8 de setembro de 2009
sábado, 17 de maio de 2014
sexta-feira, 16 de maio de 2014
Constantes em tempo de mudança
J.-M. Nobre-Correia
Estes últimos dias, a cobertura da atualidade
pelos média audiovisuais (rádios e televisões) deixou uma terrível impressão :
a de que, no fim de contas, pouco de essencial mudou na sociedade portuguesa em
relação ao que ela era há 50 anos, em tempos de salazarismo.
É evidente que Portugal vive agora em democracia (pelo
menos no plano formal). Que a liberdade de expressão é evidente : podemos
sentarmo-nos à mesa de um café e dizermos o que quisermos. Como podemos ler os
jornais e os livros que quisermos, ouvirmos as rádios que quisermos, vermos os
filmes e as televisões que quisermos. Do momento, é claro, em que dispusermos
dos meios materiais para poder fazê-lo.
Também é evidente, apesar de tudo, que as
infraestruturas de que o país se dotou são sem comparação com o que eram nos
anos 1960. E que, globalmente, as pessoas gozam de condições de vida incontestavelmente
melhores do que nos anos do salazarismo. Apesar da crise atual. Apesar dos
evidentes retrocessos a que assistimos nos planos económico, social e cultural.
Mas há constantes na sociedade portuguesa. E constantes
que, de certo modo, até se acentuaram. Veja-se o caso das peregrinações a
Fátima. Deste inacreditável desfile de gente a pé, ao longo das estradas, numa
total imprudência (que tem algo de masoquista) em relação a aquilo para que
existem as estradas : a circulação rodoviária. E imagina-se um só segundo que
as televisões francesas se comportem de igual modo em relação a Lourdes ? Ou
que as belgas deem uma importância comparável a Beauraing ? Ou mesmo, mais
simplesmente, que nestes dois países se realizem desfiles parecidos ao longo
das estradas ?
Veja-se também esta agitação totalmente
irrazoável, para não dizer irracional, no que diz respeito ao futebol. Com os
média a atribuírem uma importância descomedida a um encontro entre duas
equipas. Com um exagero de emissões especiais, de “diretos”, de horas de
transmissão, de enviados especiais sem conta, de entrevistas totalmente
disparatadas. E as inquietantes interrogações que tudo isso suscita : onde está
afinal a crise económica ? Onde estão os horários de trabalho ? Quando se vê
esta gente toda a pagar viagens de avião e demais transportes, estadia (hotel,
restaurante e cafés) e bilhete de entrada no estádio. E quando se vê esta gente
toda ir a horas indevidas para a rotunda do Marquês de Pombal e para o
aeroporto de Lisboa, à partida ou à chegada dos futebolistas (vencedores ou vencidos).
Fátima e futebol, como no tempo do salazarismo. E
poder-se-ia acrescentar também o fado. O fado de Lisboa, é claro. Como se o de
Coimbra não existisse. Como se não houvesse por esse país fora músicas bem mais
interessantes do que esse canto alfacinha, quantas vezes ridículo na letra e na
expressão vocal…
Portugal mudou. Mas os média portugueses persistem
em favorecer a irracionalidade, numa total impunidade, em nome de uma pretensa
“liberdade de imprensa”…
domingo, 11 de maio de 2014
Uma prioridade absoluta
J.-M. Nobre-Correia
Imprensa : A situação calamitosa e cada vez mais grave a que chegaram os jornais em Portugal supõe que se tomem medidas de urgência em prol da democracia…
Imprensa : A situação calamitosa e cada vez mais grave a que chegaram os jornais em Portugal supõe que se tomem medidas de urgência em prol da democracia…
Os
últimos dados referentes à imprensa anunciados pela APCT (Associação Portuguesa
para o Controlo de Tiragem e Circulação) são calamitosos ! Tão simples como isto
: com a exceção do mais vendido, os outros diários obtêm resultados de difusão
idênticos aos do minúsculo Luxemburgo. Com esta ressalva importante : o
Luxemburgo tem 525 mil habitantes e Portugal conta 11 milhões (21 vezes mais) !
Só
que, no Luxemburgo, há um programa de ajuda pública à imprensa. Em Portugal, os
“responsáveis” políticos continuam a ignorar a situação calamitosa da imprensa.
