terça-feira, 2 de junho de 2015

A pobreza de um horizonte cultural


J.-M. Nobre-Correia
Média : A importância da cobertura e a forma de tratamento da atualidade futebolística pelos média portugueses, e sobretudo pela televisão, transformaram-na em massacre ideológico extremamente preocupante…

Não ! Não é possível ! Os diretores, chefes de redação, chefes de serviço ou simples jornalistas dar-se-ão conta do país que estão culturalmente a fomentar ? Aquele para a origem do qual já tanto contribuíram ? Aquele ao qual fornecem diariamente uma “overdose” que torna a dependência dificilmente reversível ?…
Nestas últimas duas semanas, sobretudo, os média portugueses, e mais particularmente a televisão, mas até mesmo os diários ditos de referência certos dias, têm-nos massacrado com futebol [1]. Com futebol todos os dias, de preferência em abertura de jornal, como tema principal e interminável do jornal, em dois ou mais momentos do jornal. Ou porque tal clube já ganhou o campeonato naquele domingo. Ou porque os adeptos deste clube resolveram ocupar uma rotunda essencial do trânsito da capital, vociferar e provocar desacatos. Ou porque um pai adepto desse clube foi espancado pela polícia. Ou porque a equipa vencedora foi recebida na Câmara Municipal da capital no dia seguinte. Ou porque no domingo depois acabou realmente o campeonato. Ou porque dois clubes subiram à primeira divisão. Ou porque seis responsáveis da Fifa foram presos. Ou porque a Fifa elegeu o seu novo presidente. Ou porque outro clube venceu a taça de Portugal no domingo a seguir. Ou porque esta outra equipa vencedora também foi recebida na Câmara Municipal da capital no outro dia. Ou porque… Ou porque…
E depois, no resto dos inacreditavelmente gigantescos telejornais ou nos minúsculos radiojornais, pouco mais aconteceu. Para além da(s) sequência(s) diária(s) obrigatória(s) consagrada(s) ao primeiro ministro. Mais o “direto” do antigos clientes do BES. Mais uns “faits divers” de preferência criminais. E nada ou quase nada sobre a atualidade internacional. E nada sobre a cultura e a ciência. E nada sobre tantos outros domínios da atualidade com repercussões evidentes na vida de cada um de nós…
Ora, na atualidade em relação com o desporto, só o tema do espancamento do pai adepto do clube vencedor, aos olhos do filho e do avô, deveria ter merecido atenção. Evitando no entanto a cena de espancamento repetida uma, duas, três e mais vezes no mesmo telejornal, e repetida diariamente ao longo da semana. E procurando ir para além do simples aspeto emocional e aprofundar a informação em termos de investigação. Da mesma maneira que a corrupção, as prisões e a eleição na Fifa deveriam ter dado lugar a explicações de caráter menos futebolístico, e mais económico, financeiro e geopolítico.
O massacre futebolístico destas últimas duas semanas põe particularmente em evidência o facto que, neste país, diretores, chefes de redação, chefes de serviço e simples jornalistas perderam toda a noção de hierarquização dos factos de atualidade, de relativização dos factos e de tratamento adequado a dar aos factos. Perderam muito simplesmente toda a noção do que quer dizer cobrir a atualidade em termos jornalísticos, e não veicular temas de comunicação e muito menos agir como provedoria de emoções distrativas. Perderam a noção daquilo que é a função social do jornalismo, factor de compreensão pelos cidadãos do mundo em que vivem e de inserção crítica na vida quotidiana. E não estarem ao serviço da comunicação dos poderes instalados (nomeadamente clubísticos), nem serem fomentadores de irracionalidade e delírios estouvados.
Em democracia, diretores, chefes de redação, chefes de serviço e simples jornalistas consideram-se livres e senhores das suas iniciativas, mais ou menos ponderadas ou totalmente inconsistentes, sem terem que prestar contas a ninguém. Esquecendo ou afirmando cinicamente não saberem que, depois da família e da escola, os média são os principais formadores culturais dos cidadãos. Que, hoje em dia, os média (e sobretudo a televisão) são mesmo os principais catalisadores de cultura no sentido mais lato da palavra. E se Portugal se encontra como se encontra no estado de miséria cultural em que se encontra, esses diretores, chefes de redação, chefes de serviço e simples jornalistas têm sérias responsabilidades no cartório…
Admiremo-nos pois que, no dia a dia, na rua, nas conversas de café como no seio das empresas ou instituições, o tema dominante seja o futebol, as declarações de jogadores, treinadores e presidentes de clubes, e as vicissitudes das vidas privadas daqueles a que um diário de ontem chamava “Super-Heróis” : nada menos e muito simplesmente !… Admiremo-nos pois que tantos e tantos miúdos afirmem quando “quando forem grandes” quererem ser futebolistas : pobre horizonte cultural e pobre ambição que os média lhes propuseram !…



