sexta-feira, 25 de maio de 2018

Para percer os caminhos da informação jornalística

Em obra há pouco publicada, o especialista de médio Nobre-Correia apresenta os caminhos da produção jornalística
1. Que diferença faz a obraTeoria da Informação jornalísticano panorama das obras sobre comunicação e comunicação jornalística?
Direi antes do mais que faço uma distinção essencial. Há por um lado a chamada comunicação, que tem por origem as assessorias de empresas e instituições, e que está ao serviço dos interesses destas. Hápor outro lado a informação, fruto da produção jornalística e que está ao serviço dos cidadãos leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. Nesta perspetiva, a Teoria da Informação Jornalísticaparece-me ser bastante original no panorama editorial português onde há alguns manuais que tratam da técnica jornalística, de como executar diferentes tarefas jornalísticas. Enquanto o meu livro consiste numa abordagem do funcionamento do sistema da informação, dos seus aspetos teóricos e dos seus mecanismos práticos. Há assim nele uma iniciação teórica à prática jornalística e uma crítica da informação proposta ao cidadão. Por outro lado, este livro foi concebido numa perspetiva europeia, abordando práticas jornalísticas em diferentes países da União Europeia, o que penso ser único no panorama editorial português.
2. A obra responde aos problemas decorrentes das novas formas de comunicação relacionadas com as redes/plataformas sociais?
O livro trata da conceção e da prática jornalísticas, como elas se foram afirmando desde o século XIX e sobretudo desde a industrialização da imprensa escrita. E a conceção como a prática jornalísticas no sentido forte deste adjetivo tanto diz respeito à informação impressa, como à radiofónica, à televisiva ou àquela que tem a internet como veículo de difusão.
3. Quais serão, na sua perspectiva, as tendências futuras da comunicação jornalística?
Fundamentalmente o que foi evoluindo desde os fins do século XIX com a multiplicação das edições dos diários ao longo do dia, e depois com a noção da informação em direto (primeiro com a rádio, depois com a televisão e agora com a internet) é a noção de informação em tempo real : levar ao conhecimento do público acontecimentos da atualidade no momento mesmo em que se estão a desenrolar. Por outro lado, o mundo passou a ser uma aldeia planetária, todos nós podendo em princípio seguir a atualidade na outra ponta do mundo a partir de média localizados nessa mesma zona do mundo. Por outro lado, todo e qualquer indivíduo passou a ter a possibilidade técnica de poder ser não apenas consumidor de informação, mas ele próprio produtor de informação. Porém, os grandes princípios da informação jornalística continuam a ser de atualidade, a prática multifacetada do jornalismo, assim como a arquitetura e o funcionamento das redações é que estão a mudar substancialmente.
4. O jornalismo regional tem condições de afirmação face ao domínio dos grandes media? De que modo?
O jornalismo regional sempre teve e continua a ter condições de afirmação face aos grandes média. Porque, como explico no segundo ponto do primeiro capítulo, as pessoas interessam-se antes do mais pelo que se passa no espaço imediato em que vivem, pelas pessoas e os sítios que conhecem. Mas o jornalismo regional supõe dois requisitos essenciais. O primeiro destes requisitos é que a informação proposta tem que ser extremamente rigorosa e precisa, porque as pessoas conhecem precisamente aqueles de que se fala e muitos dos aspetos dos assuntos de que se fala. O segundo é que a informação não pode transformar-se numa comunicação oficiosa das instituições e das empresas da região, dos poderes constituídos : tem que praticar a devida distância, a indispensável verificação dos elementos fatuais e o desejável sentido crítico em relação às pessoas e aos acontecimentos que são abordados.
5. De que forma pode o jornalismo regional ultrapassar o ‘jornalismo sentado’?
Não ficando “sentado” e indo precisamente para “o terreno”. Não fazer um jornalismo à base de comunicados, telefonemas ou mesmo conferências de imprensa, mas indo para a rua, para os bairros da cidade, para as aldeias e vilas da região, lá onde se passa a vida quotidiana das pessoas, entrando em contacto com elas e com situações de que elas lhes falam ou que os jornalistas descobrem ao dobrar da esquina da rua…
J.-M. Nobre-Correia, Teoria da Informação Jornalística, Almedina, 362 pp.
Texto publicado no diário As Beiras, Coimbra, 24 de maio de 2018, p. 29.

terça-feira, 15 de maio de 2018

As outras "baixas densidades"

