sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O deslize das placas tectónicas...


J.-M. Nobre-Correia
Política : A Europa da política encontra-se em transformação mais ou menos acelerada. Mas esta transformação, que parece também querer anunciar-se em Portugal, poderá muito bem ficar ainda adiada por algum tempo…

Nestes últimos dias, um tema está diariamente presente nos média como nas conversas de café : as eleições na Grécia, a vitória do Syriza, os primeiros passos do novo governo. E, claro está, os comentadores, como sempre, quase nunca duvidam de nada, anunciando catástrofes para a Grécia e a União Europeia, uns, ou novas manhãs de sol radioso para uma Europa em crise, outros…
Ora, o que há de mais significativo com a resultado das eleições legislativas gregas é o facto das placas tectónicas que determinavam a vida política democrática na Europa se terem posto a deslizar de maneira particularmente percetível. E que a arquitetura partidária e ideológica da vida política possa assim vir a ser largamente configurada nos tempos mais próximos.
Uma decomposição anunciada
Durante cerca de século e meio, a Europa democrática viveu num sistema político cuja arquitetura era relativamente clara e estável. Sistema que se foi configurando paralelamente à revolução industrial, primeiro, depois da Primeira Guerra Mundial, em seguida, e após a Segunda Guerra Mundial, num terceiro tempo.
Esquematicamente, a Europa democrática funcionou a nível parlamentar com um partido conservador e outro liberal (no sentido latino da palavra), por vezes reunidos numa só formação, à direita. Com um social-democrata-socialista e outro comunista, à esquerda. Veio acrescentar-se por vezes um partido católico-cristão, conservador em termos económicos e de costumes, mas, segundo os casos, mais ou menos sensível a preocupações sociais.
Para além destes, no período entre as duas guerras mundiais, surgiram poderosos partidos fascista-nazis que puseram rapidamente termo ao sistema parlamentar e democrático. Ou que, quando não conseguiram chegar ao poder, foram condenados ao desaparecimento (para além-Pirenéus), como consequência de uma estreita colaboração com exércitos estrangeiros de ocupação e de práticas políticas marcadas pela brutalidade e a intolerância.
Juntaram-se a estes partidos dominantes, com representações parlamentares mais ou menos significativas, outros eternamente minoritários. Partidos fundamentalmente tribunícios e contestatários, sobretudo “gargarejantes” e, de facto, sem impacto no governo da administração pública e até mesmo na vida social da nação.
Ora, as placas tectónicas desta arquitetura partidária estão claramente a mover-se desde há alguns anos. Digamos : desde os anos 1970 e o início da chamada “crise económica”. Primeiro, com o desaparecimento quase total de alguns partidos comunistas e mais concretamente daqueles que se tinham afirmado eurocomunistas (na Bélgica, na Itália [1], na Espanha), enquanto que o PCF caminha a passos largos para uma evidente marginalização em França.
Depois, os partidos socialistas, sociais-democratas (no sentido europeu da palavra) e trabalhistas passaram a querer afirmar-se cada vez mais como “bons gestores” da “crise económica”. Renunciando lentamente às mais elementares preocupações de justiça social. E passando, na melhor das hipóteses, a ser meros partidos sociais-liberais, vagamente reformistas, acatando venerandamente a ascensão rampante do capitalismo selvagem atual.
