decidir da conduta a tomar perante a atualidade.
Quais são os problemas decorrentes de uma homogeneização daquilo que é noticiado e da forma como é noticiado pelos diferentes meios de comunicação?  
A resposta foi de certo modo já abordada na resposta à pergunta anterior. Assistimos progressivamente a uma incontestável enorme homogeneização dos conteúdos propostos por média desprovidos de redações suficientemente importantes em termos de meios humanos e financeiros. Mas assistimos também cada vez mais a um decantação das especificidades de cada um, de modo a que os mais originais em termos de conteúdos propostos, tanto no que diz respeito aos temas como às formas de os tratar, se afirmam melhor perante a vasta massa cinzentona dos que propõem mais ou menos a mesma coisa dos outros. O que implica também um reposicionamento perante a nova geografia dos média tradicionais e dos novos média, até porque as gramáticas jornalística, comercial e técnica de cada um deles são manifestamente distintas.
Como perspetiva o futuro da imprensa escrita?
O termo “imprensa escrita” é utilizado de maneira demasiado imprecisa, pois designa quase sempre as publicações impressas, periódicos não-diários e diários. Quer dizer : publicações impressas em papel saídas de rotativas, de prelos. Mas a “imprensa escrita” é publicada cada vez mais em linha, na internet, algumas publicações tendo mesmo renunciado à imprensa, à edição em papel, como foi recentemente o caso do Diário de Notícias, com exceção da edição dominical (mas os exemplos de diários que passaram a ter unicamente edições em linha abundam por essa Europa fora, em Espanha, em França, na Grã-Bretanha, na Itália…).
A questão que se põe é a de saber se esta imprensa escrita, outrora editada  exclusivamente em papel, compreenderá que o papel e a internet são suportes de natureza diferente que supõem um tratamento jornalístico diferente, até porque, que mais não seja, a internet permite uma coexistência de textos, imagens fixas, sons e imagens animadas. Mas também porque a internet supõe um ritmo de publicação diferente, eventualmente com edições pluridiárias (…como a imprensa escrita em papel fez até aos anos 1960 !). Como supõe ainda compreender que a economia do jornal em papel e a do jornal em linha são muito diferentes, exigindo uma gestão diferente em termos de vendas, assinaturas, publicidade e atividades lucrativas diversas…

Texto publicado na "newsletter" do NewsMuseum, Sintra, 3 de agosto de 2018.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Enquanto esperam o que vai vir…


J.-M. Nobre-Correia
Administrações locais “do interior” estão habituadas a reinar soberanamente, com pouco respeito pela lei e pelos cidadãos. Até que os média “nacionais” e a justiça comecem a interrogar-se sobre elas…
Diz quem frequenta altas instâncias da administração pública na Beira Interior que uma “opinião” publicada no Públicoprovocou uma certa agitação nesses meios 1. Tanto mais que veio acrescentar-se o facto do mesmo jornal publicar uma e outra investigações sobre falcatruas em municípios da Beira Interior. Coincidências que fizeram recear outras “opiniões” mais explícitas e outras “investigações” sobre outros municípios…
É que há de facto muitas razões para que os média “nacionais” se venham a interessar pelo que se passa na Beira Interior : basta saber alertar jornalistas especializados nestas matérias. E essas razões são sobejas, tendo as administrações públicas locais vivido numa quase impunidade, longe dos poderes judicial e mediático nacionais.
Situações de irregularidade e mesmo de ilegalidade é o que mais por aí há ! Como exemplo, peguemos em obras num domínio privado. Obras iniciadas sem que os vizinhos diretamente interessados sejam informados e sem que algum pedido de licenciamento tenha sido introduzido junto da administração pública, como a lei o exige num e noutro casos.
Depois, quando um desses vizinhos alerta a administração pública para estas irregularidades e ilegalidades, a fiscalização reage com total passividade. E quando o dito vizinho envia cartas registadas com avisos de receção para os departamentos “responsáveis” pelas ditas obras, estes respondem com o silêncio. Como com silêncio reage o primeiro “responsável” pela administração municipal.
Um total de doze cartas registadas com avisos de receção (sem falar de correios eletrónicos, telefonemas e consultas presenciais) ficam assim sem resposta : belo exemplo do total desprezo da administração municipal pela legislação, pelas regulamentações e pelos mais elementares princípios de transparência e de respeito a que os cidadãos têm direito !
Mas há mais e pior do que isso : traficam-se dossiês, substituem-se peças destes dossiês, emitem-se declarações falsas com datas muito anteriores àquelas em que foram de facto passadas em favor de quem viola leis e regulamentos. Triste país onde funcionários públicos e eleitos locais se permitem agir deste modo, à maneira de uma qualquer república das bananas !…
Só que esta gente esquece-se que Portugal é maior que os simples concelhos. E que a União Europeia ainda maior é do que Portugal. E que as instâncias judiciais existem, em Portugal como na União Europeia, para fazerem respeitar a lei e proteger os cidadãos. Habituados que eles estão a lidar com pobres cidadãos “com pouco mundo”, fazem o que querem e muito bem lhes apetece. Até ao momento em que terão que prestar contas à justiça, expondo então, o rabo entre as pernas, práticas correntes da ilegalidade…


