sábado, 5 de julho de 2014

Uma temática obsessional


J.-M. Nobre-Correia

O aspecto que mais impressiona nos média portugueses é o da importância dada ao desporto. Ou melhor : ao futebol. Sobretudo se se viveram dois terços da própria vida no estrangeiro. E se, por paixão como por obrigação profissional, se frequentaram quotidianamente os média de diferentes países europeus.
É verdade que a massificação da televisão e a proliferação dos canais fizeram do desporto (e mais particularmente, segundo os países, do futebol, do ténis, do ciclismo, do râguebi, do automobilismo,…) uma temática importante. E, média dominante a partir dos anos 1960-70, a televisão “contaminou” os outros médias no que diz respeito aos critérios de seleção e de hierarquização da informação. O que se tornou particularmente evidente na imprensa diária generalista, mais do que na rádio que já acordava então uma certa importância ao desporto.
Uma importância descomedida
Perante esta vaga favorável à cobertura da atualidade desportiva, até os diários “de referência” cederam em maior ou menor grau. Quando, antes, era mais ou menos impensável que prestassem atenção a tal tipo de atualidade e lhe consagrassem o mínimo espaço (caso do parisiense Le Monde, por exemplo) ! Hoje, é bastante frequente ver diários “de referência” conceber páginas especiais ou até mesmo suplementos a competições do género da Taça do Mundo ou da Taça Europeia de Futebol (quatro páginas diárias sobre o “Brésil 2014” no Le Monde). Tendo no entanto a preocupação de abordar geralmente essa atualidade sob ângulos diferentes dos outros média e recorrendo muitas vezes a “penas” ilustres, nomeadamente do meio literário.
Só que, no caso português, a importância dada ao futebol é totalmente descomedida. Na imprensa diária, mais ainda na rádio e de maneira totalmente exagerada na televisão, tudo, absolutamente tudo (…ou talvez não) aí passa : os treinos, as lesões, as contratações, as suspensões, as conferências de imprensa (dos treinadores, presidentes e jogadores), as chegadas e partidas em autocarros ou aviões, as chegadas e partidas aos estádios, hotéis ou aeroportos. Mais as entrevistas a propósito de tudo e de nada de adeptos, as reportagens, as correspondências e os “diretos” sobre os adeptos de tal e tal outra localidades do país e até do estrangeiro. Ou ainda as famílias, as namoradas e os cortes de cabelo… Sem esquecer os políticos (ou mais exatamente : os que vivem da política) que cometeriam um erro de mercática grave se não fizessem umas declarações adequadas sobre o assunto. Em suma : um fartote !
Treinadores há que se ouvem todos os dias (ou quase) na rádio e/ou na televisão. Os portugueses têm todos os dias direito a imagens de treinos (a sério : mandarão as televisões portuguesas todos os dias jornalistas e operadores de câmara a cobrir tais acontecimentos ? Ou tratar-se-á de imagens de arquivo ?). E quando há uma competição considerada importante, a RTP 1, a Sic, a TVI, a RTP Informação, a Sic Notícias, a TVI 24 e outras mais consagraram ao mesmíssimo tempo emissões do mesmo tipo ao assunto (…e chama-se a isto “pluralismo”). Com os eternos “comentadores” em estúdio a dizerem coisas que, ao que parece, são essenciais e sem as quais os pobres atrasadinhos que muitos de nós somos não compreenderiam nada do que se passou, está a passar ou irá passar de absolutamente fundamental…
O futebol passou assim a ser uma temática obsessional. Tema obrigatório dos encontros ocasionais como das conversas de café. Pretexto imperativo para afirmações patrioteiras bandeirísticas em janelas de domicílios, em montras de comércios ou até em veículos automóveis, de bonés e polos, chegando ao ponto de patrioteiros futebolísticos se enrolarem em bandeiras nacionais !
Uma grande problemática nacional
Divertimento que encanta e apaixona multidões, o futebol passou a ser, em Portugal, uma grande problemática nacional, talvez até : a grande ambição nacional. Apesar das repetidas derrotas, das desilusões rapidamente esquecidas graças a média que tudo fazem para que este fogo que arde não esmoreça e possa alimentar uma paixão que ultrapassa os limites do razoável.
Ah !, se os média portugueses consagrassem a mesma importância a descorticar a situação económica, a relatar os grandes debates de ideias e da cultura, a acompanhar os avanços da investigação e da ciência, a trazer a lume as experiências (económicas ou sociais) inovadoras que permitem antever um futuro prometedor, mais risonho ! Nem era preciso tanto : bastava que lhes dedicassem um quinto, um décimo do tempo que reservam diariamente ao futebol !
Com esta espécie de revolução coperniciana, escaparíamos a um clima obsessional de paixão ofuscante, optando por um discernimento sobre mecanismos da sociedade e do tempo em que vivemos. Poderiam então procurar sair progressivamente do estatuto de país fronteira entre dois mundos. Entre um mundo que avança na senda do progresso e outro que espera eternamente que “fundos comunitários” e outras “ajudas externas” o venham tirar de carências em que se encontram domínios essenciais de uma sociedade que se pretende moderna. Porque os próprios cidadãos os descuraram, obnubilados pelo futebol, graças à inestimável e irresponsável ajuda destes média…

