domingo, 31 de maio de 2020

Melhores dias terão que vir…

J.-M. Nobre-Correia
Com a recente “ajuda aos média” perdeu-se a oportunidade de abordar o fundo da questão da pobreza da imprensa…
Estranho ballet a que assistimos há meia dúzia de meses em torno dos média! Ou é o presidente da República que, na sua obsessão de omnipresença, pede para que o Estado os ajude. Ou são o Sindicatos dos Jornalista e a Associação Portuguesa de Imprensa que vão a Belém mendicar ajudas (como se vivêssemos em regime presidencial). Ou são patrões dos média (com proprietários por vezes de países democraticamente pouco recomendáveis) que desfilam na Presidência da República a estender a mão ao Estado. Ou é o próprio governo que mete um pouco os pés pelas mãos, atribuindo ajudas sem previamente esclarecer os critérios adotados e corrigindo depois a grelha anunciada. Ou são até alguns que publicamente pedincharam e dizem agora que, não Senhor, como grandes liberais que são, visceralmente anti-Estado, não pediram nada, o dito Estado não tendo sido generoso com eles!…
Neste ballet com alguns “pas de deux” plenos de humor, perderam-se de vista aspetos essenciais. As ajudas atribuídas foram teoricamente consequência da perda de receitas publicitárias provocada por longas semanas de pandemia e, no caso da imprensa, da queda das vendas em banca. Mas a preocupação em finais do ano passado era antes procurar relançar uma certa dinâmica no sector dos média, num país onde, globalmente, a imprensa e o jornalismo são extremamente pobres. A pandemia foi-se assim fazendo esquecer aquela que é de facto a urgência absoluta: modernizar fundamentalmente a informação escrita deste país.
Portugal conta pouquíssimos diários e semanários de informação geral, publicados quase unicamente na faixa litoral centre-norte, sendo as tiragens deles exageradamente baixas em relação à demografia do país. Depois há numerosíssimos periódicos locais e regionais que, na maioria dos casos, se encontram ainda naquilo que poderíamos chamar a fase pré-industrial da imprensa. Com redações muitas vezes reduzidas à sua mais simples expressão. Com periodicidades tão espaçadas que é impossível seguir realmente a atualidade. Com tiragens que os impedem atingir leitorados suficientemente vastos. E com conteúdos que pouco têm de jornalismo profissionalmente competente e independente.
Ora, era no desenvolvimento desta imprensa (em papel e/ou em digital) nacional ou regional que deveriam ser investidos fundos públicos. De modo a permitir que os jornais “nacionais” reforcem fortemente equipas de redação e de gestão. Que se dotem de correspondentes na província e no estrangeiro, prioritariamente lá onde se decidem os destinos do mundo e onde as populações lusófonas são numerosas. Que possam propor edições digitais para as diferentes regiões do país e edições internacionais para os leitores em África e na América, edições autónomas em termos de conteúdos jornalístico e publicitários.
Na imprensa local e regional deveria procurar-se fomentar a concentração dos meios financeiros, técnicos e humanos. A grande maioria das publicações semanais, quinzenais e mensais atuais não satisfazem minimamente os critérios elementares de exigência em matéria de informação, de factualidade, perspetivação e análise. Há que favorecer o aparecimento de verdadeiros semanários e de alguns diários capazes de propor uma cobertura da atualidade abundante, fruto de redações suficientemente numerosas, diversificadas e competentes, e de administrações conhecedoras das especificidades da economia dos jornais (em papel ou em digital).
Nestes tempos de pandemia, os 15 milhões que acabam de ser atribuídos a um certo número de média são de facto uma “ajuda” como tantas outras anunciadas para outros sectores de atividade. Mas foram de certo modo uma “ajuda” dada a fundos perdidos, pois ninguém imagina que venham a provocar inovações na conceção editorial ou na gestão das empresas beneficiárias. Enquanto a grande mutação de fundo que é urgente pôr em marcha na informação escrita continuará à espera de melhores dias. A menos que se continue a pensar que a democracia em Portugal não precisa de grandes jornais para informar os cidadãos, nem para suscitar análises e debates de fundo sobre o futuro incerto da sociedade em que vivemos: o que seria deveras preocupante…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 30 de maio de 2020, p. xx.

sexta-feira, 29 de maio de 2020

As palavras como traição

J.-M. Nobre-Correia
Há sempre qualquer coisa de estranho quando um média fala de um cidadão estado-unidense dizendo ou escrevendo “afro-americano”. Mas, claro — já repararam? —, nunca dizem ou escrevem um “euro-americano”!…
No primeiro caso, trata-se de um “negro”: é isso que os média nos querem significar. No segundo caso, não o qualificam com um prefixo porque se trata de um estado-unidense “branco”, que faz parte do grupo étnico que globalmente detém o poder económico, político e militar.
Depois, as raras vezes que os média têm que falar daqueles que são os verdadeiros americanos, que têm historicamente como origem a América, o continente americano, chamam-lhes “índios”…
O que quer dizer que os termos que os média utilizam nunca são neutros. São muitas vezes fruto de uma mera inconsciente irresponsabilidade, atribuível até à pura ignorância. Porque os termos que os média empregam são de facto traiçoeiros e traduzem, com maior ou menor subtileza, uma maneira de nos propor uma leitura da história e uma perceção particular da realidade social…

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Aquelas coisas que se vão repetindo…

J.-M. Nobre-Correia
Em matéria de imprensa, fazem-se para aí afirmações totalmente desprovidas de fundamento. Mas a gente do meio quer lá saber disso…
Em reação a um texto intitulado “Grupo de cidadãos pede urgente classificação do arquivo do DN”, aparecido esta manhã no Público, Pedro Tadeu publica esta tarde um interessante artigo no Diário de Notícias em linha.
Tadeu ocupou postos de responsabilidade na direção do Diário de Notícias e assina o dito artigo como “diretor da Direção de Documentação e Informação da Global Media Group”, o grupo proprietário do jornal.
No dito texto, Tadeu faz no entanto uma afirmação que é uma velha lengalenga a propósito do Açoriano Oriental: “o mais antigo diário da Europa, fundado em 1835”. Afirmação que não tem fundamento algum.
Há uma vintena de anos, o então diretor Gustavo Moura (falecido no ano passado) escreveu-me para Bruxelas, pedindo-me para eu lhe confirmar tal estatuto de “mais antigo diário da Europa”. Respondi-lhe com um correio relativamente pormenorizado que não lhe deve ter agradado, …dado que nunca agradeceu a resposta. E a lengalenga foi continuando a ser repetida por aí pelas mais diversas “autoridades” do meio!…
Ora, tal afirmação contém de certa maneira dois dados que não correspondem à realidade dos factos. O primeiro é que o Açoriano Oriental, lançado em 18 de abril de 1835, era na origem um semanário e só adotou a periodicidade diária em 3 de janeiro de 1979 (quer dizer: 144 anos depois). Pelo que é solicitar “a ferros” um estatuto de “mais antigo diário”, quando o é apenas há 41 anos.
Quanto à pretensão de ser “o mais antigo diário da Europa”, ela não tem fundamento nenhum. Há bastantes diários por essa Europa foram criados antes de 1835 (…para não falar de 1979). Um exemplo conhecido por todos aqueles que têm algumas noções de história da imprensa: The Times, de Londres, foi lançado em 1 de janeiro de 1785 (chamava-se então Daily Universal Register, tendo adotado o nome atual exatamente três anos depois).
Já menos conhecidos são os casos de dois diários italianos que se publicam ainda hoje: Gazzetta di Mantova, de Mântua, lançada em junho de 1664 (mesmo se o nome só data de 3 de janeiro de 1807), e Gazzetta di Parmalançada em 1735 (o primeiro número conhecido datando de 19 de abril de 1735).
É inútil continuar a lista. Mas seria bom que no meio profissional não se continuassem a fazer tais afirmações que dão prazer aos “bons patriotas” e sobretudo aos nossos amigos açorianos. Pela simples razão que tais afirmações não têm ponto por onde se lhes pegue…

sábado, 9 de maio de 2020

O culpado é bem conhecido!

