terça-feira, 17 de junho de 2014

Interrogações de um estrangeirado perplexo


J.-M. Nobre-Correia

Um após outro, os diários deste país (mas não só eles) vão desaparecendo. E Portugal é dos países europeus que contam com menos títulos. Para não falar já no facto que boa parte dos diários por aí publicados são claramente insuficientes em termos de cobertura dos diferentes aspetos da atualidade.
Uma após outra, as redações vão-se esvaziando. Quantitativamente e até qualitativamente. Porque, no entender dos editores, é preciso reduzir os custos. Equipas menos numerosas têm evidentemente custos mais baixos. Como têm custos mais baixos equipas mais jovens, contando com menos antiguidade. E juventude que quer dizer também, na maior parte dos casos, menos experiência, menos competência. E o que não é indiferente para os editores e diretores : maior maleabilidade, maior flexibilidade.
Uma crise que vem de longe
É por demais evidente que, desde há seis anos, a crise dos investimentos publicitários acentuou a crise da imprensa portuguesa. Acentuou mas não a desencadeou, porque de facto a crise vem de longe, de muito longe mesmo. Desde quando, nos tempos do salazarismo, pelo menos, a censura destruiu largamente a capacidade de aparecimento de verdadeiros editores e empresas de edição. Como destruiu largamente a prática de um autêntico jornalismo, no que diz respeito à procura da informação no terreno e à ponderada interpretação das componentes determinantes da atualidade. Enquanto que os bancos, tomando conta de quase todos os jornais diários e dos mais importantes semanários, destruíram o que restava ainda de iniciativa editorial privada no país.
O 25 de Abril constituiu evidentemente um marco fundamental da história dos média, dando nascimento a uma condição essencial do exercício das profissões de editor e de jornalista : a liberdade. Só que, a maneira como, durante longuíssimos anos, sucessivos governos e partidos políticos (sem exceção) abordaram a questão dos média e da informação, destruiu a quase totalidade do que existia por ocasião do levantamento militar [1]. E a destruição continuou durante muitíssimos anos ainda, porque os verdadeiros editores e gestores de jornais quase não existiam. E porque a grande maioria dos jornalistas vieram diretamente do militantismo político, primeiro, ou, agora, de demasiadas escolas superiores de todos os géneros e que muito raramente têm alguma coisa a ver com a formação jornalística.
Perante a situação trágica qua acaba de ser evocada (cada vez menos jornais em papel, redações cada vez menos numerosas e, por consequente, número de jornalistas no desemprego cada vez maior), há algo de surpreendente, de espantoso : a lânguida apatia que domina o sector ! E esta apatia reina particularmente no meio jornalístico. Sem que haja verdadeiramente explicações concretas, indiscutíveis (históricas, culturais, sociológicas), para tal situação.
Quando se vê o que se passa aqui ao lado, em Espanha, em França ou na Itália — países geográfica e culturalmente próximos, em que a situação da imprensa diária até se assemelha mais à de Portugal do que à dos países escandinavos, por exemplo —, a apatia portuguesa é incompreensível. O número de diários digitais, em linha, que foram criados por equipas de jornalistas nestes três países é enorme. Por vezes com equipas que contam mais de uma trintena de jornalistas, sem falar nos administrativos. Propondo por vezes diários gratuitos, vivendo da publicidade. Mais raramente diários por assinatura e sem publicidade, por vezes com várias dezenas de milhares de assinantes (mais de 90 mil no caso de Mediapart, em França, seis anos depois do seu lançamento) e algumas vezes com uma rentabilidade confirmada ano após ano (no caso de Mediapart, nos últimos três anos).
Em Portugal, assistimos a uma viragem histórica com o lançamento do Expresso Diário em 6 de maio e do Observador em 19 do mesmo mês. O primeiro ligado ao semanário Expresso e produzido pela sua equipa, sendo o segundo uma verdadeira iniciativa autónoma (“pure player”, dizem os anglófonos). Mas como é possível que se tenham esperado tantos anos antes que algo de verdadeiramente significativo nos planos editorial e jornalístico tenha acontecido ? Porquê este atraso de uns sete ou oito anos em relação às primeiras criações de jornais digitais autónomos em França, por exemplo, quando a diversidade de diários neste país é bem mais vasta do que em Portugal ?
Como explicar esta falta de iniciativa ?
Mas, para quem viveu dois terços da sua vida no estrangeiro, a principal interrogação continua a ser : como explicar esta falta de iniciativa da parte de tantos profissionais experientes que se encontram no desemprego ? Eliminados os custos importantes da produção técnica e da distribuição dos jornais impressos, o que impede que se constituam equipas coerentes de jornalistas, comungando de um mesmo projeto editorial, acompanhadas por administrativos experientes que frequentaram por vezes durante anos, e que estas equipas lancem vários jornais em linha ?
O leque de projetos possíveis é vasto, dada a paisagem mediática em desertificação avançada que é a portuguesa : diários generalistas ou especializados, com publicidade ou sem ela, gratuitos ou a pagamento, nacionais, regionalistas ou à escala da lusofonia,… Porquê então este amorfismo ? Preferirão os jornalistas portugueses o desemprego à perspetiva de se lançarem em iniciativas de que serão eles próprios responsáveis ?
Interrogações de um estrangeirado perplexo ? Ou abordagem não-depressiva, com um olhar diferente e razoavelmente positivo sobre a realidade mediática e jornalística portuguesa ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Razões que explicam a miséria », in Notas de Circunstância, n° 6, fevereiro de 2014 ;
J.-M. Nobre-Correia, « Um momento da história em perspetiva », in Notas de Circunstância, n° 8, abril de 2014.