domingo, 29 de junho de 2014

Questão de vida ou de morte


J.-M. Nobre-Correia
Jornais : Em matéria de informação jornalística, a situação em Portugal é cada vez mais grave e mesmo desesperante, perante a incúria dos responsáveis…

A situação da informação jornalística em Portugal é bastante insatisfatória e até globalmente medíocre. E a dos média de informação jornalística é inacreditavelmente subdesenvolvida. Ultra-subdesenvolvida mesmo, para um país com esta demografia, este nível cultural (apesar de tudo) e este desenvolvimento económico (não obstante a crise). Só que, em matéria de média e mais particularmente de imprensa em papel, não há uma reflexão séria sobre o assunto…

Políticos e homens de negócios só pedem a deus-nosso-senhor que as coisas continuem assim. Quanto menos informação séria houver, melhor eles estão de saúde, mantendo os cidadãos na ignorância do que se passa nessas esferas do poder. E, felizes por frequentarem os bastidores essas esferas do poder, editores e diretores preferem nem sequer se interrogarem sobre as razões de um ultra-subdesenvolvimento que corre a passo acelerado para o abismo final.

Ora, há três questões essenciais sobre as quais se impõe um reflexão de fundo, a bem da democracia, do seu bom funcionamento e aprofundamento. A primeira diz respeito à coerência dos projetos editoriais. Formulando esta interrogação simples mas absolutamente essencial : quem diz o quê a quem ? Porque os jornais com equipas disformes que falam de tudo e de nada a públicos totalmente diferentes, não têm, nem nunca tiveram viabilidade.

A segunda interrogação consiste em saber se o média dispõe da equipa redatorial adequada. Em termos quantitativos e qualitativos. Se os seus membros dispõem de uma boa formação profissional (e o que por aí se faz nesta matéria não é nada famoso). Se partilham um mesmo projeto editorial. E se souberam adequar-se convenientemente à evolução tecnológica e editorial da cena mediática. Sem esquecer, terceira questão, uma séria interrogação sobre a comercialização do média que, no caso da imprensa, é inacreditavelmente insatisfatória. Mas haverá por aí alguém neste país com poder de decisão para lançar esta reflexão de vida ou de morte para a democracia ?…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 21 de junho de 2014, p. 45.

domingo, 22 de junho de 2014

Uma arma absoluta


J.-M. Nobre-Correia
Economia : Quando os média perdem “o sentido das responsabilidades”, os meios dirigentes dispõem de um instrumento todo poderoso, geralmente decisivo…