1

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Para percer os caminhos da informação jornalística

Em obra há pouco publicada, o especialista de médio Nobre-Correia apresenta os caminhos da produção jornalística
1. Que diferença faz a obraTeoria da Informação jornalísticano panorama das obras sobre comunicação e comunicação jornalística?
Direi antes do mais que faço uma distinção essencial. Há por um lado a chamada comunicação, que tem por origem as assessorias de empresas e instituições, e que está ao serviço dos interesses destas. Hápor outro lado a informação, fruto da produção jornalística e que está ao serviço dos cidadãos leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. Nesta perspetiva, a Teoria da Informação Jornalísticaparece-me ser bastante original no panorama editorial português onde há alguns manuais que tratam da técnica jornalística, de como executar diferentes tarefas jornalísticas. Enquanto o meu livro consiste numa abordagem do funcionamento do sistema da informação, dos seus aspetos teóricos e dos seus mecanismos práticos. Há assim nele uma iniciação teórica à prática jornalística e uma crítica da informação proposta ao cidadão. Por outro lado, este livro foi concebido numa perspetiva europeia, abordando práticas jornalísticas em diferentes países da União Europeia, o que penso ser único no panorama editorial português.
2. A obra responde aos problemas decorrentes das novas formas de comunicação relacionadas com as redes/plataformas sociais?
O livro trata da conceção e da prática jornalísticas, como elas se foram afirmando desde o século XIX e sobretudo desde a industrialização da imprensa escrita. E a conceção como a prática jornalísticas no sentido forte deste adjetivo tanto diz respeito à informação impressa, como à radiofónica, à televisiva ou àquela que tem a internet como veículo de difusão.
3. Quais serão, na sua perspectiva, as tendências futuras da comunicação jornalística?
Fundamentalmente o que foi evoluindo desde os fins do século XIX com a multiplicação das edições dos diários ao longo do dia, e depois com a noção da informação em direto (primeiro com a rádio, depois com a televisão e agora com a internet) é a noção de informação em tempo real : levar ao conhecimento do público acontecimentos da atualidade no momento mesmo em que se estão a desenrolar. Por outro lado, o mundo passou a ser uma aldeia planetária, todos nós podendo em princípio seguir a atualidade na outra ponta do mundo a partir de média localizados nessa mesma zona do mundo. Por outro lado, todo e qualquer indivíduo passou a ter a possibilidade técnica de poder ser não apenas consumidor de informação, mas ele próprio produtor de informação. Porém, os grandes princípios da informação jornalística continuam a ser de atualidade, a prática multifacetada do jornalismo, assim como a arquitetura e o funcionamento das redações é que estão a mudar substancialmente.
4. O jornalismo regional tem condições de afirmação face ao domínio dos grandes media? De que modo?
O jornalismo regional sempre teve e continua a ter condições de afirmação face aos grandes média. Porque, como explico no segundo ponto do primeiro capítulo, as pessoas interessam-se antes do mais pelo que se passa no espaço imediato em que vivem, pelas pessoas e os sítios que conhecem. Mas o jornalismo regional supõe dois requisitos essenciais. O primeiro destes requisitos é que a informação proposta tem que ser extremamente rigorosa e precisa, porque as pessoas conhecem precisamente aqueles de que se fala e muitos dos aspetos dos assuntos de que se fala. O segundo é que a informação não pode transformar-se numa comunicação oficiosa das instituições e das empresas da região, dos poderes constituídos : tem que praticar a devida distância, a indispensável verificação dos elementos fatuais e o desejável sentido crítico em relação às pessoas e aos acontecimentos que são abordados.
5. De que forma pode o jornalismo regional ultrapassar o ‘jornalismo sentado’?
Não ficando “sentado” e indo precisamente para “o terreno”. Não fazer um jornalismo à base de comunicados, telefonemas ou mesmo conferências de imprensa, mas indo para a rua, para os bairros da cidade, para as aldeias e vilas da região, lá onde se passa a vida quotidiana das pessoas, entrando em contacto com elas e com situações de que elas lhes falam ou que os jornalistas descobrem ao dobrar da esquina da rua…
J.-M. Nobre-Correia, Teoria da Informação Jornalística, Almedina, 362 pp.
Texto publicado no diário As Beiras, Coimbra, 24 de maio de 2018, p. 29.

