domingo, 8 de junho de 2014

Estes europeus colonizados


J.-M. Nobre-Correia
Thomas Piketty : Jornais portugueses debruçam-se finalmente sobre um livro capital publicado há 9 meses em Paris, só porque está a ter um enorme sucesso nos Estados Unidos…

Já lá vão quase 20 anos, Furio Colombo, ex-professor da nova-iorquina Columbia University e ex-diretor do diário romano L’Unità, publicava um livro interessante : Ultime notizie sul giornalismo (Laterza, 1995). E explicava que, “a maior parte das notícias do mundo vêm, é notório, de fontes americanas. Isto é verdade em dois sentidos : porque a poderosa máquina americana da informação difunde no mundo mais notícias sobre o próprio país do que qualquer outra fonte seja capaz de fazer, mas também porque as notícias de qualquer outro país só passam a ser mundiais quando se tornam notícias americanas” (p. 24).

O caso do livro de Thomas Piketty, Le Capital au XXIe siècle (Seuil), constitui uma perfeita ilustração desta análise. Publicado em França em 5 de setembro do ano passado, Le Monde consagrou-lhe duas páginas em 30 de agosto. Uma paginação justificada pelo facto que o livro seria “o mais importante do ano — e talvez do decénio” no entender do Nobel da economia Paul Krugman. Não impede que os média europeus só o tenham descoberto quando a tradução se transformou num enorme sucesso de vendas nos EUA !

Deste lado do Atlântico, a existência de Piketty foi descoberta graças às crónicas que Krugman publica no New York Times e são fielmente reproduzidas por vários jornais europeus ! Só depois do sucesso nos EUA é que jornais tão importantes como o italiano La Repubblica ou o espanhol El País se debruçaram há poucas semanas sobre o livro. E, é claro, os portugueses fizeram-no ainda com mais atraso : só na semana passada é que a Visão, o Expresso e o Público lhe deram a devida importância.

O caso da Visão é aliás trágico-cómico. As páginas consagradas a “Marx 2.0” (sic) são quase unicamente uma mera tradução do magazine estado-unidense de direita Time (quando Visão se quer ou queria de centro-esquerda). E a capa do livro reproduzida é a da edição estado-unidense ! Triste mentalidade esta de subdesenvolvido culturalmente colonizado que reina no nosso meio jornalístico português…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 31 de maio de 2014, p. 43.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ainda a propósito das europeias…