Os jornalistas não são necessariamente grandes democratas amadores de pluralismo. Geralmente, são sim amadores de personagens que fazem declarações estrondosas. E, no caso da televisão, adoram os que criam um clima de espetáculo e de polémica contundente. Pouco lhes importa, no plano político, que o que dizem esses personagens seja interessante, coerente, plausível. O que é preciso é “animar a malta” e fazer subir a parte de audiência da estação…

As televisões privadas espanholas estão assim a dar grande importância ao líder de Podemos, que obteve 7,97 % dos votos nas eleições europeias. Sucesso tanto maior e inesperado que este partido político foi constituído em março, dois meses e meio antes do escrutínio. Só que o governo de direita conservadora no poder não aprecia nada que Pablo Iglesias, o líder de Podemos, apareça tão frequentemente nos ecrãs, sobretudo na Cuatro e na La Sexta

Diversos dirigentes do Partido Popular fazem assim chegar ao primeiro ministro propostas para acabar com esta “benevolência” para com o “intruso”. Até porque estão habituados a que o sistema mediático pratique um pluralismo favorável aos “arco governamental”. Ou, na melhor das hipóteses, um pluralismo alargado aos pilares tradicionais do juancarlismo. Proposta de choque : reintroduzir a publicidade na pública Televisión Española (TVE).

Com tal iniciativa, as televisões privadas sofreriam grandes perdas. E há até quem pense que poderiam passar a ser deficitárias. Pelo que a manobra seria muito simples : alguém próximo do primeiro ministro diria aos dirigentes dos grupos proprietários (Mediaset e Atresmedia) que seria inevitável reintroduzir a publicidade na TVE. Dadas as dificuldades financeiras do país e a impossibilidade de continuar a fazer cortes nos sectores da saúde e da educação. Os dirigentes dos ditos grupos compreenderiam então que seria necessário afagar o governo e afastar os “intrusos”. Ou como a fragilidade económica dos média pode ser posta ao serviço dos que detém o poder…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 14 de junho de 2014.