E a nada fazer para que, nesta matéria, o país possa situar-se à altura daquilo
que pretende ser : um país da União Europeia, económica e politicamente desenvolvido.
Até porque não há democracia no sentido pleno da palavra (cultural e socialmente)
sem uma imprensa com alto nível de penetração. Sem uma informação de qualidade.
A
verdade é que a história mostra que, desde que a imprensa apareceu na Europa,
os meios dirigentes em Portugal sempre se opuseram ao seu desenvolvimento. E
nunca tomaram grandes iniciativas para que as gentes deste país pudessem estar
ao corrente da atualidade e ser cidadãos. Melhor (…ou pior) : as classes
dirigentes decidiram governar sem o povo e continuam a não querer que ele se
meta em assuntos que só a elas dizem respeito ! Admiremo-nos depois que o
Estado democrático esteja como está, que os partidos políticos funcionem como
funcionam e que a corrupção seja o que é…
Países
há em que a situação da imprensa (em papel ou em digital) preocupa os políticos.
Assim em França, onde o governo estuda autorizar as empresas jornalísticas a
adotarem o estatuto de sociedades sem fins lucrativos. O que lhe permitiria
constituir “fundos de dotação” e recolher dons privados “desficalizados”. Não
haverá por aí políticos e cidadãos afortunados que considerem que a promoção de
uma informação pluralista com um profundo enraizamento na sociedade é condição
essencial para o desabrochar de uma autêntica democracia ?…
Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 3 de maio de 2014, p. 44.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
Para não esquecer a História
J.-M. Nobre-Correia
Quando se volta ao Fundão, muitos anos
depois, uma característica surpreende : a ausência de História. Ou melhor : a
ausência de referências à sua história. As placas com os nomes das ruas não
explicitam nada. E poucos saberão explicar quem era o ilustre personagem que
deu nome a tal ou tal rua. Pior que isso : os monumentos ligados à sua história
são perfeitamente inexistentes.
Houve, é certo, essa iniciativa que fez de
Martim Calvo o “povoador” do Fundão : estranha iniciativa e ainda mais estranho
monumento que já teve de mudar de lugar e se encontra agora num sítio perdido.
E está anunciada uma estátua de António Paulouro na Praça Velha, merecida
homenagem a um homem que marcou a história do Fundão da segunda metade do
século XX.
A leitura tardia da obra da prof. Maria
Antonieta Garcia, Inquisição e
independência, um motim no Fundão – 1580 *, leva a considerar que é
absolutamente inacreditável que a cidade não preste homenagem ao personagem
central de um momento alto e único da história do Fundão. No mínimo, não
deveria(m) a Câmara Municipal ou/e a Junta de Freguesia mandar(em) colocar uma
lápide no Largo Alfredo da Cunha em que ficasse escrito : “A Estêvão de
Sampaio, vereador do Fundão, e aos seus companheiros que em 22 de
Novembro de 1580 se bateram pela autonomia da vila, defenderam a liberdade
religiosa e os cristãos-novos, e se opuseram ao obscurantismo e à repressão da
Inquisição. Homenagem do povo fundanense”.
Mas já que evocamos o Largo Dr. Alfredo da
Cunha : não será intolerável que o segundo director do Diário de Notícias (de 1894 a 1919), jornal que marcou a história
da imprensa nacional nos séculos XIX e XX, não seja mais seriamente homenageado
pela terra onde nasceu ? Tanto mais que Alfredo da Cunha exerceu outras altas
funções, nomeadamente a de director da Sociedade de Geografia. Haverá quem diga
que o facto de dar o seu nome a uma praça central da cidade constitui já uma
bela homenagem : e é verdade. Mas Alfredo da Cunha não mereceria que se
erguesse um monumento de estatuária em que o Fundão manifestasse o seu orgulho
em tê-lo tido como filho ?
Com a lápide em homenagem a Estêvão de
Sampaio e o monumento a Alfredo da Cunha, o largo da Igreja Matriz passaria a
ser mais do que nunca um ponto central da cidade e um lugar carregado de
História…
Texto publicado no Jornal do Fundão
de 22 de julho de 2010, p. 10
•••••
Este texto merece um primeiro
complemento de informação : muitos anos antes da prof. Maria Antonieta Garcia
falar do “motim no Fundão”, já o juiz-desembargador José Alves Monteiro evocara
o dito acontecimento sob o vocábulo de “alvoroço” numa das suas publicações.