[1] Ver também J.-M. Nobre-Correia, « Uma temática obsessional », in Notas de Circunstância 2, 5 de julho de 2014.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Estas subtis variações de tempo…


J.-M. Nobre-Correia
Média : Na sua edição de hoje, o Sol afirma que José Sócrates não é o autor do livro que publicou sob o seu nome. Em boa verdade, o jornal pouco sabe sobre o assunto. O que não o impede de dar por certo o que diz nos títulos…

O principal título de primeira página da edição de hoje do Sol e a peça que lhe diz respeito levanta problemas em termos jornalísticos. O título é categórico : “Livro de Sócrates não foi escrito por ele”. E no subtítulo pode ler-se : “o SOL apurou que nem foi ele que o escreveu, mas sim um professor catedrático pago para o efeito”. É possível, só que o Sol não avança dados fatuais nenhuns que provem o que afirma.
Ora, qualquer docente académico experimentado sabe, na maioria dos casos, detetar uma tese (e neste caso concreto : uma memória, “un mémoire”) que é fruto de um plagiato parcial. Porém, quando o docente não conhece bem o estudante (mas em princípio um diretor de “mémoire” teve contactos regulares com o futuro autor), já é mais difícil detetar este plagiato, caso se trate de plagiato mais ou menos integral. Mas existem hoje programas informáticos que permitem fazer verificações perfeitamente concludentes. Embora estas verificações sejam problemáticas caso o texto original tenha sido escrito noutra língua e sobretudo numa língua pouco praticada.
No entanto, nas instituições europeias de ensino superior, um “mémoire” escrito dá geralmente lugar, num segundo tempo, a uma exposição e defesa orais do trabalho perante um júri competente na matéria. E aqui é perfeitamente fácil para os membros do júri, que leram previamente a dissertação escrita, verificar se o estudante em causa é ou não o autor do “mémoire” escrito, se está “à altura” do documento escrito que entregou. Ora, o Institut d’Études Politiques de Paris (designado na linguagem corrente pelo sobrenome “Sciences Po”) é uma instituição que data de 1872 e que goza de grande prestígio a nível internacional. Pelo que se imagina que uma falsa autoria de um “mémoire” não teria escapado aos membros do júri. Sem que isso possa todavia ser afirmado como absoluta certeza.
Já no texto da página 15 do Sol são feitas afirmações inadmissíveis em termos jornalísticos. Começa o dito texto dizendo que “Terá sido um professor catedrático português a escrever o livro”. Para dizer no terceiro parágrafo do mesmo texto : “o volume foi redigido por um professor universitário”. Em que ficamos ? O Sol sabe que “foi” ou pensa, imagina que “terá sido” ?
O Sol afirma um pouco mais adiante, no mesmo terceiro parágrafo, que “o mesmo catedrático já teria a incumbência de redigir um novo livro para surgir também sob a autoria de Sócrates, que se intitularia Carisma”. Repare-se nesta variação na utilização dos tempos dos verbos, indo do “terá sido” (não é certo), ao “foi” (é uma certeza) ao “já teria” (que também não é nada certo). O que em termos jornalísticos é perfeitamente inadmissível. Em escolas de jornalismo chumba-se um aluno por entorses deste género a elementares princípios da técnica jornalística.
Por outro lado, se o Sol sabe ou pelo menos dispõe de elementos de informação que lhe permitem pôr-se numa boa pista, porque não esperou o tempo necessário para proceder à devida investigação ? Junto do diretor de “mémoire” e dos membros do júri, em primeiro lugar, para procurar averiguar se terá havido dúvidas sobre a autoria do texto. E depois, num segundo tempo, de modo a saber quem é afinal o tal “professor catedrático” que seria o verdadeiro autor do “mémoire” que deu lugar ao livro de José Sócrates.
A afirmação que consiste em dizer que o “novo livro” de Sócrates “se intitularia Carisma” é no mínimo curiosa : qualquer autor de livro ou de simples texto de revista ou jornal sabe bem que o título é quase sempre fruto de uma última ação criativa, de uma abordagem final. E são extremamente raros os casos em que o título precede a redação do texto. Daqui que, a querer “demonstrar” a exaustividade da sua informação, o Sol não prova nada, antes envereda por uma “bordadura” criativa suscetível de alimentar a emoção dos leitores. De “animar a malta”, dizia José Afonso…
O Sol não sabe, mas afirma ! E graças a este maldito provérbio que diz não haver fumo sem fogo, caso o Sol não venha a conseguir provar o que afirma, haverá sempre quem fique a duvidar da autoria do “mémoire” de Sócrates que deu lugar ao livro em questão…

