domingo, 30 de dezembro de 2018

Do jornalismo bota-fogo

J.-M. Nobre-Correia
Quando os média esquecem que o seu futuro e até a sua sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural…
Historicamente, a função de emoção sempre coexistiu com a de razão. Os “ocasionais” parajornalísticos, aparecidos em finais do século XV por essa Europa fora, relatavam factos de atualidade com incidência na vida dos meios dirigentes. Mas, um pouco mais tarde, os “canards”, para um público mais popular, falavam de sobrenatural, de milagres, de crimes, de catástrofes naturais mais ou menos excitantes.
Com a industrialização da imprensa no século XIX eclodiu também a prática jornalística propriamente dita. E, progressivamente, foram-se decantando dois tipos de imprensa de informação geral. A que dava a prioridade à exposição e interpretação serenas dos factos, a que se dedicará a chamada imprensa de referência. E a que privilegiaria o que era de natureza sensacional, mais preocupada com ingredientes bem condimentados e que se chamará imprensa “popular”. Passando esta a ser dominante em termos de vendas, a partir dos anos 1860.
Esta segunda tendência será reforçada com a chegada da rádio, dos seus “diretos”, dos seus jornais a várias vozes e as suas gravações dos mais diversos sons: gritos, risos, choros. O que acontecerá sobretudo a partir dos anos 1950. Tendência reforçada ainda com a imagem animada e a invasão dos lares europeus pela televisão nos anos 1960-70.
A desmonopolização do sector audiovisual nos anos 1970-80, fruto conjugado de novas tecnologias e de um novo “ar do tempo” cultural e político, desencadeou uma terrível lógica da concorrência. Todas as artimanhas serão doravante usadas para atrair o público, aumentar as audiências e fazer falar das próprias “exclusividades”. Tanto mais que a dita desmonopolização provocou uma incomensurável fragmentação do tecido social e uma cada vez maior incomunicabilidade entre grupos sociais que deixaram de partilhar temáticas de diálogo e até mesmo linguagem. Situação que a internet, a partir da segunda metade dos anos 1900, virá a acentuar de maneira exponencial.
Em fins do século XIX e início do século XX, os média foram um instrumento de integração social e um catalisador do sentimento de cidadania em democracias balbuciantes. E os destinos da imprensa e da informação jornalística estavam então intima e dialeticamente ligados aos da democracia política e do pluralismo sociocultural. Progressivamente, nestes últimos decénios, os média passaram a ser fatores de fragmentação social e de individualização dos comportamentos.
Com a perda de audiência de todos eles (considerados individualmente), resultado de uma infindável proliferação, os média de informação passaram a privilegiar acontecimentos e personagens disruptivos. Acontecimentos embora menores, mas que dão o sentimento de que, decididamente, nada funciona nesta nossa democracia. Personagens líderes ultra-egocêntricos de sindicatos, ordens ou ligas que fazem declarações e propõem ações quantas vezes inaceitáveis e até antidemocráticas.
No seu umbigo-centrismo, estes personagens perceberam bem que a boa estratégia para passarem constantemente nos média, e sobretudo na televisão, é fazerem declarações mais ou menos aterrorizantes : ausência de aulas ou de avaliações  nas escolas, atrasos em atos médico-cirúrgicos decisivos, riscos de incêndios fora de controlo,… E os média, esquecendo-se da responsabilidade social do jornalismo, põem-nos em evidência e até favorecem, reforçam este tipo de atitudes. Agindo de facto como verdadeiros bota-fogos de situações capazes de constituir autênticos atentados à democracia legalmente constituída.
Pensam eles, média e jornalistas, que vão assim conquistar público e alargar as suas audiências. Na realidade, vão apenas cobrir-se de descrédito, levar cada vez mais os cidadãos com um pouco de sentido crítico a afastar-se, a deixar pura e simplesmente de frequentá-los. Sobretudo quando boa parte destes cidadãos tem (erradamente) o sentimento de que poderão encontrar nas chamadas “redes sociais” a informação de que precisam, dispensando assim a produção dos jornalistas.
Os média de informação geral estão assim a cavar a cova em que se hão de enterrar. Esquecendo que o seu próprio futuro, a sua própria sobrevivência estão intimamente ligados aos da democracia plural. Quando o jornalismo bota-fogo atual consiste inequivocamente num convite irresponsável para uma “democratura” com que os órfãos do salazarismo tanto sonham…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística (Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 28 de dezembro de 2018, p. 46.