sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Em nome da História


J.-M. Nobre-Correia
Política : Portugal tem sido ao longo dos séculos um país de emigrantes. E foi demasiadas vezes um país que obrigava muitos dos seus a procurar refúgio em terras mais tolerantes. É agora tempo de pagar o seu tributo…

A atualidade recente em matéria de migrantes e refugiados suscita reações marcadas mais pela emoção do que pela razão. Não que a emoção não seja legítima e estimável, que o é. Mas, nesta como noutras matérias, pelo menos num segundo tempo, convém procurar reagir com a razão. Até porque esta atualidade recente tem já longos meses de vida. Sem que as autoridades políticas da União Europeia, e mais especificamente de Portugal, tenham procurado seriamente soluções realistas, concretizáveis. E sem que os cidadãos, os simples cidadãos, se tenham mostrado suficientemente interessados em suscitar estas ou outras soluções e em participar na sua concretização.
É possível que, como disse em tempos Michel Rocard (então primeiro ministro socialista francês), a Europa não possa “acolher toda a miséria do mundo” [1]. Mas há deveres morais a que a Europa não pode eximir-se. Até porque, em grande parte, os homens, mulheres e crianças que procuram nestes últimos tempos instalar-se na Europa foram vítimas de guerras que europeus (com ou sem aliados estado-unidenses e a maior parte das vezes por instigação destes) desencadearam irresponsavelmente em países do Próximo Oriente e do Médio Oriente, assim como no Norte de África e na África Subsaariana, sem esquecer os Balcãs e até as intervenções agora na Ucrânia.
Economia e cultura
É certo que a Europa, e mais particularmente a União Europeia, debate-se com sérios problemas de desemprego e de coabitação cultural. Desemprego que atinge nalguns países valores de 10, 20 e mais por cento. E, não sendo boa parte dos candidatos à instalação na Europa gente com uma evidente formação escolar e profissional, isso fará aumentar a concorrência nos postos de trabalho a baixo salário e descer assim ainda mais o nível deste salário. Enquanto que a coabitação entre populações com origens étnico-culturais diferentes bastante marcadas nem sempre tem sido fácil nos países onde são já demograficamente importantes. Com tendência a constituírem-se em “comunidades” fechadas sobre si mesmas e a recusarem os parâmetros culturais e as condutas comportamentais das sociedades de acolhimento.
A Europa tem porém o dever moral de acolher estas populações desvalidas, em procura de paz e de uma vida melhor. Mas tem também o dever de prever um enorme esforço de formação e de verdadeira integração destes homens, mulheres e crianças no seio das sociedades dos seus Estados membros. Com os deveres e os direitos dos outros cidadãos, e sem marginalizações que só poderão trazer futuras dificuldades para as sociedades de acolhimento. De modo a que estes “novos europeus” venham a reforçar o peso demográfico da União Europeia e a relançar uma desejável nova dinâmica social, económica e cultural.
No caso português, este dever moral de acolhimento tem múltiplas razões de ser. Não só porque Portugal também participou, à sua escala, em algumas das intervenções militares já evocadas (e convém recordar aqui a célebre Cimeira das Lajes, nos Açores, em março de 2003, onde foi acertada a intervenção militar contra o Iraque de Saddam Hussein). Mas também porque Portugal colonizou durante seis séculos populações de outros continentes, praticando a partir delas um intenso e abominável tráfico de escravos, e nelas manteve atrozes guerras coloniais durante pelo menos treze anos (para falar apenas nas dos anos 60-70 do século passado). Ou ainda porque tem sido ao longo dos séculos um país de emigrantes levados a procurar uma vida melhor em países estrangeiros. E um país de intelectuais e opositores obrigados a procurar refúgio em paragens mais tolerantes, clementes e generosas.
