quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os alvos de um atentado


J.-M. Nobre-Correia
professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


O atentado desta manhã contra o semanário Charlie Hebdo marcará certamente data na história de França e dos média. Na história de França porque, com o número de mortos e de feridos anunciado, constitui o atentado mais mortífero desde o de 28 de julho de 1835 contra o último “rei dos franceses”, Louis Philippe. Na história dos média porque nunca nenhum atentado contra jornalistas ou média tomou tais proporções, em França ou na Europa, dizimando praticamente toda a equipa que desde 1992 produzia o semanário.

Sucessor de Hara-Kiri Hebdo, proibido pelo governo gaullista em novembro de 1970, Charlie Hebdo constitui (constituía ?) um caso singular no panorama da imprensa francesa e mesmo europeia. Semanário “satírico”, Charlie Hebdo é sobretudo um jornal irreverente, aliando desenho e texto, humor e sentido da provocação, a que vinham juntar-se análises críticas sérias da atualidade. Da sua equipa faziam parte uma vintena de desenhadores (entre os quais os célebres Wolinski, Cabu, Charb e Tignous, assassinados) e uma trintena de redatores e cronistas mais ou menos regulares (como o professor de economia Bernard Maris, assassinado, ou o investigador de sociologia Jean-Yves Camus).

Depois de ter cessado a publicação em 1981 (com o seu número 580), reapareceu em 1992, totalmente desprovido de publicidade e chegou a vender 150 mil exemplares, embora a difusão paga atual fosse mais modestamente de uns 45 mil exemplares. Profundamente anticlerical, crítico das religiões (de todas as religiões), Charlie Hebdo teve a coragem de publicar em 8 de fevereiro de 2006 as doze caricaturas de Maomé anteriormente aparecidas no diário dinamarquês Jyllands-Posten. Coragem e sentido da solidariedade que faltou então­ à maioria dos média europeus…

De então para cá, Charlie Hebdo era vítima de ameaças permanentes, sendo a sua sede destruída por um incêndio criminoso na noite de 1 para 2 de novembro de 2011, por ocasião da publicação de um especial “Charia Hebdo”. Desde então, jornalistas e diretor, assim como a sede do jornal, viviam sob a proteção da polícia. Proteção manifestamente insuficiente perante o ataque com caraterísticas de comando militar de que foram vítimas hoje.

Numa entrevista ao diário Le Monde, em 20 de setembro de 2012, Charb (aliás Stéphane Charbonnier), diretor do semanário, declarava : “É talvez um pouco pomposo o que vou dizer, mas prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”. Charb morreu hoje de pé. Mas, manifestamente, os que gritaram “Allah Akbar” ao assassiná-lo, a ele e aos seus camaradas de jornalismo e de humor durante a reunião semanal de redação, preferem continuar a “viver de joelhos”…

Como escreve esta tarde o diretor de Le Monde, “é à liberdade de pensamento e de expressão que se atacaram os autores do atentado, e por conseguinte aos valores fundadores da nossa sociedade”. Pelo que, “é preciso lutar contra a ignorância, a intolerância, o obscurantismo e o fanatismo”. Até porque, franceses e demais europeus, recusam a negação absoluta da liberdade de imprensa e, mais largamente, do Estado de direito e da democracia plural que traduz o atentado desta manhã.

O atentado com Charlie Hebdo ficará na história da Europa como o de maior amplitude nas sectores do jornalismo e dos média. O que não deixará de ter repercussões no tratamento da atualidade sobre os países da área cultural muçulmana, mas também sobre as comunidades de cultura muçulmana na Europa. E há que recear que os cidadãos ordeiros desta cultura sejam precisamente os primeiros a pagar as consequências desastrosas de uma ideologia islâmica radical terrorista…


Texto publicado no Expresso Diário, Lisboa, 7 de janeiro de 2015.

Uma nota complementar se impõe a este texto.
Os atentados de 7 de janeiro de 2015 e de 28 de julho de 1835, referidos no texto, tinham alvos bem precisos, queriam atingir pessoas bem precisas : os membros da redação e da administração de Charlie Hebdo, no primeiro caso ; o rei Louis Philippe e o seu séquito, no segundo, tendo este atentado feito 19 mortos e 42 feridos.
Todavia, outro atentado em França tomou proporções maiores : o da OAS contra um combóio de Estrasburgo a Paris, em 18 de junho de 1961. Uma bomba colocada num carril, aquando da passagem do combóio, fez, segundo diferentes referências, 24 ou 28 mortos e 132 ou 170 feridos. Porém, neste caso não se tratou de atingir um alvo preciso de pessoas, mas sim um número indeterminado de anónimos.

sábado, 3 de janeiro de 2015

A alternativa possível


J.-M. Nobre-Correia


Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, a RTP não tem conserto possível. Há pois que encerrá-la…


Para quem frequentou diariamente rádios e televisões públicas europeias, é chocante a descoberta da RTP longos decénios depois. As emissões são consternadoramente medíocres, feitas de “diretos”, palavreado barato e “chouriços” para encher a antena. A informação constitui um atentado à inteligência humana, privilegiando “faits divers”, futebol e “partidarice” política, escamoteando quase todo o resto. Enquanto que produção própria, gravação e montagem, construção sonora ou vídeo, reportagem e documentário, hierarquização da informação e grelha de programação, praticamente não existem.