domingo, 15 de junho de 2014

A incompreensão da História


J.-M. Nobre-Correia
Abdicação : Juan Carlos de Borbón decide retirar-se do poder, surpreendendo os espanhóis. E os diários madrilenos reagem como se nada tivesse mudado desde há cinquenta anos…

Foi tempo em que muitos diários tiravam várias edições ao longo do dia. Os editores queriam acompanhar a atualidade e propor aos leitores os seus últimos desenvolvimentos. Até porque os hábitos de aquisição dos jornais eram diversos : antes de ir para o trabalho, à hora de almoço, à saída do trabalho, antes de voltar a casa para jantar,… Fim dos anos 1960, princípios dos anos 1970, jornais havia na Europa do centro-norte que tiravam ainda sete edições diárias !

A multiplicação dos jornais nas rádios e nas televisões, nos anos 1960-70, veio fazer abrandar esta estratégia comercial. E o aparecimento das rádios e das televisões de informação contínua, a partir dos anos 1980, pôs-lhe fim, deixando compreender aos editores que era necessário repensar o posicionamento dos diários. A função social destes deixava de ser anunciar a atualidade, pelo menos no que dizia respeito aos grandes acontecimentos : era preciso agora ir mais longe na perspetivação, na interpretação, na tomada de posição.

Com a internet a partir do fim dos anos 1990, este necessário reposicionamento tornou-se mais flagrante, mais urgente. Os editores tinham que renunciar largamente a uma história secular e conceber os jornais de maneira totalmente nova e diversa. Em termos editoriais, mas também em termos comerciais. Mas a grande maioria dos editores continua a não perceber o que isto quer dizer…

A abdicação de Juan Carlos de Borbón, em Espanha, deu uma prova flagrante desta incapacidade em conceber os jornais de outro modo. A “Casa Real” anunciou-a por Twitter na segunda-feira, às 10h39. Quatro diários “nacionais” madrilenos decidiram fazer uma segunda edição nesse dia. El País anunciava “El Rey abdica”, El Mundo “El Rey abdica ‘porque es lo mejor para Espanã’”, o ABC “Juan Carlos I abdica em Felipe VI” e La Razón “Gracias , Don Juan Carlos”. Títulos de primeira página bem pouco imaginativos, sem mais valia, quando poucos terão sido os que tomaram conhecimento da notícia pelos jornais. Admirem-se depois…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 7 de junho de 2014, p. 44.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Um anacronismo absurdo


