quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O novo príncipe dos média


J.-M. Nobre-Correia

Depois das telecomunicações e das redes de cabo, Patrick Drahi passou a interessar-se por televisões, diários, magazines e rádios. E em apenas um ano e meio provou que as ambições nesta matéria são bastante grandes…

Muito se tem falado nestes últimos meses de Patrick Drahi e de Altice, desde que esta se candidatou à aquisição da PT Portugal. Há no entanto um aspeto das atividades de Drahi que parece ter totalmente escapado aos jornalistas : o da sua implantação cada vez maior no sector dos média. Com o que isto significa em termos de estratégia com diferentes vertentes.
Nascido em Marrocos, Drahi é um homem de negócios que dispõe das nacionalidades francesa e israelita, estando porém domiciliado fiscalmente na Suíça. Criador em 2001 da sociedade luxemburguesa Altice, está hoje presente nas telecomunicações e nas redes de cabo, mas passou mais recentemente a interessar-se pelos média ditos tradicionais.
Em julho de 2013, Drahi lançou assim I24news em Israel, televisão de informação contínua em árabe, francês e inglês, que procura ser “uma alternativa a Al-Jazira” e “mostrar o verdadeiro rosto de Israel ao mundo, sem ser um instrumento de propaganda”. Uma iniciativa que tem manifestamente um certo cariz militante e de fidelidade às origens culturais do seu criador.
Já a entrada no capital de Libération, um ano depois, responde a preocupações diferentes. Em crise financeira profunda, o diário parisiense foi objeto de operações capitalísticas diversas em 2013 e 2014, tendo a última consistido precisamente na tomada de controlo de 50 % da sociedade de edição por Drahi, em julho de 2014. Iniciativa que, dizem próximos do dossiê, é devida ao facto que Drahi quis “ajudar um título de que muito gostava”…
Prosaicamente, a motivação terá sido outra. Por ocasião da batalha contra o Groupe Bouygues para a aquisição da francesa SFR, em abril-maio de 2014, Drahi tomou consciência de ser globalmente um ilustre desconhecido em França. E constatou que tanto o “establishement” como o governo francês tinham apoiado Bouygues, largamente presente no sector dos média, nomeadamente com o grupo TF 1. O que significava, para Drahi, que ser proprietário de um grupo de média permite dispor de apoios essenciais para as iniciativas de um homem de negócios.
Terceira etapa decisiva : a compra anunciada do semanário francês L’Express e dos mensários L’Expansion (economia), Lire (literatura), Classica (música) e Studio Ciné Live (cinema). Um conjunto de magazines (a que vinham acrescentar-se mais alguns outros) que o grupo belga Roularta adquiriu por 220 milhões de euros em 2006 e venderia agora por uns modestos 25 milhões. Valores que refletem claramente a crise da imprensa iniciada pouco depois da compra por Roularta, grupo que perdeu 57,9 milhões de euros em 2013, devido sobretudo aos magazines franceses.
Nesta nova dinâmica de Altice, anuncia-se desde já a próxima aquisição da francesa Radio Nova. Mas também a constituição de um grupo plurimédia, com a criação da sociedade Mag&NewsCo, detida por Drahi e pelo seu sócio Marc Laufer, que “integrará a televisão, a rádio, a imprensa escrita, o digital e o móvel”. Até porque, segundo os seus promotores, as telecomunicações e os média não são afinal áreas profissionais assim tão distantes…
Os jornalistas de Libération (de centro esquerda) e de L’Express (de centro direita) manifestam desde já preocupação. Tanto no que diz respeito às sinergias editoriais entre os dois títulos, que se aparentam bastante problemáticas. Mas também no que se refere à prática de “custos baixos” caraterística das empresas de Drahi, que poderá anunciar novas vagas de despedimentos nas diversas publicações.
Num contexto caraterizado pela fragilidade de bom número de média, o reforço da posição de Altice em Portugal levará provavelmente Drahi a interessar-se pelo sector. Sobretudo se os média nacionais não servirem docilmente de câmara de eco à sua estratégia e às suas ambições. E há por aí tantos média à espera de um reforço substancial do capital das suas empresas…

sábado, 17 de janeiro de 2015

Estranha gente essa ali ao lado !