Como se isto não bastasse, rádio e televisão públicas vivem numa eterna instabilidade financeira, política e editorial. Sem que, em quarenta anos de democracia, sucessivos governos tenham conseguido resolver esta situação endémica. Até porque, no caso da televisão, nunca houve uma conceção de serviço público, nascida que foi a RTP como empresa comercial privada em que a publicidade e demais patrocínios marcaram o seu ADN. Enquanto que a RDP, integrada desastradamente na RTP, foi arrastada pela “cultura” comercial da televisão.

Há que render-se à evidência : os erros acumulados fazem que a RTP não tenha conserto. Urge pois encerrá-la. E preparar cuidadosamente a criação de uma nova rádio e de uma nova televisão públicas autónomas. Até porque a história dos média mostra que, quando reunidas numa instituição única, a rádio é sempre desfavorecida em meios humanos, técnicos e financeiros. E a televisão é sempre privilegiada, sendo os mais diversos grupos de pressão sensíveis à sua maior audiência e ao seu impacto social.

Para preparar as duas novas instituições, há que constituir um pequeno grupo de trabalho capaz de elaborar estatutos, organigramas, grelhas, livros de estilo, instruções sobre hierarquização e tratamento da informação, sobre prioridades em matéria de programação e de divertimento. Este restrito grupo de trabalho deveria ser constituído por antigos altos responsáveis de rádios e televisões públicas de países como a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha, onde a noção de serviço público está historicamente enraizada.

Num segundo tempo, deveria proceder-se ao recrutamento de pessoal competente nas diferentes áreas. Pessoal selecionado em concursos públicos adaptados às diversas exigências técnicas. E, no caso dos jornalistas, por exemplo, procedendo a quatro provas eliminatórias de conhecimento aprofundado em língua portuguesa, cultura geral, teoria da informação jornalística e prática jornalística. Modelo a adaptar aos outros especialistas das duas instituições. Concursos presididos por profissionais de indiscutível competência dos mesmos três países europeus ou de outros da Europa ocidental do Norte, de modo a evitar pressões e compadrios.

Não havendo tradição de serviço público em Portugal, há que recorrer a profissionais das melhores instituições da União Europeia. Cada vez mais grupos de média privados e públicos contratam aliás profissionais estrangeiros. E esta parece ser a hipótese mais realista para conceber a nova rádio e a nova televisão de serviço público de que o país tanto precisa. Para que não continuemos a sentir-nos envergonhados com as que temos…



Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 3 de janeiro de 2015, p. 29.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

As incertezas da evidência


J.-M. Nobre-Correia
Política : Sob a influência de sondagens e de “comentadores”, boa parte da opinião pública está convencida que o PS ganhará as próximas eleição e formará o novo governo. Há porém razões para dúvidas…