J.-M. Nobre-Correia
Os monárquicos em geral, e os monárquicos portugueses em particular, adoram contos de embalar com reis, rainhas, príncipes e princesas. E recusam ver o que há de escandaloso e absurdo em tais narrativas…
A demissão de Juan Carlos de Borbón tem posto em êxtase essas relíquias de “Ancien Régime” que são os monárquicos portugueses. Gente, por vezes inteligente e culta, que se põe a fazer considerações totalmente desprovidas de bom senso. Dizendo por exemplo que as monarquias são um modelo de estabilidade e moralidade, e as repúblicas se caraterizam pela instabilidade e a corrupção. Limitando por vezes tais afirmações às monarquias do norte e às repúblicas do sul da Europa. Demonstrando assim, no primeiro como no segundo casos, cegueira ou desonestidade.
Começando pela distinção enganadora entre o norte e o sul da Europa, esses monárquicos pseudo-subtis esquecem voluntariamente a diferença histórica entre ética protestante e ética católica. E, que se saiba as repúblicas finlandesa ou suíça não são menos éticas do que as monarquias do norte. São-no até bastante mais, porque a imoralidade, a hipocrisia, a ganância, a corrupção e a usurpação de privilégios das monarquias do norte como do sul têm sido postas em evidência nestes últimos decénios, para não irmos mais longe. Quando os sistema mediáticos dominantes praticamente por toda a Europa interiorizaram uma inacreditável deferência pelos meios dominantes e, claro está, por estes meios dominantes “pela graça de deus” que são os reis, grão-duques e demais príncipes.
Ora, a este clima de imoralidade, hipocrisia, ganância, corrupção e usurpação de privilégios, nenhuma monarquia europeia parece escapar. Nos casos britânico, neerlandês, belga, luxemburguês, espanhol ou nessa monarquia de opereta que é monegasca, tudo isso é por demais evidente. E para evocar apenas a atualidade, as guerras entre reis, rainhas e príncipes, que datam, pelo menos, desde a Segunda Guerra Mundial e atingem atualmente um elevado grau de comicidade na Bélgica. Com Albert de Saxe-Coboug, pai do atual rei, Philippe de Saxe-Cobourg, a protestar porque o Estado “só” lhe paga por ano 923 mil de euros de reforma (enquanto que Beatrix van Orange-Nassau, nos Países-Baixos, recebe 1,4 milhão de reforma não submetida a imposto !) !
Quanto à monarquia espanhola, nem vale a pena falar : a atualidade é por demais conhecida e significativa. Mas — para além mesmo das acusações atuais contra Elena de Borbón e o seu marido, Inaki Urdangarin — talvez convenha recordar aos monárquicos voluntariamente esquecidos que Juan Carlos de Borbón foi escolhido e educado pelo ditador Francisco Franco. Que matou o irmão Alfonso quando veio de férias ao Estoril, onde vivia a família (num “acidente” com uma arma de fogo segundo a polícia salazarista). Que prestou juramento ao Movimiento franquista ditatorial e fascizante. Que não foi por acaso que os seus pais e irmãs não assistiram à sua entronização. E que The New York Times avaliou a sua fortuna a nada menos de 1 800 milhões de euros, quando não tinha “praticamente nada” por alturas do falecimento de Franco !
Convém talvez recordar também todos os reis e demais famílias reais que colaboraram com o nazismo (na Itália ou na Bélgica) ou em golpes de Estado fascizantes (como na Grécia). Ou que, embora sejam “grandes trabalhadores dedicados” (como afirmam as propagandas oficiais), se descobre regularmente que andam em caçadas por África (caso de Juan Carlos de Borbón) ou de férias no sul de Espanha (caso de Baudouin de Saxe-Cobourg), no sul de França ou de Itália (no caso de Albert de Saxe-Cobourg, seu irmão e sucessor) : estes dois últimos, quase nunca se encontravam em Bruxelas quando se desencadeavam crises governamentais e tinham que apressadamente regressar à capital em avião expressamente enviado para o efeito !
Mas, para além de tudo o mais, os monárquicos portugueses dar-se-ão conta do ridículo de reis, grão-duques e príncipes vestidos como árvores de Natal, carregados de medalhas e de demais faixas, brincando aos oficiais militares das diferentes armas (segundo os dias, mesmo quando já não se aguentam nas pernas !) ? Do ridículo de ver crianças e adolescentes providos dos mais diversos títulos (infante, príncipe, duque,…) quando ainda nada fizeram e, muitas vezes, nada farão ? Do ridículo e escandaloso que é ver homens e mulheres acederem ao lugar de chefes de Estado só porque são o filho ou a filha primogénito do anterior monarca, seja qual for o seu grau de inteligência, cultura, competência ou apetência ?
Sejamos sérios : ser chefe de Estado pela simples razão que se é filho ou filho do chefe de Estado precedente é um anacronismo perfeitamente antidemocrático. E só quando os cidadãos de um país escolhem livremente quem deverá presidir aos destinos da nação se pode realmente falar de democracia…
Há algo de tremendamente chocante em ver aquele que foi designado arbitrariamente por um ditador sanguinário, que impôs uma guerra civil atroz e derrubou uma República democraticamente eleita, decidir agora que o seu filho será chefe de Estado. Um pouco de lucidez e de dignidade não fariam nada mal aos monárquicos portugueses, praticantes da cegueira, da má-fé e do absurdo…