O tributo devido
País que deu ”novos mundos ao mundo”, Portugal não pode agora ficar fora da História e das vagas humanas que a atravessam. Não só porque, manifestando abertura e generosidade em relação a uma cruel crise humanitária desconhecida há mais de 70 anos, fará frente à desertificação do seu “interior”, à preocupante erosão demográfica e ao inevitável envelhecimento da sua população. Mas também porque tem assim a ocasião de pagar o tributo que deve há muito, há demasiado tempo, à História e a uma Humanidade que tantas vezes soube acolher os portugueses em procura de pão e de liberdade, numa palavra : de felicidade…




[1] Declaração que deu lugar as versões ligeiramente diferentes em 1989 e 1990, e, em seguida, a diversas versões apócrifas…


Texto publicado no semanário Fórum Covilhã, Covilhã, 8 de setembro de 2015, p. 20.

Presse : l'aube d'un nouveau monde


J.-M. Nobre-Correia
Depuis une vingtaine d’années, le monde des médias subit des changements de fond qui, depuis sept ans, deviennent un vrai chambardement. Avec des conséquences nombreuses et quelquefois plutôt inquiétantes…

Voici une bonne vingtaine d’années que l’on parle de la crise de la presse imprimée. Et ses principaux responsables ne seraient autres qu’internet et le numérique. Même si avant, la presse imprimée donnait déjà des signes de faiblesse, incapable le plus souvent de s’adapter adéquatement au nouvel environnement médiatique fruit de la démonopolisation du secteur audiovisuel. Les journaux, surtout quotidiens, se vendaient déjà de moins en moins.
Mais le délabrement de la presse imprimée est devenu patent suite aux crises financière, d’abord, et économique, ensuite, qui ont fait suite à la désormais célèbre crise de crédits hypothécaires (dite des « subprimes ») déclenchée en 2007 aux États-Unis. Car, depuis lors, ses recettes publicitaires ont fondu comme neige au soleil, les annonceurs préférant désormais investir dans les hors-médias traditionnels : en France, entre 2004 et 2013, la presse imprimée aurait perdu 1,7 milliards d’euros de ressources publicitaires (en euros courants). Alors que la chute des ventes s’est accentuée, suite à l’érosion du pouvoir d’achat des citoyens : entre 2007 et 2014, les cinq quotidiens généralistes belges francophones [1] ont perdu 26,94 % de leur diffusion payante, avec une chute de 434 732 à 317 605 exemplaires (27,50 % si l’on y ajoute L’Écho, tombé de 18 115 à 10 666 exemplaires) ; pendant la même période, les six quotidiens généralistes « nationaux » espagnols, par exemple, ont perdu 44,7 % de la diffusion payante, de 1 540 613 à 815 907 exemplaires [2] ; alors que le plus grand quotidien européen, l’allemand Bild a reculé de 4,3 millions à 2,4 millions d’exemplaires entre 2002 et 2014. Et les spécialistes ne croient pas que l’on assistera à un retournement du marché dans les années à venir. Autrement dit : le modèle économique de la presse imprimée né dans le courant du XIXe siècle semble bel et bien périmé.
Un affaiblissement endémique
Or, les lecteurs s’éloignent de la presse imprimée, mais fréquentent de plus en plus les nombreux sites d’information qui prolifèrent sur internet. Et les éditeurs proclament urbi et orbi que leurs journaux ont de plus en plus de lecteurs grâce à internet, et même qu’ils n’en ont jamais eu autant. Il ne reste pas moins que les recettes des ventes et des insertions publicitaires des éditions numériques ne parviennent à rattraper celles des éditions en papier, tant s’en faut. Seuls de très rares éditeurs parviennent à y trouver leur compte, notamment ceux dont les journaux en papier et en numérique s’adressent prioritairement aux milieux d’affaires, prêts à payer cher pour avoir la primauté d’une information spécifique et pointue. Toutefois, un quotidien comme le britannique Financial Times, la « bible » européenne des affaires, tire seulement 30 % de son chiffre d’affaire de son activité en ligne, quand les abonnements numériques atteignent 70 % du total des ventes.