J.-M. Nobre-Correia
Resultados houve nas eleições de 25 de maio que surpreenderam e até alguns que criaram preocupação. Há porém que procurar lê-los à luz da evolução da União Europeia e da sociedade democrática…
Escreveram-se montes de artigos sobre os resultados das eleições ao Parlamento Europeu. E os nossos jornalistas, “comentadores” e políticos falaram-nos durante horas do assunto. Mas talvez convenha ainda procurar pôr alguma ordem nas ideias e tecer algumas reflexões sobre os resultados saídos das urnas no domingo 25.
Antes mesmo de evocar os resultados, convém dizer que os eleitores votam raramente da mesma maneira nas eleições legislativas nacionais, nas locais e nas europeias. Nas nacionais, os eleitores têm o sentimento que, do voto que emitem, dependerá o essencial das condições de vida : custo da vida, poder de compra, qualidade do ensino e da assistência médica,… Nas locais intervêm dados de caráter pessoal, tais como o facto de se conhecerem boa parte dos candidatos e as suas competências, de se terem boas, más ou nenhumas relações com eles, de se saber o que já fizeram ou serão porventura capazes de fazer. Enquanto no que diz respeito às europeias, os eleitores sentem que tudo o que diz respeito à União Europeia se passa longe deles e, no fim de contas (e erradamente), não lhe diz sequer respeito.
Estas atitudes totalmente diferentes no que diz respeito aos três tipos de escrutínios explicam que os eleitores se sintam mais ligados pelas opções político-partidárias nas legislativas nacionais. Mais próximos de pessoas e de problemáticas concretas locais no caso das autárquicas. E largamente indiferentes à União Europeia, pelo que, os que se dignam votar, reagem com uma grande dose de mau humor, mandando provocatoriamente para Bruxelas-Estrasburgo gente muitas vezes com posições extremistas. Convém pois relativizar assim os resultados das últimas eleições.
Resultados muito relativos
Mais significativo é o nível de participação no ato eleitoral : apenas 43,09 % em toda a União Europeia. À parte a Bélgica e o Luxemburgo (países onde o voto é obrigatório e a abstenção devidamente punida pela lei, pelo que 90 % dos eleitores foram às urnas), as taxas de abstenção foram perfeitamente calamitosas, variando de 25,19 % em Malta a 86,95 % na Eslováquia, com 65,5 % de leitores que não foram às urnas em Portugal. O que mostra que os cidadãos europeus têm uma ideia péssima, execrável, do que se passa em Bruxelas e em Estrasburgo. Uma perceção tanto mais negativa que ela é reforçada pelos próprios governos nacionais, que justificam regularmente as suas próprias incompetências e insuficiências atribuindo-as a decisões “impostas por Bruxelas”.
É a luz destas elevadas taxas de abstenção que têm que ser interpretados os votos em formações de extrema direita ou eurocéticas. Ponhamos de parte o caso do Reino Unido que é e sempre foi muito mais estado-unidense do que união-europeísta. E reconheçamos que, nesta matéria, o general Charles de Gaulle tinha razão quando sempre se opôs à entrada no Reino Unido na então Comunidade Económica Europeia. Que o UKIP (United Kingdom Independence Party), que atingiu 26,77 % dos votos e se classificou como primeiro partido do Reino Unido, queira que o país se retire da União Europeia é mesmo uma boa notícia para quantos acreditam ainda nos destinos desta. Embora seja evidente que, se o ingresso da Reino Unido foi um primeiro grande erro para a União Europeia, um segundo erro foi a integração de toda uma série de “países de leste” que, historicamente, nunca fizeram parte da mesma Europa cultural e política, e que vieram apenas diluir a União Europeia, impedindo de facto que ela seja aprofundada [1]. Um enorme erro cometido em nome de uma feroz hostilidade à Rússia, país que os Estados Unidos querem absolutamente impedir que possa voltar a ser uma potência rival, preocupação que a União Europeia servilmente tomou em consideração na sua obsessão permanente de alargamento.
Porém, o caso que foi mais posto em evidência nos média portugueses foi de certo modo o da posição alcançada em França pelo partido de extrema direita FN (Front National). Ora, se este resultado de 24,95 % traduz uma certa evolução ideológica e política do país, é preciso relativizá-lo em relação aos 43,16 % de franceses que foram votar, o que em boa matemática elementar corresponde a 10,76 % dos cidadãos com direito de voto. E sabemos bem que, em atos eleitorais, sobretudo em atos eleitorais europeus, são precisamente os eleitores mais mobilizados, mais motivados ou mais tinhosos, que de facto vão manifestar-se nas urnas. Os outros, pura e simplesmente votam “com os pés” e não se apresentam nas mesas de voto.