J.-M. Nobre-Correia
Os poderes locais vivem numa quase impunidade, irregularidades e ilegalidades sendo moeda corrente…
Ser imperial e centralista é a tendência natural de Lisboa : os últimos séculos provam-no sobejamente. Foi-o em relação aos territórios de além-mar. E continua a sê-lo em relação ao Portugal “do interior”, para além do território que considera ser a sua inevitável área de expansão.
Com o regresso da democracia, a situação não mudou de maneira claramente percetível. E os projetos atuais de descentralização municipalista, sem criação de regiões, acentuarão ainda mais a situação dos pequenos potentados locais que se comportam como reizinhos da terra.
A verdade é que a desgraça económica, social, cultural e demográfica em que se encontram as regiões de “baixa densidade” não são só fruto da tendência imperial e centralista de Lisboa. A situação convém perfeitamente a notáveis locais que vivem assim em grande impunidade no que diz respeito ao Estado de direito, às suas leis e aos seus regulamentos. Porque os poderes executivo e legislativo nacionais não sabem o que por cá se passa. E porque os média ditos nacionais também o ignoram.
O “pessoal político” que ocupa os postos de comando da sociedade portuguesa é em grande parte oriunda de Lisboa ou residente a maior parte do tempo em Lisboa. Mesmo quando se faz eleger em distritos eleitorais “do interior” de que tudo ignoravam e de que tudo continuaram largamente a ignorar, pois não vivem a vida quotidiana dos que cáresidem realmente. Mesmo se não têm pejo algum em declarar residirem “no interior” e assim usufruírem das benesses financeiras do Estado e das suas “ajudas de custo”. Sejam embora os endereços declarados muitas vezes fictícios e que os que cá vivem e trabalham nunca ou quase nunca os por cá vejam.
Este sistema político aberrante que permite que sejam eleitos (a nível nacional como local) gente que de facto não reside (e até, por vezes, nunca residiu) nos círculos eleitorais que vão representar, não favorece a tomada de conhecimento pelas instituições centrais do Estado das ilegalidades e irregularidades praticadas quotidianamente a nível local. E a função de contra-poder que é uma das razões de ser dos média, também ela é pouco ou nada exercida.
A fragilidade dos média locais, nomeadamente em termos jornalísticos, faz que tenham em boa parte dos casos caído mais ou menos indiretamente nas mãos dos eleitos locais, passando a ser quase sempre boletins oficiosos da ação destes. Enquanto que para os média ditos nacionais “o interior” é uma zona cinzenta da informação, dispondo raramente de correspondentes locais e vendendo cá os jornais um número irrisório de exemplares.
Desde logo, as chamadas autoridades locais vivem numa quase-impunidade. Constituindo as suas redes de exercício do poder, fazendo eleger funcionários municipais como presidentes de juntas de freguesia, de corporações de bombeiros, de instituições bancárias regionais, de misericórdias, de instituições culturais, de associações desportivas ou de lazer…. De tal modo que toda e qualquer crítica positiva ou mera oposição seja muito simplesmente impossível.
A articulação entre instituições locais assim arquitetada faz que todos os abusos, ilegalidades e irregularidades passem a ser prática corrente. Os departamentos da administração local agem assim com total desenvoltura perante os cidadãos, não respondendo sequer às diligências destes, ignorando soberanamente cartas registadas ou aviso de receção e mesmo diligências de advogado. Enquanto que os dossiês legalmente consultados pelos cidadãos são escandalosamente traficados de uma consulta para a outra, com a substituição de documentos e o desaparecimento de outros, em função dos reparos do dito interessado.
Neste tipo de situações, em Lisboa e até, sejamos benevolentes, no litoral centro-norte do país, haveria sempre alguma “fuga” generosa que chegaria a “jornalistas de investigação” para fazer rebentar uma “exclusividade” picante. No Portugal “do interior”, os escândalos de administrações locais caiem no silêncio da indiferença da política, da justiça e do jornalismo. E os pequenos potentados locais querem que assim continue a ser, de modo a que possam reinar soberanamente na “sua” freguesia” ou, melhor ainda, no “seu” concelho

Professor emérito da Université Libre de Bruxelles residente no Fundão.

