sexta-feira, 13 de abril de 2018

Do hermetismo à transparência

J.-M. Nobre-Correia
Média :A mudança de propriedade do Jornal do Fundão que vai ser anunciada parece tomar aspetos de matriosca russa : a boneca mostrada ao público esconderá talvez outra que não convém ser vista…
Uma antiga redatora do Jornal do Fundão retoma no Facebook o editorial do diretor interino do semanário na sua última edição. O que leva o leitor negligente a ter que ler o dito editorial, o que não é nada hábito, dado o estilo pouquíssimo jornalístico da dita prosa. E a peça da página 2 do jornal de ontem prova uma vez mais o hermetismo de uma escrita para iniciados, quando é a limpidez que deve ser caraterística do jornalismo.
Claramente, o dito editorial (intitulado enigmaticamente “Só nós ou também os outros ?”) deixa antever o próximo anúncio da mudança de propriedade do Jornal do Fundão[1]. É sabido já há algum tempo que as filhas do falecido António Paulouro, fundador e primeiro diretor do Jornal do Fundão, venderam ao grupo Global Média a parte minoritária que detinham na empresa.
O que agora irá ser anunciado é que uma jornalista de Monsanto-Estrasburgo, outro do Fundão-Vale de Urso e talvez um terceiro de Castelo Novo-Odivelas, vão tomar o controlo do Jornal do Fundão. Por alturas da Páscoa, os três, mais o marido da primeira, encontraram-se aliás no restaurante Petiscos & Granitos, em Monsanto, para tentar as últimas afinações.
No entanto, a questão que se põe é a de saber se todos os novos acionistas têm os rins financeiramente bastante sólidos para apostar em tal aquisição ? E que papel joga nesta operação o presidente da Câmara Municipal do Fundão e da Mesa da Assembleia Geral da Caixa de Crédito Agrícola (que aliás já interveio na nomeação do atual diretor interino, por ocasião da sucessão de Fernando Paulouro Neves) ?
Outra incógnita :  a notícia publicada a duas colunas no Jornal do Fundão de 5 de abril sobre o que José António Cerejo escreveu no diário Público a propósito das relações (muito bem remuneradas) de Joaquim Morão, ex-presidente das Câmaras Municipais de Idanha-a-Nova e de Castelo Branco, com a Câmara Municipal de Lisboa. Texto jornalisticamente justificável, decorrente no entanto de uma atitude diferente de assuntos ligados judicialmente à Covilhã e ao Fundão, por exemplo, e que foram mantidos sob silêncio. Texto intrigante quando Joaquim Morão esteve também implicado nas negociações para a compra do Jornal do Fundão
Seja como for, a questão essencial será a de saber com que independência a atualidade poderá doravante ser tratada pelo Jornal do Fundão, um ator que foi essencial na vida da região. Uma região que, no entanto, precisa mais do que nunca de uma informação de qualidade…


[1] Ver a este propósito « Em vésperas de vida nova… », in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018.
Ver também « Em fase de grandes manobras… », in Notas de Circunstância 2, 14 de março de 2018.

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