domingo, 5 de outubro de 2014

Os riscos de uma ilusão


J.-M. Nobre-Correia
GMCS – CCDR : O governo toma decisões que, à primeira vista, poderão parecer positivas. Mas, na realidade, trata-se de pura aparência. E a “captura política” será ainda mais acentuada…

O Gabinete para os Meios de Comunicação Social vai desaparecer : boa decisão, provavelmente. Teria o GMCS uma produção interessante e uma atividade eficiente para justificar uma equipa de umas 30 pessoas ? Que se saiba, não. Liquide-se pois o que é de uma utilidade duvidosa, em todo o caso residual, quando a ERC já tinha sido criada em 2005.
As competências em matéria de atribuição dos incentivos aos média regionais e locais passarão para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regionais. E ministro e secretário de Estado aproveitam a ocasião para fazer belos discursos. Sobre a eliminação do “risco de captura política” que o GMCS representava. A indispensável garantia de “independência, coerência e transparência dos apoios”. A necessária “descentralização das decisões”. E estas CCDR “que dispõem de ‘informação muito melhor’, dada a proximidade com os órgãos de comunicação social locais e regionais”, como relata o Diário de Notícias (24/9/2014).
Vá !, para a descentralização. Descentralizaçãozita, é certo, mas descentralização apesar de tudo. Quanto ao resto, sejamos realistas : assistir-se-á, com toda a probabilidade, a uma acentuação da “captura política”. Não serão os critérios editoriais, jornalísticos e empresariais que serão privilegiados na atribuição dos incentivos, estejamos certos. Serão sim preferidos as boas “vozes do dono” dos poderes regionais e locais. E aqueles que manifestarão humildemente a intenção de ser novas “pravdas” dos notáveis e das partidarices lá da terra.
Os média deste país, a informação e o jornalismo deste país precisam que seja operada uma mutação de fundo do sector. E tal mutação só poderá ser operada sob a égide de uma comissão ou fundação realmente autónoma, composta por especialistas (nos planos técnico e teórico) de reconhecido mérito. Gente cuja competência e independência sejam insuspeitáveis. Porque a democracia nacional, como a dinâmica económica e social local, precisam urgentemente de média e de informação de qualidade…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 27 de setembro de 2014, p. 42.

sábado, 4 de outubro de 2014

Colóquios "à portuguesa"…


J.-M. Nobre-Correia
Quando os patológicos atrasos e as não menos compulsivas  improvisações, associados a repetitivos exercícios de hetero-autoestima, fazem de manifestações de cultura feiras de mundanidades e de vaidades…

Vindo de fora, do estrangeiro, habituado a colóquios em Espanha ou na Polónia, na Alemanha ou na Itália, o participante em eventos idênticos em Portugal fica geralmente espantado. Porque são muitas as caraterísticas que os diferenciam dos congéneres no resto da Europa…
Neste país “à beira-mar plantado”, os colóquios (ou congressos, conferências,…) começam rarissimamente à hora prevista, mas, de preferência, com uma boa meia hora de atraso. Depois, os oradores nacionais começam sempre por fazer grandes agradecimentos a uma série de pessoas, quando se supõe que já os teriam feito aquando do convite para a participação no colóquio.
Muito rapidamente, o público mais atento apercebe-se que boa parte dos oradores não preparou seriamente as intervenções : falam de improviso, de maneira largamente desconexa, sem fio condutor algum, sem elementos fatuais a apoiarem o que afirmam.
Para além desta incoerência manifesta, os oradores nacionais desfazem-se em homenagens a uns e outros personagens presentes na sala. Esperando, é claro, que outros em seguida dirão que eles também são verdadeiras sumidades, pequenos génios comparáveis aos melhores.
Paralelamente, vão os oradores nacionais alinhavando citações de um e outro autores ou personagens célebres. Citações que, manifestamente, constituem uma ostentação de erudição mundana, mas também uma tentativa de confirmação das afirmações avançadas.
Claro está que, em regra geral, os oradores são incapazes de respeitar a duração de tempo prevista para as intervenções. E quando estas dão depois lugar a debates, a perguntas e respostas, ouve-se de novo um florilégio de lisonjas, o interveniente na sala esperando que o homenageado, em breve, lhe reenvie o ascensor e lhe preste a devida homenagem !…
Entretanto, os atrasos foram-se alongando descuidadamente e, fora da sala, as pausas-café (perdão : os “coffee breaks” !) foram-se interminavelmente (e, com um pouco de sorte, saborosamente) arrastando…
Muitas das vezes, hélas !, os colóquios em Portugal são de facto meras feiras de mundanidades e de vaidades em que as intervenções de qualidade, devidamente preparadas e documentadas, são raras. E quantas vezes muitas dessas intervenções de qualidade vêm prioritariamente de participantes estrangeiros ? Mas, é claro, há sempre honrosas exceções que levam os participantes a acreditar que até há “santos da terra” em Portugal que “fazem milagres” : abençoadas sejam eles !…

domingo, 28 de setembro de 2014

Revolução e vassalização


J.-M. Nobre-Correia
Netflix : De média que reunia vastos públicos e contribuía para uma certa coesão social, a televisão passa a ser um sério fator de fragmentação…