J.-M. Nobre-Correia
Estes telejornais, à hora do almoço ou do jantar em família, são uma provocação que suscita irritação …ou sorrisos amarelos!
Ver um telejornal português às horas das principais refeições constitui um momento perigosamente favorável para uma suprema irritação …ou para provocar amargos sorrisos amarelos!
Eu resumo: esta pandemia que por aí anda é manifestamente obra do governo. Não há dúvidas! Sabe-se lá até se não foi o próprio governo que fez importar esse tal coronavírus… Mas o que é claro é que o governo tem gerido muito mal esta pandemia (digam lá o que disserem os média de referência estrangeiros: nós é que cá vivemos!)!
Quem sabe bem o que se passa e diz tudo claramente sobre o assunto são essas ordens e esses sindicatos todos que por aí há. Sobretudo os seus formidáveis bastonários, presidentes e demais secretários gerais. Tudo gente altamente competente em tudo e desta feita competente em virologia e infetologia. É verdade que nenhum deles tem a intenção de meter as mãos na massa. Que nenhum deles quer assumir responsabilidades. E muito menos querem procurar resolver situações no próprio sector. Antes pelo contrário: como grandes líderes de “classe” que são, fazem tudo para complicar. Até porque é isso que lhes dá visibilidade nos média. Nem é preciso telefonar para solicitar os jornalistas: são estes que correm à procura das palavras decisivas dos “queridos líderes”…
Ora, como eles dizem, nesta história de coronavírus, a culpa é indiscutivelmente do governo desse tal Costa! Só pode! A prova é que, ao contrário do que aconteceu por cá, todos os países europeus, todos os governos europeus estavam preparadíssimos para esta pandemia! Quando a epidemia deu os primeiros sinais na China, estavam todos devidamente equipados e tinham tudo programado para desencadear o contra-ataque ao coronavírus. Daí os resultados formidáveis, praticamente sem infetados e sem mortos, em Espanha, em França, na Bélgica, na Grã-Bretanha, na Itália e por aí fora…
Para que serve ler diários, ouvir rádios ou ver televisões ditos “de referência” de diferentes países? Eles sabem lá do que falam: nós é que cá vivemos. E as nossas televisões é que sabem e dizem as verdadinhas todas: abençoados sejam os nossos jornalistas e demais “comentadores”, tudo gente altamente qualificada, competente e de indiscutível independência política…
Dito isto, deixa-me cá desligar esta porcaria da televisão portuguesa, de maneira a manter um pouco de serenidade e de clareza nas ideias!…

sexta-feira, 8 de maio de 2020

Uma magnífica reportagem!

J.-M. Nobre-Correia
É raro, muito raro, mas por vezes acontece. E a RTP, numa iniciativa pessoal de um seu jornalista, mostra-nos um país desconhecido…
A RTP passou ontem na segunda parte do seu telejornal das 20h00 uma magnífica reportagem sobre a vida das gentes de Monsanto (“a aldeia mais portuguesa de Portugal”, diziam os salazaristas!), na Beira Baixa, nestes tempos trágicos de pandemia. Uma reportagem tanto mais magnífica que foi tecnicamente realizada e sonorizada em telemóvel pelo seu autor, João Pedro Mendonça (é justo que aqui se escreva o seu nome). Uma reportagem de iniciativa manifestamente pessoal de um jornalista em confinamento obrigatório.
Só que esta reportagem é um belo exemplo deste Portugal desconhecido que as televisões e demais média nacionais poderiam e deveriam mostrar-nos e não nos mostram. Porque o Portugal deles é sobretudo, e mesmo quase exclusivamente, o de Lisboa e um pouco o do Porto. O resto do país não existe! O país “do interior”, o tal “das baixas densidades”, para eles não existe, salvo grande catástrofe ou miserável “faits divers”. E é assim desde meados do século XIX, pelo menos, desde que a industrialização da imprensa a destinava a um vasto público…
Desde logo, “amor com amor se paga” e os jornais ditos “nacionais” pura e simplesmente não são comprados nem lidos por estas paragens votadas ao abandono e que eles, jornalistas e média “nacionais”, desconhecem e querem continuar a ignorar…

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Estes inconscientes que nos informam

J.-M. Nobre-Correia
Da extrema direita vem uma proposta de confinamento de um grupo sociocultural. E há logo um média para fazer disso tema de debate !…
Aquilo que leio por aí sobre a emissão desta manhã do “Fórum TSF” prova claramente que anda muita gentinha a ganhar a vida com uma “carteira profissional de jornalista” que tem falta de pelo menos três formações essenciais de base. Para começar, uma necessária formação jornalística académica séria. Depois, uma indispensável formação cultural vasta e suficientemente aprofundada. Por fim, e sobretudo, uma formação democrática no sentido forte da palavra, que deveria aliás ser condição sine qua non de acesso à profissão.
A exigência destas três formações compreende-se tanto melhor quando sabemos que o jornalismo constitui uma componente essencial do debate democrático. Ao mesmo tempo que constitui um mecanismo de controlo do funcionamento democrático da sociedade em que vivemos.
Mas o erro jornalístico, cultural e democrático da TSF esta manhã vai uma vez mais pôr à prova a ERC. Veremos então se a dita ERC serve para alguma coisa. Se tem realmente alguma razão de existir, tal como é e como funciona. Interrogações que surgem muito naturalmente, dada a inutilidade que tem demonstrado perante tantas e tantas situações inquietantes dos média, e defronte a numerosas derrapagens do jornalismo praticado neste país!…

