quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Da crónica e das suas adulterações


J.-M. Nobre-Correia
Média : Com a abundância de informação veiculada pela internet, passou a ser um “valor acrescentado” proposto aos leitores. Mas a proliferação de derrapagens mostra que as caraterísticas elementares são ignoradas…

A crónica é provavelmente um dos géneros jornalísticos cujos contornos são definidos com menos precisão, dando uma certa latitude ao seu autor. Há no entanto caraterísticas que lhe são próprias.
Em princípio, a crónica tem como autor uma personalidade que goza de reconhecida competência no domínio sobre o qual escreve. Trata-se geralmente de jornalistas com longa experiência, universitários ou intelectuais de renome, profissionais eminentes em setores de atividade de que se encontram já retirados.
Publicada com uma dada periodicidade, a crónica trata de temas ligados à atualidade mais ou menos imediata. E não de assuntos sem ligação alguma com problemáticas do momento ou desconectados das mais elementares realidades da vida quotidiana.
Por isto mesmo e porque se trata de um exercício jornalístico, os elementos fatuais evocados na crónica terão que respeitar os elementares princípios do rigor.
No entanto, contrariamente ao que é desejável na grande maioria dos textos de jornal, não se espera de modo algum que o tema da crónica seja tratado de maneira seca, despojada de efeitos estilísticos, mas sim, ao contrário, que dê provas de uma certa virtuosidade da escrita. Autorizando o autor a dar parte das suas impressões, reações, reflexões sobre o tempo que passa e a sociedade em que vivemos.
Espera-se também do autor da crónica uma certa capacidade de síntese e um perceptível talento pedagógico capazes de fazer compreender melhor a complexidade da atualidade, até porque a secura da exposição fatual dos acontecimentos nem sempre permite dar-lhes sentido.
Para além destas caraterísticas essenciais, a crónica pode ser especializada ou generalista, e mais raramente “diarizada”. A crónica especializada trata de um domínio bem preciso da atualidade : política nacional, política internacional, economia, cinema, música, literatura, média e demais sectores de atividade que o jornal considera pertinentes. Na crónica generalista, a latitude do autor é evidentemente mais vasta, o que implica que disponha de acentuada cultura sobre a vida no mundo e a sociedade contemporânea. Nestes dois primeiros tipos, a crónica trata de um tema único, enquanto que na “diarizada” (sob a forma de “diário”) são abordados temas diferentes em função da atualidade dos dias (ou de apenas dos dias mais marcantes) da semana e mais raramente do mês.
Certas formas de crónica, menos personalizadas, aproximam-se da análise, a virtuosidade da pena (…para não dizer do teclado !) sendo então menos exigida da parte do autor, o que não o dispensa de uma desejável elegância da escrita, num tom frio e marcado pela distância em relação às pessoas e aos factos. Outras adotam um tom mais “vivace”, numa subtil pirotecnia de fogo de artifício e de explosão, voluntariamente polémico, procurando até por vezes suscitar a contradição. Ou então a forma de escrita é mais intimista, com um cariz notoriamente literário e um leve toque poético.
O fundador do diário parisiense Le Monde, Hubert Beuve-Méry, considerava que, em jornalismo, “le ‘je’ est haissable” (“o ‘eu’ é odiável”) e, desde logo, durante os 25 anos que dirigiu o seu jornal, não houve textos em “eu”. Mas, em muitas publicações de referência, a utilização do “eu” é tolerada nos textos de crónica, sobretudo se esta é assumida por colaboradores exteriores, que não fazem parte da equipa de redação.
Porém, tal privilégio concedido à crónica não implica de modo algum que o autor possa cair no egocentrismo exibicionista que carateriza boa parte das crónicas na imprensa portuguesa. Não só porque o autores falam demasiadamente deles próprios, como se fossem pessoas indiscutivelmente importantes, em torno do umbigo dos quais gira a atualidade no mundo. Mas também porque os mesmo autores concebem a crónica em função das suas amizades e inimizades pessoais, dos favores que obtiveram de uns ou dos dissabores que tiveram com outros. Quando os leitores esperam da crónica que lhes faça saborear a escrita e o prazer do texto, e sentir o subtil frémito de que um delével raio de inteligência lhes permitiu perceber melhor o mundo em redor…
Porém, quantos textos classificados como “crónica” nada têm a ver com este género jornalístico ! É que, nesta como noutras matérias, as chefias nas redações pecam muitas vezes por ignorância…


domingo, 19 de outubro de 2014

Três princípios essenciais


J.-M. Nobre-Correia
Planeta Média : Durante quase sete anos, esta rubrica procurou observar o que se passava nos média europeus e praticar a crónica segundo os critérios europeus na matéria…