Vejam-se todos os partidos europeus desta área, praticamente sem exceção (na Grã-Bretanha, na Alemanha, na Espanha e até mesmo agora em França). O que explica precisamente a crise atual em que alguns deles veem os seus eleitorados “derreter como neve ao sol” : caso flagrante do PASOK grego, que tinha aceitado fazer parte de um governo de direita que impôs uma dura “austeridade”, enquanto que as sondagens anunciam um futuro nada risonho para o PSOE espanhol…
Do lado da direita, os liberais estão cada vez mais conservadores e os conservadores cada vez mais autoritários, vindicativos, reacionários e xenófobos. Atribuindo a longa crise económica atual às conquistas sociais dos meios menos favorecidos e os elevados níveis de desemprego e as recorrentes tensões sociais à presença de importantes comunidades imigrantes. A situação na Grã-Bretanha, na França, na Alemanha ou na Bélgica, por exemplo, é particularmente significativa desta evolução.
As novas componentes
O país onde se assistiu em primeiro lugar à recomposição da arquitetura política foi a Itália, com o desaparecimento quase radical dos três principais partidos políticos : Democrazia Cristiana, Partito Comunista Italiano e Partito Socialista Italiano… E com aparecimento de uma Lega Nord, regionalista, autonomista e xenófoba, uma Forza Italia, regida antes do mais por princípios de “mercática” e de “affairismo”, largamente desprovida de conteúdo autenticamente político, e um Partito Democratico, cada vez mais liberal (um pouco no sentido anglo-saxão) e menos reformista. Todas as outras formações políticas passaram a ser marginais e meramente de complemento. E isto até ao aparecimento mais recente do Movimento 5 Stelle, marcado pelo antipartidarismo e até pelo antiparlamentarismo, “sem posicionamento político”, que ganhou uma considerável audiência e passou a ser a terceira força parlamentar, com um peso eleitoral relativamente equivalente ao das duas primeiras.
Quer isto dizer que, pela primeira vez na Europa, a arquitetura política italiana deixou de refletir a que fora elaborada ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX. E, numa primeira análise, os resultados das últimas eleições legislativas gregas traduzem também uma profunda crise desta mesma arquitetura tradicional, nomeadamente com o quase desaparecimento da área socialista (PASOK e os seus dissidentes de Kinima-Kidiso).
Entretanto, duas componentes novas surgiram no panorama partidário europeu : a extrema direita e os ecologistas. A extrema direita, que vegetou de maneira mais ou menos marginal em França e na Itália, por exemplo, foi ganhando audiência junto do eleitorado nestes últimos anos. Caso já evocado da Lega Nord, na Itália. Mas também do Front National, que as sondagens anunciam por vezes como futuro primeiro partido político em França. E ainda do PVV (Partij voor de Vrijheid), terceiro em importância nos Países Baixos, e do BZÖ (Bündnis Zukunft Österreich), que é eleitoralmente o quarto na Áustria. Enquanto que a NVA (Nieuw-Vlaamse Alliantie), na Bélgica flamenga, membro do atual governo federal, e o UKIP (UK Independence Party), na Grã-Bretanha, com preocupações autonomistas o primeiro e anti-União Europeia o segundo, partilham claramente valores caraterísticos da xenofobia e da extrema-direita tradicional.
Temática típica dos anos de fins da expansão económica e de inícios da “crise”, fins dos anos 1960 e inícios dos anos 1970, a ecologia deu origem a movimentos sociais diversos, antes de desembocar na vida parlamentar. Ganhando grande audiência na Alemanha, primeiro, na Bélgica, em seguida, e em França, depois. Adotando posições políticas flutuantes, entre o centro, o centro-esquerda e a esquerda radical, o que se têm traduzido em coligações locais, regionais ou nacionais bastante contrastadas…