terça-feira, 5 de maio de 2020

Esbanjar ou saber investir

J.-M. Nobre-Correia
Do mundo dos média surgem pedidos para ajudas financeiras do Estado. Mas há que avaliar a pertinência de tais pedidos…
Nestes tempos de calamidade sanitária, com as sequelas económicas que se imaginam, muitas empresas e instituições pedem dinheiro ao governo. Quer dizer: ao Estado. Ou melhor: a todos nós. Esperando cada uma que sejam, evidentemente, os outros a pagar o crédito que lhes será favorecido.
Entre as suplicantes, a imprensa diária desportiva e a imprensa regional. Ora, no primeiro caso, tal pedido é chocante. Não é esta mesma imprensa que assiste impávida e serena ao escandaloso mercato de jogadores de futebol e de outras modalidades que lembra, mutatis mutandis, os antigos mercados de escravos? Não é ela que recusa denunciar os valores enormes das transações e os salários gigantescos de olimpianos de que ajuda a modelar a imagem pública? Não é ela que se “esquece” de se opor à destruição de estádios para que se construam outros mais faraónicos, nalguns casos largamente vazios agora? Não é ela que só aborda, quando já não é possível deixar de o fazer, a questão das corrupções e malversações que reinam nos grandes (e nalguns pequenos) clubes desportivos?
Em que é que tal imprensa contribui para o bom funcionamento e o reforço da sociedade democrática que justifique uma ajuda financeira pública? Não deveria antes, em vez se voltar para o governo, dirigir-se àqueles a quem dá inestimável colaboração e fortíssimo apoio? Isto é: que peça ajuda aos clubes desportivos e demais vedetas do desporto. Àqueles entre os quais circulam fluxos financeiros gigantescos que passam muitas das vezes por paraísos fiscais. Eles precisam em permanência dela, agora é ela que precisa transitoriamente deles!
Que a imprensa desportiva não venha pedir ajuda ao governo! Até porque ela é um instrumento nefasto de perversão da vida social e até da vida política do país. Lentamente, ao longo de anos, foi inculcando (com a ajuda das rádios e das televisões que temos) a “cultura” de boa parte do desporto e sobretudo do futebol na mecânica intelectual de demasiados cidadãos. Com a sua conceção de batalha campal, de confrontação, de agressão e de violência. Com a sua terminologia em parte inspirada na prática militar da guerra. Com a sua incapacidade para o diálogo, o compromisso e o consenso.
Na Europa anglo-saxónica não há diários desportivos. Em França há um, na Itália três e na Espanha quatro com caráter “nacional”: será normal que em Portugal, demograficamente quatro a seis vezes mais pequeno, haja três? Esta mesma abundância de títulos se encontra na imprensa regional. Só que aqui a questão põe-se de maneira bastante diferente…
É claro que existe uma profusão de jornais regionais no país. Mas, globalmente, estes jornais têm três caraterísticas. Primeiro, no continente, nenhum deles (diário ou periódico) é de natureza a dispensar um média nacional na informação política, social, económica, cultural e até desportiva. Depois, a maioria dos títulos não dispõe de um mínimo de redatores profissionais para assegurar uma cobertura da atualidade substancial de qualidade. E por fim, boa parte deles publicam sobretudo “comunicados” mais ou menos adaptados de instituições e empresas, e são geralmente porta-vozes oficiosos de poderes locais.
Uma ajuda financeira indiscriminada traduzir-se-á neste caso em fundos perdidos a curto ou a médio prazo. Porque o que é necessário fazer não é manter em vida periódicos não viáveis e pouco satisfatórios em termos jornalísticos. A urgência é favorecer uma mutação tecnológica e editorial de fundo, de modo a que surjam nas regiões do interior um ou dois semanários sólidos em cada uma delas, com paginações abundantes e práticas jornalísticas independentes fortes. E porque não favorecer o aparecimento de três ou quatro diários, de modo a propor aos cidadãos das regiões, assim como do resto do país, leituras diferentes da atualidade, escapando enfim àquelas que, ao longo de século e meio, os média de Lisboa e do Porto têm proposto…
Vivemos um momento histórico demasiado incerto para que desperdicemos meios financeiros que já não eram muitos e que serão ainda mais escassos no próximo futuro. Há, pois, que fazer opções que possam realmente contribuir para o pluralismo da imprensa e da informação generalista…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles.
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 5 de maio de 2020, p. b17.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

As razões de uma escolha

J.-M. Nobre-Correia
Comprar um jornal não significa necessariamente procurar informar-me no sentido forte do termo. Outras motivações existem…
Hoje de manhã, apresentei-me numa das minhas habituais lojas de jornais. E diz-me o jovem proprietário, que sabe quem eu sou: é interessante constatar que, quando a pandemia começou, os leitores deviam ter necessidade de informação fidedigna. E as minhas vendas do Público quase dobraram então, enquanto as do Correio da Manhã quase passaram para metade.
Agora que já estamos a sair da crise — prosseguiu o jovem proprietário —, estamos a voltar à situação anterior: o Público a baixar e o Correio da Manhã a subir. A explicação empírica do jovem proprietário pareceu-me magnificamente límpida e interessante.
Procurei eu então dar uma breve explicação, enquanto me ia servindo e preparando o troco do pagamento: o que boa parte das pessoas procuram num jornal sensacionalista não é propriamente informação que lhe permita compreender o mundo, a sociedade em que vive, e tomar as decisões do dia-a-dia que se impõem. Procuram sim, antes do mais, distração, sensações fortes e temas de conversa com as pessoas que frequentam e que têm geralmente um nível cultural similar ao delas…
Há outro aspeto que é igualmente importante na compra e na escolha que se faz de um jornal: dar uma imagem de si ao meio social em que se vive. É manifestamente um dos elementos importantes que leva aos sábados à compra do Expresso: expor o tradicional saco do jornal à vista dos outros, é querer dar uma certa imagem de si àqueles que o veem.
Nos anos 1960 em Paris, havia gente que comprava os dois vespertinos de então: France-Soir, que era ainda o maior diário francês e o mais sensacionalista, e Le Monde, que era e continua a ser o diário francês de referência por excelência. O primeiro era então geralmente e cuidadosamente escondido debaixo do casaco, metido no saco de mão ou dobrado dentro do segundo. Sendo este atentamente posto à vista de todos: ali ia um/a homem/mulher com um certo nível cultural e provavelmente um confortável nível de rendimentos!…

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Há entrevistas e "entrevistas"

J.-M. Nobre-Correia
Ver entrevistas nas televisões portuguesas é assistir a tristes espetáculos de gente que se toma por toureador ou treinador de futebol…
Eu sonho com o dia em que um personagem de primeiro plano (na política, na economia, na sociedade, na cultura…) que, ao ser entrevistado numa televisão portuguesa e esteja a ser constantemente interrompido, se levante e diga: eu pensava que vinha aqui para ser entrevistado, mas como é(são) o(s) senhor(es) que me está(ão) a expor as suas(vossas) opiniões sobre o assunto e a impedir-me de explicar o que quero dizer, e até mesmo a não permitir-me sequer concluir as frases que procuro pronunciar, peço desculpa, mas tenho mais que fazer e vou-me embora. E que abandone então ostensivamente a sala ou o estúdio…
Talvez o(s) dito(s) entrevistador(es) experimente(m) então um sentimento de vergonha e vá(ão) procurar um manual de jornalismo para tentar(em) saber em que consiste exatamente uma entrevista e que regras deverão ser tecnicamente observadas para conduzir uma conversa com o convidado. E, já agora, que num manual da boa educação aprenda(m) também a não interromper(em) constantemente o entrevistado e a não falar(em) ao mesmo tempo que ele…
Mas os personagens de primeiro (e até de segundo) plano(s) deste país habituaram-se a tudo. Acostumaram-se a todas as faltas da mais elementar correção da parte daqueles que possuem uma carteira profissional de jornalistas …e que são muitas vezes meros pavões exibicionistas. E, quantas vezes, estes pavões nem sequer têm qualquer competência no sector de atividade ou na especialidade do entrevistado de modo a fazer-lhe dizer algo de verdadeiramente essencial e inédito, suscetível de interessar os espectadores…

Uma desgraça nacional

J.-M. Nobre-Correia
Nestes anos de democracia, foi criado um sem-número de ordens. Há que nos interrogarmos sobre a sua verdadeira função…
Há uma desgraça, uma horrível desgraça que descobri no meu regresso a Portugal, depois de ter vivido toda a minha vida profissional no estrangeiro: as chamadas “ordens profissionais”.
E há ordens para toda e qualquer profissão (ou quase)! Sem que se saiba por vezes o que poderá bem ser a função de tais ordens em tais profissões. E pior do que isso: há profissões que só podem ser exercidas se o candidato a um posto de trabalho tiver o indispensável reconhecimento pela respetiva ordem. E sobretudo, claro, se pagar as exigidas quotas. Dois verdadeiros escândalos nacionais!…
Depois há os bastonários, personagens que fazem algumas vezes carreira na política partidária ou que ambicionam entrar futuramente na vida política. Enquanto vão tomando iniciativas que são clara e prioritariamente de caráter sindical. E alguns deles, pelo menos, vão levando vidas mais ou menos fastuosas …à custa das ditas quotas!
Em resumo: há uma proliferação de ordens em Portugal (a Wikipedia enumera nada menos de 18 e não estão lá todas: falta, por exemplo, a dos geólogos) que não têm sentido nenhum e que mais não são do que a continuação das antigas corporações de má memória.
Um sério funcionamento democrático da sociedade portuguesa exige que se meta urgentemente ordem nesta matéria. Que se defina clara e estritamente no plano legislativo a noção de ordem, delimitando as suas competências e o seu funcionamento…