domingo, 8 de junho de 2014

Estes europeus colonizados


J.-M. Nobre-Correia
Thomas Piketty : Jornais portugueses debruçam-se finalmente sobre um livro capital publicado há 9 meses em Paris, só porque está a ter um enorme sucesso nos Estados Unidos…

Já lá vão quase 20 anos, Furio Colombo, ex-professor da nova-iorquina Columbia University e ex-diretor do diário romano L’Unità, publicava um livro interessante : Ultime notizie sul giornalismo (Laterza, 1995). E explicava que, “a maior parte das notícias do mundo vêm, é notório, de fontes americanas. Isto é verdade em dois sentidos : porque a poderosa máquina americana da informação difunde no mundo mais notícias sobre o próprio país do que qualquer outra fonte seja capaz de fazer, mas também porque as notícias de qualquer outro país só passam a ser mundiais quando se tornam notícias americanas” (p. 24).

O caso do livro de Thomas Piketty, Le Capital au XXIe siècle (Seuil), constitui uma perfeita ilustração desta análise. Publicado em França em 5 de setembro do ano passado, Le Monde consagrou-lhe duas páginas em 30 de agosto. Uma paginação justificada pelo facto que o livro seria “o mais importante do ano — e talvez do decénio” no entender do Nobel da economia Paul Krugman. Não impede que os média europeus só o tenham descoberto quando a tradução se transformou num enorme sucesso de vendas nos EUA !

Deste lado do Atlântico, a existência de Piketty foi descoberta graças às crónicas que Krugman publica no New York Times e são fielmente reproduzidas por vários jornais europeus ! Só depois do sucesso nos EUA é que jornais tão importantes como o italiano La Repubblica ou o espanhol El País se debruçaram há poucas semanas sobre o livro. E, é claro, os portugueses fizeram-no ainda com mais atraso : só na semana passada é que a Visão, o Expresso e o Público lhe deram a devida importância.

O caso da Visão é aliás trágico-cómico. As páginas consagradas a “Marx 2.0” (sic) são quase unicamente uma mera tradução do magazine estado-unidense de direita Time (quando Visão se quer ou queria de centro-esquerda). E a capa do livro reproduzida é a da edição estado-unidense ! Triste mentalidade esta de subdesenvolvido culturalmente colonizado que reina no nosso meio jornalístico português…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 31 de maio de 2014, p. 43.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Ainda a propósito das europeias…