Les conséquences de ce nouvel écosystème des médias sont nombreuses en ce qui concerne la presse imprimée. Avec la disparition de nombreuses publications, notamment celles gratuites qui avaient fait florès ces vingt dernières années, les quotidiens gratuits apparaissant désormais comme une poussée de fièvre somme toute passagère. La réduction de périodicité de beaucoup d’autres, notamment d’anciens quotidiens qui se limitent dorénavant à une édition hebdomadaire, tout en suivant l’actualité quotidienne avec une édition numérique (comme le quotidien économique français La Tribune). La disparition pure et simple de l’édition imprimée, seule l’édition numérique étant maintenue (cas du quotidien espagnol Público). Et la réduction quasi généralisée des équipes de rédaction et du nombre de correspondants, l’effondrement des budgets consacrés aux enquêtes, aux reportages et à la vérification des données factuelles, et l’amaigrissement à vue d’œil de la pagination et du contenu rédactionnel.
Dans un tel contexte, les résultats négatifs d’une bonne partie des éditeurs de presse se sont accentués, leur interdisant le plus souvent de réaliser les investissements lourds indispensables au passage du papier au numérique et au repositionnement global des entreprises. Et ceux qui parvenaient encore à équilibrer leurs comptes ou même à faire des bénéfices se sont bien souvent fort endettés en procédant à ces deux réorientations stratégiques.
Un chambardement de la propriété
Aussi, selon les pays, assiste-t-on à une vague plus ou moins importante de changements de propriété des entreprises d’édition, avec des caractéristiques plus marquées que dans un passé récent. La notion classique d’éditeur lié à une famille dont les intérêts économiques étaient prioritairement, voire exclusivement, présents dans la presse, est en train de disparaître : cas des Hersant et des Amaury, en France. En revanche, la présence des milieux industriels et financiers dans la presse est de plus en plus pesante : à Paris, à l’exception de La Croix (détenu par la congrégation des Assomptionnistes) et de L’Humanité (contrôlé majoritairement par le Parti communiste), tous les quotidiens généralistes et tous les grands hebdos d’information générale sont maintenant aux mains de ces milieux.
Serge Dassault (Groupe Dassault) a ainsi pris le contrôle de 100 % du Groupe Figaro, qui publie le quotidien éponyme et ses magazines, en quatre opérations successives de janvier 2002 à septembre 2007 ; Bernard Arnault (LVMH) des Échos et Radio Classique, en novembre 2007, et du Parisien, annoncée en mai 2015 ; Pierre Bergé, Xavier Niel (Free) et Matthieu Pigasse (banque Lazard) — dits BNP, à partir des initiales de leurs noms —, du Groupe Le Monde, en novembre 2010, et du Nouvel Observateur, en janvier 2014 ; Patrick Drahi (Altice) de Libération (dont Édouard Rothschild était déjà l’actionnaire de référence depuis janvier 2007), en mai-juillet 2014, de L’Express, en janvier 2015 et du groupe Next Radio TV, dont BFM et RMC, en juillet 2015. Et, de ce côté de la frontière, en Belgique, l’intercommunale Publifin (ex-Tecteo), via Nethys, a pris le contrôle des Éditions de l’Avenir, dont le quotidien L’Avenir et Radio Nostalgie [3], en septembre 2013, et semble prête à reprendre l’hebdomadaire Moustique au finlandais Sanoma.
Deux raisons expliquent cet intérêt des milieux industriels et financiers pour la presse imprimée et les médias en général. D’abord ces milieux ne sont jamais indifférents au prestige et à la considération que la propriété de journaux leur accorde, tout en renforçant leur capacité de négociation avec les pouvoirs publics et, au besoin, pesant de tout leur poids dans les tensions qui traversent régulièrement la vie sociale comme la vie politique. Mais aussi parce qu’on assiste à une incroyable destruction de valeur des entreprises de médias, et plus spécialement de la presse, parfois de l’ordre de trois à six fois moins que ce qu’elles valaient voici seulement une demi-douzaine d’années, étant dès lors à la portée de ces milieux industriels et financiers pour une bouchée de pain.