quinta-feira, 26 de março de 2015

A esquerda mais inapta…


J.-M. Nobre-Correia
Política : A desunião em França favorece grandemente a direita. A fragmentação em curso em Portugal tem grandes probabilidades de provocar o mesmo efeito. Num contexto socioeconómico e político bem mais inquietante…

Secretário geral da SFIO [1] de 1946 a 1969 e presidente do conselho em 1956-57, Guy Mollet declarou um dia : “a direita francesa é a mais estúpida do mundo” [2]. Só que, como o fazia notar recentemente o politólogo Alain Duhamel, tal sentença pode, sem hesitação, ser agora aplicada à esquerda francesa. Basta ver como a “direita republicana” (UMP-UDI) se apresentou unida nas eleições departamentais de domingo passado. E como a “esquerda republicana” foi incapaz de união frente a uma UMP de Nicolas Sarkozy cada vez mais neoconservadora e a uma Frente Nacional cujo substrato fascizante é inegável.
A fragmentação da esquerda fez assim que o Partido Socialista (e os seus aliados) tenha obtido 21 % dos votos, o Front de Gauche (Frente de Esquerda que inclui o Partido Comunista) apenas 6,1 % e a EELV (Europe Écologie Les Verts) uns modestíssimos 2 %. Dada a natureza do escrutínio, isto significa que o FG e a EELV se autoeliminaram da segunda volta, retirando porém um volume de votos importante à coligação PS-PRG (Parti Radical de Gauche) atualmente no poder. Situação que deixa de certo modo antever o que acontecerá também nas próximas eleições legislativas em Portugal.
Só que, aqui, a fragmentação do eleitorado de esquerda será ainda maior do que em França. Porque, para além da habitual disputa entre Partido Socialista e Partido Comunista (PCP), os eleitores serão confrontados a uma miríade de formações : PDR, PTP-Agir, Livre-Tempo de Avançar, Juntos Podemos-MAS, Bloco de Esquerda, mais os eternos PSR, MRPP e sabe-se lá mais quem ! Porque esta esquerda está minada por rivalidades e egocentrismos de vedetas cuja primeira preocupação é não sair de debaixo das luzes da ribalta mediática.
Ora, a situação portuguesa é incomparavelmente mais grave do que a francesa. Com uma direita neoconservadora cuja preocupação obsessional, omnipresente, é reconstituir as estruturas socioeconómicas “do antigamente”, do antigo regime. Pelo que não é com uma esquerda fragmentada para além do mais elementar bom senso que se poderá antever um novo curso da vida política portuguesa para depois das próximas eleições legislativas.
Enquanto na Grécia e em Espanha surgiram formações que conseguiram reagrupar boa parte da chamada esquerda radical [3], em Portugal a fragmentação avança e torna-se cada dia mais notória. É certo que a esquerda portuguesa tem uma história diferente da grega (marcada pela resistência à ocupação nazi e a guerra civil de 1946-49) e da espanhola (marcada pela guerra civil de 1936-39). Enquanto que é a história do 25 de abril de 1974 ao 25 de novembro de 1975 que marcará por algum tempo ainda o contencioso entre o PS e o PCP. Deixando dificilmente imaginar um entendimento governamental entre estas duas principais formações da esquerda.
Deverá concluir-se, à maneira de Guy Mollet, que Portugal tem a esquerda mais estúpida do mundo ? É verdade que ela desenvolve um prodigioso ativismo e uma impressionante irresponsabilidade para provocar a sua própria perda. Digamos em todo o caso que Portugal tem uma esquerda particularmente inapta para assumir as responsabilidades sociais e políticas que a situação atual exige e a que os cidadãos têm direito. Comprazendo-se num umbigo-centrismo de microcosmos intelectuais assaz distantes das realidades comezinhas das gentes deste país…
Federar a esquerda para além do PS e do PCP é porém de uma absoluta urgência [4]. Porque só a união faz a força. Para contrapor à aliança bicéfala permanente da direita. E para permitir coligar-se com quem (PS ou PCP) queira imprimir um novo curso à vida política e constituir uma autêntica alternativa reformadora e progressista marcada por uma preocupação absoluta : a justiça social num Estado de direito…



