domingo, 7 de setembro de 2014

As incertezas das novas eras


J.-M. Nobre-Correia
Jornais : O chamado “quarto poder” tem fragilidades geralmente desconhecidas e às quais não se presta suficientemente atenção. Com os riscos que isso pode comportar…
É o que acontece a maior parte das vezes. Nem sempre. Mas a maior parte das vezes. Quando, numa empresa editora de médias, novos acionistas dão entrada no capital. Ou quando novas direções editoriais entram em funções. A tentação é grande, no primeiro caso, de querer nomear novos responsáveis para os lugares chave da empresa. E, no segundo, de proceder a mudanças nas diferentes chefias da redação e da programação, mas também no visual do média, na grelha da programação e na conceção da informação como do jornal.
Para os novos chefes, trata-se de facto de afirmar o início de uma “nova era”. Porque, na cabeça deles é disso que se trata, com um antes e um depois. Só que, em matéria de média, as audiências perdem-se mais depressa do que se ganham. Porque o público é particularmente conservador. Sobretudo o público dos jornais, distinguindo-se estes globalmente dos outros média pela atitude ativa que requerem para o ato de compra.
Os leitores de um jornal estão habituados a uma seleção da informação, a uma hierarquização, a uma política de titulação e de ilustração, e que tal tipo de matéria seja tratado por este ou aquele jornalista ou colaborador exterior. E quando se procedem a modificações importantes, o leitor sente que perdeu a ligação familiar que tinha com o “seu” jornal. Enquanto que os não leitores mantêm uma imagem negativa tenaz daquele jornal, de que não gostam, que os indispõe, pela razões mais diversas, sobretudo de ordem ideológica e digamos cultural.
Um jornal impresso e até um jornal digital são de facto produtos frágeis. Pelo que há que os fazer evoluir lentamente, progressivamente, pincelada após pincelada. De modo a procurar antes do mais conservar os fiéis leitores. Enquanto que, aos poucos, pela qualidade da informação e das análises, pelos exclusivos que conseguirá trazer a público, o jornal da tal “nova era” ir-se-á impondo nos meios alvo para os quais é concebido. Tornando a sua leitura obrigatória, condição indispensável de perenidade e de sucesso…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 30 de agosto de 2014, p. 43.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

As piruetas dos "animais de poder"


J.-M. Nobre-Correia
Média : Quando o antigo diretor do mais prestigioso diário francês evoca uma reviravolta de dois líderes políticos que deveria fazer refletir nas redações…

Num livro recente, sob a forma de longa entrevista, Jean-Marie Colombani [1], que foi diretor de Le Monde de 1994 a 2007, aborda temas interessantes : a entrada no jornal como simples redator (em 1977), a chefia do serviço político, a chefia de redação e a direção do jornal e do grupo constituído em torno deste. Procurando explicar a crise que levou a redação a votar contra a renovação do seu mandato de diretor. Analisando também a crise atual dos jornais impressos e as perspetivas futuras destes como dos digitais, até porque Colombani é agora diretor do magazine digital Slate.fr que fundou em 2009.
O livro é interessante para quem queira saber como um antigo diretor analisa o jornal em que trabalhou e que dirigiu, que análise faz da evolução atual deste jornal e como vê o futuro do jornalismo. E há no dito livro algumas passagens saborosas, nomeadamente esta : “Je me souviens de l’épisode du traité de Maastricht pour la ratification duquel François Mitterrand avait convoqué un référendum. Jacques Chirac, chef de l’opposition et toujours maire de Paris, hésitait et il fallut beaucoup de pédagogie à Édouard Balladur pour le convaincre que, s’il cédait à son inclination — voter non —, il ne serait jamais président de la République. Très peu de temps après l’annonce présidentielle, je reçois un coup de fil de Charles Pasqua me proposant un « papier » signé de lui-même et de Philippe Séguin et me demandant de le publier aussitôt que possible. Titre de l’article « Oui à Maastricht ! » (sic). Quelques heures plus tard, Jacques Chirac tient une conférence de presse et annonce que, tout bien pesé, il votera en faveur de la ratification du traité, donc « oui » à Maastricht. Re-coup de fil de Charles Pasqua : « Jean-Marie, le papier, mettez-le à la poubelle, je vous en renvoie un autre ! » Le lendemain, arrive l’autre « papier », toujours signé de Charles Pasqua et Philippe Séguin. Titre : « Non à Maastricht ! » Ainsi va la politique. L’un et l’autre cherchaient alors à écarter Jacques Chirac du leadership de la droite” (p. 149) !
Pequena explicação de texto : François Mitterrand era presidente da República ; Jacques Chirac antigo ministro e primeiro ministro, presidente então do RPR e da Câmara Municipal de Paris, futuro primeiro ministro e, mais tarde, presidente da República ; Édouard Balladur antigo ministro da Economia e futuro primeiro ministro ; Charles Pasqua antigo e futuro ministro do Interior ; Philippe Séguin antigo ministro dos Assuntos Sociais e do Emprego e futuro presidente da Assembleia Nacional e, em seguida, presidente do RPR. Com exceção de Mitterrand, claro, os quatro últimos personagens foram líderes de primeiro plano do partido conservador RPR que daria em seguida lugar à atual UMP.
A formidável história contada por Colombani permite pelo menos duas reflexões. A primeira é que os homens políticos são na grande maioria dos casos puros animais de poder (“bêtes de pouvoir”), por vezes mesmo ferozes animais de poder, sedentos antes do mais de poder e das benesses do poder. A segunda é que, no espírito dos políticos profissionais, os jornalistas são gente a instrumentalizar, a utilizar em proveito deles próprios, políticos, e que os ditos políticos pouco se preocupam com a coerência ideológica, com a fidelidade aos princípios que proclamam e aos do partido de que fazem parte, e muito menos com essa ideia extravagante que é de servir a sociedade…
Os jornalistas não deveriam esquecer o que há de puramente tático e oportunista nas declarações, nos gestos e nas piruetas mais ou menos espetaculares dos profissionais da política. Dando-lhe a devida e somenos importância que merecem. Respeitando assim os leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. E respeitando-se a eles próprios, jornalistas…