J.-M. Nobre-Correia

Bruxelas e Washington disputam o lugar de cidade com mais correspondentes de média do mundo inteiro. Mas estes mesmos correspondentes ignoram tudo ou quase tudo da vida política, económica, social ou cultural dos belgas…

De repente, o terrorismo faz da Bélgica tema de atualidade nos média portugueses. Há porém que prevenir leitores, ouvintes e espectadores : a grande maioria dos correspondentes dos média portugueses em Bruxelas nada ou quase nada sabe da vida política, da economia, da cultura ou mesmo da sociedade belga…
Largas centenas de jornalistas [1] estão em Bruxelas como correspondentes antes do mais para cobrirem a atualidade da União Europeia e da NATO. E, nestas matérias, repetem largamente o que lhes dizem os serviços de comunicação destas instituições, em conferências de imprensa diárias e em numerosos documentos que lhes são endereçados todos os dias. Ou então repetem mais ou menos religiosamente o que lhes dizem ministros portugueses, representantes de Portugal junto destas duas instituições e altos funcionários geralmente de origem portuguesa.
Acrescente-se que os ditos correspondentes vivem em “vase clos”, em circuito fechado, em gueto, de preferência nas cercanias do Rond-Point Schuman, mesmo ao lado Comissão, do Parlamento e do Conselho Europeus, em Bruxelas. Escapando de vez em quando à rotina com uma breves expedições até ao Luxemburgo ou a Estrasburgo.
Depois, quando se passa algo na Bélgica, os média de que são correspondentes procuram “rentabilizá-los” e pedem-lhes “peças” sobre assuntos de atualidade. Recorrem então sobretudo à leitura dos diários Le Soir e La Libre Belgique, e à escuta da pública RTBF ou das privadas Bel RTL e RTL-TVI, sendo quase todos incapazes de ler ou compreender os média em língua neerlandesa, o que põe um sério problema quando se trata de atualidade que se desenrola no norte do país, na Flandres.
Aqui há meia dúzia de anos, encontrei no edifício da Comissão Europeia um dos mais antigos correspondentes portugueses em Bruxelas. “Ainda bem que o vejo”, exclamou. Perguntou-me então quem poderia entrevistar para lhe fazer o ponto sobre a situação política na Bélgica e fazer até um rápido apanhado geral sobre a história da “questão linguística” na Bélgica.
Aconselhei-lhe os nomes das duas pessoas que me pareciam mais indicadas : Vincent de Coorebyter e Xavier Mabille. Mas o nosso correspondente desconhecia tais nomes ! Expliquei-lhe então que o primeiro era diretor geral do CRISP (que depois enveredou por uma carreira universitária) e o segundo presidente do dito CRISP (entretanto falecido).
Só que o correspondente português também não sabia o que era o CRISP ! Ora, o Centre de Recherche et d’Information Socio-Politiques é o mais célebre centro de investigação do país em matéria sociopolítica. Criado em 1959, publica desde então, para além do mais, um Courrier Hebdomadaire (semanal, como indica o nome) em formato A 4, com uma média de uma quarentena de páginas, sobre temas políticos, sociais, económicos próprios à sociedade belga. Um Courrier Hebdomadaire que é uma referência absolutamente indispensável.
O nosso correspondente, apesar da sua longuíssima estadia em Bruxelas, ignorava a existência deste centro e dos seus dois mais altos responsáveis, autores no entanto de intervenções regulares nos principais média do país !
Ficam pois os leitores, ouvintes e espectadores prevenidos sobre o nível de qualidade das correspondências de Bruxelas. Ou melhor : sobre as manifestas deficiências dos correspondentes. Basta ver como, em boa parte dos casos, pronunciam nomes de localidades, instituições ou personalidades em vista da Bélgica : um verdadeiro festival de humor involuntário !…



[1] Em 1995, em Bruxelas, a Comissão Europeia registava 770 jornalistas acreditados, estrangeiros na maior parte dos casos. Em maio de 2004 eram 920 e em 2005 atingiam os 1 300. Em 2006 já só eram 1 180, em 2008 apenas 1 100 e em 2010 só 752. Neste sector, como em muitos outros, a crise da imprensa em papel e a crise económica tiveram consequências evidentes…

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Un monde s'écroule lentement

J.-M. Nobre-Correia

La presse quotidienne belge francophone est en pleine décomposition. Les ventes chutent brutalement sans que les éditeurs comprennent ce qui a changé avec la presse, la Belgique et plus particulièrement Bruxelles…