Confirmações e novidades
No caso da França, é o nível da abstenção que é particularmente significativo : 56,84 % dos inscritos. Porque, no que diz respeito à UMP (Union pour un Mouvement Populaire, sarkozyste), os eleitores experimentam um sentimento de repugnância perante as falcatruas e corrupções em série que têm caraterizado o partido de direita e os seus principais responsáveis, que foram assim penalizados com apenas 20,79 % de votos. Quanto aos eleitores de esquerda, eles estão fartos de um PS (Parti Socialiste) cada vez mais liberal (ou na melhor das hipóteses : liberal-social), menos reformista, com menos coragem para afrontar os desafios atuais num perspetiva progressista e que, aliado ao PRG (Parti Radical de Gauche), obteve miseravelmente 13,98 % de votos. Enquanto que, à esquerda dos socialistas, o Front de Gauche obteve modestamente 6,34 %, incapazes que são as suas componentes [2] de renovar projetos políticos, programas, linguagem e tipos de mobilizações, o que lhes fez perder eleitores e, pior ainda, militantes em favor de um FN que, com Marine Le Pen, inovou em relação ao que o partido foi no tempo do seu pai, Jean-Marie Le Pen. Pior ainda : o conjunto da esquerda (PS-PRG, Europe Écologie e FG) não consegue mais do que 29,23 % dos votos.
Estas constatações em relação ao Parti Socialiste e à esquerda franceses, valem globalmente para os congéneres nos outros países da Europa latina, vítimas há muitíssimos anos da mesma tentação liberal (quando não desde sempre, como no caso português). Com um PSOE-PSC (Partido Socialista Obrero Español-Partit dels Socialistes de Catalunya, 23,00 %) que, apesar de se encontrar na oposição, não conseguiu vencer o PP (Partido Popular, 26,06 %), atualmente no governo. E um PS, em Portugal, que, não obstante uma política “de austeridade” descomedida do governo de direita conservadora (PPD-PSD+CDS-PP), não conseguiu obter mais do que 31,47 %, nem sequer 4 % mais do que a Aliança Portugal constituída por estes (27,71 %).
As grandes novidades na Europa latina vieram antes do mais da subida apesar de tudo limitada do CDU (PCP+PEV), em Portugal, com 12,67 %. Da novidade de Podemos (7,97 %), em Espanha, partido fundado dois meses antes. E sobretudo do PD (Partito Democratico), na Itália, que, embora no poder, alcança os 40,81 %. É verdade que, se há um partido de esquerda que — herdeiro do Partito Comunista Italiano (que foi o maior partido comunista do mundo ocidental) e da esquerda da antiga Democrazia Cristiana — abandonou a maioria das referências aos grandes princípios da esquerda, é bem o PD. Não impede que o jovem primeiro ministro Matteo Renzi está a fazer aquilo que muitos governos de esquerda não fazem : pôr em aplicação uma série de reformas importantes do Estado italiano e de práticas intoleráveis do mundo político, o que tem sido manifestamente apreciado pelos eleitores. E é este sentimento que experimentam os italianos de que o Estado e a vida democrática têm absolutamente, urgentemente, que ser repensados que os tem levado a uma aparente versatilidade nos votos expressos em eleições sucessivas (na Forza Italia, primeiro, no Movimento 5 Stelle, depois) e que sucessivamente os têm deixado decepcionados perante a ausência de iniciativas de fundo nestas matérias.
Acrescentemos a esta situação no sul da Europa, a confirmação da novidade de Syriza (Coligação da Esquerda Radical), com 26,60 %, primeiro partido na Grécia, dez anos apenas depois da sua fundação em 2004.
Uma decomposição avançada
No fundo, os resultados das eleições europeias são particularmente significativos no que diz respeito ao estado da opinião pública nos diferentes países da Europa ocidental. Nos países onde eles tinham uma certa força e até mesmo muita força, os partidos comunistas desapareceram ou estão em vias de desaparecimento (Bélgica, Itália, Espanha, França). E as formações que se afirmam ainda como tal estão reduzidas ao estado grupuscular, incapazes de repensar a ação política em democracia. A exceção é precisamente o PCP que mantem uma audiência e uma implantação populares, verdadeiras incógnitas no que diz respeito à probabilidade de o partido se manter por muitos anos ainda na paisagem política nacional.