terça-feira, 15 de maio de 2018

As outras "baixas densidades"

J.-M. Nobre-Correia
Os poderes locais vivem numa quase impunidade, irregularidades e ilegalidades sendo moeda corrente…
Ser imperial e centralista é a tendência natural de Lisboa : os últimos séculos provam-no sobejamente. Foi-o em relação aos territórios de além-mar. E continua a sê-lo em relação ao Portugal “do interior”, para além do território que considera ser a sua inevitável área de expansão.
Com o regresso da democracia, a situação não mudou de maneira claramente percetível. E os projetos atuais de descentralização municipalista, sem criação de regiões, acentuarão ainda mais a situação dos pequenos potentados locais que se comportam como reizinhos da terra.
A verdade é que a desgraça económica, social, cultural e demográfica em que se encontram as regiões de “baixa densidade” não são só fruto da tendência imperial e centralista de Lisboa. A situação convém perfeitamente a notáveis locais que vivem assim em grande impunidade no que diz respeito ao Estado de direito, às suas leis e aos seus regulamentos. Porque os poderes executivo e legislativo nacionais não sabem o que por cá se passa. E porque os média ditos nacionais também o ignoram.
O “pessoal político” que ocupa os postos de comando da sociedade portuguesa é em grande parte oriunda de Lisboa ou residente a maior parte do tempo em Lisboa. Mesmo quando se faz eleger em distritos eleitorais “do interior” de que tudo ignoravam e de que tudo continuaram largamente a ignorar, pois não vivem a vida quotidiana dos que cáresidem realmente. Mesmo se não têm pejo algum em declarar residirem “no interior” e assim usufruírem das benesses financeiras do Estado e das suas “ajudas de custo”. Sejam embora os endereços declarados muitas vezes fictícios e que os que cá vivem e trabalham nunca ou quase nunca os por cá vejam.
Este sistema político aberrante que permite que sejam eleitos (a nível nacional como local) gente que de facto não reside (e até, por vezes, nunca residiu) nos círculos eleitorais que vão representar, não favorece a tomada de conhecimento pelas instituições centrais do Estado das ilegalidades e irregularidades praticadas quotidianamente a nível local. E a função de contra-poder que é uma das razões de ser dos média, também ela é pouco ou nada exercida.
A fragilidade dos média locais, nomeadamente em termos jornalísticos, faz que tenham em boa parte dos casos caído mais ou menos indiretamente nas mãos dos eleitos locais, passando a ser quase sempre boletins oficiosos da ação destes. Enquanto que para os média ditos nacionais “o interior” é uma zona cinzenta da informação, dispondo raramente de correspondentes locais e vendendo cá os jornais um número irrisório de exemplares.
Desde logo, as chamadas autoridades locais vivem numa quase-impunidade. Constituindo as suas redes de exercício do poder, fazendo eleger funcionários municipais como presidentes de juntas de freguesia, de corporações de bombeiros, de instituições bancárias regionais, de misericórdias, de instituições culturais, de associações desportivas ou de lazer…. De tal modo que toda e qualquer crítica positiva ou mera oposição seja muito simplesmente impossível.
A articulação entre instituições locais assim arquitetada faz que todos os abusos, ilegalidades e irregularidades passem a ser prática corrente. Os departamentos da administração local agem assim com total desenvoltura perante os cidadãos, não respondendo sequer às diligências destes, ignorando soberanamente cartas registadas ou aviso de receção e mesmo diligências de advogado. Enquanto que os dossiês legalmente consultados pelos cidadãos são escandalosamente traficados de uma consulta para a outra, com a substituição de documentos e o desaparecimento de outros, em função dos reparos do dito interessado.
Neste tipo de situações, em Lisboa e até, sejamos benevolentes, no litoral centro-norte do país, haveria sempre alguma “fuga” generosa que chegaria a “jornalistas de investigação” para fazer rebentar uma “exclusividade” picante. No Portugal “do interior”, os escândalos de administrações locais caiem no silêncio da indiferença da política, da justiça e do jornalismo. E os pequenos potentados locais querem que assim continue a ser, de modo a que possam reinar soberanamente na “sua” freguesia” ou, melhor ainda, no “seu” concelho

Professor emérito da Université Libre de Bruxelles residente no Fundão.