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 15 de maio de 2018, p. 53.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Interrogações e incertezas várias

J.-M. Nobre-Correia
Média :Uma primeira operação foi concretizada. Mas as negociações para a venda doJornal do Fundão parece terem encalhado num impasse…
Na série de textos aqui publicados sobre o futuro do Jornal do Fundão[1], houve um elemento que não foi frisado e que o deveria ter sido. Aquele que consistia em dizer que a operação de compra-venda da empresa editora deveria operar-se em dois tempos. Num primeiro tempo era a Global Média, acionista maioritário que tomaria o controle das ações detidas pelas filhas de António Paulouro. E só num segundo tempo é que a Global Média procuraria vender a totalidade ou a maioria da sua participação aos potenciais candidatos. Ficando no entanto a porta aberta a outros possíveis compradores, caso não houvesse finalmente entendimento com os atuais.
Entretanto foi publicado o anunciado texto na primeira página do Jornal do Fundão (“Fim de ciclo”) assinado pelas irmãs Maria Teresa e Maria José Paulouro, e pelo primo Fernando Paulouro Neves. Um texto puramente hagiográfico e claramente saído da pena de Paulouro Neves. Mas um texto em que faltava evocar dois aspetos fundamentais para que os leitores compreendem-se o que se passava : as razões da venda em 1998 da maioria do Jornal do Fundão por António Paulouro ; e as da venda atual da minoria pelas suas filhas.
Claro que, no primeiro caso, não se estava à espera que nos fossem desvendadas as condições em que foi realizada uma venda à Lusomundo (o principal distribuidor de filmes do país), em que intervieram indiretamente António Guterres, então primeiro ministro, e muito diretamente Manuel Roque, genro de António Paulouro e, na altura, presidente do conselho de administração da RTP. E no caso da segunda, a situação financeira atual do Jornal do Fundão e do défice de cerca de um milhão de euros.
Pelo caminho ficaram também episódios como o da venda do Jornal do Fundão a Agostinho da Silva, da Torralta, anunciada pelo Expresso antes do 25 de Abril …e de que nunca mais se ouviu falar depois do regresso da democracia. Ou da tentativa de constituição de uma cooperativa, para a qual contribuíram muitos amigos do Jornal do Fundão …aos quais foi devolvido anos depois o dinheiro investido, o escudo tendo entretanto perdido muito do seu valor e os juros prometidos nunca tendo sido afinal remetidos aos potenciais cooperadores.
A publicação do texto de primeira página na edição de 19 de abril deu porém lugar a uma operação de comunicação bastante laudatória junto dos média ditos nacionais. Não impedindo estes de fazer por vezes afirmações desprovidas da devida factualidade, nomeadamente em termos de tiragens e de vendas. Ora, o último Boletim Informativo da APCT (Associação Portuguesa para a Controlo de Tiragem e Circulação) publicou números bastante precisos sobre o bimestre de janeiro-fevereiro : tiragem 10 242 exemplares, vendas em banca 1 239, assinaturas em papel 6 135 (ou seja : circulação impressa paga 7 374), ofertas 590 (ou seja : circulação impressa total 7 963). As estes dados da edição em papel vêm a acrescentar-se 142 assinaturas digitais. O que dá uma circulação total (papel e digital) de 8 105 exemplares. Números nitidamente em queda desde há muitos anos e que não são apenas da responsabilidade da atual direção do jornal.
Passado este primeiro momento de efervescência, o que importa agora saber é quem virão a ser realmente os futuros proprietários do Jornal do Fundão. Convirá sobretudo está atento ao facto de saber se, por detrás deles, haverá quem puxe os cordelinhos em função de interesses não anunciados e pouco jornalísticos. Ou se se tratará de verdadeiros profissionais preocupados antes do mais em praticar um autêntico jornalismo de fundo em prol da região…
Enquanto vamos esperando que o mistério seja desvendado, as negociações com os candidatos conhecidos parece terem sido suspensas, nomeadamente por divergências sobre os montantes financeiros da operação. O que leva a Global Média a abrir de novo o leque das opções, incluindo a de continuar a editar o Jornal do Fundão com uma nova direção…


[1]Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, “Em vésperas de vida nova…”, in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018,
J.-M. Nobre-Correia, “Em fase de grandes manobras”, in Notas de Circunstância 2, 14 de março de 2018,
J.-M. Nobre-Correia, “Do hermetismo à transparência”, in Notas de Circunstância 2, 13 de abril de 2018 e
J.-M. Nobre-Correia, “Fim de um longo capítulo”, in Notas de Circunstância 2, 14 de abril de 2018.
A publicação destes textos levou ao corte do serviço de “oferta” do jornal ao autor desde 1965, durante mais de 52 anos ! “Oferta” justificada pela colaboração gratuita (nomeadamente na página de informação sobre o Fundão), de novembro de 1963 a maio de 1965, e, em seguida, pela colaboração episódica igualmente gratuita. Só na última fase, como cronista quinzenal de janeiro 2010 a novembro de 2013, tive o privilégio de ser um dos quatro colaboradores exteriores de então a serem remunerados…