terça-feira, 6 de outubro de 2015

Responsabilidades históricas inadiáveis


J.-M. Nobre-Correia
Política : Há quem veja nos resultados das eleições de domingo uma situação trágica para o futuro do país. Mas o otimismo da vontade que permite o pessimismo da razão deixa antever potenciais novas perspetivas…

Como era previsível, os resultados das eleições legislativas de domingo constituirão provavelmente uma viragem na história portuguesa contemporânea [1]. Por variadíssimas razões. A primeira das quais é a elevadíssima abstenção : 43,07 % dos eleitores não foram votar. Disseram-se e escreveram-se por aí coisas incompreensíveis sobre este nível de abstenção. E nomeadamente que os eleitores tinham acorrido numerosos às urnas. Que havia filas como não se tinha visto desde os anos 1975 e 1976…
Ora, a triste realidade é que, com 43,07 % de abstenção, foi quase metade da população com direito de voto que não foi votar. Dir-se-á que os cadernos eleitorais não estão atualizados, nomeadamente no que diz respeito à enorme emigração destes últimos anos. E imaginar-se-á até que muitos destes recentes emigrantes não tiveram a preocupação de se inscrever nos consulados portugueses ou mesmo, mais simplesmente, de declarar à administração pública portuguesa que deixavam o país.
Desespero negro ou grande lucidez ?
Porém, a realidade é que, apesar de uma dura política de austeridade, de cortes nos salários, nas reformas, nas condições de acesso ao ensino, à assistência médica e à proteção social, quase metade dos portugueses não se sentiram minimamente motivados para votar. Estranho povo a quem tanto foi retirado em termos de condições de vida e que não sente necessidade de se pronunciar sobre o assunto, quando tem finalmente a oportunidade de o fazer ! A não ser que este povo se encontre mesmo num estado de desespero tão negro, que nenhuma, absolutamente nenhuma das dezassete / dezanove listas diferentes de candidatos tenha merecido a sua consideração.
A outra hipótese é que este povo possua uma tal lucidez e um espírito de abnegação tal que tenha compreendido bem, muitíssimo bem, a política que foi a da coligação PSD-CDS durante quatro anos. Só assim se poderá compreender que lhe tenha dado 38,55 % dos votos e 104 deputados (99 mais 5 do PSD sozinho) [2], fazendo dela a lista mais votada. Ora, em democracias europeias solidamente instaladas, os eleitores penalizam sempre os governos que lhes reduziram seriamente as condições materiais de vida. Não foi exatamente isso que aconteceu no domingo em Portugal, embora seja verdade que a coligação PSD-CDS tenha ficado longe da soma dos resultados do PSD e do CDS em 2011 : menos 11,82 % dos votos e menos 25 deputados.
No entanto, a coligação não dispõe da maioria absoluta e é minoritária em relação ao conjunto das três forças (ou quatro partidos) consideradas como fazendo parte da esquerda : PS, BE e CDU (ou PCP e PEV). E é interessante constatar que o PS com 85 deputados (mais 12 do que em 2011) e o BE com 19 (mais 11) fazem precisamente jogo igual com o PSD-CDS : 104-104 [3]. E se se acrescentarem os 18 da CDU (mais 1 do que em 2011), a esquerda será maioritária na Assembleia da República…
Só que esta “maioria” é perfeitamente teórica. Embora seja verdade que o Bloco de Esquerda, muito claramente, e o PCP, mais timidamente, tenham feito aberturas em direção do PS. Aberturas mais claramente afirmadas depois de conhecidos os resultados da eleições. Mas, de mármore durante a campanha eleitoral, de mármore ficou o PS na noite das eleições e no dia seguinte, as declarações neste sentido tendo-se sucedido. Pelo menos da parte de António Costa e do PS “oficial”, pois algumas personalidades em vista do partido começaram a reivindicar um “entendimento à esquerda”.
A nova arquitetura da esquerda
No entanto, nada nos garante, por enquanto, que este “entendimento à esquerda” venha a concretizar-se. Até porque há uma “cultura” suficientemente anti-PS em certas franjas do BE e claramente anti-PS em boa parte do PCP. Enquanto que o PS está desde sempre marcado a ferro por uma “cultura” muito pouco socialista e até mesmo pouco social-democrata, no sentido europeu e histórico-político da palavra.