Segundo complemento de
informação : mais de quatro meses tempo depois da publicação do artigo acima
transcrito, enderecei em 12 de dezembro de 2010 aos então presidente e vice-presidente
da Câmara Municipal do Fundão o correio seguinte :
“Em 22 de Julho último, publiquei no Jornal do Fundão um artigo (“Para não
esquecer a História”) de que junto envio cópia do original.
Com uma
certa surpresa minha, este texto suscitou diversas manifestações de apoio e
simpatia nos dias que se seguiram, por parte de conterrâneos de meios sociais
bastante contrastados.
Talvez
porque o auge do verão e das férias grandes não seja o momento mais propício
para chamar a atenção da presidência da Câmara Municipal do Fundão e dos seus
vereadores, o facto é que as propostas feitas no dito artigo não tiveram, que
eu saiba, o mínimo eco em reuniões posteriores do executivo camarário…
Se me
permito escrever-lhe hoje, Senhor Presidente, não é de modo algum para
sublinhar uma qualquer importância especial do artigo que escrevi. Trata-se sim
de interceder junto do Senhor Presidente e da vereação da CMF para que sejam
tomadas em consideração as duas propostas que nele faço.
Uma primeira proposta consiste em colocar
uma lápide no Largo Alfredo da Cunha
em que poderia ficar escrito : “A Estêvão de Sampaio, vereador do Fundão, e aos
seus companheiros que em 22 de Novembro de 1580 se bateram pela
autonomia da vila, defenderam a liberdade religiosa e os cristãos-novos, e se
opuseram ao obscurantismo e à repressão da Inquisição. Homenagem do povo
fundanense”.
A segunda proposta procura prestar homenagem
a Alfredo da Cunha, que foi nomeadamente
director do Diário de Notícias (de 1894
a 1919) e director da Sociedade de Geografia, erguendo um monumento de estatuária em que o Fundão manifestasse o seu orgulho
em tê-lo tido como filho.
Terminava
eu assim o artigo publicado no Jornal do
Fundão : “Com a lápide em homenagem a Estêvão de Sampaio e o monumento a
Alfredo da Cunha, o largo da Igreja Matriz passaria a ser mais do que nunca um
ponto central da cidade e um lugar carregado de História”.
Permito-me
pois, Senhor Presidente, submeter a V. Ex.a e à vereação que V. Ex.a preside
estas duas propostas. E, como fundanense, ser-me-ia particularmente grato se o
executivo municipal as acolhesse positivamente.
Grato pela
atenção dispensada, apresento-lhe, Senhor Presidente, os meus melhores
cumprimentos.”
Como é prática habitual do executivo
municipal, este correio não deu direito a qualquer acusado de receção. E nenhum
seguimento foi dado às propostas que nele figuravam.
•••••
Em janeiro de 2012, o
presidente da CMF decidiu retirar-se do cargo e o antigo vice-presidente passou
a assumir a presidência. Em reuniões que tiveram lugar em 7 de dezembro de
2011, em 3 de agosto e em 5 de novembro de 2012, o novo presidente garantiu que,
em homenagem a Estêvão de Sampaio e aos seus companheiros do alvoroço/motim de
1580, uma lápide seria descerrada em 22 de novembro desse ano. Na anunciada
data, nada se passou. E nada se passou na mesma data do ano seguinte…
Quanto a Alfredo da Cunha e ao seu 150°
aniversário, um colóquio, um livro/brochura e uma cerimónia da homenagem foram
programados. E, em 28 de dezembro de 2012, o presidente da CMF anunciou mesmo que
se inseririam os dois primeiros nas comemorações do 25 de Abril em 2013 e a
cerimónia de homenagem para o próprio dia do aniversário, em 21 de dezembro de
2013. Nada porém se passou nas datas anunciadas…
•••••
O Fundão continua assim alheio à sua própria
história e nomeadamente ao que de mais glorioso nela marcou a própria história
de Portugal…
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Média e poder político
De Gutenberg à Snowden
J.-M. Nobre-Correia
J.-M. Nobre-Correia
A primeira atividade da prensa tipográfica de
Gutenberg (1440-50) não foi a imprensa, mas sim a de impressos religiosos,
primeiro, de impressos escolares, administrativos e comerciais, em seguida. A imprensa
no sentido parajornalístico apareceu em fins do século XV, com verdadeiras
notícias, relatos mais ou menos realistas, elucubrações espantosas ou polémicas
religiosas e políticas.
