domingo, 13 de julho de 2014

As prioridades da tribo


J.-M. Nobre-Correia
Hierarquização : Quando a “classe” jornalística dá o sentimento de fazer jornais da “classe” para a “classe”, privilegiando os centros de interesse da “classe”…

Estamos assim. Mas Portugal não constitui uma exceção. Só que, por cá, as coisas tomam uma dimensão altamente exagerada. Porque, nos outros países europeus, e nomeadamente nos mais vizinhos, a demarcação entre média “de referência” e média “populares” continua a ter pertinência. Mas, neste país, as linhas de demarcação saltaram e vive-se num magma em que tudo vale tudo. Ou quase…

O princípio do que se poderá chamar o fator “entourage” é simples : acontecimentos ou gestos, anódinos ou fúteis, que dizem respeito a próximos de personalidades de alto nível — próximos pelas relações pessoais, familiares ou profissionais — têm grandes chances de vir a ser temas de informação. Toma-se assim conhecimento que o pai de tal cantor célebre foi preso, que o filho de tal presidente dos EUA está desempregado, que o motorista de tal presidente da República francesa casou, que o filho de tal ator de cinema é objeto de uma ação em justiça, que o ex-marido de tal ministra belga foi preso…

Só que a importância que lhes é dada é bastante diferente dos médias “populares” para os “de referência”. Os primeiros vão jogar no sensacionalismo, na emoção. Não hesitando em mergulhar na vida privada do sujeito, dos familiares e amigos. Sem grande respeito por deontologias ou éticas. Enquanto que os média “de referência” consideram que o que diz respeito a indivíduos de segundo plano, sem peso social, pertence ao domínio privado e não deve ser levado a público. No máximo merecerá uma “breve”, dada a sua não-incidência na vida dos cidadãos.

No caso do acidente de que resultou a morte de um jovem desconhecido, filho de uma jornalista de televisão, os média “nacionais” perderam toda a noção de hierarquização da atualidade. Em graus diferentes. Mas todos jogaram no sensacionalismo e privilegiaram a vida da tribo jornalística. Até na primeira página ! Quando, para dar um só exemplo, a crise do BES terá graves consequências sobre a vida dos portugueses. Mas que interessa isso à classe dominante da tribo ?…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 5 de julho de 2014, p. 45.

domingo, 6 de julho de 2014

Sem conta, peso e medida


J.-M. Nobre-Correia
Futebol : Os média de informação acentuaram estes dias uma prática de cobertura da atualidade em que acontecimentos importantes foram apenas evocados ou mesmo ignorados…

Editores e diretores de jornais (impressos, radiofónicos ou televisivos) poderão gargarejar-se com palavras como “empresa”, “estratégia comercial” e outras mais. E sobretudo com “negócio” e “produto”, termos que afeiçoam. E todas essas palavras têm de facto uma relação com a realidade económica dos média de informação. Só que há outra realidade que não podem evacuar : os média são também instituições de caráter cultural, no sentido largo da palavra.

Quer isto dizer que a maneira como os média cobrem a atualidade, como concebem a informação, tem repercussões evidentes na perceção que os cidadãos têm do mundo e da própria vida quotidiana. Pelo que, em termos jornalísticos, é absolutamente essencial conceber uma hierarquização da atualidade em função do posicionamento editorial do média e, por conseguinte, do seu público alvo. Mas é-o também em termos de estratégia comercial, de modo a propor um “produto” adequado às especificidades e necessidades do público potencial.

Ora, a maneira altamente descomedida como os média de informação portugueses cobrem a atualidade futebolística só pode suscitar interrogações. Nomeadamente sobre a adequação aos seus públicos potenciais. Sobretudo quando se trata de média de serviço público ou “de referência”. Com o risco de levarem os públicos-alvo a renunciarem progressivamente a frequentá-los, a mudarem de hábitos, e, no caso dos jornais, a deixarem de comprá-los.

Porque a verdade é esta : o futebol é um divertimento que encanta e apaixona muita gente. Mas é antes do mais isso : um divertimento, percebido como tal por muita outra gente. Gente esta que não compreende, nem aceita que equipas, treinadores, selecionadores, dirigentes, jogadores possam constituir demasiadas vezes o tema de abertura dos jornais. Que se lhes possam consagrar um volume de páginas ou de tempo, de reportagens, entrevistas, conferências e diretos absolutamente descomedido. Até porque há quase sempre acontecimentos mais determinantes da vida quotidiana dos cidadãos…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 28 de junho de 2014, p. 43.