Porém, a eleições de domingo constituirão decerto uma viragem histórica para a esquerda portuguesa. À força de se afirmar “europeísta” — o que não quer dizer literalmente nada e significa na melhor (…ou pior !) das hipóteses uma submissão incondicional à pura lógica de mercado que domina a União Europeia — e tão bom ou melhor gestor da “coisa pública” em pura lógica de capitalismo liberal, o PS continuará a resvalar para águas que pouco têm ainda a ver com o seu programa fundador. E persistindo em continuar a fazer do PSD o seu rival-parceiro preferido na gestão dos assuntos de Estado, o PS corre um sério risco de ver desaparecer o seu eleitorado tradicional, que deixa de ver nele a preocupação de reformismo e de justiça social que espera de um partido dito “socialista”.
Eleição após eleição, o PCP dá provas de se manter como um reduto com poucas probabilidades de grande expansão eleitoral. Até porque a sua “cultura” de posições fortes e inabaláveis faz que consiga manter-se significativamente no panorama político e social, quando grande parte dos seus antigos “partidos irmãos” foram desaparecendo com uma espantosa rapidez quando meteram um dedo na engrenagem de uma certa social-democratização. Pelo que, entrar numa lógica governamental ou até mesmo só numa lógica parlamentar de maioria comporta potencialmente riscos de desagregação da fortaleza ideológica.
Já a nova posição do BE é claramente mais confortável, na medida mesmo em que passa a ocupar de facto a posição de partido pivô da esquerda, entre o PS e o PCP. E provavelmente até como novo polo da atração dos que embarcaram nas aventuras decepcionantes do Livre ou mesmo do Agir. Mas, num caso como no outro, será necessário que o BE dê provas de abertura real (e não apenas de abertura tática), capaz de diálogos construtivos com as diversas formações de esquerda e com os órfãos de uma formação de esquerda solidamente implantada no tecido social, capaz de alianças concretas e diversas a nível autárquico, parlamentar e governamental.
Os sinais que o PS terá que dar
Nas circunstâncias atuais, é o PS que tem urgentemente que dar sinais claros. Sinais de que pretende mudar de rumo, renunciar a um posicionamento centrista que não lhe fez ganhar votos mas antes o fez manifestamente perder parte do seu eleitorado tradicional em favor de organizações situadas à sua esquerda. Sinais que se tornarão manifestamente claros quando for constituída a Mesa da Assembleia da República e escolhido o seu presidente, quando o novo governo se apresentar aos deputados e quando o orçamento de Estado lhes for submetido.
Jogar-se-á pois nos próximos dias, nas próximas semanas, não só o futuro da política de austeridade, do seu abrandamento ou da sua acentuação, mas também o futuro da esquerda portuguesa. O futuro do PS será posto em causa, entre nomeadamente perspetivas grega, francesa e inglesa. Capaz de vir a ser o grande partido aglutinador de um largo centro-esquerda (…mais de esquerda do que centrista), preocupado com o reforço da justiça social e a constituição de uma verdadeira alternativa às políticas da direita PSD-CDS. Ou de soçobrar e vir a transformar-se numa diminuta e vaga reminiscência do que foi e daquilo que muitos esperaram que viesse a ser…
Da lucidez e do sentido das responsabilidades do PS, do BE e do PCP dependerá o futuro da democracia portuguesa. Do reforço das suas dimensões política, social, económica e cultural. Ou do retrocesso com que a direita (ou pelo menos os meios atualmente dominantes na direita) tanto sonha, acentuando ainda mais as desigualdades sociais e afirmando o poder de uma nova classe social fruto do partidarismo político, aliada aos antigos senhores “donos disto tudo” oriundos do antigo regime…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « As viragens prováveis », in Notas de Circunstância 2, 29 de setembro de 2015.
[2] Faltam ainda apurar os votos e os mandatos dos círculos eleitorais da Europa e de fora da Europa.
[3] Antes do apuramento dos votos dos leitores fora do país, recorde-se.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