terça-feira, 21 de abril de 2020

Decisões a contracorrente

J.-M. Nobre-Correia
O Global Média reduz salário e horário dos redatores do Diário de Notícias: é isso que vai melhorar a situação do jornal?…
Com raríssimas exceções, os editores de jornais fazem sempre uma muito má aposta quando reduzem o número de jornalistas de uma redação e os meios de que dispõem os ditos jornalistas para produzirem boa informação. Para recolher factos e opiniões de atualidade, verificá-los, contextualizá-los, interpretá-los e propor análises dos ditos factos e opiniões.
Isto porque, com a ressalva das raríssimas exceções (jornais onde a abundância de jornalistas e de meios é manifesta, onde há gente que já nada produz e um evidente esbanjar de dinheiro), a redução de gente e de meios repercute-se sempre no conteúdo dos jornais.
Desde logo, assiste-se naturalmente a uma vaga de leitores que vai deixando de ler e de comprar o jornal. Porque o jornal tem menos páginas e menos a ler, porque desapareceu tal rubrica ou matéria especializada particularmente apreciada, porque deixou de escrever tal jornalista ou tal colaborador de que se gostava especialmente…
Esta realidade foi compreendida por muitos editores, sobretudo desde que o mundo dos média passou a ser particularmente prolífero e diversificado, e a concorrência mais assanhada. Pelo que a exigência dos leitores em relação ao conteúdo dos jornais é cada vez maior. O que leva diários como o britânico Financial Times ou o francês Le Monde a reforçar fortemente as suas redações em termos quantitativos como de competências: no início dos anos 2000, Le Monde contava apenas uns 300 jornalistas, hoje conta 450 (quer dizer 50 % mais)!
Há, pois, que recear que as decisões que acabam de ser tomadas com o Diário de Notícias sejam precisamente as piores. A perda de qualidade do jornal passará a ser ainda mais evidente. O que levará a uma perda de interesse por parte de leitores potenciais como de leitores tradicionais do jornal. A não ser, claro, que a administração, após esta sangria, se proponha reforçar substancialmente a redação com elementos de manifesta melhor qualidade…
Sabemos, com efeito, por exemplo, que um modesto diário como o francês Libération (73 963 exemplares de difusão) conta atualmente 183 jornalistas para uma publicação em papel seis dias na semana, mais um sítio em linha. E sabemos também que o Diário de Notícias contava apenas agora 34 jornalistas para fazerem uma edição semanal em papel, mais seis edições diárias em digital e um sítio em linha: a trágica situação desta velha instituição do mundo mediático português é pois por demais evidente…

domingo, 19 de abril de 2020

No reino dos hipócritas

J.-M. Nobre-Correia
É bem sabido: os “responsáveis” de base não são responsáveis de coisa nenhuma. E só sabem apontar o dedo para cima…
Lembram-se dos grandes incêndios florestais de há dois, três anos? E de como população e autarcas consideravam não terem responsabilidade absolutamente nenhuma no assunto? Se as florestas não estavam limpas, não era culpa deles! Se havia queimadas sem controlo, umas brasitas acesas para um churrasco ao ar livre, uns cigarritos acesos deitados pela janela do carro fora, não tinham sido eles, mas sim outros! Outros, outros, não especificados, evidentemente. E claro, no fim de contas, era notório que o responsável pela catástrofe só podia ser o governo da República!
Com esta brilhante demonstração, tivemos então direito a uma série de autarcas, envergando uniforme ad hoc, a porem-se em bicos dos pés perante as câmaras de televisão e demais jornalistas. Primeiro para dizerem, em tom mais ou menos agitado, que sempre foram uns autarcas impecáveis. Não tinham cuidado das florestas, não as tinham limpo, não as tinham vigiado, o que provava que o governo era o autor putativo dos incêndios! Pelo que, claro, exigiam (não pediam: exigiam) meios, e sobretudo meios financeiros, para que eles, pobres autarcas, pudessem fazer nas florestas aquilo que, segundo más línguas, deviam ter feito antes e tinham descurado fazer…
Pois agora, com o coronavírus, o espetáculo não está a ser fundamentalmente diferente. Pouco importa o que acontece por essa Europa fora. Embora a situação mostre que nenhum país estava de facto preparado para afrontar a pandemia. E que, até agora pelo menos, os números de infetados, de hospitalizados e de falecidos são bem mais elevados nos países vizinhos do que em Portugal. Mas nada disso importa: os autarcas das zonas mais afetadas estão de novo em polvorosa. E desta vez contam com a inestimável colaboração de provedores de misericórdias e demais diretores de lares (dedicados membros do clero, muitas vezes).
É que, vejam bem os leitores, tudo funcionava maravilhosamente bem nos municípios, hospitais e lares de que eram “responsáveis”, antes de irromper este tal coronavírus de que só o governo pode ser considerado responsável. Porque eles, autarcas, provedores e demais diretores, tinham tudo impecavelmente organizadinho antes: em termos de equipamentos como de pessoal, em todas as suas variantes: médicos, paramédicos, assistentes sociais, ajudantes,…
E será preciso dizê-lo? Ordens, sindicatos e demais associações profissionais habituais responderam logo “presente”, fiéis ao posto, sempre prontos a dar a indispensável ajudinha ao coro da algazarra geral. Com as nossas adoráveis televisões sempre prontas a estender câmaras e micros àqueles que, de preferência, são os mais acerbos na crítica e cruamente fulgurantes na expressão. E como boa parte da gente das redações de televisão não gosta de se cansar, não prepara nada, não filma nada, não monta nada, não grava voz offnenhuma, constitui antes uma provisão de novos “clientes” e de antigas vedetas para lhes facilitar a vida. O que nos dá direito a repetidas visitas dos mesmos intervenientes enquanto almoçamos ou jantamos em frente da televisão familiar, nestes tristes tempos de confinamento…
Este reino de hipocrisia geral é profundamente chocante e até mesmo aterrador. Perante situações trágicas e extremamente dolorosas (e no caso presente: de que se desconhecem por enquanto as consequências futuras), há gente investida de poderes administrativos cuja primeira preocupação é descartar-se de toda e qualquer responsabilidade: ingénuos que nós somos, pensando que ela até fazia parte das atribuições normais da função que ocupam. Mas não só a culpa não é deles como, no entender deles, é certamente de outros. E aproveitam para vir para as televisões e demais média numa agitação permanente a fazer campanhas pessoais que nada têm a ver com a natureza do acontecimento.
Caraterística cultural bastante arreigada, a maioria dos portugueses tem tendência a considerar que o que vai mal não é culpa deles, mas dos outros. E os “responsáveis” públicos de base apontam mesmo o dedo logo para cima. Portugal iria bem melhor, no entanto, se em circunstâncias trágicas, ao baile dos hipócritas e à feira das vaidades sucedesse uma réstia de dignidade e de sobriedade aos atores de circunstância…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles.