A nova esquerda radical
Porém, nos últimos meses, consequência de certo modo da acentuação da crise financeira desencadeada em 2007, a grande novidade no panorama político europeu é o aparecimento e a afirmação cada vez mais evidente de uma nova esquerda radical. Esquerda radical que se situa entre os tradicionais partidos de centro-esquerda (socialistas e sociais-democratas, no sentido europeu deste último termo) e uma extrema esquerda (comunista e maoístas ou trotskistas).
Apesar da crise profunda que atravessa a sociedade europeia, o centro-esquerda, inserido na área da governação, não põe em questão o funcionamento das instituições, mostrando-se incapaz de propor uma alternativa ao neoliberalismo reinante. Enquanto que a extrema-esquerda, arreigada a dogmas cuja inadequação à sociedade atual está largamente comprovada, recusa obstinadamente assumir a governação ao nível nacional. E uns e outros rejeitam toda e qualquer coligação capaz de imprimir novos rumos à vida política e à gestão do aparelho de Estado.
Esta distância aparentemente intransponível entre o centro-esquerda e a extrema-esquerda deixa aberto um importante espaço de intervenção política. Perfila-se assim uma nova esquerda radical, alheia ao leninismo e não preocupada quase exclusivamente com questões económicas, mas igualmente sensível a questões “societais”, culturais, ecológicas, de género e de costumes.
Surgiu deste modo o Syriza (Coligação da Esquerda Radical), que reúne diferentes formações políticas e governa a Grécia desde a semana passada. Mas também o Podemos, “plataforma cidadã” que as sondagens anunciam como futuro primeiro partido espanhol (embora, daqui até às eleições legislativas do fim do ano, a vida política no país vizinho possa sofrer sobressaltos que alterem substancialmente as intenções de voto). Ou ainda Die Linke, terceira formação parlamentar na Alemanha, e, mais modestamente, o PTB Go, grande surpresa das últimas eleições legislativas belgas. Enquanto que, dos lados de França, o Parti de Gauche encontra dificuldades em afirmar-se solidamente na cena política, embora uma corrente dos ecologistas de EELV encare atualmente aliar-se a ele…
Em Portugal, este espaço, era até agora ocupado pelo Bloco de Esquerda, sê-lo-á também pelo Livre-Tempo de Avançar, aliança eleitoral selada sábado passado, e até talvez por Podemos Juntos, projeto em que reina por enquanto uma certa confusão. O que põe em evidência um aspeto fundamental : enquanto se assiste a um sensível deslize de placas tectónicas na Europa que provoca o aparecimento de uma grande formação de esquerda radical entre o centro-esquerda e a extrema-esquerda, em Portugal é a fragmentação que está à vista. O que não deixará provavelmente de limitar os resultados eleitorais do PS à esquerda, atacado também que é à direita pelo novo Partido Democrático Republicano.
As próximas eleições legislativas portuguesa de setembro-outubro dirão qual a dimensão do espaço situado entre o PS e o PCP. E quantas formações políticas o ocuparão e com que importância. Mas, se o Livre-TDA não surgir como um força de peso e aliado incontornável do PS num governo de coligação, a evolução a que se assiste atualmente em diversos países da Europa poderá muito bem ficar em Portugal adiada para as eleições seguintes. Uma perspetiva plausível se o PS vier a aliar-se ao PSD numa grande coligação “de salvação nacional”, antecipando assim o seu potencial desmoronamento, sobretudo se a “austeridade” continuar a dominar a política desse governo…