As viragens prováveis



J.-M. Nobre-Correia
Política : Tudo leva a crer que as eleições de domingo marcarão a história portuguesa contemporânea. Porque anunciarão o fim de uma prática governamental ou o seu aprofundamento. Com o que isto supõe de inevitáveis redefinições…

O próximo fim de semana tem grandes probabilidades de vir a constituir um marco na vida política portuguesa. Pelas razões mais diversas. Começando pelo nível de participação no ato eleitoral. Que este nível venha a ser inferior ao das precedentes eleições e isso significará que os cidadãos acreditam cada vez menos nos partidos e no pessoal político. Mas se for mais alto, isso traduzirá uma mobilização que terá que ser posta em relação com os resultados : exasperação em relação à política governamental nos últimos quatro anos ; ou desejo de continuidade e receio em relação a uma possível alternância.
O prosseguimento do novo PREC
Durante a campanha eleitoral, e mesmo antes dela, a coligação PSD-CDS jogou a fundo esta carta do medo em relação a um possível regresso do PS ao poder. E caso esta estratégia, aliada a uma ausência de propostas de programa para o futuro, vier a resultar, isso significará que o processo de reconquista em curso (o PREC deles) se acentuará. Destruindo mais desveladamente o que resta do Estado social, nos sectores da saúde, da educação e da segurança social. E, embora a adopção das estruturas políticas do antigo regime seja impossível, a União Europeia dificilmente a aceitaria [1], iniciando o regresso cada vez mais concreto à sociedade do antigamente com as suas gigantescas desigualdades e enormes injustiças sociais. Porque, no PSD como no CDS, as correntes dominantes sonham com desforra e reconstituição das estruturas socioeconómicas de antigo regime.
Nesta perspetiva de cenário, que implica a derrota do principal partido da oposição, o PS atravessará provavelmente um período de convulsões internas. Primeiro porque toda uma corrente dentro do partido não esqueceu as condições impulsivas de bota-abaixo em que o atual líder substituiu o precedente líder e não deixará de querer ajustar contas. Mas também porque o PS terá inevitavelmente que proceder a redefinição do seu posicionalmente no arco dos partidos com assento parlamentar e do seu relacionamento com as formações políticas situadas à sua esquerda. Levando-o a interrogar-se sobre a rejeição que tem sido a sua desde 1974-75 em relação às outras organizações de esquerda, operando o necessário deslocamento do ponto fulcral de sua ação, de modo a sair de uma recorrente situação de governos minoritários, desprovidos de aliados potenciais.
Na hipótese em que o PS, embora minoritário, venha a ser o primeiro partido na Assembleia da República (até porque, até nova ordem, a coligação eleitoral PAF é construída por dois partidos), outros cenários se apresentarão. A reedição de governos de coligação com o CDS (em 1978) ou com o PSD (em 1983-85) parece hoje dificilmente concebível, mas não impossível, toda uma corrente dentro do PS encara esta hipótese como a mais viável e garante de estabilidade. Mas isso anunciaria quase inevitavelmente uma futura decadência eleitoral do PS, à maneira da que atravessou os partidos-irmãos na Grécia e na Grã-Bretanha e parece anunciar-se de certo modo em Espanha e na França.
A redefinição de posicionamentos
O outro cenário possível, nesta mesma hipótese de um PS minoritário mas primeiro partido na Assembleia da República, seria a de procurar alianças, se não governamentais, em todo o caso parlamentares com (as) formações situadas à sua esquerda. Obrigando o PS a concessões e compromissos sérios, e o BE e o PCP a assumirem responsabilidades, saindo de uma eterna oposição “protestatária”, puramente “tribuniciana”. Não esquecendo que, após a rejeição do Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC 4), em março de 2011, não poderão desta vez renovar a “aliança objetiva” com o PSD-CDS e inviabilizar a alternância de um governo PS, quando o governo de direita a que tal rejeição abriu portas praticou a política social, económica e cultural particularmente dura que se sabe.
Dito de outra maneira : se os líderes do PSD e do CDS jogam este fim de semana os seus destinos pessoais, o mesmo acontecerá mais certamente com o líder do PS. Mas, ao contrário do que poderá acontecer com os dois partidos da direita, o PS joga a sua viabilidade futura de grande partido parlamentar. Enquanto que, à sua esquerda, é a capacidade mesma de intervenção concreta nos destinos da nação que será posta em causa, entre protestação idílica e governação assumida, na sociedade civil como na administração pública. Pelo que, este domingo e durante a próxima semana, a esquerda não poderá deixar de se interrogar sobre o seu estatuto regular de maioria eleitoral incapaz de assumir responsabilidades no plano governamental [2]. Deixando assim as portas grande abertas a uma direita que, ela, sabe negociar alianças entre as suas principais componentes…



[1] As certezas nesta matéria são porém cada vez menos grandes, a atitude da União Europeia em relação aos governos de Silvio Berlusconi na Itália, de Wolfgang Schüssel na Áustria e agora de Viktor Orbán na Hungria permitindo que se duvide de tais certezas em matéria de princípios democráticos…
[2] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « As incertezas da evidência », in Notas de Circunstância 2, 30 de dezembro de 2014 ;
J.-M. Nobre-Correia, « Prólogo de uma crise anunciada », in Notas de Circunstância 2, 27 de fevereiro de 2015 ;
J.-M. Nobre-Correia, « A esquerda mais inapta », in Notas de Circunstância 2, 26 de março de 2015 ;
J.-M. Nobre-Correia, « A máquina de perder está em marcha ! », in Notas de Circunstância 2, 13 de agosto de 2015.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Objetividades diversas...


J.-M. Nobre-Correia
Média : Perante factos incontestáveis, indiscutíveis, mesmo quando a prática jornalística é honesta e de qualidade, a sensibilidade com que são abordados os ditos factos vem inevitavelmente ao de cima…

Há os factos e a maneira como são abordados. Há as opiniões claramente explicitadas e a maneira como se exprimem indiretamente na abordagem dos factos. E no meio disto tudo há a sagrada objetividade. Ou melhor dito : a honestidade com que factos, análises e opiniões são expostos ao leitor.
A maneira como os quatro diários generalistas madrilenos e os quatro barceloneses titulam hoje sobre as eleições de ontem na Catalunha é significativa deste entrelaçamento dos factos e a interpretação destes factos. E, como era previsível, os factos não são vistos do mesmo modo em Madrid e em Barcelona, na imprensa “espanholista” madrilena e em jornais barceloneses com sensibilidades diversas, por vezes até adeptos ferrenhos da independência da atual “comunidade autónoma”.
Não se trata de saber qual deles é mais “objetivo”, mais jornalisticamente independente. Mas sim constatar que, no dia a dia, a prática jornalística traduz sempre uma opinião, uma sensibilidade particular perante os factos. E é até a esta sensibilidade particular do “seu” jornal que os leitores globalmente se identificam…