Esta primeira geração da imprensa era ocasional,
não periódica. Quando a imprensa adota uma periodicidade, esta é extremamente
espaçada : anual (por voltas de 1476), semestral (cerca de 1588), mensal (talvez
em 1597), quinzenal (1605), semanal enfim (1609). Até porque a imprensa
periódica é filha dos serviços postais regulares que apareceram na Europa a
partir de meados do século XV. Os diários surgiram duzentos anos depois da
“descoberta” de Gutenberg, em 1650, em Leipzig, com os Einkommende Zeitungen [1].
Censura, elites e vasto
público
Todos estas publicações eram dirigidos a uma elite,
a grande maioria da população era analfabeta e as publicações eram vendidas a
um preço bastante elevado. Só nos últimos dois terços do século XIX é que a
imprensa passou a ser progressivamente um produto de consumo corrente.
Segundo os países da Europa, a “idade de oiro” da
imprensa foi atingida na véspera da Primeira Guerra Mundial ou no período entre
as duas guerras. Mais ou menos na altura em que a rádio apareceu numa fase
experimental (antes da Primeira Guerra Mundial), ganhou um público
progressivamente mais vasto no período entre as duas guerras e passou a ser um
média de informação cada vez mais importante após a Segunda Guerra Mundial.
Enquanto que a televisão aparecida nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, mas foi
sobretudo a partir dos anos 1960 que passou a ser o média dominante em matéria
de informação.
Quando a imprensa, a rádio e a televisão deixaram
de ser percebidas como simples prolongamento do média anterior (no caso da
imprensa : o livro) e sobretudo como mero veículo de entretenimento, os poderes
religioso e político passaram a interessar-se por elas. Impondo entraves legais
à possibilidade de lançar novos média e procurando controlar administrativa e
judicialmente os conteúdos difundidos. Práticas que mais não eram do que
adaptações das medidas adotadas logo nos primeiros tempos da prensa
tipográfica. Já em 1475 surgira em Colónia a censura eclesiástica e em 1543 o
papa Paulo III impusera ao mundo católico o indispensável “imprimatur”. O poder
civil seguira-lhes os passos e a censura fora adotada já em 1524 no que hoje chamamos
a Alemanha.
Monopólio, pluralismo e
monopólio
Para o poder religioso como para o poder político,
a população não deveria ter acesso a toda e qualquer “literatura”, pelo que
convinha controlar previamente o que era suscetível de ser impresso : a
informação é percebida como um instrumento indispensável às gentes do poder
para exercer este poder. Pelo que o “privilégio” foi instaurado em favor de
indivíduos dignos de confiança do poder, que passaram a ser os únicos
autorizados a aceder à profissão de impressores-tipógrafos (que eram também editores,
livreiros, vendedores de jornais e muitas vezes autores).
Mas o poder político irá mais longe, tomando em
grande parte dos casos a iniciativa do lançamento dos primeiros periódicos. Citemos
apenas dois casos célebres. O de La
Gazette, semanário lançado em 1631 em Paris por Théophraste Renaudot, um
protegido do cardeal Richelieu, primeiro ministro de Louis XIII, estes dois últimos
não se privando de escrever de maneira anónima no jornal. E também o caso da Gazeta Nueva, criada em 1661 em Madrid
por Francisco Fabro, secretário de Juan José, primeiro ministro e meio-irmão de
Carlos II.
Com a proliferação da prensa tipográfica através
do continente, o controle da imprensa foi-se tornando mais difícil. Até porque
países havia, como a Holanda ou o principado de Dombes, que se especializaram
em imprimir e exportar jornais para os países onde a liberdade da imprensa era
impossível. Mais tarde, com a grande vaga liberalizante do pós-Revolução
francesa e a industrialização da imprensa no século XIX, não houve partido
político, sindicato, igreja ou associação que não dispusesse do seu “órgão
oficial”…
Quando, no período entre as duas guerras mundiais,
a rádio começou a ganhar audiência, as autoridades políticas de vários Estados
europeus decidiram tomar o controle da situação, adotando uma legislação
restritiva na matéria e não autorizando a criação de rádios privadas. Foi o
caso na Grã-Bretanha, da Alemanha e da Itália, por exemplo. Noutros países,
rádios públicas e rádios privadas coabitaram, como na Bélgica e na França, mas
também nas ditaduras salazarista e franquista. Situação que deu lugar a um monopólio
de serviço público em toda a Europa após a Segunda Guerra Mundial, a presença
de rádios privadas só sendo tolerada e estritamente controlada em França e mais
modestamente na Itália, para além da estranha situação pluralista em Portugal e
em Espanha. Todavia, nos dois países ibéricos, a rádio pública, oficial, era a
única autorizada a produzir a informação dos rádio-jornais.