Os partidos socialistas estão em plena decomposição ideológica. Em grave crise de identidade em França, em Espanha e em Portugal. Totalmente desconectado dos princípios mais elementares da história do socialismo democrático e do princípio essencial da justiça social, como na Itália, o PD. Mantendo-se como primeiro partido graças a uma real implantação social e a uma prática de clientelismo com incontestáveis aspetos sociais, como no caso do PS na Bélgica francófona (29,29 % [3]). Enquanto que o Labour Party britânico, na oposição, não consegue mais do que 24,74 %, apenas 1,43 % mais do que o Conservative Party (23,31 %), no governo. E a coligação do SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands, 27,30 %) com a CDU-CSU (Christlich Demokratische Union Deutschlands-Christlich Soziale Union in Bayern, 35,30 %), na Alemanha, tem sido claramente mais benéfica para este que para aquele. Uma configuração partidária e institucional relativamente bloqueada, congelada, faz que a estabilidade seja grande na Alemanha, a CDU-CSU e SPD estando alternativamente à cabeça do governo, quando não associados, como agora, no seio de uma “grande coligação”. E boa parte dos alemães estão globalmente satisfeitos com uma situação em que o euro lhes deu a liderança da União Europeia e um estatuto  dominante na Europa que duas guerras mundiais não lhes tinham permitido alcançar e até lhes puseram o país em ruínas…
Porém, há males que vêm por bem. Se o anti-união-europeísmo crescente no Reino Unido levar o país a retirar-se da União Europeia, tal decisão poderá favorecer o reforço interno desta e uma afirmação mais coerente no plano internacional. O peso crescente, embora na maior parte dos casos relativo, da extrema direita em detrimento muitas vezes da esquerda e até da esquerda radical como do extrema esquerda, obrigará os partidos socialistas, sociais-democratas (no sentido europeu da palavra) e trabalhistas a interrogarem-se sobre uma deriva liberal-social, ou mesmo até puramente liberal, que dura por vezes há uns quatro decénios. Enquanto que a esquerda radical terá que se interrogar sobre a sua aparente incapacidade em sair do leninismo (seja qual for a variante deste), sobre a distância que separa os seus discursos da realidade social e sobre a sua ausência de real inserção social.
Por outro lado, os partidos de direita, liberais ou conservadores, terão que se demarcar claramente da extrema direita, até porque a deriva direitista que atingiu alguns deles não reforçou as posições destes, mas antes credibilizou os discursos da extrema direita, as opções xenófobas, racistas e de exclusão social que a caraterizam. Levando os eleitores a preferirem muitas vezes o original de extrema direita à cópia da direita conservadora.
O regresso do Estado e da ética
Numa perspetiva mais ampla, os resultados das eleições europeias põem em evidência (mais do que no passado) a crise da vida política e das sociedades democráticas. E o facto que é urgente que políticos, “apparatchiks” e eurocratas possam repensá-las. Para que as instituições públicas sejam menos mastodontescas, menos inumanas e menos “caça reservada” para colocar “afilhados” dos partidos políticos. Para que o Estado, mais ligeiro no seu funcionamento, recupere a função essencial de regulador que é historicamente a sua, esvaziada que foi nestes últimos decénios em favor do mundo da finança. Para que a política volte à liderança, em detrimento dos “mercados”, cuja irracionalidade é por demais evidente, sem que isso possa significar um qualquer reforço do que há de inaceitável na conduta dos políticos, dos seus mandatos “ad aeternum”, sem duração limitada, e de uma preocupação por demais generalizada em usufruírem de benesses e alcavalas com que os outros cidadãos nem podem nem sequer sonhar.
Repensar a política e repensar a União Europeia. Se não quisermos que, como funciona a primeira há demasiado tempo, a vaga cinzenta de um novo fascismo assole a Europa. E se a nossa primeira preocupação não for que a União Europa desapareça, vítima da obesidade das suas instituições e da sua incapacidade em aproximar-se dos cidadãos, mas sim que ela funcione antes do mais como um projeto democrático, social e cultural…