[1] A história do vertiginoso e espantoso desaparecimento do maior partido comunista da Europa Ocidental, o PCI, está ainda por fazer…

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

A confrangedora indigência


J.-M. Nobre-Correia

Média : Dia após dia, a RTP dá provas de uma inacreditável mediocridade dos seus telejornais. Mas, estes últimos dias, o principal apresentador do principal telejornal ultrapassou tudo o que é imaginável em matéria de incompetência e má-fé…

É muito difícil escrever sobre os média portugueses, quando a quase totalidade dos leitores pratica unicamente a imprensa, a rádio e a televisão nacionais. Não que, em viagem pelo estrangeiro ou por curiosidade pontual, não tenham contactado com média de outros países. Mas, no dia a dia, durante toda a vida, foi com média portugueses que se informaram.
Daí que, mesmo entre os mais críticos, haja sempre quem diga que há esta ou aquela rubrica, este ou aquele programa que não são maus. E mesmo que tal outra ou tal outro até são bastante bons. E é evidente que os há : nem tudo é um mar de desolação, felizmente !
Não impede que, globalmente, comparada com a maioria das congéneres europeias, a televisão em Portugal é de uma aflitiva mediocridade. Em termos de programação como de informação. A programação é dominada por telenovelas rascas, concursos idiotas, diretos folclórico-musicais “pimba” e emissões de paleio político, futebolístico ou sócio-miserabilismo ao quilómetro.
Os telejornais são, quanto a eles, uma autêntica miséria. Com uma duração duas a quatro vezes superior à dos do resto da Europa. Uma proliferação de “diretos” perfeitamente injustificáveis, nada de essencial estando a acontecer, aproveitando atores diversos da vida social (sobretudo políticos) para rentabilizá-los em proveito próprio. Uma ausência quase total de gravações e de montagens, depois de devidamente eliminado o que é redundante, secundário e perfeitamente dispensável. Uma quase ausência de sequências de jornalismo especializado, explicativo, didático, ilustradas de maneira pertinente. Uma inacreditável ausência de sentido de prioridade dos factos de atualidade e da sua desejável hierarquização. Uma chocante importância dada aos mais variados “faits divers” (crimes e acidentes), sem repercussão alguma na via quotidiana das pessoas. Uma escandalosa deificação do futebol e uma ultra-exagerada atenção dada a jogadores, treinadores e presidentes de clubes.
Depois, como se todos estes aspetos insatisfatórios não ultrapassem já os limites do tolerável, assistimos na televisão pública a jornais apresentados por gente totalmente inadequada. Gente cheia de tiques faciais, gestuais e elocutivos, pondo em evidência o manuseamento de uma caneta de marca (sem que isso suponha um qualquer patrocínio, espera-se) e dirigindo até aos espectadores vulgaríssimas piscadelas de olho finais ! Gente encarregada da apresentação do jornal, mas que também se estima capaz de ser entrevistador (agressivamente militante quando o entrevistado não lhe agrada) ou enviado especial (que faz umas coisas a que chama reportagem e se põe a editorializar banalidades sobre temas de política internacional que manifestamente ignora, à maneira de quem recebeu encomenda para consumo político interno).
Ora, espantem-se os leitores incautos : o apresentador-entrevistador-repórter-editorialista que mais tristemente se evidenciou nestes últimos dias foi diretor de informação da televisão pública em duas ocasiões. E é professor na primeira universidade portuguesa que criou um curso de ciências da comunicação. Dois estatutos que provam bem o descalabro em que se encontra a informação na televisão em Portugal e os cálculos pouco académico-profissionais que as universidades fazem na constituição dos seus corpos docentes…
Tristemente, porém, os portugueses habituam-se a tudo. Nada verdadeiramente os indigna. Nada os leva a contestar publicamente a mediocridade da informação que a RTP lhes propõe. Nem a exigir que o petulante apresentador-entrevistador-repórter-editorialista seja afastado das suas funções, dada a sua aterradora incompetência técnica, a sua abissal ignorância cultural e a sua estrondosa manifesta má-fé militante. Não ! Vão deixá-lo continuar a usufruir de um escandaloso salário [1] por um serviço de uma aflitiva mediocridade : triste país ! Queixem-se depois !…




[1] Num país como a Bélgica (economicamente subdesenvolvido, ousarão talvez dizer as vedetas da televisão portuguesa), nenhum jornalista vê o seu salário aumentado pelo simples facto de passar a apresentador do jornal. Acrescente-se que, nesta mesma Bélgica, nenhuma televisão local ousaria pôr como apresentador do seu jornal aquele que é o principal apresentador do principal jornal da televisão pública portuguesa…

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O novo príncipe dos média


J.-M. Nobre-Correia

Depois das telecomunicações e das redes de cabo, Patrick Drahi passou a interessar-se por televisões, diários, magazines e rádios. E em apenas um ano e meio provou que as ambições nesta matéria são bastante grandes…

