domingo, 14 de setembro de 2014

A rajada de vento que passa


J.-M. Nobre-Correia
Diários : Manifestamente, esta “rentrée” anuncia-se bastante agitada. Sê-lo-á suficientemente para fazer sair os jornais do triste marasmo em que se encontram ?…

Num país onde os diários são raros, quatro mudaram ou vão mudar de direção por estes dias. Uma rajada de vento sacode pois a imprensa escrita. E é tanto mais forte quando atinge três diários generalistas e um desportivo ditos “nacionais”. Ora, a imprensa portuguesa encontra-se num estado miserável, na cauda da Europa em termos de vendas, de penetração social. Situação de que urge sair antes de um possível colapso final.
Haverá quem se interrogue sobre a questão de saber se esta situação é fruto do jornalismo praticado ? Ou é este bastante insatisfatório porque as vendas são reduzidas e, por conseguinte, as redações não dispõem dos meios para praticar um jornalismo de qualidade ? Eterna história da galinha e do ovo… Só que neste caso, as iniciativas com vista a procurar sair desta situação de marasmo terão que vir antes do mais dos próprios jornais. Começando obrigatoriamente pelos aspetos editoriais.
Nesta matéria, a urgência das urgências é definir um público-alvo. Em consequência do qual há que conceber um projeto editorial adequado. Projeto que, hoje em dia, tem que ser construído segundo duas vertentes : a edição digital e a edição em papel. Estabelecendo a devida complementaridade entre elas. Mas acentuando a especificidade de cada uma.
Há depois que elaborar um livro de estilo (geralmente inexistente, ultrapassado ou ignorado). Porque cada jornal tem que ter a sua personalidade própria. Definindo claramente, por exemplo, a função da crónica (para evitar o umbigocentrismo e a fulanização), da entrevista (para não cair em conversas intermináveis e compinchistas), da reportagem (que deve relatar o que foi visto e ouvido, e não transformar-se em editorialismo de sabichão-novo), da análise (sólida, sintética, obra de autêntico especialista). Sem esquecer as essenciais políticas de titulação, de ilustração, de escrita e de hierarquização da informação. Depois, depois, há que rever a comercialização dos jornais, adaptando-a razoavelmente ao poder de compra dos cidadãos…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 6 de setembro de 2014, p. 42.



domingo, 7 de setembro de 2014

As incertezas das novas eras


J.-M. Nobre-Correia
Jornais : O chamado “quarto poder” tem fragilidades geralmente desconhecidas e às quais não se presta suficientemente atenção. Com os riscos que isso pode comportar…
É o que acontece a maior parte das vezes. Nem sempre. Mas a maior parte das vezes. Quando, numa empresa editora de médias, novos acionistas dão entrada no capital. Ou quando novas direções editoriais entram em funções. A tentação é grande, no primeiro caso, de querer nomear novos responsáveis para os lugares chave da empresa. E, no segundo, de proceder a mudanças nas diferentes chefias da redação e da programação, mas também no visual do média, na grelha da programação e na conceção da informação como do jornal.
Para os novos chefes, trata-se de facto de afirmar o início de uma “nova era”. Porque, na cabeça deles é disso que se trata, com um antes e um depois. Só que, em matéria de média, as audiências perdem-se mais depressa do que se ganham. Porque o público é particularmente conservador. Sobretudo o público dos jornais, distinguindo-se estes globalmente dos outros média pela atitude ativa que requerem para o ato de compra.
Os leitores de um jornal estão habituados a uma seleção da informação, a uma hierarquização, a uma política de titulação e de ilustração, e que tal tipo de matéria seja tratado por este ou aquele jornalista ou colaborador exterior. E quando se procedem a modificações importantes, o leitor sente que perdeu a ligação familiar que tinha com o “seu” jornal. Enquanto que os não leitores mantêm uma imagem negativa tenaz daquele jornal, de que não gostam, que os indispõe, pela razões mais diversas, sobretudo de ordem ideológica e digamos cultural.
Um jornal impresso e até um jornal digital são de facto produtos frágeis. Pelo que há que os fazer evoluir lentamente, progressivamente, pincelada após pincelada. De modo a procurar antes do mais conservar os fiéis leitores. Enquanto que, aos poucos, pela qualidade da informação e das análises, pelos exclusivos que conseguirá trazer a público, o jornal da tal “nova era” ir-se-á impondo nos meios alvo para os quais é concebido. Tornando a sua leitura obrigatória, condição indispensável de perenidade e de sucesso…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 30 de agosto de 2014, p. 43.