[1] A SFIO (Section Française de l’Internationale ouvrière) foi a formação política que, de 1905 a 1969, precedeu o Partido Socialista criado precisamente em 1969.
[2] Em francês : « La droite française est la plus bête du monde ». Podendo a palavra « bête » ser traduzida por estúpida como por burra…
[3] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « O deslize das placas tectónicas », in Notas de Circunstância 2, 6 de fevereiro de 2015.
[4] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Prólogo de uma crise anunciada », in Notas de Circunstância 2, 27 de fevereiro de 2015.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Prólogo de uma crise anunciada


J.-M. Nobre-Correia
Política : Dia após dia, o Partido Socialista afunda-se na ausência de uma liderança credível e de reais projetos alternativos. Enquanto que a esquerda radical vai continuando a viver por procuração as mutações políticas na Grécia e em Espanha…

Num país onde o futebol é tema largamente privilegiado por média e conversas “de café”, é natural que a “cultura” futebolística impregne a vida social. E é também o caso da política : as lutas partidárias são vistas e comentadas em termos de eterna rivalidade benfica-sporting, desprovidos de racionalidade e obedecendo a sentimentos de pura emoção.
Foi de certo modo isto que aconteceu quando António Costa desafiou António José Seguro, querendo substituí-lo na secretaria geral do Partido Socialista. Costa via que a opinião pública estava cada vez mais dececionada com o governo de direita, que as sondagens começavam a ser favoráveis ao PS e que uma crise governamental não parecia de todo impossível. Pelo que via já despontar no horizonte um sedutor lugar de primeiro ministro…
Uma oposição inconsistente
Na altura, poucos foram os que se interrogaram sobre as divergências políticas de fundo que poderiam opor os dois rivais. Pelo que a oposição foi antes do mais interpretada em termos de benfica-sporting. Havia os adeptos de um e os adeptos do outro, com maior ou menor convicção. E os que não estavam satisfeitos com um ou com o outro, ou que a rivalidade os deixava indiferentes, resolveram apesar de tudo votar por Costa, esperando que algo mudasse enfim no PS. Que fosse dada uma nova dinâmica social ao partido e que o PS elaborasse um verdadeiro programa alternativo de governo capaz de propor novas perspetivas à vida política e económica do país.
Meses depois, a verdade é que nada mudou no PS. Que sondagens sucessivas mostram claramente que o esperado sobressalto da opinião pública não teve lugar. E que, na devida altura, lá para setembro-outubro, o PS corre seriamente o risco de não ficar parlamentarmente em condições de constituir governo [1]. Perspetiva que parece tornar-se cada dia mais provável.
Mais provável até porque, ao adotarem uma atitude totalmente diferente para com José Sócrates e para com os casos PT e BES (para evocar apenas dois casos de atualidade) [2], e ao prolongarem a detenção preventiva do ex-primeiro ministro, o procurador Rosário Teixeira e o juiz Carlos Alexandre jogam indubitavelmente contra o PS. Enquanto que a inércia e as “gafes” de Costa tudo fazem para que o PS não ganhe credibilidade como partido reformador e social de esquerda.
No rol das “gafes” mais recentes de Costa há a proposta de isentar o Benfica de uma dívida de 1,8 milhão de euros à Câmara de Lisboa e legalizar sete edifícios construídos ilegalmente pelo mesmo clube. Proposta que não mereceu a sã rejeição desejável por parte de uma opinião pública anestesiada nesta matéria, que não ousa sequer discutir a decisão parlamentar de transladar os restos de um falecido jogador de futebol para o Panteão Nacional.