Passons sur la fait que les chiffres authentifiés concernant la diffusion des quotidiens belges soient rendus publics avec un énorme retard. Et que même les chiffres déclarés sur l’honneur par les éditeurs subissent des retards. Alors qu’il serait souhaitable que les professionnels en prennent connaissance dans les plus brefs délais.
D’aucuns diront que, pour mes mauvaises nouvelles, on peut toujours attendre ! Et il est vrai que la situation a un côté terrifiant. Un seul exemple : le traditionnel navire amiral de la presse quotidienne francophone, Le Soir [1], diffusait encore 236 580 exemplaires en 1971, vendait 145 534 en 1993 et n’en vend plus que 64 371 [2] (71 257 si l’on ajoute à l’édition en papier l’édition numérique) [3] ! Comment expliquer un tel effondrement, qui atteint d’ailleurs tous les quotidiens francophones ?
L’absence de vrais éditeurs
La triste réalité, disons-le crûment, est qu’il n’y a pas de vrais éditeurs de presse en Belgique francophone (mais il en va autrement en Belgique néerlandophone). Et cela est vrai depuis quelques longues décennies. En fait, ceux qui sont à la tête des entreprises de presse n’ont pas la moindre sensibilité à l’information et au journalisme. Ils gèrent plus ou moins convenablement leurs deniers, sont même parfois d’assez bons négociateurs en matière de finances. Mais ce qui fait un vrai éditeur de presse (la sensibilité à fleur de peau à l’actualité, à l’écriture, à l’illustration et au graphisme, mais aussi à l’impression, à la distribution et à la commercialisation des journaux) leur échappe largement. Et les journaux s’en ressentent, car ce sont ces gens qui choisissent ceux qui sont à la tête des rédactions (et de préférence des personnalités qui ne leur poseront pas problèmes, sans charisme et sans talent). Et qui, in fine, décident des moyens humains et matériels dont disposent les rédactions.
Du coup, les quotidiens belges francophones manquent de substance, d’originalité, de « valeur ajoutée », vivant beaucoup des dépêches de Belga (et puis rarement d’autres agences d’information) et de textes des services de communication des entreprises et institutions, tout en réécrivant à la louche ce que des confrères étrangers (surtout français) disent de l’actualité non-belge. Dès lors, aux yeux des lecteurs, l’acte d’achat est chichement compensé par la qualité du contenu proposé.
Cette impression de vide est accentuée par le fait que nos quotidiens ont été incapables d’adapter leurs contenus à l’évolution démographico-culturelle de la Belgique. Des données récentes disent que 33,8 % des habitants à Bruxelles-Capitale sont des ressortissants étrangers. Si on y ajoute tous les Belges qui à l’origine avaient une autre nationalité ou sont issus de l’immigration, on comprendra mieux que Bruxelles soit la « deuxième ville la plus cosmopolite d’Europe ». Mais, si nos supermarchés, par exemple, ont su progressivement adapter l’éventail des marchandises proposées à cette évolution de la clientèle, la presse, elle, y est restée largement insensible. « La Belgique de papa » n’existe plus, mais nos éditeurs l’ignorent !…
Cette absence de sensibilité des éditeurs explique aussi le faible développement des éditions numériques. Depuis le milieu des années 1990, on assiste à un basculement vertigineux de l’information vers internet et le numérique. Mais, extrêmement lents à adopter offset, quadrichromie et formats compacts, nos éditeurs n’ont pas saisi promptement non plus la mutation en cours. Aussi, Le Soir, le quotidien francophone avec la plus grande diffusion en numérique, atteint modestement 6 887 exemplaires [4].
Par ailleurs, cette insensibilité à l’évolution des médias et du journalisme explique également l’incapacité à saisir celle du statut de Bruxelles depuis soixante ans, avec l’installation des institutions de l’Union européenne, d’abord, et de l’OTAN, ensuite. Et ce que cela a entrainé comme prolifération d’institutions et représentations internationales et étrangères de toute sorte…
Une actualité spécifique ignorée
Or, les seules initiatives en provenance d’éditeurs ou journalistes belges n’ont jamais été de nature à combler le besoin d’information spécifique concernant l’UE et l’OTAN. Alors même que, mieux que n’importe qui, ils étaient en mesure de combler ce déficit à moindres coûts. Pourtant, les moyens investis ont toujours été d’une invraisemblable modestie dans les rares et pâles initiatives en la matière [5].
Plein de médias étrangers disposent d’équipes de journalistes spécialisés à Bruxelles, bien plus nombreuses que les médias belges francophones, la plupart de ceux-ci ne disposant même pas du moindre journaliste spécialisé attaché en exclusivité à l’actualité de l’UE et de l’OTAN. Et c’est de l’étranger qu’on a vu surgir quelques initiatives installées à Bruxelles, cas de l’European Voice, hebdomadaire lancé le 5 octobre 1995 par le Britannique Pearson [6].
Une initiative d’une plus grande envergure a été annoncée en septembre dernier [7] : le quotidien en ligne états-unien Politico lancera au printemps 2015 une édition européenne en partenariat (50-50) avec l’allemand Axel Springer [8]. Basé à Bruxelles, Politico Europe, avec un capital d’au moins 10 millions de dollars (The Wall Street Journal dixit) disposera d’une équipe de plus de 100 personnes (selon le Financial Times), dont 30 à 40 journalistes à temps plein, et des bureaux à Paris et à Berlin, peut-être même à Londres.
Fondé en 2007 par deux ex-journalistes du Washington Post, Politico, basé à Washington, atteint quelque 7 millions de visiteurs uniques chaque mois et est devenu une lecture obligatoire de tous ceux qui veulent suivre la politique états-unienne. Politico Europe, quant à lui, traitera avant tout de l’actualité de l’Union européenne, mais aussi, plus largement, celle de toute l’Europe. En attendant, il vient d’absorber l’European Voice le 10 décembre dernier…
Ce que les éditeurs belges (surtout francophones) ont été incapables de faire (ou même de concevoir) et les éditeurs français ont négligé (alors que, pendant de très longues années, le français a été la langue dominante au sein des institutions de l’UE), un éditeur états-unien va le faire, en anglais, en collaboration avec un éditeur allemand [9]. En nous proposant, bien évidemment, leur vision de l’UE…
Ces deux événements (la diffusion des quotidiens belges et le lancement de Politico Europe) mettent en fait en évidence une certaine évolution de l’information au sein de l’UE. Notamment le recul de la France et de ses éditeurs au sein de l’UE, où le Financial Times est devenu depuis longtemps la « bible » de lecture obligatoire. Mais aussi l’affaiblissement inquiétant des éditeurs belges et plus particulièrement des éditeurs belges francophones…