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 15 de maio de 2018, p. 53.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Interrogações e incertezas várias

J.-M. Nobre-Correia
Média :Uma primeira operação foi concretizada. Mas as negociações para a venda doJornal do Fundão parece terem encalhado num impasse…
Na série de textos aqui publicados sobre o futuro do Jornal do Fundão[1], houve um elemento que não foi frisado e que o deveria ter sido. Aquele que consistia em dizer que a operação de compra-venda da empresa editora deveria operar-se em dois tempos. Num primeiro tempo era a Global Média, acionista maioritário que tomaria o controle das ações detidas pelas filhas de António Paulouro. E só num segundo tempo é que a Global Média procuraria vender a totalidade ou a maioria da sua participação aos potenciais candidatos. Ficando no entanto a porta aberta a outros possíveis compradores, caso não houvesse finalmente entendimento com os atuais.
Entretanto foi publicado o anunciado texto na primeira página do Jornal do Fundão (“Fim de ciclo”) assinado pelas irmãs Maria Teresa e Maria José Paulouro, e pelo primo Fernando Paulouro Neves. Um texto puramente hagiográfico e claramente saído da pena de Paulouro Neves. Mas um texto em que faltava evocar dois aspetos fundamentais para que os leitores compreendem-se o que se passava : as razões da venda em 1998 da maioria do Jornal do Fundão por António Paulouro ; e as da venda atual da minoria pelas suas filhas.
Claro que, no primeiro caso, não se estava à espera que nos fossem desvendadas as condições em que foi realizada uma venda à Lusomundo (o principal distribuidor de filmes do país), em que intervieram indiretamente António Guterres, então primeiro ministro, e muito diretamente Manuel Roque, genro de António Paulouro e, na altura, presidente do conselho de administração da RTP. E no caso da segunda, a situação financeira atual do Jornal do Fundão e do défice de cerca de um milhão de euros.
Pelo caminho ficaram também episódios como o da venda do Jornal do Fundão a Agostinho da Silva, da Torralta, anunciada pelo Expresso antes do 25 de Abril …e de que nunca mais se ouviu falar depois do regresso da democracia. Ou da tentativa de constituição de uma cooperativa, para a qual contribuíram muitos amigos do Jornal do Fundão …aos quais foi devolvido anos depois o dinheiro investido, o escudo tendo entretanto perdido muito do seu valor e os juros prometidos nunca tendo sido afinal remetidos aos potenciais cooperadores.
A publicação do texto de primeira página na edição de 19 de abril deu porém lugar a uma operação de comunicação bastante laudatória junto dos média ditos nacionais. Não impedindo estes de fazer por vezes afirmações desprovidas da devida factualidade, nomeadamente em termos de tiragens e de vendas. Ora, o último Boletim Informativo da APCT (Associação Portuguesa para a Controlo de Tiragem e Circulação) publicou números bastante precisos sobre o bimestre de janeiro-fevereiro : tiragem 10 242 exemplares, vendas em banca 1 239, assinaturas em papel 6 135 (ou seja : circulação impressa paga 7 374), ofertas 590 (ou seja : circulação impressa total 7 963). As estes dados da edição em papel vêm a acrescentar-se 142 assinaturas digitais. O que dá uma circulação total (papel e digital) de 8 105 exemplares. Números nitidamente em queda desde há muitos anos e que não são apenas da responsabilidade da atual direção do jornal.
Passado este primeiro momento de efervescência, o que importa agora saber é quem virão a ser realmente os futuros proprietários do Jornal do Fundão. Convirá sobretudo está atento ao facto de saber se, por detrás deles, haverá quem puxe os cordelinhos em função de interesses não anunciados e pouco jornalísticos. Ou se se tratará de verdadeiros profissionais preocupados antes do mais em praticar um autêntico jornalismo de fundo em prol da região…
Enquanto vamos esperando que o mistério seja desvendado, as negociações com os candidatos conhecidos parece terem sido suspensas, nomeadamente por divergências sobre os montantes financeiros da operação. O que leva a Global Média a abrir de novo o leque das opções, incluindo a de continuar a editar o Jornal do Fundão com uma nova direção…