Tudo tem um princípio. E, ao que parece, tudo tem necessariamente um fim. O que é certo, em todo o caso, é que esta é a última rubrica “Planeta Média”. Após quase sete anos e mais exatamente 320 semanas. Pontualmente, aos sábados, sem exceção alguma, a não ser as quatro semanas de férias de verão previstas por contrato. E pontualmente com os dois mil carateres da crónica e os mil partilhados em três breves, apertadamente impostos pela direção precedente do Diário de Notícias.
Três grandes princípios nortearam a conceção da rubrica. Em primeiro lugar, uma abordagem dos média e do jornalismo numa perspetiva europeia, procurando escapar ao “provincianismo” nacional. Abordagem autorizada por mais de 45 anos de vida no centro da Europa e mais precisamente na “capital” da União Europeia. Abordagem tanto mais necessária que, para além dos discursos políticos mais ou menos propagandísticos, Portugal vive cultural, mediática e jornalisticamente demasiado longe de uma União Europeia de que até é membro.
Procurar, em segundo lugar, privilegiar dois aspetos. Por um lado, chamar a atenção para o que põe em evidência o subdesenvolvimento atroz dos média em Portugal. Em matéria de imprensa, como de rádio, de televisão ou de média digitais. E chamar a atenção para o estado de um jornalismo demasiado insatisfatório em termos de qualidade e pouco preocupado com a cidadania dos seus leitores, ouvintes, espectadores ou internautas. E, por outro lado, chamar também a atenção para as revoluções tecnológicas, económicas e editoriais que se operam para além das fronteiras nacionais.
Por último, praticar um tipo de crónica ontologicamente diferente do que é demasiado comum nos média deste país. Deixando aqui textos que não são fruto de qualquer egocentrismo. Nem descaradas louvaminhas a amigalhaços. Nem injuriosos ataques a inimigos. Nem esperas de benesses de quem quer que seja. Textos preocupados antes do mais em fazer compreender a dimensão cultural e democrática dos média e do jornalismo…

Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 11 de outubro de 2014, p. 6-7.

domingo, 12 de outubro de 2014

As inesperadas surpresas


J.-M. Nobre-Correia
Edições digitais : Há uns dez anos, estava assente que os jornais em papel iriam desaparecer. Só que a tecnologia deu uma nova juventude às antigas marcas fortes…

A revolução dos médias está a desenrolar-se sob os nossos olhos. Tomando contornos inesperados. Sem que os cidadãos tenham verdadeiramente consciência do que se está a passar. E sem que os editores se apercebam sempre das especificidades desses contornos e tomem as necessárias disposições para afrontarem a nova situação.
Assim, no início dos anos 2000, os diários impressos pareciam condenados. As vendas baixavam aceleradamente. E as camadas jovens arredavam-se estrondosamente da leitura dos jornais em papel. O “leitorado” não se renovava e era cada vez mais constituído por gente de idade madura, dotada, é certo, de um nível de instrução e de um poder de compra geralmente elevados. Enquanto que os jovens liam sobretudo jornais gratuitos.
Ora, nos fins da primeira década de 2000, assistiu-se a uma profunda crise dos diários gratuitos. E, paralelamente, a uma consulta cada vez maior dos sítios dos jornais em computadores, primeiro, e em dispositivos móveis (telemóveis e tabletes), depois. Práticas novas de leitura que provocaram um formidável rejuvenescimento do “leitorado”. Doravante, o público mais “maturo” lê jornais em papel, enquanto que os jovens os leem nas versões digitais…
Outra mutação de fundo : as receitas publicitárias das edições em papel caiem vertiginosamente, enquanto que as das digitais aumentam. E como são as marcas tradicionais dos jornais em papel que se têm sobretudo imposto na internet, são as versões digitais deles que recolhem mais visualizações e receitas publicitárias. Porque só quase eles dispõem de redações de qualidade para selecionar, hierarquizar, perspetivar e analisar os acontecimentos. É evidente nos Estados Unidos como em diversos países europeus. Em França, os generalistas Le Monde, Le Figaro e Le Parisien, o económico Les Échos e o desportivo L’Équipe dominam no digital. E deixam vislumbrar um novo modelo económico em que as receitas dos conteúdos e da publicidade digitais contribuem decisivamente para o volume de negócios da editora…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 4 de outubro de 2014, p. 44.

domingo, 5 de outubro de 2014

Os riscos de uma ilusão


J.-M. Nobre-Correia
GMCS – CCDR : O governo toma decisões que, à primeira vista, poderão parecer positivas. Mas, na realidade, trata-se de pura aparência. E a “captura política” será ainda mais acentuada…