sábado, 5 de julho de 2014

Uma temática obsessional


J.-M. Nobre-Correia

O aspecto que mais impressiona nos média portugueses é o da importância dada ao desporto. Ou melhor : ao futebol. Sobretudo se se viveram dois terços da própria vida no estrangeiro. E se, por paixão como por obrigação profissional, se frequentaram quotidianamente os média de diferentes países europeus.
É verdade que a massificação da televisão e a proliferação dos canais fizeram do desporto (e mais particularmente, segundo os países, do futebol, do ténis, do ciclismo, do râguebi, do automobilismo,…) uma temática importante. E, média dominante a partir dos anos 1960-70, a televisão “contaminou” os outros médias no que diz respeito aos critérios de seleção e de hierarquização da informação. O que se tornou particularmente evidente na imprensa diária generalista, mais do que na rádio que já acordava então uma certa importância ao desporto.
Uma importância descomedida
Perante esta vaga favorável à cobertura da atualidade desportiva, até os diários “de referência” cederam em maior ou menor grau. Quando, antes, era mais ou menos impensável que prestassem atenção a tal tipo de atualidade e lhe consagrassem o mínimo espaço (caso do parisiense Le Monde, por exemplo) ! Hoje, é bastante frequente ver diários “de referência” conceber páginas especiais ou até mesmo suplementos a competições do género da Taça do Mundo ou da Taça Europeia de Futebol (quatro páginas diárias sobre o “Brésil 2014” no Le Monde). Tendo no entanto a preocupação de abordar geralmente essa atualidade sob ângulos diferentes dos outros média e recorrendo muitas vezes a “penas” ilustres, nomeadamente do meio literário.
Só que, no caso português, a importância dada ao futebol é totalmente descomedida. Na imprensa diária, mais ainda na rádio e de maneira totalmente exagerada na televisão, tudo, absolutamente tudo (…ou talvez não) aí passa : os treinos, as lesões, as contratações, as suspensões, as conferências de imprensa (dos treinadores, presidentes e jogadores), as chegadas e partidas em autocarros ou aviões, as chegadas e partidas aos estádios, hotéis ou aeroportos. Mais as entrevistas a propósito de tudo e de nada de adeptos, as reportagens, as correspondências e os “diretos” sobre os adeptos de tal e tal outra localidades do país e até do estrangeiro. Ou ainda as famílias, as namoradas e os cortes de cabelo… Sem esquecer os políticos (ou mais exatamente : os que vivem da política) que cometeriam um erro de mercática grave se não fizessem umas declarações adequadas sobre o assunto. Em suma : um fartote !
Treinadores há que se ouvem todos os dias (ou quase) na rádio e/ou na televisão. Os portugueses têm todos os dias direito a imagens de treinos (a sério : mandarão as televisões portuguesas todos os dias jornalistas e operadores de câmara a cobrir tais acontecimentos ? Ou tratar-se-á de imagens de arquivo ?). E quando há uma competição considerada importante, a RTP 1, a Sic, a TVI, a RTP Informação, a Sic Notícias, a TVI 24 e outras mais consagraram ao mesmíssimo tempo emissões do mesmo tipo ao assunto (…e chama-se a isto “pluralismo”). Com os eternos “comentadores” em estúdio a dizerem coisas que, ao que parece, são essenciais e sem as quais os pobres atrasadinhos que muitos de nós somos não compreenderiam nada do que se passou, está a passar ou irá passar de absolutamente fundamental…
O futebol passou assim a ser uma temática obsessional. Tema obrigatório dos encontros ocasionais como das conversas de café. Pretexto imperativo para afirmações patrioteiras bandeirísticas em janelas de domicílios, em montras de comércios ou até em veículos automóveis, de bonés e polos, chegando ao ponto de patrioteiros futebolísticos se enrolarem em bandeiras nacionais !
Uma grande problemática nacional
Divertimento que encanta e apaixona multidões, o futebol passou a ser, em Portugal, uma grande problemática nacional, talvez até : a grande ambição nacional. Apesar das repetidas derrotas, das desilusões rapidamente esquecidas graças a média que tudo fazem para que este fogo que arde não esmoreça e possa alimentar uma paixão que ultrapassa os limites do razoável.
Ah !, se os média portugueses consagrassem a mesma importância a descorticar a situação económica, a relatar os grandes debates de ideias e da cultura, a acompanhar os avanços da investigação e da ciência, a trazer a lume as experiências (económicas ou sociais) inovadoras que permitem antever um futuro prometedor, mais risonho ! Nem era preciso tanto : bastava que lhes dedicassem um quinto, um décimo do tempo que reservam diariamente ao futebol !
Com esta espécie de revolução coperniciana, escaparíamos a um clima obsessional de paixão ofuscante, optando por um discernimento sobre mecanismos da sociedade e do tempo em que vivemos. Poderiam então procurar sair progressivamente do estatuto de país fronteira entre dois mundos. Entre um mundo que avança na senda do progresso e outro que espera eternamente que “fundos comunitários” e outras “ajudas externas” o venham tirar de carências em que se encontram domínios essenciais de uma sociedade que se pretende moderna. Porque os próprios cidadãos os descuraram, obnubilados pelo futebol, graças à inestimável e irresponsável ajuda destes média…

domingo, 29 de junho de 2014

Questão de vida ou de morte


J.-M. Nobre-Correia
Jornais : Em matéria de informação jornalística, a situação em Portugal é cada vez mais grave e mesmo desesperante, perante a incúria dos responsáveis…