Ora, foi este monopólio de serviço público da
rádio que quase sempre foi encarregado de lançar a televisão ao estado
experimental pouco antes da Segunda Guerra Mundial e de maneira alargada depois.
Pelo que, após a Segunda Guerra Mundial, a rádio e a televisão passaram a
funcionar em regime de monopólio de serviço púbico um pouco por toda a parte na
Europa. Enquanto que a rádio, primeiro, e a televisão, em seguida (sobretudo a
partir dos anos 1960), passaram a ser sucessivamente os média de informação
dominantes, mais ou menos estreitamente controlados pelos partidos políticos
que detinham o poder central ou regional (segundo as tradições político-culturais
de cada país).
A perda de influência dos
partidos
As entradas em cena da rádio e da televisão como
média de informação fizeram perder à imprensa o estatuto privilegiado de
anunciadora das notícias. E o facto de os cidadãos passarem a estar
confrontados a diferentes fontes de informação (imprensa, rádio e televisão), e
não apenas ao “monopólio” do jornal lido, fez progressivamente desaparecer os
órgãos dos partidos políticos e grupos de pressão, percebidos como praticando
um jornalismo militante e uma informação enviesada.
Com a desmonopolização dos sectores da rádio e da
televisão nos anos 1970, este ascendente dos partidos no poder foi perdendo
terreno, dada a nova proliferação dos média audiovisuais e concorrência em
matéria de informação. Mas também porque uma nova cultura pós-Maio de 68 e uma
generalização da formação superior dos jornalistas favoreceram uma tomada de
distância em relação às organizações políticas. O que levou até a quase
totalidade dos países da Europa ocidental (sendo a Espanha um exceção notória)
a criar instituições que servem de interface entre as rádios e televisões de
serviço público, de um lado, e os governos centrais ou regionais, do outro.
Mas, se a informação deixou largamente de poder
ser controlada ao nível da difusão, empresas, instituições, partidos e homens
políticos vão tentar controlá-la ao nível da colecta. Vão assim aparecer, a
partir sobretudo dos anos 1960, os mais diversos adidos de imprensa e direções
de comunicação. De modo a levarem as empresas de média a considerarem que os
jornalistas não têm que consagrar tanto esforço à colecta da informação,
recebendo-a devidamente confecionada da parte das fontes que estão vivamente interessadas
nela.
Esta constante da história das relações meio político-meio
mediático é fundamentalmente posta em causa com o aparecimento da internet como
média de informação na segunda metade dos anos 1990. Até porque, pela primeira
vez, os meios políticos no poder deixaram praticamente de poder controlar a
difusão da informação (o caso das revelações d’Edward Snowden em 2013 é deste
ponto de vista significativo). O que os tem levado a uma sobreprodução de eventos
e de comunicados de modo a suscitar a atenção dos média. Até porque todos os
partidos políticos consideram desde sempre que estes não dão suficientemente
importância às suas atividades, iniciativas e tomadas de posição. E que, mesmo
quando falam, não falam suficientemente ao gosto dos responsáveis do partido na
origem dos eventos ou dos comunicados…
Um eterno desamor inevitável
Este eterno desamor é tanto mais facilmente
compreensível que a vocação primeira de um média de informação, se quiser ter
sucesso, é de tomar em consideração os interesses do seu público e não os daqueles
que estão interessados em “produzir” informação. Mas também de assumir
claramente a função de contrapoder, impedindo que os poderes constituídos tenham
naturalmente tendência a abusar desse poder, ultrapassando os limites do que é
admissível num Estado de direito e numa democracia no pleno sentido da palavra…
Os políticos precisam dos jornalistas para comunicarem
aos eleitores os seus projetos, iniciativas, tomadas de posição, reações. Os
jornalistas precisam dos políticos para poderem dispor de uma vasta matéria de
natureza a interessar os seus públicos. Só que a conceção que uns e outros têm
do jornalismo, da informação e dos centros de interesse dos cidadãos é muitas
das vezes totalmente oposta e até mesmo inconciliável…
[1] A literatura dominante continua porém a
dizer que foi The Daily Courant, em
1702, na Inglaterra, o primeiro diário da história. Quando até se sabe hoje
que, antes dele, na Inglaterra, foi publicado o Norwich Post, em 1701…
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Estranha perceção da história
J.-M. Nobre-Correia
Futebol : Os média praticam uma hierarquização de valores cujas repercussões no funcionamento da democracia são preocupantes…
Futebol : Os média praticam uma hierarquização de valores cujas repercussões no funcionamento da democracia são preocupantes…
Esta
infeliz iniciativa portuguesa que consiste em instalar televisores em tudo o
que é cafés e restaurantes tem consequências. A primeira é massacrar quem quis
ser cliente de um desses estabelecimentos, impondo-lhe telejornais e programas
de uma rara mediocridade. A outra é ver cidadãos e jornalistas estrangeiros
espantarem-se com a duração dos telejornais e a importância dada ao futebol.