Texto publicado no diário Público em linha, Lisboa, 17 de abril de 2020.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Cidadania e responsabilidade

J.-M. Nobre-Correia
O relato e a interpretação da atualidade não podem consistir em entrevistas sem nexo. Para mais em tempos de crise…
Digam lá o que disserem. Mas todo e qualquer projeto de média tem à partida uma opção politico-cultural da sociedade. É claro que a dimensão económica, empresarial, é nalguns casos decisiva. E é mesmo importante que assim seja: num média, a prática jornalística só pode gozar de real autonomia e desabrochar plenamente se as receitas financeiras forem superiores aos custos e as contas geridas com mestria.
A comunhão em torno da opção politico-cultural é, no entanto, indispensável para fazer bem funcionar uma redação. É a sensibilidade correspondente que preside ao tratamento da atualidade e leva também o público a identificar-se com o “seu” média. O que se traduz na partilha de uma mesma visão em relação aos acontecimentos de atualidade, à seleção operada pelo média e à apreciação da sua importância, assim como à interpretação relativamente vizinha que faz e à tomada de posição nas suas grandes linhas que adota.
É que, tecnicamente, a tão apregoada objetividade não existe. Existe sim a boa fé, a competência, o rigor e a exigência no relato e na interpretação dos acontecimentos de atualidade. Só que tais noções variam de pessoa para pessoa, de coletividade humana para coletividade humana. Para além do facto que o profissionalismo não dispensa a tomada em consideração da dimensão cívica no tratamento da atualidade. E é aqui que os jornalistas não podem enveredar impunemente deixando-se seduzir por aqueles cuja obsessão é porem-se em bicos dos pés para aparecerem nos média. Nem cair na facilidade de dar a palavra aos eternos nomes conhecidos por ouras razões, mas perfeitamente incompetentes nas áreas em que é preciso acrescentar uma mais valia às explicações que o média precisa de propor aos leitores, ouvintes, espectadores ou internautas.
O que se tem passado regularmente nestes últimos tempos — por ocasião dos incêndios florestais ou da atual crise do coronavírus, das situações políticas na Venezuela ou no Brasil, para nos limitarmos a estes exemplos —, é absolutamente aflitivo e altamente preocupante. São os mesmos bastonários, líderes sindicais ou presidentes de ligas, os mesmos “colunistas” ou “comentadores” que, saindo da área de atividade e conhecimento natural deles, nos propõem, na sua grande incompetência desenvergonhada, interpretações ou tomadas de posição desprovidas de pertinência. E, por isto mesmo, não deveriam muito simplesmente ter tido direito a intervir na “peça” de informação proposta ao público.
A realidade é que as assessorias de imprensa se impõem cada vez mais perante redações diminutas e por vezes indolentes. Para não falar de uma conceção do trabalho jornalístico em que impera a facilidade na escolha dos “bons clientes” habituais, que não levam muito tempo a contactar, nem exigem grande esforço para retrabalhar em seguida os elementos de informação, explicação ou opinião recolhidos.
Mas há mais: numa “cultura jornalística” que manifestamente domina nas redações, sobretudo de audiovisual — e muito provavelmente, em montante, em escolas onde se deveria ensinar jornalismo —, o que é importante é dar a palavra a provocadores, a engraçadinhos, a indivíduos mais ou menos desbocados, que fazem preferentemente declarações bombásticas. Quer dizer: àqueles cujo “fundo de comércio” é “ser do contra” e “saber malhar”, pouco importando o fundamento factual das afirmações que fazem.
Ora, a cidadania, seja qual for a sensibilidade que a possa configurar, supõe que não se ofereça um palco a atores incompetentes e irresponsáveis, nem a declarações manifestamente contrárias ao interesse geral e ao funcionamento de instituições indispensáveis, sobretudo em tempo de crise. A menos de se considerar que os média e o conteúdo jornalístico que propõem aos seus públicos é totalmente desprovido de incidência na maneira de pensar e de agir dos leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. O que significaria então que, de facto, a informação seria puro entretenimento. E que a profissão do jornalismo mais não seria que uma subarte preocupada antes do mais em “animar a malta”…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles.


Texto publicado no diário Público em linha, Lisboa, 25 de março de 2020.

terça-feira, 10 de março de 2020

Por onde andam os jornalistas ?

J.-M. Nobre-Correia
Os nossos jornais, sobretudo os audiovisuais, dão cada vez mais o sentimento de serem meros canais de assessorias…
“Oiçam nos autocarros, nos caminhos de ferro, na rua”. Mais: “deem-se bem conta da opinião”. Mas também: “estejam ao corrente de todas as descobertas, de todas as invenções, vulgarizem todas as coisas que se vão enterrando em pesadas revistas”. Assim mandava Moïse Polydore Millaud, criador da chamada “imprensa popular” em França, falando aos seus jornalistas. E graças nomeadamente a estas receitas, Le Petit Journal, que lançara em 1863, atingirá cerca de dois milhões de exemplares em 1895, sendo então o maior diário do mundo.
Nestes últimos meses, a atualidade em Portugal tem muitas vezes feito pensar em Millaud. Quando personalidades ao mais alto nível de uma certa direita radical europeia se reúnem em Fátima. Ou quando bispos opostos a Jorge Bergoglio [o papa Francisco], vindos de várias partes do mundo, se encontram em Sintra. Num e noutro casos nada se soube antes e praticamente nada se veio a saber depois. Acrescente-se o facto de os média descobrirem, longas semanas depois, que há portugueses a bordo de um navio ancorado nas águas do Japão por causa de coronavírus!…
Há pois que perguntar: por onde andam os jornalistas? Que sítios frequentam no dia a dia? Com que gente lidam habitualmente? Como é possível que, com tanta gente implicada na organização dos dois primeiros eventos (hotelaria, restauração, transportes, forças de segurança…), nada tenha chegado ao conhecimento de jornalistas? E como é imaginável que as reações de familiares e conterrâneos dos portugueses em quarentena no navio não tenham chegado a ouvidos de jornalistas (quando estes, sobretudo os de televisão, adoram este tipo de situações, como o estão tristemente a mostrar)?…
A triste verdade salta aos olhos: a grande maioria dos jornalistas deixou de ir “para o terreno”. Deixou de andar pelas ruas e estradas deste país, de frequentar as gentes deste povo, para ver e ouvir o que se passa, para saber o que lhes interessa ou as preocupa na vida quotidiana. Vive sobretudo com colegas, amigos e companheiros em restaurantes, cafés e bares que fazem parte da rotina diária. Frequenta os habituais sítios de conferências de imprensa, lançamentos, inaugurações, estreias e receções de toda a ordem.
Diga-se em abono da verdade: muitos jornalistas saem cada vez menos das redações. Até porque são poucos e dispõem de escasso tempo para a fabricação diária a contrarrelógio dos jornais. Mas também porque a “paparoca” chega quotidianamente em grandes doses aos seus computadores: comunicados, grafismos, gravações de som ou de imagem… E neste fornecimento de peças prontas-a-publicar, são evidentemente as instituições e empresas que têm maior capacidade de produção.
Em audiovisual, quando “vão para o terreno”, a maior parte das vezes os jornalistas contentar-se-ão com “diretos”. Limitando-se a instalar microfones e câmaras, e abrindo em seguida as portas de acesso em tempo real aos jornais. Sem que nenhum trabalho de (verdadeira) reportagem, de síntese ou de interpretação seja feito. Eventualmente, no meio da algazarra habitual, estenderão um microfone e farão uma pergunta, quantas vezes desprovida de originalidade e pertinência.
Vemos assim que a atualidade a que temos direito é a que diz sobretudo respeito a ministros, partidos políticos, sindicatos e ordens profissionais. Pode-se dizer mesmo que, nestes últimos tempos, no audiovisual e mais particularmente na televisão, as assessorias deles dominam a “informação geral”, situação que não tem comparação nos média de outros países da Europa ocidental. Por vezes, vêm juntar-se a eles, quando a atualidade lhes dá ocasião, presidentes de câmara ou de junta, chefes de bombeiros ou de forças de segurança.
É assim que, muitas vezes, os nossos jornais (imprensa, rádio, televisão, internet) dão o sentimento de serem construídos por outros, e não pelas próprias redações. Quase só o tamanho das peças e o seu alinhamento são de facto fruto delas. Deixando os jornais de ser resultado de jornalismo e de jornalistas, para o serem de comunicação e de assessorias. Mal vai uma democracia em que a função social do jornalismo se encontra assim em vias de desaparecimento!…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 9 de março de 2020, p. 13.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Inconvenientes de uma conceção

