segunda-feira, 20 de junho de 2016

Os riscos do híper-ativismo

Política e média
J.-M. Nobre-Correia
A nova conceção da Presidência abre portas a derrapagens inquietantes…
Os cidadãos têm motivos de regozijo. A um presidente da República obtuso, cinzento e distante sucedeu outro capaz de fulgurância, entusiasmo e sociabilidade. O anterior era incapaz de se assumir como homem de Estado e ultrapassar clivagens políticas, de dar valor a quem reconhecidamente o tinha e não cair no enaltecimento de gente civicamente pouco recomendável. O atual é manifestamente mais aberto, culto e intuitivamente capaz de perceber o que é conforme a um Estado de direito democrático.
Mas os cidadãos têm também motivos para se inquietarem. Porque há no comportamento do novo presidente duas opções constantes e preocupantes. Há antes do mais um ativismo em nada comparável à atitude dos seus quatro predecessores e que dá sinais de transbordar a área habitual, constitucional, da ação presidencial. Um ativismo que o leva a imiscuir-se notoriamente na área de ação governamental. O que só tem sido possível porque o governo é levado a fechar os olhos, sabendo que precisa de um aliado em Belém para contrapor à fragilidade original de acordos parlamentares que não ousaram traduzir-se em coligação ministerial. Com uma base de apoio mais sólida, não teria o governo reagido ao singular convite a Mario Draghi para participar numa reunião do Conselho de Estado e à não menos singular visita a Berlim para conversar com a chanceler alemã sobre a  relação de Portugal com a União Europeia ?
A outra opção inquietante é a da omnipresença quotidiana nos média, com telejornais a consagrarem uma, duas, três, quatro ou mais sequências ao dia do presidente e às suas declarações a propósito de tudo e de nada. Uma omnipresença que o próprio presidente manifestamente favorece e que o serviço de comunicação de Belém indubitavelmente promove. Quando o chefe de Estado num sistema constitucional não presidencialista deve saber preservar uma certa reserva, de modo a que a sua palavra e a sua ação possam ter o devido peso quando necessárias forem.
A atual banalização dos atos e da palavra do chefe de Estado não tem comparação alguma com a dos seus congéneres (presidentes ou monarcas) nos outros países da Europa ocidental. Olhe-se em redor, digamos de há cinquenta anos para cá : nem no sistema constitucional francês, que atribui poderes mais largos ao presidente do que no português [1], os média evocam todos os dias os seus atos ou declarações. E as televisões não pensariam um só instante consagrar diariamente uma série de sequências aos factos e gestos do presidente. Nem o grande Charles de Gaulle, no tempo em que dominava soberanamente o audiovisual francês, tinha direito a tal atitude de cega reverência…
Que se trate da República francesa ou da Monarquia belga, por exemplo, o chefe de Estado só intervém nos média nas grandes ocasiões : a festa nacional e o primeiro dia do ano. Excecionalmente, por ocasião de uma grave crise governamental ou de um referendo considerado decisivo para os destinos da nação. Embora, no caso francês, tenha havido algumas entrevistas excecionais dos sucessivos presidentes da República, sobretudo em televisão, desde os tempos de Valéry Giscard d’Estaing. Como houve algumas raríssimas emissões nas televisões belgas, mais ou menos hagiográfico-laudativas, sobre o atual monarca e os seus dois predecessores [2].
Ora, o híper-ativismo nomeadamente verbal do presidente português já começou por levantar um e outro problemas que necessitaram ulteriores esclarecimentos dos serviços de Belém. Só que as derrapagens são consequência inevitável deste híper-ativismo potencialmente suscetível de provocar problemas maiores de natureza constitucional e de inconvenientes confrontos entre a presidência e o governo.
A omnipresença diária nos média é também de natureza a levar estes mesmos média a quererem saber mais sobre a “face oculta” do presidente e da presidência. A quererem ir para além da versão oficial da vida quotidiana do personagem, das suas relações familiares, sociais e afetivas, dos meandros do seu passado nomeadamente político. O que tem grandes probabilidades de lhe retirar a aura simbólica indispensável à magistratura suprema junto da opinião pública. Esvaziando desde logo muito seriamente, junto dos cidadãos, a sua capacidade de intervenção e decisão política, com autoridade e serenidade, desmonetizado que foi o seu titular ao longo dos meses por um híper-ativismo omnipresente…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