Porque, mesmo quando não falam português, percebem bem que é de futebol que
tratam as imagens…
O
que eles ignoram, pobres estrangeiros !, é que não é só na televisão que o
futebol é assunto prioritário. O mesmo acontece na rádio e na imprensa (embora,
em boa verdade se diga, esta não chegue ao desplante de encher as páginas unicamente com um tema futebolístico.
Mas na televisão (pública ou privada), estes últimos dias, foi um fartote. Como
se mais nada tivesse acontecido em Portugal e no mundo…
Quem
considera que o mundo, a sociedade, a vida não giram em torno de homens em
calções que correm atrás de uma bola, é obrigado a aguentar a ditadura do
futebol. Ditadura de uma minoria, numerosa é certo mas minoritária, que confunde
a procura dos cidadãos com a oferta que os média lhes propõem. E que lhes
propõem em quantidades tais que os drogam, provocando uma evidente dependência.
Como
compreender que treinadores de futebol tenham direito a conferências de
imprensa diárias, religiosamente cobertas pelos telejornais ? Que se sigam devotamente
os campeonatos espanhol e inglês (no mínimo) ? E que não haja jornalistas nem
espaço para tratar assuntos culturais e científicos. Nem para explicar com
clareza questões económicas. Nem para abordar seriamente matérias sociais da
vida quotidiana. Admiremo-nos depois que, nesta “overdose” de futebol, os média
descubram que, numa sondagem, um futebolista seja uma das 11 “personalidades
dos últimos 40 anos que mais contribuiu para o País”. Triste perceção da
história ! E terrível responsabilidade a dos média nesta grande baralhação de
valores essenciais…
Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 26 de abril de 2014, p. 43.
terça-feira, 6 de maio de 2014
Ce lointain parfum d'œillets...
J.-M. Nobre-Correia
Voici 40 ans, des militaires renversaient la vieille
dictature salazariste. Et le Portugal devenait une fête pour l’extrême gauche,
la gauche radicale et une partie de la gauche européennes. Qu’en reste-t-il ?…
Au matin du 16 mars 1974, les médias découvraient qu’à l’autre bout de l’Europe une tentative de soulèvement militaire avait échouée. Mais pouvait-on concevoir un soulèvement militaire dans une Europe « développée », « démocratique », bref : « civilisée » ? Sauf qu’à l’autre bout de l’Europe, le Portugal vivait en dictature depuis 48 ans, sous une chape de plomb sinistrement dure. Sans que les bonnes démocraties occidentales s’en émeuvent…
Cette dictature se trouvait d’ailleurs en
guerre depuis 1961 : en Angola, en Guinée-Bissau et au Mozambique. Son
budget d’État lui était majoritairement consacré. Des ouvriers émigraient en
masse vers l’Europe, surtout vers la France, mais aussi vers l’Allemagne. Des
jeunes désertaient un service militaire de quatre ans largement presté dans les
colonies. Les militaires de carrière en avaient assez des
« mobilisations » à répétition qui rendaient pénible, voire impossible,
toute vie familiale. Pour ne pas parler d’un nombre de victimes de guerre de
plus en plus élevé.