[1] Jean-Marie Colombani com Catherine Vincent, Un Monde à part, Paris, Plon, 2013, 256 p.

domingo, 31 de agosto de 2014

O horizonte proposto


J.-M. Nobre-Correia
Televisão : As caraterísticas que dominam os programas dos operadores de telecomunicações são a mediocridade e a omnipresença da produção estado-unidense…

Os portugueses admitem tudo. Suportam tudo. Habituam-se a tudo. Nomeadamente no que diz respeito aos operadores de telecomunicações. Operadores que praticam preços exageradamente elevados em comparação com os praticados em países europeus com poder de compra bastante mais elevado. Mas operadores que, em matéria de média tradicionais, propõem programas de televisão de uma inacreditável mediocridade.
Evidentemente, não se trata aqui de evocar a mediocridade congenital das televisões portuguesas. Mediocridade de que os operadores de telecomunicações não são responsáveis. Mas sim da mediocridade global dos programas de origem estrangeira que são propostos aos assinantes. Com numerosas televisões que emitem em línguas que só meia dúzia de funcionários de embaixadas estrangeiras compreenderão. E umas tantas televisões brasileiras cujo nível entra em concorrência direta com o das portuguesas…
O mais intolerável é o número de televisões de origem estado-unidense dos mais diversos géneros. Quando as televisões espanholas, francesas, italianas, britânicas, alemãs e até belgas, neerlandesas ou suíças são raras ou inexistentes. Embora Portugal faça parte da mesma área cultural. Para não falar de outros países de uma União Europeia de que Portugal até é membro. O que põe em evidência o facto da União Europeia ser antes do mais um mercado comum e não uma comunidade que partilha um projeto cultural, social e político.
Esta ausência do projeto comunitário é particularmente posta em evidência pela programação proposta em matéria de filmes. A predominância estado-unidense é aterradora. Como se o cinema europeu não existisse ! Um cinema todavia mais próximo das próprias realidades portuguesas. E um cinema que, como dizia Ingrid Bergman numa entrevista ao jornal Le Monde, tem sempre um pano de fundo social. Contrariamente ao cinema estado-unidense que é globalmente divertimento, distração, “entertainment”. O que convém perfeitamente aos paladinos da corrente ideológica que domina o país…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 23 de agosto de 2014, p. 43.

sábado, 30 de agosto de 2014

As belas histórias do microcosmos…


J-M. Nobre-Correia

Média : No Sol da semana passada, José António Saraiva relata três ou quatro episódios do meio mediático-jornalístico particularmente significativos da maneira como funciona e dececiona…