Estes primeiros anos do terceiro milenário ficarão na história como os de uma gigantesca revolução no sector do média. Os de uma imprensa diária gratuita que desabrochou, floriu e largamente murchou em poucos anos. De jornais a pagamento que perderam vertiginosamente compradores nas edições em papel e alargaram consideravelmente as audiências nas edições digitais. De uma rádio cujos suportes de difusão e condições de escuta mudaram profundamente. E de uma televisão que está a dar passos largos na transformação radical da sua própria sociologia.

Esta semana, precisamente, o início de atividade de Netflix em seis novos países europeus marca uma etapa importante na paisagem audiovisual. Empresa estado-unidense que, em 1997, expedia DVDs aos assinantes e que passou a pô-los à disposição em fluxo contínuo quando a tecnologia da internet o permitiu. Os assinantes (que são hoje 35 milhões só nos EUA) passaram a poder aceder a um gigantesco arquivo de filmes e de séries televisivas.

A televisão com uma programação imposta pelo emissor perde assim terreno em favor de uma televisão a pedido, concebida pelo espectador, em termos de conteúdos como de horários. Uma personalização do consumo, dos centros de interesses, que não deixa de acentuar uma tomada de distância em relação ao viver juntos e à coesão social.

Mas Netflix acentuará ainda a dominação dos estúdios estado-unidenses na produção cinematográfica e televisiva proposta aos cidadãos europeus. Com uma agravante em países como a França onde as televisões são obrigadas a propor uma programação de origem europeia a 60 %, dos quais 40 % francesa. Mas também a contribuir com uma parte das receitas para a produção cinematográfica. Obrigações de que Netflix fica dispensada, tendo estabelecido a sede fiscal nos Países Baixos ! Ou quando uma União Europeia, de mero mercado comum, se fragiliza e vassaliza culturalmente… O que será ainda mais notório quando Netflix se instalar na Europa do sul, nomeadamente em Portugal, em 2015-2016…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 20 de setembro de 2014, p.xx.

domingo, 21 de setembro de 2014

O reflexo de uma personalidade


J.-M. Nobre-Correia
Formas de tratamento : No relacionamento com os entrevistados, a degradação da linguagem utilizada pelos jornalistas traduz a lenta agonia das identidades editoriais…

O fenómeno é chocante na imprensa. Mas é-o ainda mais em rádio e em televisão. Até porque o olho tem uma capacidade de “desnatagem” do discurso que o ouvido não tem. Mas também porque o fenómeno tomou claramente uma dimensão maior na oralidade do que no escrito. Dimensão que se acentuou nestes últimos decénios. A ponto de, num mesmo média, a situação ter passado a ser totalmente incoerente e até mesmo caótica.
É de caos que de facto se trata quando se observa a maneira como os jornalistas contactam com as pessoas, se dirigem a elas ou as entrevistam. Quando se ouvem no mesmo canal de rádio ou de televisão, numa emissão após outra, ou até mesmo numa sequência após outra da mesma emissão, serem adotadas formas de tratamento diferentes. Há o que têm direito apenas ao nome próprio. Ou ao nome próprio dotado de um prévio Senhor ou Dona. Ou ainda do nome próprio e do apelido, com ou sem títulos de civilidade. Ou mesmo providos de títulos académicos ou profissionais.
Assim numa instituição da imprensa portuguesa, o Expresso, entrevista-se um antigo presidente da República ou o atual presidente de um banco tratando-os por “você”, ou um cineasta tratando-o por “tu”. Ou na mesma “matinal” da Antena 1, passa-se de um “Cristina, você” a um “professor” tal, ou a um respeitoso “Senhora Dona” tal. Ou num telejornal da RTP 1 utiliza-se um o “João”, outro o “Senhor João”, um o “você” e outro até mesmo o “tu”. Quando o entrevistado por vezes tinha idade para ser pai ou avô do desenvolto jornalista…
Dir-se-á que tal situação é consequência da evolução da língua falada. Trata-se porém, antes do mais, da degradação da chamada “boa educação” no relacionamento social. E, no caso concreto do jornalismo, do abandono do que constitui o tom, o estilo próprio de um média. Isto, claro está, quando os média são dirigidos por gente que sabe o que quer dizer um projeto editorial. O que quer dizer um conceito jornalístico coerente, com uma personalidade forte, claramente distinta da dos concorrentes…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 13 de setembro de 2014, p. 42.