Le
coup devient mouvement
Les milieux plus informés savaient que cette
tentative de soulèvement constituait la preuve que le régime salazariste [1]
était vermoulu. Il fallait dès lors s’attendre à d’autres mouvements du même
genre. Ce qui est bien arrivé à l’aube du jeudi 25 avril : un soulèvement
militaire renversait le régime en place sans que celui-ci ait pratiquement
opposé résistance.
Toutefois, ce qui relevait du coup militaire
a suscité immédiatement une incroyable adhésion populaire, joyeuse et
revendicative. Quelques jours plus tard, dès le 1er mai en tout cas, il était
évident qu’un large mouvement social avait éclos, spontané et nullement
encadré. Comment pouvait-il d’ailleurs l’être, quand seul le Parti Communiste
Portugais avait survécu dans la clandestinité et en gardaient les stigmates ?
Que l’extrême gauche était incroyablement groupusculaire. Que le Parti
Socialiste avait juste été constitué l’année précédente en Allemagne fédérale et
n’existait pas socialement. Que les partis situés à droite étaient tout
simplement inexistants sur le terrain. Et que les organisations syndicales
étaient tout au plus embryonnaires, l’État corporatisme salazariste ne tolérant
que les « syndicats » officiels.
Ce quasi-désert de structures d’encadrement a
posé un problème d’autant plus grave que les sous-officiers à l’origine du coup
n’avaient, à de très rares exceptions, aucune formation politique. Ce qui ne
les a pas empêché d’être de plus en plus tentés par l’action politique,
revendiquant rapidement un statut d’acteurs incontournables, sans l’accord
desquels rien n’était possible.
Le Portugal a dès lors navigué pendant
dix-neuf mois dans un incroyable climat d’incertitudes au sujet du lendemain.
Les groupuscules d’extrême gauche jouaient aux boutefeux permanents dans des
initiatives poético-foireuses. Les communistes, avec leurs réflexes de
clandestinité et, donc, de méfiance, cherchaient à se rendre plutôt discrets et
légalistes, collant (stratégiquement ou bien malgré eux, c’est selon) aux
militaires favorables à une emprise de l’État sur la vie économique et social.
Les socialistes, fortement encadrés (politiquement et financièrement) par la
social-démocratie allemande et l’ambassade des États-Unis [2],
ont développé un discours de bons démocrates libéraux et anticommunistes
virulents. Tandis que la droite, tapie dans sa quasi inexistence sociale, cherchait
à entraîner des nostalgiques de l’ancien régime dans des initiatives
putschistes (le 28 septembre 1974 et le 11 mars 1975). Des initiatives qui ont
échoué et radicalisé les militaires à l’origine du soulèvement du 25 avril
1974. Ce qui a conduit à des nationalisations à une échelle démesurée qui ont
largement bousculé une vie économie déjà fort diaphane.
Les
deux coups d’arrêt
Parallèlement à ces développements (disons)
institutionnels, un énorme mouvement de masses, souvent très innovateur sur les
plans social et culturel, s’est mis en branle, très spontané et aux allures souvent
autogestionnaires. L’augmentation générale des salaires les plus bas était
d’ailleurs de nature à laisser croire que cette vague de revendications et
d’affirmation sociale ne pouvaient que laisser prévoir des lendemains
prometteurs.
Un premier coup d’arrêt à de telles
perspectives a été donné par les élections constitutionnelles du 25 avril 1975.
Le PS s’y est affirmé comme premier parti, trois fois plus voté que le PCP. Les
deux formations de droite (PSD et CDS) ont réuni ensemble presque autant de
voix que le PS. Tandis qu’aucun parti de gauche radicale ou d’extrême gauche
n’a dépassé le 1 % des voix.
Les courants gonçalviste et oteliste [3]
des forces armées ont cependant décidé in
petto de ne pas accepter les rapports de force établis par les électeurs.
Et ce fut le début d’un engrenage où la confrontation militaire (d’aucuns
diront : la guerre civile) a été évitée de justesse. Le 25 novembre 1975,
le courant légaliste et réformiste de l’armée [4]
a mis fin aux visées putschistes de l’aile gauchisante. La « révolution
des œillets » était terminée et le Portugal entrait dans la légalité
démocratique d’une société libérale.