Muito se tem falado nestes últimos meses de Patrick Drahi e de Altice, desde que esta se candidatou à aquisição da PT Portugal. Há no entanto um aspeto das atividades de Drahi que parece ter totalmente escapado aos jornalistas : o da sua implantação cada vez maior no sector dos média. Com o que isto significa em termos de estratégia com diferentes vertentes.
Nascido em Marrocos, Drahi é um homem de negócios que dispõe das nacionalidades francesa e israelita, estando porém domiciliado fiscalmente na Suíça. Criador em 2001 da sociedade luxemburguesa Altice, está hoje presente nas telecomunicações e nas redes de cabo, mas passou mais recentemente a interessar-se pelos média ditos tradicionais.
Em julho de 2013, Drahi lançou assim I24news em Israel, televisão de informação contínua em árabe, francês e inglês, que procura ser “uma alternativa a Al-Jazira” e “mostrar o verdadeiro rosto de Israel ao mundo, sem ser um instrumento de propaganda”. Uma iniciativa que tem manifestamente um certo cariz militante e de fidelidade às origens culturais do seu criador.
Já a entrada no capital de Libération, um ano depois, responde a preocupações diferentes. Em crise financeira profunda, o diário parisiense foi objeto de operações capitalísticas diversas em 2013 e 2014, tendo a última consistido precisamente na tomada de controlo de 50 % da sociedade de edição por Drahi, em julho de 2014. Iniciativa que, dizem próximos do dossiê, é devida ao facto que Drahi quis “ajudar um título de que muito gostava”…
Prosaicamente, a motivação terá sido outra. Por ocasião da batalha contra o Groupe Bouygues para a aquisição da francesa SFR, em abril-maio de 2014, Drahi tomou consciência de ser globalmente um ilustre desconhecido em França. E constatou que tanto o “establishement” como o governo francês tinham apoiado Bouygues, largamente presente no sector dos média, nomeadamente com o grupo TF 1. O que significava, para Drahi, que ser proprietário de um grupo de média permite dispor de apoios essenciais para as iniciativas de um homem de negócios.
Terceira etapa decisiva : a compra anunciada do semanário francês L’Express e dos mensários L’Expansion (economia), Lire (literatura), Classica (música) e Studio Ciné Live (cinema). Um conjunto de magazines (a que vinham acrescentar-se mais alguns outros) que o grupo belga Roularta adquiriu por 220 milhões de euros em 2006 e venderia agora por uns modestos 25 milhões. Valores que refletem claramente a crise da imprensa iniciada pouco depois da compra por Roularta, grupo que perdeu 57,9 milhões de euros em 2013, devido sobretudo aos magazines franceses.
Nesta nova dinâmica de Altice, anuncia-se desde já a próxima aquisição da francesa Radio Nova. Mas também a constituição de um grupo plurimédia, com a criação da sociedade Mag&NewsCo, detida por Drahi e pelo seu sócio Marc Laufer, que “integrará a televisão, a rádio, a imprensa escrita, o digital e o móvel”. Até porque, segundo os seus promotores, as telecomunicações e os média não são afinal áreas profissionais assim tão distantes…
Os jornalistas de Libération (de centro esquerda) e de L’Express (de centro direita) manifestam desde já preocupação. Tanto no que diz respeito às sinergias editoriais entre os dois títulos, que se aparentam bastante problemáticas. Mas também no que se refere à prática de “custos baixos” caraterística das empresas de Drahi, que poderá anunciar novas vagas de despedimentos nas diversas publicações.
Num contexto caraterizado pela fragilidade de bom número de média, o reforço da posição de Altice em Portugal levará provavelmente Drahi a interessar-se pelo sector. Sobretudo se os média nacionais não servirem docilmente de câmara de eco à sua estratégia e às suas ambições. E há por aí tantos média à espera de um reforço substancial do capital das suas empresas…

sábado, 17 de janeiro de 2015

Estranha gente essa ali ao lado !