J.-M. Nobre-Correia
A fragilização dos média levou muitos a praticar um jornalismo ligeiro e explosivo: uma estratégia de vistas curtas…
O ofício de informar sempre existiu. Utilizando sucessivamente, e até mesmo paralelamente, a expressão oral, manuscrita e impressa. Em ambiente de repressão ou de liberdade, em maior ou menor grau. Mas é claro que o jornalismo enquanto atividade profissional supôs uma sociedade democrática. E não foi por acaso se, de fins do século XVIII à atualidade, as lutas pela democracia e pela liberdade de informar foram nitidamente concomitantes.
É claro que, uma vez alcançada a liberdade de informar, isso não significou que a atividade jornalística passou a ser uma garantia para a democracia. Até porque a perceção da atualidade e o seu relato não são do domínio das ciências ditas exatas: a apregoada objetividade não existe. Há sim competência profissional, rigor e honestidade. A que se vêm juntar a sensibilidade e a cultura de quem perceciona e relata os factos de atualidade.
Há, pois, quem, em função destas sensibilidade e cultura, das suas opções ideológicas, faça uma seleção dos factos, mas também um relato, uma perspetivação e uma análise destes factos, que se traduzem em combate contra a democracia e o Estado de direito. E quem proceda a essas mesmas operações jornalísticas sem travar conscientemente qualquer combate antidemocrático, embora o que produz tenha consequências similares. Que neste segundo caso constituem propostas de mutação de fundo e mesmo convites a uma radicalização dos cidadãos perante a democracia e o Estado de direito.
O jornalismo militante sempre existiu, situemos nós o aparecimento do ofício na “descoberta” da prensa tipográfica (no século XV) ou na industrialização da imprensa (no XIX). Já a variante irrefletida é fruto antes do mais de uma lógica da concorrência desenfreada dominada cada vez mais pela informação em tempo real. Uma lógica da concorrência particularmente acentuada com a desmonopolização do audiovisual, nos anos 1970, e ainda mais assanhada com a abertura da internet ao público em geral, nos anos 1990.
A atividade jornalística transformou-se assim num permanente contrarrelógio que não dá (muito) tempo à verificação e à desejável perspetivação dos factos. Enquanto a redução dos meios financeiros e humanos de que passaram a dispor as redações abriu as portas à interferência cada vez mais evidente de numerosas assessorias de empresas e instituições que propõem “peças” prontas-a-publicar. E não é a inexperiência de redações crescentemente mais jovens (porque menos dispendiosas), desprovidas de memória e solidez cultural, que é suscetível de resistir às numerosas instrumentalizações vindas do exterior.
As audiências (da imprensa, da rádio e da televisão) tendo fortemente diminuído, como resultado da gigantesca proliferação dos média, boa parte das redações caíram na tentação de procurar à viva força temas capazes de provocar sensação. Temas onde houver ou será suscetível de haver declarações bombásticas, gritaria, lágrimas, farsa, violência. Acrescentando a estes ingredientes de base, se necessário for, a pitada de terminologia, de montagem sonora ou de imagens para tornar a peça ainda mais acutilante, perturbante, emocionante.
Nesta singular conceção do jornalismo, os média passaram a estar particularmente atentos a políticos franco-atiradores (que pouco mais representam do que eles próprios) e a organizações ativistas. Contanto que a estratégia de comunicação destes preveja iniciativas e declarações estrondosas, de preferência anunciadas com antecedência, para que as redações não sejam apanhadas desprevenidas. Os nossos média passaram assim a ser inundados pela comunicação orquestrada por partidos e sindicatos, assim como por afirmações e gestos mais ou menos espalhafatosos e à margem da legalidade.
Esta maneira de tratar a atualidade, sem os devidos recuo e serenidade, tem, porém, graves inconvenientes: a perda de credibilidade junto dos cidadãos, seguida de um quase irremediável afastamento. O que explica o descrédito em que se encontram os média de informação em Portugal e o número crescente de cidadãos que deixaram de ler jornais, ouvir rádios ou ver televisões, de estar minimamente ao corrente do que se passa no país que é o deles. Enquanto um populismo de desespero vai medrando em extremismo…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).
Texto publicado no diário Público, Lisboa, 24 de fevereiro de 2020, p. 9.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Esta obstinada letargia congénita

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação na Université Libre de Bruxelles.
A situação extremamente preocupante em que se encontra a imprensa em Portugal tem razões históricas que a explicam sem a justificarem…
A imprensa é em Portugal uma atividade tardia. O primeiro mensal, Gazeta em que se relatam as novas todas que houve nesta Corte e que vieram de várias partes no mês de novembro de 1641, é publicado em 5 de dezembro de 1641, quarenta e quatro anos depois dos primeiros congéneres europeus. A Gazeta de Lisboa, primeiro semanário, aparece em 10 de agosto de 1715, cento e dezasseis anos após os primeiros periódicos deste tipo. E o Diário Lisbonense, lançado em 1 de maio de 1809, chega cento e cinquenta e nove anos depois do Einkommende Zeitungen, de Lípsia [Leipzig]. Isto é: o atraso não só não é recuperado como até vai aumentando!…
Por outro lado, a situação da imprensa em Portugal sempre foi bastante frágil. Com numerosas publicações com durações de vida muito curtas. Com tiragens reduzidas: nos começos do século XX, mais de 50% das publicações tem tiragens inferiores a 500 exemplares e só oito jornais têm mais de 10 mil. E quando se diz e escreve por aí que o Diário de Notícias e O Século, em fins do século XIX princípios do século XX atingem os 80 mil exemplares, esquece-se que, por essa mesma altura, os franceses Le Petit Journal e Le Petit Parisien ultrapassam já, um e outro, o milhão de exemplares, o que, mesmo ponderado em relação às demografias dos dois países, mostra a modéstia dos diários lisboetas. O Século parece mesmo ter uma tiragem de 160 mil exemplares por alturas do regicídio, em 1906, mas Le Petit Parisien chega aos 2,3 milhões em 1917 e mesmo, excecionalmente, aos 3,0 milhões em 1918, no dia após o Armistício.
Explica-se esta fragilidade pela altíssima taxa de analfabetismo que atinge os 82,4% em 1878 e ultrapassa ainda os 20,0% em 1970, quando há populações totalmente alfabetizadas em fins do século XVII na Alemanha, por exemplo. Mas explica-se também pelo baixo poder de compra de uma população que vive então ainda numa economia de subsistência e para quem o jornal continua a ser, não um produto de consumo corrente, mas um produto de luxo. Ou ainda pelas comunicações extremamente difíceis, que dificultam a distribuição dos jornais de Lisboa e do Porto “no interior” do país. Um “interior”, fora da faixa litoral de Braga a Lisboa, onde as instalações tipográficas capazes de produzir diários ou semanários de alguma importância são praticamente inexistentes.
A todas estas insuficiências de base vem juntar-se uma grande instabilidade política e social desde, grosso modo, as invasões napoleónicas até à instauração do Estado Novo, instabilidade de natureza a intensificar a procura de informação, é certo, mas pouco favorável ao empreendedorismo na imprensa. E sobretudo um clima geral, durante boa parte do século XIX e da Primeira República, em que os períodos de real liberdade de informar são menos numerosos do que os de repressão, para não falar na censura sufocante que domina todo o Estado Novo.
Quando estas condições de base são largamente superadas no último quartel do século XX, já a sociedade portuguesa está a entrar decididamente na era do audiovisual e sobretudo da televisão. O que quer dizer que, globalmente, a população portuguesa viveu alheia à cultura do escrito, à margem da informação e até do entretenimento escritos, e passa diretamente para a era da informação e do entretenimento televisivos. Antes que a era do digital e da internet se abra ao público em geral em meados dos anos 1990.
Ora, esta nova era permite nomeadamente ultrapassar boa parte das dificuldades a que os editores portugueses se confrontam desde sempre, em termos de produção (composição, montagem e impressão) como de distribuição dos jornais. Abrindo portas simultaneamente a uma dimensão mais capilar da informação como a outra de caráter planetário. A multiplicação das edições ultra-locais e micro-especializadas passa a ser possível. Como é razoável doravante querer atingir um leitorado espalhado pelo mundo fora.
Forçoso é, porém, constatar que, uma vez mais, os editores portugueses não estão a tirar proveito das novas tecnologias. Nem eles nem os numerosos jornalistas recém-licenciados, desempregados ou pré-reformados que não se têm mostrado particularmente motivados pelo lançamento de novas publicações (diárias ou periódicas) digitais. Ao contrário do que acontece para além da fronteira portuguesa, nomeadamente em Espanha e em França, onde as iniciativas nesta matéria são numerosas e, em muitos casos, de grande qualidade jornalística.
O bom funcionamento de uma democracia pluralista supõe, no entanto, a participação ativa dos cidadãos. E, para isso, estes têm que dispor de uma informação de qualidade, em termos fatuais como em termos de análises e de opiniões contrastadas. O que supõe um pluralismo de publicações das mais diversas periodicidades, assim como uma diversidade de conteúdos e de abordagens das atualidades imediata e não-imediata. Pluralismo e diversidade tanto mais urgentes que vivemos um tempo de mutações profundas nos modos de acesso à informação, assim como na difícil relação dos cidadãos com uma democracia cujo futuro lhes parece cada vez mais problemático…