J.-M. Nobre-Correia
Resultados houve nas eleições de 25 de maio que surpreenderam e até alguns que criaram preocupação. Há porém que procurar lê-los à luz da evolução da União Europeia e da sociedade democrática…
Escreveram-se montes de artigos sobre os resultados das eleições ao Parlamento Europeu. E os nossos jornalistas, “comentadores” e políticos falaram-nos durante horas do assunto. Mas talvez convenha ainda procurar pôr alguma ordem nas ideias e tecer algumas reflexões sobre os resultados saídos das urnas no domingo 25.
Antes mesmo de evocar os resultados, convém dizer que os eleitores votam raramente da mesma maneira nas eleições legislativas nacionais, nas locais e nas europeias. Nas nacionais, os eleitores têm o sentimento que, do voto que emitem, dependerá o essencial das condições de vida : custo da vida, poder de compra, qualidade do ensino e da assistência médica,… Nas locais intervêm dados de caráter pessoal, tais como o facto de se conhecerem boa parte dos candidatos e as suas competências, de se terem boas, más ou nenhumas relações com eles, de se saber o que já fizeram ou serão porventura capazes de fazer. Enquanto no que diz respeito às europeias, os eleitores sentem que tudo o que diz respeito à União Europeia se passa longe deles e, no fim de contas (e erradamente), não lhe diz sequer respeito.
Estas atitudes totalmente diferentes no que diz respeito aos três tipos de escrutínios explicam que os eleitores se sintam mais ligados pelas opções político-partidárias nas legislativas nacionais. Mais próximos de pessoas e de problemáticas concretas locais no caso das autárquicas. E largamente indiferentes à União Europeia, pelo que, os que se dignam votar, reagem com uma grande dose de mau humor, mandando provocatoriamente para Bruxelas-Estrasburgo gente muitas vezes com posições extremistas. Convém pois relativizar assim os resultados das últimas eleições.
Resultados muito relativos
Mais significativo é o nível de participação no ato eleitoral : apenas 43,09 % em toda a União Europeia. À parte a Bélgica e o Luxemburgo (países onde o voto é obrigatório e a abstenção devidamente punida pela lei, pelo que 90 % dos eleitores foram às urnas), as taxas de abstenção foram perfeitamente calamitosas, variando de 25,19 % em Malta a 86,95 % na Eslováquia, com 65,5 % de leitores que não foram às urnas em Portugal. O que mostra que os cidadãos europeus têm uma ideia péssima, execrável, do que se passa em Bruxelas e em Estrasburgo. Uma perceção tanto mais negativa que ela é reforçada pelos próprios governos nacionais, que justificam regularmente as suas próprias incompetências e insuficiências atribuindo-as a decisões “impostas por Bruxelas”.
É a luz destas elevadas taxas de abstenção que têm que ser interpretados os votos em formações de extrema direita ou eurocéticas. Ponhamos de parte o caso do Reino Unido que é e sempre foi muito mais estado-unidense do que união-europeísta. E reconheçamos que, nesta matéria, o general Charles de Gaulle tinha razão quando sempre se opôs à entrada no Reino Unido na então Comunidade Económica Europeia. Que o UKIP (United Kingdom Independence Party), que atingiu 26,77 % dos votos e se classificou como primeiro partido do Reino Unido, queira que o país se retire da União Europeia é mesmo uma boa notícia para quantos acreditam ainda nos destinos desta. Embora seja evidente que, se o ingresso da Reino Unido foi um primeiro grande erro para a União Europeia, um segundo erro foi a integração de toda uma série de “países de leste” que, historicamente, nunca fizeram parte da mesma Europa cultural e política, e que vieram apenas diluir a União Europeia, impedindo de facto que ela seja aprofundada [1]. Um enorme erro cometido em nome de uma feroz hostilidade à Rússia, país que os Estados Unidos querem absolutamente impedir que possa voltar a ser uma potência rival, preocupação que a União Europeia servilmente tomou em consideração na sua obsessão permanente de alargamento.
Porém, o caso que foi mais posto em evidência nos média portugueses foi de certo modo o da posição alcançada em França pelo partido de extrema direita FN (Front National). Ora, se este resultado de 24,95 % traduz uma certa evolução ideológica e política do país, é preciso relativizá-lo em relação aos 43,16 % de franceses que foram votar, o que em boa matemática elementar corresponde a 10,76 % dos cidadãos com direito de voto. E sabemos bem que, em atos eleitorais, sobretudo em atos eleitorais europeus, são precisamente os eleitores mais mobilizados, mais motivados ou mais tinhosos, que de facto vão manifestar-se nas urnas. Os outros, pura e simplesmente votam “com os pés” e não se apresentam nas mesas de voto.