Mas a “gafe” politicamente mais significativa é a do discurso pronunciado perante a comunidade chinesa em Portugal, por altura do novo ano chinês. Costa afirmou então que Portugal está “hoje numa situação em que está, bastante diferente daquela que estava há quatro anos”. Subentendido : melhor do que quando o PS assumia o governo ! O que, em si, não é propriamente escandaloso : o que é lamentável é que, como um pouco por toda a parte no resto da Europa, os líderes de oposição não sejam capazes de reconhecer eventuais virtudes à ação dos partidos no poder.
O que há de facto escandaloso é que, sobre a situação económica do país, Costa diga uma coisa para consumo interno dos portugueses e diga exatamente o contrário a um público estrangeiro, nesta caso chinês, em nome de um pretenso “patriotismo”. Mas mais escandaloso ainda é que Costa preste homenagem aos “investidores chineses [que] disseram presente”, investindo em Portugal. Quando esses “investidores chineses” mais não são do que representantes de uma ditadura capitalista ultra-selvagem que, sob a carapaça de comunismo, pratica um esclavagismo social intolerável.
Os outros como modelo
Dias muito sombrios poderão pois anunciar-se para o PS. E a demissão de Alfredo Barroso, um dos fundadores do partido, poderá dar o sinal de retirada para outras personalidades mais. Mas os dias do PS poderão ser tanto mais sombrios que as possibilidades muito teóricas de encontrar aliados à sua esquerda parecem cada vez menos prováveis. Porque parece por demais evidente que o PCP e o BE não sairão da tradicional posição de partidos de contestação, puramente tribunícios, recusando toda e qualquer aliança com o PS. Enquanto que o novo Livre-Tempo de Avançar não parece dar sinais tangíveis de implantação social e, por conseguinte, de futura forte repercussão eleitoral.
A esquerda radical situada entre o PS e o PCP não só se encontra seriamente fragmentada como desprovida de projetos de governação audíveis fora dos cenáculos intelectuais da orla litoral norte. Preferindo, ilusória e irresponsavelmente, dar a prioridade a manifestações de solidariedade com o Syriza grego e o Podemos espanhol. Quando a coerência e a operacionalidade do governo do Syriza ainda estão por demonstrar (o que não deve, é claro, pôr em questão a solidariedade com o povo grego). E quando daqui até às eleições legislativas de novembro-janeiro (pois ainda não foram fixadas), o Podemos ver-se-á confrontado com uma série de eleições autonómicas e municipais que poderão esvaziar seriamente os resultados de sondagens que o colocam atualmente como o partido com mais intenções de votos.
A inércia e a ausência de projeto governamental alternativo por parte do PS, assim como a fragmentação da esquerda radical e a inexistência de projetos políticos suscetíveis de serem plebiscitados pelos cidadãos eleitores, abrem as portas à permanência da direita no governo. Uma direita cada vez mais conservadora e vindicativa que procura afincadamente reconstruir uma certa velha ordem social e económica…
Só a formação de uma larga federação das organizações de esquerda radical, capaz de negociar em pé de igualdade com o PS (e por que não com o PCP ?…), seria de natureza a impedir que tal aconteça e a abrir perspetivas realmente novas. Deixarão porém as rivalidades no seio desta esquerda radical dar lugar a este indispensável realismo ?…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, “O deslize das placas tectónicas”, in Notas de Circunstância 2, 6 de fevereiro de 2015.
[2] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Duas legítimas interrogações », in Notas de Circunstância 2, 24 de fevereiro de 2015.