Texto publicado na revista Meios, Lisboa, n° 3, novembro-dezembro de 2019, pp. 13-14.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

A indispensável dupla estratégia

J.-M. Nobre-Correia
Os tradicionais obstáculos ao desenvolvimento da imprensa em Portugal desapareceram. Há agora que definir novas ambições…
Sabemos hoje bem porque é que a imprensa em Portugal foi sempre fraca em relação à congénere de outros países da Europa ocidental. Porque bastante mais tardia do que a dos países pioneiros em matéria de mensários, de semanários ou de diários. Porque confrontada a um analfabetismo de 82,4% em 1878 e que ultrapassa ainda os 20,0% em 1970, quando havia populações totalmente alfabetizadas em fins do século XVII na Alemanha, por exemplo. Porque a distribuição deparava com a falta de comunicações fáceis com “o interior”, não sendo as publicações postas à venda em todas as localidades. Porque, fora da área costeira de Braga a Lisboa, as tipografias capazes de produzir diários ou periódicos de uma certa importância praticamente não existiam. Porque a grande maioria da população vivia numa economia de subsistência e o jornal era então um produto de luxo.
Quando os grandes diários de fins do século XIX princípios do século XX que eram o Diário de Notícias e O Século atingiam tiragens de 80 mil exemplares, em França, que publicava então os maiores diários europeus, Le Petit Journal e Le Petit Parisien ultrapassavam já, um e outro, o milhão. O que, mesmo ponderando tais números em função das demografias, dá uma ideia mais precisa da modéstia da imprensa portuguesa. A estas fragilidades congénitas vêm depois juntar-se três situações que refrearão fortemente o seu desenvolvimento: a instabilidade crónica da Primeira República, a repressão obscurantista do Estado Novo e a destruição de quase todas as velhas instituições da imprensa nacional no início da Segunda República, logo a seguir à Revolução dos Cravos.
Porém, as infraestruturas do país e a própria sociedade evoluíram consideravelmente nos últimos quarenta anos. Enquanto, durante este mesmo tempo, as tecnologias de informação e de comunicação foram objeto de uma autêntica revolução. O que quer dizer que os obstáculos ao desenvolvimento da imprensa em Portugal desapareceram. Resta a tradicional falta de hábitos de leitura por parte dos cidadãos. Mas resta também a devida adequação das estratégias de desenvolvimento das empresas às novas potencialidades tecnológicas. Estratégias que — para além do reforço do conteúdo, em termos quantitativos como qualitativos — têm que afirmar-se em dois sentidos aparentemente opostos, mas igualmente indispensáveis.
A primeira destas estratégias consiste em sair do tradicional posicionamento dito “nacional” que é de facto antes do mais centro-norte litoral, para não dizer mesmo lisboeta ou portuense. Ir à conquista dos leitores “do interior”, que (como provam as vendas em banca) recusam largamente um conteúdo atual que não lhes diz respeito. Criar para isso edições digitais locais-regionais, reforçando fortemente as componentes informativa e publicitária próprias a estas edições. Como fazem, por exemplo, os italianos Corriere della Sera e La Repubblica.
A segunda estratégia, sobretudo para a imprensa “de referência”, consiste em ir à conquista de um leitorado à escala planetária. Criando de preferência edições digitais para a América, a África e a Ásia-Oceânia, onde vivem tantos lusófonos. Propondo-lhes também uma informação e uma publicidade específicas. Propondo-lhes, em todo o caso, uma informação de origem europeia sobre Portugal e o Mundo, e sobretudo sobre uma União Europeia que, apesar de tudo, conta cada vez mais a nível internacional. É isso que fazem, segundo modelos diferentes, o espanhol El País e o francês Le Monde, por exemplo. Numa perspetiva aliás mais alargada, não é chocante que tenha sido El País a lançar em 26 de novembro de 2013 uma edição diária digital em português destinada ao Brasil?!
Para sair da miséria que é historicamente a sua, e que é cada vez mais a sua atualidade, a imprensa portuguesa tem que deixar de olhar unicamente para o seu umbigo. Tem que deixar de pensar tomando como referência o que foi feito no país num passado mais ou menos recente. E de tomar como exemplo individualidades que, de facto, raramente ultrapassaram uma dimensão paroquial. Há que se inspirar no que de melhor se faz nesta Europa de que queremos fazer parte, o que só realmente conseguiremos se dispusermos de uma imprensa de nível europeu…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 30 de janeiro de 2020, p. 13.