Confirmações e novidades
No caso da França, é o nível da abstenção que é particularmente significativo : 56,84 % dos inscritos. Porque, no que diz respeito à UMP (Union pour un Mouvement Populaire, sarkozyste), os eleitores experimentam um sentimento de repugnância perante as falcatruas e corrupções em série que têm caraterizado o partido de direita e os seus principais responsáveis, que foram assim penalizados com apenas 20,79 % de votos. Quanto aos eleitores de esquerda, eles estão fartos de um PS (Parti Socialiste) cada vez mais liberal (ou na melhor das hipóteses : liberal-social), menos reformista, com menos coragem para afrontar os desafios atuais num perspetiva progressista e que, aliado ao PRG (Parti Radical de Gauche), obteve miseravelmente 13,98 % de votos. Enquanto que, à esquerda dos socialistas, o Front de Gauche obteve modestamente 6,34 %, incapazes que são as suas componentes [2] de renovar projetos políticos, programas, linguagem e tipos de mobilizações, o que lhes fez perder eleitores e, pior ainda, militantes em favor de um FN que, com Marine Le Pen, inovou em relação ao que o partido foi no tempo do seu pai, Jean-Marie Le Pen. Pior ainda : o conjunto da esquerda (PS-PRG, Europe Écologie e FG) não consegue mais do que 29,23 % dos votos.
Estas constatações em relação ao Parti Socialiste e à esquerda franceses, valem globalmente para os congéneres nos outros países da Europa latina, vítimas há muitíssimos anos da mesma tentação liberal (quando não desde sempre, como no caso português). Com um PSOE-PSC (Partido Socialista Obrero Español-Partit dels Socialistes de Catalunya, 23,00 %) que, apesar de se encontrar na oposição, não conseguiu vencer o PP (Partido Popular, 26,06 %), atualmente no governo. E um PS, em Portugal, que, não obstante uma política “de austeridade” descomedida do governo de direita conservadora (PPD-PSD+CDS-PP), não conseguiu obter mais do que 31,47 %, nem sequer 4 % mais do que a Aliança Portugal constituída por estes (27,71 %).
As grandes novidades na Europa latina vieram antes do mais da subida apesar de tudo limitada do CDU (PCP+PEV), em Portugal, com 12,67 %. Da novidade de Podemos (7,97 %), em Espanha, partido fundado dois meses antes. E sobretudo do PD (Partito Democratico), na Itália, que, embora no poder, alcança os 40,81 %. É verdade que, se há um partido de esquerda que — herdeiro do Partito Comunista Italiano (que foi o maior partido comunista do mundo ocidental) e da esquerda da antiga Democrazia Cristiana — abandonou a maioria das referências aos grandes princípios da esquerda, é bem o PD. Não impede que o jovem primeiro ministro Matteo Renzi está a fazer aquilo que muitos governos de esquerda não fazem : pôr em aplicação uma série de reformas importantes do Estado italiano e de práticas intoleráveis do mundo político, o que tem sido manifestamente apreciado pelos eleitores. E é este sentimento que experimentam os italianos de que o Estado e a vida democrática têm absolutamente, urgentemente, que ser repensados que os tem levado a uma aparente versatilidade nos votos expressos em eleições sucessivas (na Forza Italia, primeiro, no Movimento 5 Stelle, depois) e que sucessivamente os têm deixado decepcionados perante a ausência de iniciativas de fundo nestas matérias.
Acrescentemos a esta situação no sul da Europa, a confirmação da novidade de Syriza (Coligação da Esquerda Radical), com 26,60 %, primeiro partido na Grécia, dez anos apenas depois da sua fundação em 2004.
Uma decomposição avançada
No fundo, os resultados das eleições europeias são particularmente significativos no que diz respeito ao estado da opinião pública nos diferentes países da Europa ocidental. Nos países onde eles tinham uma certa força e até mesmo muita força, os partidos comunistas desapareceram ou estão em vias de desaparecimento (Bélgica, Itália, Espanha, França). E as formações que se afirmam ainda como tal estão reduzidas ao estado grupuscular, incapazes de repensar a ação política em democracia. A exceção é precisamente o PCP que mantem uma audiência e uma implantação populares, verdadeiras incógnitas no que diz respeito à probabilidade de o partido se manter por muitos anos ainda na paisagem política nacional.