Des ruptures trop brutales
Lors de la plus récente reprise d’un groupe de presse quotidienne en France, en juin, La Dépêche du Midi, de Toulouse, a acquis pour 15 millions d’euros Les Journaux du Midi, de Montpellier (qui publie les quotidiens Midi Libre, Centre Presse et L’Indépendant) au Groupe Sud-Ouest, qui avait lui-même payé 90 millions lors de leur rachat en 2007 au Groupe Le Monde. Ou pour prendre un exemple concernant un éditeur belge : en 2006, Roularta a repris pour 210 millions d’euros le parisien Groupe L’Express, cédé en janvier 2015 à Altice pour 60 millions d’euros [4].
Cette vague de fond qui a profondément changé les structures de propriété a eu des conséquences importantes. D’abord, la concentration des médias a pris des dimensions de plus en plus importantes, voire même des dimensions inconnues auparavant dans des pays comme la France. Ensuite ces changements de propriété ont entraîné une instabilité devenue parfois endémique au sein des directions éditoriales et des encadrements des rédactions. Le cas le plus flagrant est celui du quotidien Le Monde : depuis la prise de contrôle du trio BNP en 2010, six directeurs (y compris deux par intérim) se sont succédés à la direction du quotidien [5]. Une instabilité que Libération et Le Nouvel Observateur ont également connu à une moindre échelle et que l’on a également retrouvé ailleurs, notamment chez les quotidiens de référence espagnols El País et El Mundo. Et cette instabilité des directions a le plus souvent été suivie de changements des formules rédactionnelles voire de réorientations politiques, qui ont eu l’art de désarçonner les lecteurs, la fidélité à « leur » journal faisant alors progressivement défaut [6].
Des tels mouvements de fond ont en outre provoqué la disparition d’une innovation bien française : celle du contrôle du capital de l’entreprise d’édition par ses rédacteurs, voire par tout le personnel de l’entreprise, innovation apparue au Monde dès 1951 et à Libération dès son lancement en 1973. Dans la meilleure des hypothèses, cette participation au capital est aujourd’hui réduite à la portion congrue. Tandis que le droit d’élire seule son directeur, ou du moins d’être consultée à ce sujet et d’en disposer d’un droit de veto, s’est sérieusement émoussée [7].
À cet égard, la dernière élection du directeur du Monde a été particulièrement significative : trois candidats de la rédaction se sont présentés ; le trio des propriétaires BNP les a cependant rejetés et proposé le sien ; celui-ci (Jérôme Fenoglio) a été refusé par la Société des Rédacteurs du Monde (SRM), ayant seulement obtenu 55,0 % de ses suffrages, au lieu des 60 % exigés par les statuts [8] ; représenté par le trio BNP, il a finalement été élu le 30 juin 2015, la SRM ayant pris consciente de la grave crise qui ne manquerait pas de menacer l’avenir du journal. Il n’en reste pas moins, que de facto la SRM a perdu un droit important qu’elle avait conquis depuis plusieurs décennies. Et des situations vaguement comparables ont aussi été connues à Libération et à L’Obs.
Un implacable coup de grâce
Si la presse imprimée propriété de partis politiques et de mouvements sociaux divers, née dans la courant du XIXe siècle et la première moitié du XXe, n’était plus qu’un lointain souvenir, la presse d’« éditeurs purs », comme les appellent les Italiens, avait gardé tout son dynamisme jusqu’aux années 1970-90. Internet et la numérisation des signaux ont donné le coup de grâce à un grand nombre d’entre eux. Et les journaux que les nouveaux seigneurs de l’information nous proposent désormais prennent bien trop souvent des allures de recueils de communication officielle ou officieuse des institutions et des entreprises, faisant fi de ces fadaises de la citoyenneté et de la démocratie pluraliste. Car seule la splendeur des marchés et des affaires est vraiment importante pour eux…



[1] Les cinq titres de Sud Presse (La Capitale, La Meuse, Nord Éclair, La Nouvelle Gazette et La Province), L’Avenir, Le Soir, La Dernière Heure et La Libre Belgique.