O Gabinete para os Meios de Comunicação Social vai desaparecer : boa decisão, provavelmente. Teria o GMCS uma produção interessante e uma atividade eficiente para justificar uma equipa de umas 30 pessoas ? Que se saiba, não. Liquide-se pois o que é de uma utilidade duvidosa, em todo o caso residual, quando a ERC já tinha sido criada em 2005.
As competências em matéria de atribuição dos incentivos aos média regionais e locais passarão para as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regionais. E ministro e secretário de Estado aproveitam a ocasião para fazer belos discursos. Sobre a eliminação do “risco de captura política” que o GMCS representava. A indispensável garantia de “independência, coerência e transparência dos apoios”. A necessária “descentralização das decisões”. E estas CCDR “que dispõem de ‘informação muito melhor’, dada a proximidade com os órgãos de comunicação social locais e regionais”, como relata o Diário de Notícias (24/9/2014).
Vá !, para a descentralização. Descentralizaçãozita, é certo, mas descentralização apesar de tudo. Quanto ao resto, sejamos realistas : assistir-se-á, com toda a probabilidade, a uma acentuação da “captura política”. Não serão os critérios editoriais, jornalísticos e empresariais que serão privilegiados na atribuição dos incentivos, estejamos certos. Serão sim preferidos as boas “vozes do dono” dos poderes regionais e locais. E aqueles que manifestarão humildemente a intenção de ser novas “pravdas” dos notáveis e das partidarices lá da terra.
Os média deste país, a informação e o jornalismo deste país precisam que seja operada uma mutação de fundo do sector. E tal mutação só poderá ser operada sob a égide de uma comissão ou fundação realmente autónoma, composta por especialistas (nos planos técnico e teórico) de reconhecido mérito. Gente cuja competência e independência sejam insuspeitáveis. Porque a democracia nacional, como a dinâmica económica e social local, precisam urgentemente de média e de informação de qualidade…


Texto publicado no Diário de Notícias, Lisboa, 27 de setembro de 2014, p. 42.

sábado, 4 de outubro de 2014

Colóquios "à portuguesa"…


J.-M. Nobre-Correia
Quando os patológicos atrasos e as não menos compulsivas  improvisações, associados a repetitivos exercícios de hetero-autoestima, fazem de manifestações de cultura feiras de mundanidades e de vaidades…

Vindo de fora, do estrangeiro, habituado a colóquios em Espanha ou na Polónia, na Alemanha ou na Itália, o participante em eventos idênticos em Portugal fica geralmente espantado. Porque são muitas as caraterísticas que os diferenciam dos congéneres no resto da Europa…
Neste país “à beira-mar plantado”, os colóquios (ou congressos, conferências,…) começam rarissimamente à hora prevista, mas, de preferência, com uma boa meia hora de atraso. Depois, os oradores nacionais começam sempre por fazer grandes agradecimentos a uma série de pessoas, quando se supõe que já os teriam feito aquando do convite para a participação no colóquio.
Muito rapidamente, o público mais atento apercebe-se que boa parte dos oradores não preparou seriamente as intervenções : falam de improviso, de maneira largamente desconexa, sem fio condutor algum, sem elementos fatuais a apoiarem o que afirmam.
Para além desta incoerência manifesta, os oradores nacionais desfazem-se em homenagens a uns e outros personagens presentes na sala. Esperando, é claro, que outros em seguida dirão que eles também são verdadeiras sumidades, pequenos génios comparáveis aos melhores.
Paralelamente, vão os oradores nacionais alinhavando citações de um e outro autores ou personagens célebres. Citações que, manifestamente, constituem uma ostentação de erudição mundana, mas também uma tentativa de confirmação das afirmações avançadas.
Claro está que, em regra geral, os oradores são incapazes de respeitar a duração de tempo prevista para as intervenções. E quando estas dão depois lugar a debates, a perguntas e respostas, ouve-se de novo um florilégio de lisonjas, o interveniente na sala esperando que o homenageado, em breve, lhe reenvie o ascensor e lhe preste a devida homenagem !…
Entretanto, os atrasos foram-se alongando descuidadamente e, fora da sala, as pausas-café (perdão : os “coffee breaks” !) foram-se interminavelmente (e, com um pouco de sorte, saborosamente) arrastando…
Muitas das vezes, hélas !, os colóquios em Portugal são de facto meras feiras de mundanidades e de vaidades em que as intervenções de qualidade, devidamente preparadas e documentadas, são raras. E quantas vezes muitas dessas intervenções de qualidade vêm prioritariamente de participantes estrangeiros ? Mas, é claro, há sempre honrosas exceções que levam os participantes a acreditar que até há “santos da terra” em Portugal que “fazem milagres” : abençoadas sejam eles !…