[1]Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, “Em vésperas de vida nova…”, in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018,
J.-M. Nobre-Correia, “Em fase de grandes manobras”, in Notas de Circunstância 2, 14 de março de 2018,
J.-M. Nobre-Correia, “Do hermetismo à transparência”, in Notas de Circunstância 2, 13 de abril de 2018 e
J.-M. Nobre-Correia, “Fim de um longo capítulo”, in Notas de Circunstância 2, 14 de abril de 2018.
A publicação destes textos levou ao corte do serviço de “oferta” do jornal ao autor desde 1965, durante mais de 52 anos ! “Oferta” justificada pela colaboração gratuita (nomeadamente na página de informação sobre o Fundão), de novembro de 1963 a maio de 1965, e, em seguida, pela colaboração episódica igualmente gratuita. Só na última fase, como cronista quinzenal de janeiro 2010 a novembro de 2013, tive o privilégio de ser um dos quatro colaboradores exteriores de então a serem remunerados…

sábado, 14 de abril de 2018

Fim de um longo capítulo

J.-M. Nobre-Correia
Média : O texto aqui publicado ontem suscitou grande curiosidade (confirmada pelo número de páginas vistas). Acrescentemos-lhe então duas informações complementares sobre a atualidade vindoira do Jornal do Fundão.
A primeira : no número da próxima quinta-feira, o Jornal do Fundão publicará um texto de Maria Teresa e Maria José Paulouro (filhas de António Paulouro, fundador e primeiro diretor do semanário), assim como de Fernando Paulouro Neves (sobrinho de António Paulouro e seu sucessor como diretor), explicando a saída da família da empresa editora do jornal.
A segunda : os novos proprietários do Jornal do Fundão serão obrigados a deixar as instalações atuais situadas na rua …Jornal do Fundão ( ! ) o mais tardar dentro de dois meses, sendo o edifício propriedade das irmãs Maria Teresa e Maria José Paulouro. Um edifício da varanda do qual o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em visita, saudou o povo do Fundão em janeiro de 1963…
Setenta e dois anos e três meses depois do seu aparecimento, um longo capítulo da história do Jornal do Fundão vai assim ser definitivamente fechado…

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Do hermetismo à transparência

J.-M. Nobre-Correia
Média :A mudança de propriedade do Jornal do Fundão que vai ser anunciada parece tomar aspetos de matriosca russa : a boneca mostrada ao público esconderá talvez outra que não convém ser vista…
Uma antiga redatora do Jornal do Fundão retoma no Facebook o editorial do diretor interino do semanário na sua última edição. O que leva o leitor negligente a ter que ler o dito editorial, o que não é nada hábito, dado o estilo pouquíssimo jornalístico da dita prosa. E a peça da página 2 do jornal de ontem prova uma vez mais o hermetismo de uma escrita para iniciados, quando é a limpidez que deve ser caraterística do jornalismo.
Claramente, o dito editorial (intitulado enigmaticamente “Só nós ou também os outros ?”) deixa antever o próximo anúncio da mudança de propriedade do Jornal do Fundão[1]. É sabido já há algum tempo que as filhas do falecido António Paulouro, fundador e primeiro diretor do Jornal do Fundão, venderam ao grupo Global Média a parte minoritária que detinham na empresa.
O que agora irá ser anunciado é que uma jornalista de Monsanto-Estrasburgo, outro do Fundão-Vale de Urso e talvez um terceiro de Castelo Novo-Odivelas, vão tomar o controlo do Jornal do Fundão. Por alturas da Páscoa, os três, mais o marido da primeira, encontraram-se aliás no restaurante Petiscos & Granitos, em Monsanto, para tentar as últimas afinações.
No entanto, a questão que se põe é a de saber se todos os novos acionistas têm os rins financeiramente bastante sólidos para apostar em tal aquisição ? E que papel joga nesta operação o presidente da Câmara Municipal do Fundão e da Mesa da Assembleia Geral da Caixa de Crédito Agrícola (que aliás já interveio na nomeação do atual diretor interino, por ocasião da sucessão de Fernando Paulouro Neves) ?
Outra incógnita :  a notícia publicada a duas colunas no Jornal do Fundão de 5 de abril sobre o que José António Cerejo escreveu no diário Público a propósito das relações (muito bem remuneradas) de Joaquim Morão, ex-presidente das Câmaras Municipais de Idanha-a-Nova e de Castelo Branco, com a Câmara Municipal de Lisboa. Texto jornalisticamente justificável, decorrente no entanto de uma atitude diferente de assuntos ligados judicialmente à Covilhã e ao Fundão, por exemplo, e que foram mantidos sob silêncio. Texto intrigante quando Joaquim Morão esteve também implicado nas negociações para a compra do Jornal do Fundão
Seja como for, a questão essencial será a de saber com que independência a atualidade poderá doravante ser tratada pelo Jornal do Fundão, um ator que foi essencial na vida da região. Uma região que, no entanto, precisa mais do que nunca de uma informação de qualidade…


[1] Ver a este propósito « Em vésperas de vida nova… », in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018.
Ver também « Em fase de grandes manobras… », in Notas de Circunstância 2, 14 de março de 2018.