[1] Ver a este propósito a citação de Henri Mendras no texto “Um olhar estrangeirado”, in Notas de Circunstância 2, 5 de maio de 2014.
[2] O Front de Gauche reúne oito formações das quais principalmente o Parti Communiste Français e o Parti de Gauche.
[3] Os belgas votam separadamente em « colégios eleitorais » francês, germanófono e neerlandês. Estes 29,29 % no colégio eleitoral francês transformam-se em 10,68 % a nível nacional, o PS passando então de primeiro partido comunitário francófono a quarto partido no plano nacional.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Figueira, Figueira da Foz...

J.-M. Nobre-Correia


3 de janeiro de 2010


30 de julho de 2010

3 de janeiro de 2010


22 de agosto de 2010


22 de agosto de 2010


13 de outubro de 2012


27 de outubro de 2012


10 de abril de 2010

domingo, 1 de junho de 2014

Quando a crise se acentua…


J.-M. Nobre-Correia
Diários de referência : Em apenas 11 meses, cinco títulos europeus e um estado-unidense entre os melhores foram objeto de movimentos que têm algo de inquietante…

A valsa dos diretores de diários de referência começou em junho. O diretor do parisiense Libération é então forçado a demitir-se da direção da redação e a de deixar o jornal em fevereiro. Em dezembro, é o do barcelonês La Vanguardia que é substituído significativamente pelo diretor de comunicação do proprietário Grupo Godó. Em seguida, em fevereiro, o do madrileno El Mundo é despedido. O seu concorrente mais direto, El País, substitui o diretor pelo correspondente em Nova Iorque no início de maio. Nomeado em julho, o diretor da redação de Libération demite-se em abril. A diretora do parisiense Le Monde demite-se, 14 meses apenas depois da sua nomeação. Para concluir a série, a diretora do New York Times é despedida e substituída pelo seu adjunto. E os dias do diretor do milanês Corriere della Sera parecem estar também contados…

Como explicar tal valsa ? São três as razões avançadas : queda das receitas publicitárias ; forte erosão das vendas ; difícil transição do papel para o digital. As duas primeiras têm sido sobejamente evocadas para não serem tratadas aqui. Mas têm uma consequência trágica para os jornais : a perda de rentabilidade. O que significa uma perda de independência em relação a grupos de pressão exteriores à redação.

A questão da transição para o digital toma aspetos diferentes : dificuldade de adaptação dos jornalistas do papel ao digital ; reposicionamentos problemáticos das edições papel e digital ; rentabilidade insuficiente da grande maioria das edições digitais dos antigos jornais. Sobretudo esta rentabilidade insuficiente está longe de compensar a perda de rentabilidade da edição em papel.

Os editores encontram-se cada vez mais em palpos de aranha, à procura de inencontráveis soluções. Enquanto as redações vão perdendo meios para concretizar a sua função, o número de redatores baixando, a cobertura da atualidade diminuindo e o preço de venda aumentando. Desencadeando uma espiral infernal que leva o leitor insatisfeito a abandonar o “seu” jornal…



Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 24 de maio de 2014, p. 40.

sábado, 31 de maio de 2014

O caso mais emblemático


J.-M. Nobre-Correia

Com olhos de europeu, o caso de Marcelo Rebelo de Sousa e da sua relação com os média portugueses é propriamente espantoso, inacreditável. Aqui está um personagem que diz ter estado entre os fundadores do PPD-PSD, que é seu militante, que foi seu presidente, que continua por intermitência a ser conselheiro em vista da direção do partido e, não mais tarde do que na semana passada, participava num “jantar-comício” da Aliança Portugal (PPD-PSD e CDS-PP) em Coimbra, tomando evidentemente a palavra para mobilizar os comensais.
Não impede que logo no dia seguinte ao das eleições europeias, Rebelo de Sousa estivesse na TVI a fazer de “comentador” ! Uma confusão de géneros que cultiva desde de sempre, primeiro no Expresso e agora na TVI, com uma ou outra travessia do deserto de vez em quando. E esta confusão de géneros — a que se vem acrescentar um insólito estatuto de conselheiro de Estado que, numa democracia a sério, lhe imporia o dever de reserva — parece não incomodar ninguém ou, na melhor das hipóteses, muito pouca gente. Não incomoda em todo o caso jornalistas e editores, pela boa razão que Rebelo de Sousa é um bom ator, no sentido teatral da palavra (como notou em tempos José António Saraiva em crónica do Expresso).
É claro que os espanhóis proprietários da TVI estão-se perfeitamente borrifando para o bom funcionamento do sistema democrático português, do seu meio político e do seu meio mediático-jornalístico. Para eles, o que é preciso é “animar a malta” com um máximo de divertimento (e Rebelo de Sousa sabe divertir, em todos os sentidos da palavra) e suscitar um máximo de receitas publicitárias e lucros (que têm dado muito jeito à ultra-deficitária espanhola Prisa). Pobre país que abandona assim o controle dos seus média de informação de grande audiência !…
Como está longe da Europa civilizada, de velha tradição democrática, este Portugal que se pretende europeu ! Imagina-se um só instante que um militante político (Rebelo de Sousa e todos os demais, mas ele é o caso mais emblemático) possa ser cronista, analista, comentador de um média da Europa democrática ? Peguemos num caso : o de Alain Duhamel, membro da Académie des Sciences Morales et Politiques francesa, autor de 16 livros e de numerosos artigos de ciência política, cronista político de muitos dos melhores média de referência em França desde 1963.
Em fevereiro de 2007, por ocasião de um debate no Institut d’Études Politiques, em Paris, Duhamel confessou que iria votar em François Bayrou nas eleições presidenciais de maio. O debate tinha apenas alunos do dito instituto como público. Mas foi o suficiente para que Duhamel fosse suspenso de toda e qualquer atividade de cronista na televisão France 2 durante o resto da campanha eleitoral que durou ainda quase três meses. Embora, que se saiba, Duhamel nunca tenha aderido a qualquer partido político.
Em Portugal, participa-se alegremente numa campanha eleitoral na terça-feira, em Coimbra, e vai-se comentar na TVI na segunda-feira seguinte, em Lisboa. Num pretenso espírito de independência de puro politólogo, duas noções a que Rebelo de Sousa é manifestamente estranho. O que não impede que as suas prédicas dominicais manobreiras estejam certamente ainda para durar, neste ou naquele jornal, rádio ou televisão. Com exceção dos média do grupo Impresa, de onde Francisco Pinto Balsemão o fez excluir, porque frequentou de perto Rebelo de Sousa e sabe o que a casa gasta [i]
Que Rebelo de Sousa, como professor universitário e conselheiro de Estado, se preste (ou aceite prestar-se) a tais encenações tão pouco jornalísticas e tão pouco politológicas, é dificilmente compreensível. Mas é-o ainda mais, muito mais, que tantos média deste país possam propô-las aos seus públicos, revelando assim a falta de respeito que têm por eles…