[1] Premier « titre » de la presse quotidienne belge francophone, Sud Presse n’existe pas. C’est tout simplement le nom de la société qui édite La Capitale, La Meuse, Nord Éclair, La Nouvelle Gazette et La Province.
[2] Chiffres déclarés sur l’honneur par l’éditeur au CIM pour la seule édition papier concernant la période du 4e trimestre 2013 au 3e trimestre 2014.
[3] Les chiffres concernant La Libre Belgique, « l’autre quotidien de référence », sont encore plus tristounets : 34 977 pour les ventes de l’édition en papier, 37 158 si on y ajoute l’édition numérique.
[4] Et à peine 2 118 pour La Libre Belgique.
[5] La Métropole-Journal d’Europe lancé le 19 janvier 1972 par Rossel, devenu Journal d’Europe le 5 janvier 1973 et disparu le 24 septembre 1974, était très peu « européen », mais fut la seule initiative à prendre une certaine ampleur, bien que modeste.
[6] Éditeur notamment du quotidien Financial Times et de l’hebdomadaire The Economist. Le 22 avril 2013, Pearson a cependant cédé l’European Voice au groupe français Selectcom qui le cédera ensuite à Politico.
[7] Pourtant, dès le 4 juin dernier, par courriel adressé à l’auteur de ces lignes, la rédaction de De Morgen annonçait la préparation d’un texte sur le sujet…
[8] Éditeur notamment du plus grand quotidien européen, le populaire Bild, et du quotidien de référence Die Welt. En juillet 2013, Axel Springer s’est séparé de ses quotidiens régionaux et de toute une série de magazines pour investir très fortement dans une reconversion numérique qui lui assure déjà presque 50 % des recettes et plus de 60 % des bénéfices.
[9] Profondément conservateur, Axel Springer (1912-1985) a fait inscrire dans les statuts de son groupe médias l’anticommunisme, l’appui à l’Alliance Atlantique et la solidarité avec les États-Unis, ainsi que l’appui aux droits vitaux de l’État d’Israël…





Texte paru dans Politique revue de débats, Bruxelles, n° 88, janvier-février 2015, pp. 12-13.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Os alvos de um atentado


J.-M. Nobre-Correia
professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


O atentado desta manhã contra o semanário Charlie Hebdo marcará certamente data na história de França e dos média. Na história de França porque, com o número de mortos e de feridos anunciado, constitui o atentado mais mortífero desde o de 28 de julho de 1835 contra o último “rei dos franceses”, Louis Philippe. Na história dos média porque nunca nenhum atentado contra jornalistas ou média tomou tais proporções, em França ou na Europa, dizimando praticamente toda a equipa que desde 1992 produzia o semanário.