[2] Ces six généralistes « nationaux » sont El País, El Mundo, La Vanguardia, ABC, El Periódico et La Razón.
[3] En revanche, sa négociation de partenariat avec IPM (éditeur notamment des quotidiens La Dernière Heure et La Libre Belgique) a manifestement échoué, les négociations avec les frères Le Hodey n’étant jamais des parties de plaisir…
[4] Presque quatre fois moins, si l’on ramène le prix initial à sa valeur en euros constants 2014, soit 235 millions d’euros.
[5] Éric Fottorino (révoqué le 15 décembre 2010), Erik Izraelewicz (décédé brutalement le 27 novembre 2012), Alain Franchon (intérim), Natalie Nougayrède (démissionnaire le 14 mai 2014), Gilles van Kote (intérim) et Jérôme Fenoglio (depuis le 30 juin 2015).
[6] La rupture la plus brutale en cette matière a été celle du Nouvel Observateur qui a non seulement changé de nom pour devenir L’Obs le 23 octobre 2014, comme a changé radicalement de concept rédactionnel. On attendra avec curiosité les résultats de ses ventes…
[7] Cette « conquête » d’un certain nombre de rédactions a cependant eu des conséquences fâcheuses, des personnalités fortes ayant souvent été rejetées au profit de « gentils » peu regardants vis-à-vis d’agissements professionnels critiquables des « confrères »…
[8] Pierre Bergé, qui joue un rôle néfaste en multipliant les attaques publiques au sujet du contenu du journal comme de ses rédacteurs, a ainsi estimé bon de déclarer le 15 mai 2015 qu’il est « violemment contre » cette règle des 60 %.





Texte paru dans Politique revue de débats, Bruxelles, n° 91, septembre-octobre 2015, pp. 16-18.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Deslumbre e inquietude


J.-M. Nobre-Correia
Média : A evolução das tecnologias da comunicação são cada vez mais de natureza a tonar possível uma informação rigorosa e exigente. E, no entanto, derrapagens e derivas são dia a dia mais frequentes…

Vivemos tempos simultaneamente entusiasmantes e preocupantes. Entusiasmantes sobretudo para os que ficam deslumbrados, fascinados, com as revoluções sucessivas e intermináveis em termos tecnológicos. Revoluções que fazem que, em matéria de média e de informação, o mundo em que vivemos pouco tenha ainda a ver com o de há 40 anos ou o de apenas 20. Com as formidáveis implicações que tiveram na vida quotidiana de todos nós e, mais pontualmente, na maneira como passámos a poder ter acesso a uma colossal proliferação das fontes de informação. E até como pudemos, cada um de nós, deixar de ser apenas receptores e sermos também doravante emissores de informação.
E no entanto, vivemos tempos preocupantes no que diz respeito à qualidade da informação a que temos acesso, nomeadamente nos média dominantes. Porque muitos dos requisitos de base exigidos pelo jornalismo sério, “de referência”, que marcavam precisamente a diferença com práticas em que a procura da emoção predominava, entraram largamente em crise.
Dos efeitos da estratégia plurimédia
Como poderia ter sido de outro modo ? Quando a proliferação dos média provocou uma inevitável fragmentação das audiências. Quando esta redução da audiência de cada um teve como consequência natural a diminuição de toda a espécie de receitas, vindas do leitor, ouvinte, espectador ou internauta, como das empresas e instituições anunciantes ou patrocinadoras. Quando, como se estas desgraças todas não bastassem, a redefinição das estratégias publicitárias dos anunciantes os levou a afastarem-se dos “média tradicionais” (sobretudo da imprensa, mas também da rádio e da televisão). E quando, por fim, a atual profunda crise financeira e económica veio ainda acentuar a erosão das receitas destes “média tradicionais” sem todavia permitir aos “novos média” uma existência desafogada. Haja embora casos de “tradicionais” como de “novos” que se vão desenvencilhando razoavelmente bem, por vezes até mesmo muito bem.