[i] Possa embora Rebelo de Sousa ser entrevistado hoje mesmo na « Revista » do Expresso

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Da minha janela em Bruxelas

J.-M. Nobre-Correia


15 de setembro de 2009


30 de janeiro de 2010


30 de janeiro de 2010


13 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010


19 de dezembro de 2010

Como é possível tanto espaço verde no "meu bairro em Bruxelas" (série de fotos publicadas em 17, 19 e 21 de maio), perguntam alguns internautas. É simples : basta localizar a minha rua, mesmo em frente da minha universidade. Aqui fica o plano do bairro, com a praceta mesmo em frente da minha casa :


domingo, 25 de maio de 2014

Uma gramática própria

J.-M. Nobre-Correia
Rádio : Se o “Programa da manhã” da Antena 1 é globalmente insatisfatório, emissões houve ou há que são o que de melhor se pode esperar de um serviço público…
Já aqui se disse sobejas vezes que o “Programa da manhã” da Antena 1 não está à altura do que melhor se faz nas rádios públicas generalistas europeias. E até se explicaram as insuficiências da conceção da grelha e da execução de boa parte das suas componentes. É possível porém que haja programas de qualidade no resto do dia. Mas a rádio é sobretudo um média da manhã. E daí que o “Programa da manhã” seja tantas vezes evocado.
No cinzentismo geral Matinal, houve ou há todavia programas que foram ou são do que melhor se faz em rádio. E do que melhor se pode esperar de uma rádio de serviço público. Assim essa pequena maravilha que era “Um lugar ao sul” de Rafael Correia. Uma autêntica pérola em que, no melhor jornalismo de reportagem e de entrevista, se procedia a uma recolha de usos e costumes, de histórias, adágios, poemas, cantilenas e músicas das gentes deste país ligadas antes do mais à terra, ao campo, à ruralidade. Com um senão talvez : o de privilegiar largamente o país ao sul do Tejo, como se a norte e nas ilhas pouco ou nada tivesse interesse.
Há hoje, aos sábados de manhã, as emissões de Ana Aranha. E, atualmente, estas formidáveis (e formidavelmente trágicas) “Histórias clandestinas”. Construídas com talento, conduzidas com tato, deixando falar os entrevistados, não os interrompendo a todo o momento, fazendo embora as perguntas indispensáveis. Respeitando as especificidades da radiofonia, fazendo intervir os necessários separadores e procedendo à indispensável montagem. Emissões de uma extrema utilidade, para que os jovens saibam. E indispensáveis, para que a História não esqueça.
Estes exemplos provam claramente que há gente na RDP-RTP com talento. Jornalistas e produtores que sabem bem que, em rádio, pôr emissões “no ar” não consiste unicamente em pôr um encartado da profissão diante de um micro, lendo textos preparados ou, pior ainda, falando atabalhoadamente de improviso. Mas que há que concebê-las e realizá-las segundo uma gramática que é própria da rádio…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 17 de maio de 2014, p. 43.