J.-M. Nobre-Correia

Bruxelas e Washington disputam o lugar de cidade com mais correspondentes de média do mundo inteiro. Mas estes mesmos correspondentes ignoram tudo ou quase tudo da vida política, económica, social ou cultural dos belgas…

De repente, o terrorismo faz da Bélgica tema de atualidade nos média portugueses. Há porém que prevenir leitores, ouvintes e espectadores : a grande maioria dos correspondentes dos média portugueses em Bruxelas nada ou quase nada sabe da vida política, da economia, da cultura ou mesmo da sociedade belga…
Largas centenas de jornalistas [1] estão em Bruxelas como correspondentes antes do mais para cobrirem a atualidade da União Europeia e da NATO. E, nestas matérias, repetem largamente o que lhes dizem os serviços de comunicação destas instituições, em conferências de imprensa diárias e em numerosos documentos que lhes são endereçados todos os dias. Ou então repetem mais ou menos religiosamente o que lhes dizem ministros portugueses, representantes de Portugal junto destas duas instituições e altos funcionários geralmente de origem portuguesa.
Acrescente-se que os ditos correspondentes vivem em “vase clos”, em circuito fechado, em gueto, de preferência nas cercanias do Rond-Point Schuman, mesmo ao lado Comissão, do Parlamento e do Conselho Europeus, em Bruxelas. Escapando de vez em quando à rotina com uma breves expedições até ao Luxemburgo ou a Estrasburgo.
Depois, quando se passa algo na Bélgica, os média de que são correspondentes procuram “rentabilizá-los” e pedem-lhes “peças” sobre assuntos de atualidade. Recorrem então sobretudo à leitura dos diários Le Soir e La Libre Belgique, e à escuta da pública RTBF ou das privadas Bel RTL e RTL-TVI, sendo quase todos incapazes de ler ou compreender os média em língua neerlandesa, o que põe um sério problema quando se trata de atualidade que se desenrola no norte do país, na Flandres.
Aqui há meia dúzia de anos, encontrei no edifício da Comissão Europeia um dos mais antigos correspondentes portugueses em Bruxelas. “Ainda bem que o vejo”, exclamou. Perguntou-me então quem poderia entrevistar para lhe fazer o ponto sobre a situação política na Bélgica e fazer até um rápido apanhado geral sobre a história da “questão linguística” na Bélgica.
Aconselhei-lhe os nomes das duas pessoas que me pareciam mais indicadas : Vincent de Coorebyter e Xavier Mabille. Mas o nosso correspondente desconhecia tais nomes ! Expliquei-lhe então que o primeiro era diretor geral do CRISP (que depois enveredou por uma carreira universitária) e o segundo presidente do dito CRISP (entretanto falecido).
Só que o correspondente português também não sabia o que era o CRISP ! Ora, o Centre de Recherche et d’Information Socio-Politiques é o mais célebre centro de investigação do país em matéria sociopolítica. Criado em 1959, publica desde então, para além do mais, um Courrier Hebdomadaire (semanal, como indica o nome) em formato A 4, com uma média de uma quarentena de páginas, sobre temas políticos, sociais, económicos próprios à sociedade belga. Um Courrier Hebdomadaire que é uma referência absolutamente indispensável.
O nosso correspondente, apesar da sua longuíssima estadia em Bruxelas, ignorava a existência deste centro e dos seus dois mais altos responsáveis, autores no entanto de intervenções regulares nos principais média do país !
Ficam pois os leitores, ouvintes e espectadores prevenidos sobre o nível de qualidade das correspondências de Bruxelas. Ou melhor : sobre as manifestas deficiências dos correspondentes. Basta ver como, em boa parte dos casos, pronunciam nomes de localidades, instituições ou personalidades em vista da Bélgica : um verdadeiro festival de humor involuntário !…



[1] Em 1995, em Bruxelas, a Comissão Europeia registava 770 jornalistas acreditados, estrangeiros na maior parte dos casos. Em maio de 2004 eram 920 e em 2005 atingiam os 1 300. Em 2006 já só eram 1 180, em 2008 apenas 1 100 e em 2010 só 752. Neste sector, como em muitos outros, a crise da imprensa em papel e a crise económica tiveram consequências evidentes…