A situação da informação jornalística em Portugal é bastante insatisfatória e até globalmente medíocre. E a dos média de informação jornalística é inacreditavelmente subdesenvolvida. Ultra-subdesenvolvida mesmo, para um país com esta demografia, este nível cultural (apesar de tudo) e este desenvolvimento económico (não obstante a crise). Só que, em matéria de média e mais particularmente de imprensa em papel, não há uma reflexão séria sobre o assunto…

Políticos e homens de negócios só pedem a deus-nosso-senhor que as coisas continuem assim. Quanto menos informação séria houver, melhor eles estão de saúde, mantendo os cidadãos na ignorância do que se passa nessas esferas do poder. E, felizes por frequentarem os bastidores essas esferas do poder, editores e diretores preferem nem sequer se interrogarem sobre as razões de um ultra-subdesenvolvimento que corre a passo acelerado para o abismo final.

Ora, há três questões essenciais sobre as quais se impõe um reflexão de fundo, a bem da democracia, do seu bom funcionamento e aprofundamento. A primeira diz respeito à coerência dos projetos editoriais. Formulando esta interrogação simples mas absolutamente essencial : quem diz o quê a quem ? Porque os jornais com equipas disformes que falam de tudo e de nada a públicos totalmente diferentes, não têm, nem nunca tiveram viabilidade.

A segunda interrogação consiste em saber se o média dispõe da equipa redatorial adequada. Em termos quantitativos e qualitativos. Se os seus membros dispõem de uma boa formação profissional (e o que por aí se faz nesta matéria não é nada famoso). Se partilham um mesmo projeto editorial. E se souberam adequar-se convenientemente à evolução tecnológica e editorial da cena mediática. Sem esquecer, terceira questão, uma séria interrogação sobre a comercialização do média que, no caso da imprensa, é inacreditavelmente insatisfatória. Mas haverá por aí alguém neste país com poder de decisão para lançar esta reflexão de vida ou de morte para a democracia ?…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 21 de junho de 2014, p. 45.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma arma absoluta


J.-M. Nobre-Correia
Economia : Quando os média perdem “o sentido das responsabilidades”, os meios dirigentes dispõem de um instrumento todo poderoso, geralmente decisivo…

Os jornalistas não são necessariamente grandes democratas amadores de pluralismo. Geralmente, são sim amadores de personagens que fazem declarações estrondosas. E, no caso da televisão, adoram os que criam um clima de espetáculo e de polémica contundente. Pouco lhes importa, no plano político, que o que dizem esses personagens seja interessante, coerente, plausível. O que é preciso é “animar a malta” e fazer subir a parte de audiência da estação…

As televisões privadas espanholas estão assim a dar grande importância ao líder de Podemos, que obteve 7,97 % dos votos nas eleições europeias. Sucesso tanto maior e inesperado que este partido político foi constituído em março, dois meses e meio antes do escrutínio. Só que o governo de direita conservadora no poder não aprecia nada que Pablo Iglesias, o líder de Podemos, apareça tão frequentemente nos ecrãs, sobretudo na Cuatro e na La Sexta

Diversos dirigentes do Partido Popular fazem assim chegar ao primeiro ministro propostas para acabar com esta “benevolência” para com o “intruso”. Até porque estão habituados a que o sistema mediático pratique um pluralismo favorável aos “arco governamental”. Ou, na melhor das hipóteses, um pluralismo alargado aos pilares tradicionais do juancarlismo. Proposta de choque : reintroduzir a publicidade na pública Televisión Española (TVE).

Com tal iniciativa, as televisões privadas sofreriam grandes perdas. E há até quem pense que poderiam passar a ser deficitárias. Pelo que a manobra seria muito simples : alguém próximo do primeiro ministro diria aos dirigentes dos grupos proprietários (Mediaset e Atresmedia) que seria inevitável reintroduzir a publicidade na TVE. Dadas as dificuldades financeiras do país e a impossibilidade de continuar a fazer cortes nos sectores da saúde e da educação. Os dirigentes dos ditos grupos compreenderiam então que seria necessário afagar o governo e afastar os “intrusos”. Ou como a fragilidade económica dos média pode ser posta ao serviço dos que detém o poder…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 14 de junho de 2014.