Os partidos socialistas estão em plena decomposição ideológica. Em grave crise de identidade em França, em Espanha e em Portugal. Totalmente desconectado dos princípios mais elementares da história do socialismo democrático e do princípio essencial da justiça social, como na Itália, o PD. Mantendo-se como primeiro partido graças a uma real implantação social e a uma prática de clientelismo com incontestáveis aspetos sociais, como no caso do PS na Bélgica francófona (29,29 % [3]). Enquanto que o Labour Party britânico, na oposição, não consegue mais do que 24,74 %, apenas 1,43 % mais do que o Conservative Party (23,31 %), no governo. E a coligação do SPD (Sozialdemokratische Partei Deutschlands, 27,30 %) com a CDU-CSU (Christlich Demokratische Union Deutschlands-Christlich Soziale Union in Bayern, 35,30 %), na Alemanha, tem sido claramente mais benéfica para este que para aquele. Uma configuração partidária e institucional relativamente bloqueada, congelada, faz que a estabilidade seja grande na Alemanha, a CDU-CSU e SPD estando alternativamente à cabeça do governo, quando não associados, como agora, no seio de uma “grande coligação”. E boa parte dos alemães estão globalmente satisfeitos com uma situação em que o euro lhes deu a liderança da União Europeia e um estatuto  dominante na Europa que duas guerras mundiais não lhes tinham permitido alcançar e até lhes puseram o país em ruínas…
Porém, há males que vêm por bem. Se o anti-união-europeísmo crescente no Reino Unido levar o país a retirar-se da União Europeia, tal decisão poderá favorecer o reforço interno desta e uma afirmação mais coerente no plano internacional. O peso crescente, embora na maior parte dos casos relativo, da extrema direita em detrimento muitas vezes da esquerda e até da esquerda radical como do extrema esquerda, obrigará os partidos socialistas, sociais-democratas (no sentido europeu da palavra) e trabalhistas a interrogarem-se sobre uma deriva liberal-social, ou mesmo até puramente liberal, que dura por vezes há uns quatro decénios. Enquanto que a esquerda radical terá que se interrogar sobre a sua aparente incapacidade em sair do leninismo (seja qual for a variante deste), sobre a distância que separa os seus discursos da realidade social e sobre a sua ausência de real inserção social.
Por outro lado, os partidos de direita, liberais ou conservadores, terão que se demarcar claramente da extrema direita, até porque a deriva direitista que atingiu alguns deles não reforçou as posições destes, mas antes credibilizou os discursos da extrema direita, as opções xenófobas, racistas e de exclusão social que a caraterizam. Levando os eleitores a preferirem muitas vezes o original de extrema direita à cópia da direita conservadora.
O regresso do Estado e da ética
Numa perspetiva mais ampla, os resultados das eleições europeias põem em evidência (mais do que no passado) a crise da vida política e das sociedades democráticas. E o facto que é urgente que políticos, “apparatchiks” e eurocratas possam repensá-las. Para que as instituições públicas sejam menos mastodontescas, menos inumanas e menos “caça reservada” para colocar “afilhados” dos partidos políticos. Para que o Estado, mais ligeiro no seu funcionamento, recupere a função essencial de regulador que é historicamente a sua, esvaziada que foi nestes últimos decénios em favor do mundo da finança. Para que a política volte à liderança, em detrimento dos “mercados”, cuja irracionalidade é por demais evidente, sem que isso possa significar um qualquer reforço do que há de inaceitável na conduta dos políticos, dos seus mandatos “ad aeternum”, sem duração limitada, e de uma preocupação por demais generalizada em usufruírem de benesses e alcavalas com que os outros cidadãos nem podem nem sequer sonhar.
Repensar a política e repensar a União Europeia. Se não quisermos que, como funciona a primeira há demasiado tempo, a vaga cinzenta de um novo fascismo assole a Europa. E se a nossa primeira preocupação não for que a União Europa desapareça, vítima da obesidade das suas instituições e da sua incapacidade em aproximar-se dos cidadãos, mas sim que ela funcione antes do mais como um projeto democrático, social e cultural…



[1] Ver a este propósito a citação de Henri Mendras no texto “Um olhar estrangeirado”, in Notas de Circunstância 2, 5 de maio de 2014.
[2] O Front de Gauche reúne oito formações das quais principalmente o Parti Communiste Français e o Parti de Gauche.
[3] Os belgas votam separadamente em « colégios eleitorais » francês, germanófono e neerlandês. Estes 29,29 % no colégio eleitoral francês transformam-se em 10,68 % a nível nacional, o PS passando então de primeiro partido comunitário francófono a quarto partido no plano nacional.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Figueira, Figueira da Foz...

J.-M. Nobre-Correia


3 de janeiro de 2010


30 de julho de 2010

3 de janeiro de 2010


22 de agosto de 2010


22 de agosto de 2010


13 de outubro de 2012


27 de outubro de 2012


10 de abril de 2010