Esta dupla mutação de fundo (proliferação dos média e erosão das receitas) produziu consequências que têm afetado profundamente a qualidade do jornalismo proposto aos cidadãos. Sobretudo no que diz respeito a essas noções fundamentais do jornalismo que são o rigor e a exigência.
Porque a multiplicação dos estações de rádio e de televisão, assim como, mais tarde, dos sítios de informação, levou os editores [1] a conceberem estratégias plurimédia, no seio do mesmo grupo como até com média de outros grupos. Fazendo assim que um mesmo jornalista tenha que assumir simultaneamente a sua produção para publicação(ões) impressa(s), rádio(s), televisão(ões) e sítio(s). Veja-se o que acontece nesta matéria com jornalistas da Cofina, da Global Média e da Impresa, por exemplo, que encontramos regularmente em diferentes média destes grupos. Embora muitos observadores avisados afirmem que se tratam de conceções diferentes de jornalismo, que supõem abordagens e tratamentos diferentes dos temas da atualidade…
Ora, a crise mais ou menos generalizada das receitas dos média teve, entre outras mais [2], uma consequência altamente significativa : a redução por vezes brutal das equipas de redação. Com inevitáveis efeitos : exigência de uma maior produção de “peças” por cada jornalista, para o seu próprio média como para os média integrados na estratégia plurimédia do editor. O que se traduz numa evidente redução do tempo consagrado a cada “peça”, à preparação, documentação prévia, verificação dos dados fatuais, multiplicação das fontes, aprofundamento do tema e, por fim, à elaboração escrita, oral ou visual da “peça”.
Das “exclusividades” às “golpadas”
Precisamente : a verificação dos dados e o aprofundamento dos temas nunca foram tão concretamente possíveis como o são hoje. Graças nomeadamente à internet e a um sem número de documentos, centros de documentação e bancos de dados interrogáveis à distância, muitas vezes sem custo e praticamente em tempo real. O que supõe no entanto disponibilidade de tempo para reunir os dados indispensáveis e poder devidamente “digeri-los” e interpretá-los, tomando o devido e indispensável recuo crítico.
Porém, a “estratégia” que leva a exigir que se produza mais em menos tempo e com menos meios humanos e materiais, aliada a outra que consiste em privilegiar a “exclusividade” e de preferência a “golpada” que fará falar dela, provoca frequentemente derrapagens. Derrapagens incalculavelmente negativas para a imagem dos média, como mostram três casos recentes no Expresso, que é no entanto uma instituição do meio jornalístico português, mais de 42 anos após o seu lançamento.
Ora, nestes últimos 20 meses, o Expresso publicou “peças” que puseram em evidência derrapagens e derivas do jornalismo contemporâneo. Primeiro, na edição de 15 de dezembro de 2012, a célebre entrevista de Artur Baptista da Silva, apresentado como especialista da ONU, encarregado pelo secretário-geral de coordenar uma equipa constituída para elaborar um relatório sobre a crise na Europa do Sul. Um “especialista”, ilustre desconhecido, que nunca sequer trabalhou na ONU. Depois, na edição de 21 de fevereiro de 2015, o texto sobre a “Portuguesa eleita vice-reitora da Universidade de Sorbonne”. Uma “vice-reitora” que nunca o foi (o que demonstraria o magazine Visão de 19 de março num texto intitulado “A reitora do faz de conta”).