Sucessor de Hara-Kiri Hebdo, proibido pelo governo gaullista em novembro de 1970, Charlie Hebdo constitui (constituía ?) um caso singular no panorama da imprensa francesa e mesmo europeia. Semanário “satírico”, Charlie Hebdo é sobretudo um jornal irreverente, aliando desenho e texto, humor e sentido da provocação, a que vinham juntar-se análises críticas sérias da atualidade. Da sua equipa faziam parte uma vintena de desenhadores (entre os quais os célebres Wolinski, Cabu, Charb e Tignous, assassinados) e uma trintena de redatores e cronistas mais ou menos regulares (como o professor de economia Bernard Maris, assassinado, ou o investigador de sociologia Jean-Yves Camus).

Depois de ter cessado a publicação em 1981 (com o seu número 580), reapareceu em 1992, totalmente desprovido de publicidade e chegou a vender 150 mil exemplares, embora a difusão paga atual fosse mais modestamente de uns 45 mil exemplares. Profundamente anticlerical, crítico das religiões (de todas as religiões), Charlie Hebdo teve a coragem de publicar em 8 de fevereiro de 2006 as doze caricaturas de Maomé anteriormente aparecidas no diário dinamarquês Jyllands-Posten. Coragem e sentido da solidariedade que faltou então­ à maioria dos média europeus…

De então para cá, Charlie Hebdo era vítima de ameaças permanentes, sendo a sua sede destruída por um incêndio criminoso na noite de 1 para 2 de novembro de 2011, por ocasião da publicação de um especial “Charia Hebdo”. Desde então, jornalistas e diretor, assim como a sede do jornal, viviam sob a proteção da polícia. Proteção manifestamente insuficiente perante o ataque com caraterísticas de comando militar de que foram vítimas hoje.

Numa entrevista ao diário Le Monde, em 20 de setembro de 2012, Charb (aliás Stéphane Charbonnier), diretor do semanário, declarava : “É talvez um pouco pomposo o que vou dizer, mas prefiro morrer de pé do que viver de joelhos”. Charb morreu hoje de pé. Mas, manifestamente, os que gritaram “Allah Akbar” ao assassiná-lo, a ele e aos seus camaradas de jornalismo e de humor durante a reunião semanal de redação, preferem continuar a “viver de joelhos”…

Como escreve esta tarde o diretor de Le Monde, “é à liberdade de pensamento e de expressão que se atacaram os autores do atentado, e por conseguinte aos valores fundadores da nossa sociedade”. Pelo que, “é preciso lutar contra a ignorância, a intolerância, o obscurantismo e o fanatismo”. Até porque, franceses e demais europeus, recusam a negação absoluta da liberdade de imprensa e, mais largamente, do Estado de direito e da democracia plural que traduz o atentado desta manhã.

O atentado com Charlie Hebdo ficará na história da Europa como o de maior amplitude nas sectores do jornalismo e dos média. O que não deixará de ter repercussões no tratamento da atualidade sobre os países da área cultural muçulmana, mas também sobre as comunidades de cultura muçulmana na Europa. E há que recear que os cidadãos ordeiros desta cultura sejam precisamente os primeiros a pagar as consequências desastrosas de uma ideologia islâmica radical terrorista…


Texto publicado no Expresso Diário, Lisboa, 7 de janeiro de 2015.

Uma nota complementar se impõe a este texto.
Os atentados de 7 de janeiro de 2015 e de 28 de julho de 1835, referidos no texto, tinham alvos bem precisos, queriam atingir pessoas bem precisas : os membros da redação e da administração de Charlie Hebdo, no primeiro caso ; o rei Louis Philippe e o seu séquito, no segundo, tendo este atentado feito 19 mortos e 42 feridos.
Todavia, outro atentado em França tomou proporções maiores : o da OAS contra um combóio de Estrasburgo a Paris, em 18 de junho de 1961. Uma bomba colocada num carril, aquando da passagem do combóio, fez, segundo diferentes referências, 24 ou 28 mortos e 132 ou 170 feridos. Porém, neste caso não se tratou de atingir um alvo preciso de pessoas, mas sim um número indeterminado de anónimos.