domingo, 29 de dezembro de 2019

Dois fantasmas afrontáveis

J.-M. Nobre-Correia
O pluralismo e a qualidade da imprensa são a urgência. E não debater dos inconvenientes das ajudas públicas ou privadas…
No atual prenúncio de debate sobre as ajudas à imprensa, duas oposições clássicas surgem. A dos que são contra as ajudas públicas, sejam quais forem as proveniências. E a daqueles que desconfiam das ajudas privadas, quaisquer que sejam as origens. Duas oposições manifestamente ideológicas, que não tomam em consideração o que se passa de facto nesta matéria no resto da Europa ocidental.
As ajudas públicas à imprensa existem em boa parte dos países da Europa ocidental. Por vezes mesmo há longos decénios. Tomando contornos diversos de um país para outro, desde a ajuda nos custos do papel, das comunicações, da impressão ou da distribuição, até à intervenção em reconversões industriais, em formações profissionais ou em iniciativas editoriais. Recentemente, o orçamento de Estado adotado na Alemanha prevê assim um montante de 40 milhões de euros de ajuda à distribuição da imprensa. Sem que isso tenha atiçado puristas amadores de polémicas gratuitas em que, por seu lado, a paróquia portuguesa é espantosamente fértil.
Quem viveu para além dos Pirenéus (não de fugida mas duradoiramente) e acompanhou de perto, profissionalmente, o mundo dos média em redor, sabe que as ajudas públicas não afetam negativamente o tratamento da atualidade pela imprensa. Até porque a atribuição de tais ajudas (diretas ou indiretas) é geralmente feita em função de critérios sem incidência nas opções tradicionais das redações. Graça a elas, jornais há que podem manter ou mesmo melhorar a qualidade editorial e a dinâmica empresarial. Embora haja por vezes efeitos negativos: manter em vida jornais há muito abandonados por leitores insatisfeitos com a qualidade do serviço proposto.
O caso das ajudas privadas toma aspetos diferentes. A priori, pessoas privadas, empresas e instituições, esperam, na maior parte dos casos, conseguir obter uma “atitude positiva” dos jornais quando estes forem levados a tratar assuntos que lhes digam respeito. E, muitas vezes, as redações sentem-se entravadas no tratamento de uma atualidade ligada a financiadores importantes (situação também bem conhecida em relação aos anunciantes).
A situação ideal é evidentemente a do jornal propriedade dos seus redatores (ou do conjunto dos seus trabalhadores) vivendo exclusivamente das receitas dos leitores-compradores, sem interferência de outras espécies de receitas. Mas esta situação é rara e quase inexistente. Embora a tecnologia digital permita agora iniciativas, algumas das quais, poucas, são um sucesso: o caso mais célebre é provavelmente a do francês Mediapart: lançado em 2008, beneficiário desde 2011, conta atualmente mais de 150 mil assinantes e uma equipa de 87 permanentes, dos quais 47 jornalistas.
O que é certo é que a independência de uma redação decorre antes do mais da “cultura” reinante no seu seio. Vimos assim os redatores de Le Monde perderem a propriedade do jornal em 2010 (quando era, desde os anos 1950, o modelo inspirador de muitas redações europeias) e encontrarem-se agora em vésperas de obter dos acionistas a transformação da empresa editora em fundação.
De qualquer modo, os opositores a ajudas públicas ou privadas optam inconscientemente por uma redução e até uma extinção dos média de informação. Escolhendo consolarem-se com o que a internet propõe gratuitamente e, na grande maioria dos casos, nada tem a ver com o jornalismo. Felizes países, no entanto, que, à falta de melhor, podem contar com diários ou semanários excelentes como El País ou El MundoLe MondeLe FigaroLibérationL’ObsL’Express ou Le PointCorriere della SeraLa RepubblicaLa Stampa ou L’Espresso, todos eles propriedade de interesses exteriores ao mundo dos média! Antes eles e a qualidade da informação que propõem (e que é preciso confrontar) do que o deserto e a manipulação incontrolável de um “jornalismo cidadão” de sarjeta!
A situação da imprensa escrita na Europa é preocupante. E a situação em Portugal é tragicamente inquietante, tão pouco abundante e pluralista ela é. Razão mais que sobeja para sabermos inovar e criar uma imprensa em papel ou em digital que tanta falta faz à democracia portuguesa. Venham lá de onde vierem as ajudas devidamente enquadradas segundo critérios previamente definidos…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).


Texto publicado no diário Público, Lisboa, 28 de dezembro de 2019, p. 7.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Propostas para demarcar um debate

J.-M. Nobre-Correia
Ao que parece, os média vão mal. Há pois quem queira que todos sejam ajudados. Mas há que fazer escolhas…
De repente faz-se luz! Que importa que haja quem ande há longos anos a fazer notar que a situação da informação jornalística em Portugal é incrivelmente insuficiente. E que a imprensa de informação geral se encontra num estado perto da miséria. Constatações estas feitas a partir, não de uma qualquer perceção impressionista, mas sim do conhecimento do que são as paisagens mediáticas e jornalísticas para além da fronteira com o país vizinho…
Pouco importa! O facto é que tal triste situação passa agora a ser tema de discussões, artigos e colóquios diversos. Regozijemo-nos, pois, com isso. Embora tenhamos que constatar que se manifestam por aí ambições claramente desmedidas. Como se fazem também muitas afirmações desprovidas do mais elementar fundamento.
Por obras de magia descobre-se que os média portugueses precisam de ajuda. Mas de uma ajuda indiferenciada: a imprensa nacional como a regional, a imprensa diária como a periódica, a rádio como a televisão e sabe-se lá mais o quê! Ora, como dizem os francófonos, “qui trop embrasse mal étreint” (traduzido à letra: quem muito abraça mal enlaça). E a situação financeira portuguesa não é particularmente gloriosa para que, num aceno de varinha mágica, se possam resolver os numerosos problemas do sector.
Em termos europeus, é a informação escrita que, incontestavelmente, se encontra em pior posição. Portugal é o país de Europa ocidental que conta menos publicações generalistas, diárias ou periódicas, em papel ou em digital, e as existentes têm também as difusões mais baixas. É ela pois que convém urgentemente relançar. Mas a solução não pode consistir em financiar em absoluto, a fundos perdidos, as publicações que já existem. Até porque, se as coisas vão mal, os seus dirigentes lá terão alguma responsabilidade em termos de posicionamento editorial, de maneira como tratam a informação ou de como concebem a distribuição e a comercialização dessas publicações.
Há pois que privilegiar o lançamento de novas publicações (em papel ou em digital), assim como as iniciativas realmente inovadoras das já existentes. No caso das novas, há que dar a prioridade aos lançamentos nas regiões do país que são verdadeiros desertos em matéria de informação, mas também àquelas que se propõem ocupar posicionamentos editoriais descurados. No que respeita às publicações existentes, há muitos aspetos ausentes na sua conceção atual: delegações nas regiões, correspondentes no estrangeiro, jornalistas especializados, circuitos de distribuição, promoção das assinaturas, conquista de novos leitorados…
Num estilo em que a vida social em Portugal passou a estar prenhe, houve logo quem viesse com grandes declarações contra as ajudas do Estado! Uns porque pensam que vão pagar mais impostos (e preferem a ignorância que os levará um dia a recusar ajudar estabelecimentos de ensino ou teatros, por exemplo). Outros porque, quando lhes falam de Estado, tiram logo o revolver do bolso! Fazendo afirmações pura e simplesmente absurdas, como se não houvesse velhas democracias consolidadas que preveem anualmente ajudas à imprensa, sem intervirem no que quer que seja na conceção e no tratamento da informação pela imprensa!
Mas, por que limitar as ajudas ao Estado? Porque não constituir um Fundo jurídica e solidamente autónomo, para o qual possam contribuir tanto fundos públicos (do Estado português e da União Europeia) como fundos privados (de empresas, instituições ou simples cidadãos)? E por que não pôr à frente deste Fundo gente de indiscutíveis competência, independência e princípios éticos, que analisará os dossiês de candidatura a ajudas financeiras? Dossiês provenientes de empresas já presentes no sector da imprensa ou de empresas constituídas para a circunstância, reunindo obrigatoriamente jornalistas e gestores.
Se a paranoia em relação ao Estado e às empresas continuar a ser o terreno fértil de todos os que veem manobras e complôs por todo o lado na prática jornalística (mas que manifestamente tudo ignoram da história dos média e do jornalismo), teremos então que constatar que os portugueses correm alegremente para o precipício da ignorância sem se darem por isso[1]


[1] Do mesmo autor “Uma urgência demasiado esquecida”, in Público, 2 de março de 2016.

Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Média, Informação e Democracia (Almedina).



Texto publicado no diário Público, Lisboa, 17 de dezembro de 2019, p. 13.