De cette « révolution des
œillets », les médias européens ont très rarement su proposer à leurs
publics une vision dynamique insérée dans l’histoire, la géographie et la
culture d’un pays dont la fondation et les frontières sont les plus anciennes
de l’Europe [5].
Ignorant le plus souvent les données les plus élémentaires de la société
portugaise, des journalistes y ont débarqué avec leurs visières
d’ « Européens civilisés », prenant pour du folklore d’une
peuplade attardée ce qui relevait d’une vraie révolution sociale. Une
révolution qui a entrainé des mutations sociales et économiques largement
irréversibles (même 40 ans plus tard, quand, comme à l’heure actuelle, les
pratiques d’un gouvernent néo-libéral radical dépassent toute convenance
démocratique).
En ces années-là de révolution, le Portugal était
devenu la contrée de villégiature de tout ce qu’Europe comptait de gauchistes
donneurs de leçons, en quête de leurs propres « lendemains qui
chante(raie]nt », quitte à rendre la consolidation de la démocratie
sociale problématique. De partout, la gauche de la gauche, voire même la gauche
bien assise (autrement dit : tous les déçus de Varsovie et de Prague),
cherchaient au Portugal le vertige enivrant de celle qui fut le dernier espoir
d’une révolution socialiste démocratique dans l’Europe du XXe siècle.
Bref : Lisbonne était devenu le salon où il fallait absolument parader !
Des
conquêtes à l’ « austérité »
40 ans après le 25 Avril, les Portugais en
sont revenu de leurs illusions, notamment de celles que l’Union européen a
fomenté lors de l’adhésion en 1986, qui a détruit son agriculture et ses
industries. Il leur arrive même de penser que la grande joie de la révolution
annonçait déjà la grande amertume d’aujourd’hui. Il n’en reste pas moins que le
Portugal d’aujourd’hui n’est en rien comparable à celui de l’époque où la
démocratie parlementaire commença à éclore.
L’indépendance a rapidement été accordée à
toutes les colonies, celles-ci gardant des relations particulièrement cordiales
avec l’ancienne métropole, avec ce pays « qui a donné de nouveaux mondes
au monde » (comme écrivait le poète Luís de Camões [6]
au XVI siècle). Les infrastructure sociales, culturelles et médicales ont été
fortement développées, le pays se dotant d’un vaste réseau d’écoles de tous
niveaux académiques, de nombreux centres médico-hospitaliers (et d’un service
national de santé enviable), d’un vaste arsenal de nouvelles technologies que de
très nombreux Européens lui jalousent… Mais ces réalités de la vie quotidienne
n’intéressent pas des médias étrangers qui privilégient l’événementiel, les
sensations fortes. Comme elles n’intéressent plus les anciens amateurs de
villégiatures sur la façade la plus occidentale de l’Atlantique : le
Portugal n’est plus une fête !...
Il l’est d’autant mois que, à gauche, le PS
reste marqué par l’anticommunisme et le PCP par l’antisocialisme, le PCP étant
écarté du pouvoir et les gouvernements du PS souvent minoritaires. Ce qui
permet à la droite toujours unie (PSD-CDS) de gouverner à sa guise. Pratiquant
à l’heure actuelle, et depuis trois ans, une politique
d’ « austérité » et de démantèlement des acquis sociaux qui donne
naissance à de larges poches de misère et provoque une nouvelle émigration
massive. Mais cette fois-ci ce sont de jeunes, parfois bardés de diplômes, qui
quittent le pays pour chercher du travail et se mettre au service de contrées
qui ne les ont pourtant pas formés…
[1]
La dictature issue du coup militaire du 28 mai 1926 a comme personnage-clé
António de Oliveira Salazar (1889-1970).
[2]
Agent de la CIA, Frank Carlucci est ambassadeur au Portugal de décembre 1974 à
février 1978, et ensuite directeur adjoint de la CIA. Il s’oppose au secrétaire
d’État Henry Kissinguer qui considère Mário Soares comme le futur Kerensky portugais
et appuie la stratégie du secrétaire général du PS.
[3]
Proches du premier ministre, général Vasco Gonçalves (1922-2005), et du général
Otelo Saraiva de Carvalho, respectivement.
[4]
Dont le théoricien était le major Ernesto Melo Antunes (1933-1999) qui adhèrera
au PS en 1981.
[5]
Selon divers historiens, la fondation du Portugal date de 1096.
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