Aparentemente, ninguém reagiu. Questão de hábito, de tradição, de cultura nacional, dirão alguns. É possível. Só que, para além da fronteira portuguesa, um texto desta natureza teria provocado um sério burburinho no meio mediático. E até mesmo para além deste meio. Vindo como vem de um jornalista no ativo. E que mais é : do diretor de um jornal que apesar de tudo conta na sociedade portuguesa…
José António Saraiva, diretor do semanário Sol, publicou na sexta-feira 22 de agosto um texto (a que ele chama “crónica”) intitulado “Repouse em Paz”. Tratava-se de facto de duas páginas (do suplemento Tabu) a propósito do falecimento de Emídio Rangel. Páginas nas quais Saraiva evocava uma história edificante sobre o funcionamento do meio mediático português.
E a notícia não saiu…
Procuremos resumir. Francisco Pinto Balsemão, editor, fundador e primeiro diretor do semanário Expresso, tem conhecimento de que “uma notícia difamatória […] iria sair a seu respeito” no semanário Tal & Qual. Pede então ao diretor do Expresso, que nessa altura era Saraiva, “para tentar evitar a publicação”.
E prossegue Saraiva : “Não conhecendo ninguém no Tal & Qual”, lembrou-se “de telefonar a Emídio Rangel, que sabia ser amigo de pessoas de lá”. Telefonou-lhe, convidou-o para almoçar, contou-lhe “o que se passava, ele concordou que a notícia envolvendo Balsemão era da esfera pessoal e não tinha interesse público, dispondo-se a interceder. E, de facto, a notícia não saiu”. Saraiva especifica que, antes, “nunca tinha estado com Rangel pessoalmente” e que Pinto Balsemão “ficara a dever um favor a Rangel”. Isto ainda antes do lançamento da SIC.
Partamos do princípio que Saraiva não “borda” uma história e que os elementos essenciais desta história são fatuais, indiscutíveis. E então a história é de facto significativa da maneira como em meios editoriais e jornalísticos de Lisboa se fabrica a informação. E como profissionais do sector não têm pejo algum (pelo menos isso não transparece no texto de Saraiva) em intervir para entravar a vinda a lume de uma notícia considerada importante (supõe-se) pela redação de um jornal. Quando, em princípio, cada jornal dispõe dos seus próprios critérios jornalístico-editoriais, sejam estes perfeitamente discutíveis e criticáveis, distintos em todo o caso dos aplicados por outras redações.
“Confissões” destas na imprensa de outros países da Europa ocidental poriam em choque “a classe jornalística” (como lhe chamam curiosamente em Portugal). E tanto mais quanto é certo que tais “confissões” têm por origem um jornalista que dirigiu o mais importante semanário generalista português (Expresso), e fundou e dirige hoje aquele que se quer o seu mais direto concorrente (Sol).
Duas outras histórias vêm completar esta descrição involuntária do microcosmos mediático-jornalístico alfacinha. Uma sobre “o crítico de TV do Expresso, Jorge Leitão Ramos [que] fazia críticas a programas da SIC que irritavam Rangel — que se ia queixar a Balsemão [e] este transmitia[…] as queixas” a Saraiva. Até que “Margarida Marante fez então, generosamente, várias tentativas para nos aproximar” e houve então “um almoço a três” (Marante, Rangel e Saraiva).
Na “boa sociedade” lisboeta…
Outra a propósito de Rangel e Marante, que era amiga da “namorada” de um ministro socialista, relação de proximidade que levou a que o governo da época oferecesse a Rangel “o lugar de director-geral da RTP”. Mas poder-se-ia até acrescentar ainda a evocação de uma entrevista de Saraiva na televisão, a propósito da qual “Rangel escreveu um lamentável artigo no Correio da Manhã onde, entre outras coisas, dizia que eu usava ‘um casaco cor de m…’”.
Todas estas histórias evocadas por Saraiva (para além mesmo da questão de saber se a notícia a propósito de Pinto Balsemão era ou não “difamatória”, pois não é disso que se trata nem poderia tratar aqui) ilustram bem a maneira como funciona o microcosmos mediático-jornalístico no seio da “boa sociedade” lisboeta. Ao mesmo tempo que permitem compreender melhor por que é que o jornalismo português vai mal. Por que é que os jornais se vendem tão mal. E por que é que jornais e jornalistas gozam de um tão grande descrédito junto dos cidadãos…

domingo, 24 de agosto de 2014

A triste realidade...


J.-M. Nobre-Correia
Jornalismo : A atualidade recente provoca muitas críticas à prática da informação, quando a situação global dos média nacionais não permite de facto fazer muito mais…

Uma vez mais as acusações chovem sobre o jornalismo praticado em Portugal. A propósito sobretudo da atualidade referente ao BES. E também, mas muito menos, sobre o desfecho judicial dos acontecimentos ligados às mortes em dezembro na praia do Meco. Pelo que conviria salientar certas evidências que, aparentemente, não o são suficientemente.
A primeira destas evidências é a que leva a constatar que o “grande jornalismo” de investigação como de análise se pratica antes do mais nos grandes países. Isto é : nos países cuja demografia propõe uma audiência suficientemente larga aos média. Porque, ressalvadas algumas particularidades (nomeadamente em termos de informação regional), a estrutura de custos da produção editorial de um jornal é relativamente idêntica. Quando o potencial de rentabilização desta produção (em vendas, assinaturas e publicidade) é totalmente diferente : as receitas nos países grandes são maiores, por vezes mesmo muito maiores.
Se as receitas são maiores, a capacidade de investimento dos média no conteúdo editorial é evidentemente maior. Com mais meios humanos e financeiros : equipas de redação maiores, mais jornalistas no terreno, mais tempo a consagrar à recolha de elementos de informação como à perspetivação e à análise destes elementos. Ao contrário, quando o potencial de audiência é pequeno, os jornais (impressos, áudio, vídeo ou digitais) são levados a recorrer à “papinha feita”, pré-preparada. Isto é : aos comunicados de uns, às conferências de imprensa de outros, às declarações bombásticas de uns e outros, e às instrumentalizações de muitos…
Com audiências limitadas (e no caso da imprensa : miseravelmente limitadas), as redações “bordam” antes do mais em torno dos despachos da omnipresente Lusa. Acrescentando uns “bordados” mais, fruto da imaginação dos chefes ou da criatividade de um ou outro talentoso “jornaleiro”. Investigação, verificação, perspetivação, análise ? Diligências demasiado custosas para redações globalmente desprovidas de meios…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 16 de agosto de 2014, p. 43.