Terceiro caso, num registo diferente : na edição de 22 de agosto, uma “opinião” de página inteira de Maria Filomena Mónica (em vez do quinto de página habitual), com chamada na primeira página, intitulada “Será Sócrates um mitómano ?”. Nesta “opinião”, Mónica mostra desconhecer o mundo académico francófono, as suas instituições, a sua terminologia, os seus critérios. Quando estas especificidades poderiam muito bem ter sido previamente verificadas : Institut d’études politiques e “Faculdade” ; “mémoire” e “thèse” nos sentidos francófonos destas palavras ; dissertação escrita e defesa oral no quadro de um mestrado (defesa que é bastante corrente em universidades francófonas, “perante um júri académico” precisamente). Como era igualmente verificável se Sócrates foi de facto, como diz, “o melhor aluno de Théorie Politique” (o que até é concebível da parte de um homem com a sua idade e experiência política).
Combate político e jornalismo
Da mesma maneira, qualquer pessoa que tenha frequentado o meio universitário francófono sabe que muitos professores convidam os alunos a fazerem reler os seus “mémoires” como as suas “thèses”, em termos de forma como de fundo, por conhecedores de uma ou de outro, antes de entregarem o documento final escrito (e depois há os que agradecem a quem os ajudou e os que não o fazem, e os que deixam isso escrito no “mémoire” e não na versão publicada sob a forma de livro, geralmente revista em função de critérios editoriais). Como sabe que um titular de um mestrado se pode inscrever em doutoramento, do momento em que o futuro orientador escolhido aprove previamente a proposta de “thèse” (e é Astrid von Busekist que foi professora nas universidades de Berlim, de Bruxelas e de Tel Aviv e é professora no internacionalmente prestigioso IEP-Science Po de Paris que tem que aprovar o tema, e não Mónica que acha que “a tortura em países democráticos pode ser analisada num trabalho académico : o que não pode é sê-lo assim”). Como sabe que um livro numa língua estrangeira desconhecida ou pouco conhecida pelo autor pode perfeitamente ser citado, porque utiliza dados puramente fatuais ou porque alguém o ajudou a fazer uma tradução rigorosa de uma passagem precisa. Como sabe que, nos países francófonos só o primeiro nome próprio é utilizado, o que explica que “Sócrates” seja suprimido mesmo em documentos oficiais, o que não quer dizer que “José Carvalho Pinto de Sousa” seja “o seu verdadeiro nome”, como afirma com manifesta malvadez Mónica.
Mas, para além de tudo o mais, o texto de Mónica põe uma questão de fundo : sob pretexto de “opinião”, poderá um jornal permitir-se publicar textos que não respeitam o rigor dos factos ou tomam liberdades fantasistas em relação a esses factos ? É que, para além mesmo deste texto publicado no Expresso, reina na imprensa portuguesa (ou, pelo menos, em grande parte dela) uma estranha ligeireza, para não dizer irresponsabilidade, naquilo que chamam “opinião”. Como se viu também, por exemplo, num texto de João Taborda da Gama, publicado em 9 de abril no Diário da Notícias, que fazia um ataque cerrado a António Sampaio da Nóvoa, fazendo acusações no que se refere à atitude deste nas provas de agregação do falecido J. L. Saldanha Sanches. Acusações cuja factualidade foi depois largamente posta em causa por diversas personalidades ligadas ao acontecimento.
Ora, em termos jornalísticos, os textos de “opinião” não escapam de modo algum às exigências que devem presidir à confecção de todo o conteúdo de um jornal : só a expressão de uma tomada de posição, de uma apreciação (pessoal ou coletiva) os distingue dos restantes textos. A não ser que as derivas do combate político — com as suas rivalidades, as suas rasteiras, as suas vinganças e os seus ódios, pouco respeitadoras dos mais elementares princípios éticos — se sobreponham doravante aos deveres da deontologia e da ética jornalísticas. O que não pronuncia nada de bom em matéria de informação dos cidadãos numa sociedade democrática…



[1] Editores no sentido antigo e português da palavra. Aqueles a que hoje, em português de cão e snobemente, chamam “publishers” !
[2] A propósito da situação atual da imprensa na Europa, ver J.-M. Nobre-Correia, “Presse : l’aube d’un nouveau monde”, in Politique revue de débats, Bruxelas, n° 91, setembro-outubro 2015, pp. 16-18, nas livrarias em 4 de setembro.