A ler e ouvir sondagens que por aí se anunciam, parece uma evidência. Impressão reforçada pelas “análises” dos numerosíssimos “comentadores” que se atropelam nos média. É pois certo, ou pelo menos muito provável, que o Partido Socialista ganhe as próximas eleições legislativas e venha a formar o novo governo.
Mas esta evidência será assim tão evidente ? Eleitores e socialistas fariam bem em duvidar de tal evidência. Por duas razões principais. Primeiro, porque o governo atual ainda não disse a última palavra. E uma série de “prendas” de última hora poderão embelezar grandemente a perceção pública das medidas tomadas durante a legislatura. Depois, PSD e CDS poderão muito bem propor uma imagem de entendimento e serenidade, a contrastar com as tradicionais guerrinhas no seio da esquerda.
Em segundo lugar, a esquerda apresentar-se-á provavelmente perante os eleitores de maneira bastante fragmentada. Não falemos sequer das eternas organizações de extrema esquerda de que quase só se ouve falar durante as campanhas eleitorais e cujas probabilidades de dar entrada na Assembleia da República são, no mínimo, escassas. Mas há ainda todas as outras. Um PCP cuja rigidez de posições e de declarações faz que, manifestamente, não está interessado em participar no governo da nação. Um Bloco de Esquerda em desmoronamento, que perdeu militantes e mandatários ao longo da legislatura e se afirma como meramente tribunício, especialista em contestação verbal, voluntariamente arredado de responsabilidades governativas.
Dir-se-á que o PS, potencial primeiro partido saído das urnas, mas não dispondo da maioria parlamentar, poderá associar-se ao futuro Tempo de Avançar [1]. Desconhece-se no entanto o que poderão ser os resultados eleitorais desta nova formação associada ao Livre. Ao estado atual, as sondagens não lhe atribuem resultados particularmente gloriosos. E só depois do congresso previsto para 31 de janeiro se poderá talvez perceber como se situará política e socialmente o novo partido.
Como se isto não bastasse, há quem queira ainda criar um Junto Podemos inspirado no Podemos espanhol. O que quer dizer que, com o PS, o PCP, o BE, o TA e o possível JP, haverá cinco organizações (para além das de extrema esquerda) a disputar o voto do eleitorado que não deseja que a aliança PSD-CDS continue no poder.
Porém, tal fragmentação risca de provocar a eleição de mais representantes do PSD e do CDS do que aqueles a que os votos próprios deveriam normalmente dar-lhes direito. Mas risca sobretudo de fragilizar o PS e as probabilidades de poder vir a formar o novo governo. Tanto mais que paira uma grande incerteza sobre os resultados eleitorais de um partido eventualmente abalado pelas vicissitudes judiciárias do seu último primeiro ministro.
Ora, é verdade que as maiorias parlamentares absolutas não são muito favoráveis a uma prática democraticamente aberta e pluralista de governação. Mas um governo de minoria parlamentar fica largamente condenado a uma incapacidade quase permanente de decisão em matérias fundamentais…
As evidências anunciadas por uns e por outros poderão pois redundar em sérias dores de cabeça pós-eleitorais para a esquerda. E por que não num fracasso da esquerda e no regresso da direita ao poder ?…



[1] Este nome não é decerto obra de um profissional da comunicação que tenha pensado na futura vida política dos militantes e mandatários do partido. Serão eles designados por “tempistas”, “avançadistas”, que outras hipóteses mais ?…

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A deusa enviesada


J.-M. Nobre-Correia
Justiça : Teoricamente, com os olhos vendados, adota um tratamento igual com todos. Mas, muitas vezes, espreita sorrateiramente por baixo da venda e age segundo os humores que o indiciado lhe suscita…

Nas bancas do jornais, nos cafés, um pouco por toda a parte, a maioria das pessoas tem uma opinião já feita. Até porque o sentido da “nuance” não é propriamente uma especialidade do “bom povo português”. Quando, no tema que domina a atualidade dos últimos dez dias, a atitude razoável, serenamente racional, aconselha a não ter ainda uma opinião assertiva, dada a total ausência de dados fatuais sobre o assunto, devidamente confirmados.
Para além desta “opinionite” aguda, duas outras afirmações acenam regularmente na boca daqueles a quem os média dão o direito de dizerem o que pensam. A primeira é a que consiste em confiar na “independência da justiça”. E a segunda a que declara que as instituições democráticas estão a “funcionar normalmente”.
Ora, o cliché clássico que consiste em afirmar que a justiça é independente é, com toda a evidência, um logro. Porque toda e qualquer justiça é fruto de homens que aplicam a lei. E a lei, como qualquer outro texto, é suscetível de interpretações diversas. Segundo a inteligência, a sensibilidade, a cultura, as convicções filosóficas, as opções ideológicas e até o estatuto socioeconómico de quem tem por missão interpretar e aplicar a lei. E mesmo em função do sentimento espontâneo, irracional, que experimenta perante quem tem que ser submetido à lei. Uma complexidade de fatores que toma uma acuidade tanto maior quanto, por vezes, os representantes da justiça se encontram confrontados a quem tomou decisões favoráveis ou desfavoráveis para a “classe” ou agiu contra as convicções ou opções fundamentais que professa o “homem de lei”.
Por seu lado, a afirmação que consiste em dizer que “as instituições democráticas estão a funcionar com toda a normalidade” peca manifestamente por tendenciosidade. Que se saiba, o “caso dos submarinos” deu lugar a julgamento na Alemanha e a condenação por suborno, mas, até agora, em Portugal, a impunidade continua caraterizar as personalidades ligadas ao dito dossiê. E que se saiba, os principais responsáveis do BES e do GES não foram até agora detidos, dormindo tranquilamente nas suas residências, montando até novos escritórios para, supõe-se, poderem gerir o melhor possível os contratempos financeiros e judiciários que atravessam.
No mínimo, a “normalidade” é pois muito duvidosa. E quanto à equidade, há manifestamente arguidos que são mais iguais do que outros e mais merecedores de equidade do que outros aos olhos meio-vendados da justiça. Até porque há ainda muito, mesmo muito, a fazer para que a democracia, no sentido pleno da palavra, seja uma evidência enraizada na sociedade portuguesa. Nomeadamente no domínio de justiça, cujos agentes deveriam prestar regularmente contas à nação sobre o desempenho da sua missão…