terça-feira, 17 de junho de 2014

Interrogações de um estrangeirado perplexo


J.-M. Nobre-Correia

Um após outro, os diários deste país (mas não só eles) vão desaparecendo. E Portugal é dos países europeus que contam com menos títulos. Para não falar já no facto que boa parte dos diários por aí publicados são claramente insuficientes em termos de cobertura dos diferentes aspetos da atualidade.
Uma após outra, as redações vão-se esvaziando. Quantitativamente e até qualitativamente. Porque, no entender dos editores, é preciso reduzir os custos. Equipas menos numerosas têm evidentemente custos mais baixos. Como têm custos mais baixos equipas mais jovens, contando com menos antiguidade. E juventude que quer dizer também, na maior parte dos casos, menos experiência, menos competência. E o que não é indiferente para os editores e diretores : maior maleabilidade, maior flexibilidade.
Uma crise que vem de longe
É por demais evidente que, desde há seis anos, a crise dos investimentos publicitários acentuou a crise da imprensa portuguesa. Acentuou mas não a desencadeou, porque de facto a crise vem de longe, de muito longe mesmo. Desde quando, nos tempos do salazarismo, pelo menos, a censura destruiu largamente a capacidade de aparecimento de verdadeiros editores e empresas de edição. Como destruiu largamente a prática de um autêntico jornalismo, no que diz respeito à procura da informação no terreno e à ponderada interpretação das componentes determinantes da atualidade. Enquanto que os bancos, tomando conta de quase todos os jornais diários e dos mais importantes semanários, destruíram o que restava ainda de iniciativa editorial privada no país.
O 25 de Abril constituiu evidentemente um marco fundamental da história dos média, dando nascimento a uma condição essencial do exercício das profissões de editor e de jornalista : a liberdade. Só que, a maneira como, durante longuíssimos anos, sucessivos governos e partidos políticos (sem exceção) abordaram a questão dos média e da informação, destruiu a quase totalidade do que existia por ocasião do levantamento militar [1]. E a destruição continuou durante muitíssimos anos ainda, porque os verdadeiros editores e gestores de jornais quase não existiam. E porque a grande maioria dos jornalistas vieram diretamente do militantismo político, primeiro, ou, agora, de demasiadas escolas superiores de todos os géneros e que muito raramente têm alguma coisa a ver com a formação jornalística.
Perante a situação trágica qua acaba de ser evocada (cada vez menos jornais em papel, redações cada vez menos numerosas e, por consequente, número de jornalistas no desemprego cada vez maior), há algo de surpreendente, de espantoso : a lânguida apatia que domina o sector ! E esta apatia reina particularmente no meio jornalístico. Sem que haja verdadeiramente explicações concretas, indiscutíveis (históricas, culturais, sociológicas), para tal situação.
Quando se vê o que se passa aqui ao lado, em Espanha, em França ou na Itália — países geográfica e culturalmente próximos, em que a situação da imprensa diária até se assemelha mais à de Portugal do que à dos países escandinavos, por exemplo —, a apatia portuguesa é incompreensível. O número de diários digitais, em linha, que foram criados por equipas de jornalistas nestes três países é enorme. Por vezes com equipas que contam mais de uma trintena de jornalistas, sem falar nos administrativos. Propondo por vezes diários gratuitos, vivendo da publicidade. Mais raramente diários por assinatura e sem publicidade, por vezes com várias dezenas de milhares de assinantes (mais de 90 mil no caso de Mediapart, em França, seis anos depois do seu lançamento) e algumas vezes com uma rentabilidade confirmada ano após ano (no caso de Mediapart, nos últimos três anos).
Em Portugal, assistimos a uma viragem histórica com o lançamento do Expresso Diário em 6 de maio e do Observador em 19 do mesmo mês. O primeiro ligado ao semanário Expresso e produzido pela sua equipa, sendo o segundo uma verdadeira iniciativa autónoma (“pure player”, dizem os anglófonos). Mas como é possível que se tenham esperado tantos anos antes que algo de verdadeiramente significativo nos planos editorial e jornalístico tenha acontecido ? Porquê este atraso de uns sete ou oito anos em relação às primeiras criações de jornais digitais autónomos em França, por exemplo, quando a diversidade de diários neste país é bem mais vasta do que em Portugal ?
Como explicar esta falta de iniciativa ?
Mas, para quem viveu dois terços da sua vida no estrangeiro, a principal interrogação continua a ser : como explicar esta falta de iniciativa da parte de tantos profissionais experientes que se encontram no desemprego ? Eliminados os custos importantes da produção técnica e da distribuição dos jornais impressos, o que impede que se constituam equipas coerentes de jornalistas, comungando de um mesmo projeto editorial, acompanhadas por administrativos experientes que frequentaram por vezes durante anos, e que estas equipas lancem vários jornais em linha ?
O leque de projetos possíveis é vasto, dada a paisagem mediática em desertificação avançada que é a portuguesa : diários generalistas ou especializados, com publicidade ou sem ela, gratuitos ou a pagamento, nacionais, regionalistas ou à escala da lusofonia,… Porquê então este amorfismo ? Preferirão os jornalistas portugueses o desemprego à perspetiva de se lançarem em iniciativas de que serão eles próprios responsáveis ?
Interrogações de um estrangeirado perplexo ? Ou abordagem não-depressiva, com um olhar diferente e razoavelmente positivo sobre a realidade mediática e jornalística portuguesa ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Razões que explicam a miséria », in Notas de Circunstância, n° 6, fevereiro de 2014 ;
J.-M. Nobre-Correia, « Um momento da história em perspetiva », in Notas de Circunstância, n° 8, abril de 2014.