[1] O presidente da República francesa preside nomeadamente o conselho de ministros semanal e representa a França nas reuniões de chefes de Estado e de governo da União Europeia, num caso como no outro sejam quais forem as maiorias parlamentares do momento.
[2] Sobre os efeitos da mediatização da monarquia belga : J.-M. Nobre-Correia, "L'"affaire Delphine" : l'inévitable rupture", in Le Soir, Bruxelles, 25 de outubro de 1999, p. 2.


Original do texto publicado no diário Público, Lisboa, 20 de junho de 2016, p. 47.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Des révolutions dans la continuité…

J.-M. Nobre-Correia
Les mouvements qui traversent depuis quelques années le monde des médias et du journalisme ont peut-être besoin d’être situés dans une perspective historique pour pouvoir être relativisés…

Manifestement, depuis quelques longues années déjà, les médias et le journalisme traversent une zone de fortes turbulences. Ce sont tous les repères traditionnels de ces deux mondes qui se sont effondrés ou, tout au moins, ont été sérieusement ébranlés.
Dans un tel contexte, des considérations contradictoires ont surgi d’ici de là. Les unes, pessimistes, voire catastrophistes, décèlent dans la situation actuelle l’écroulement des médias d’information, et en tout cas celui de l’information de qualité, quand ce n’est pas la disparition progressive du journalisme tel qu’il a été conçu fin du XIXe siècle, début du XXe [1]. D’autres, euphoriques, voient dans la flopée de nouveautés technologiques qui la traversent l’aube d’une nouvelle ère et la naissance annoncée d’un nouveau monde, d’une nouvelle manière de vivre en société…
Pourtant, à la lumière de l’histoire des médias dits « traditionnels » (presse, radio et télévision), peut-être conviendrait-il de relativiser beaucoup des arguments péremptoires qui font florès ces temps-ci dans des conversations de café du commerce comme dans des aréopages plus savants. Notamment ceux qui établissent des comparaisons entre la qualité de l’information proposée de nos jours et celle à laquelle les citoyens avaient accès autrefois. Mais aussi ceux qui évoquent une ancienne pratique journalistique érigée en référence technique, déontologique et éthique. Alors que beaucoup de critiques qui ont cours aujourd’hui remontent parfois à la naissance de la grande presse d’information, voire à l’apparition de la presse elle-même…
Vendre du papier pour tous les goûts
Or, si l’imprimerie typographique est utilisée tout d’abord pour tirer bibles, placards, indulgences, grammaires, dès la fin du XVe siècle apparaissent des publications à caractère journalistique (ou parajournalistique) à l’occasion d’un événement important (et d’un seul) : bataille, funérailles princières, fête, vie à la cour,… dont elles font le récit. On les appelle occasionnels. Mais, un peu plus tard, on assiste aussi à la naissance des canards, adressés à un public plus populaire, qui font le récit de faits surnaturels, miracles, crimes, catastrophes naturelles et tout ce qui relève du monstrueux, du merveilleux, de l’extraordinaire, souvent illustrés et écrits dans un langage simple. C’est-à-dire : le fait divers et le sensationnel, fruits volontiers d’une imagination plus ou moins fertile. Plus tard encore, au début de XVIe siècle, paraissent les libelles axés sur la polémique religieuse, d’abord, et sur la polémique politique, ensuite. Ils sont donc axés sur l’expression d’opinions et le combat idéologique, l’agressivité et l’exaltation en étant des condiments fort prisés.
Autant dire que le souci des éditeurs-imprimeurs de « vendre du papier » remonte aux origines. Informer n’est pas nécessairement leur premier souci. Et ils ne sont d’ailleurs pas très regardants sur la qualité des contenus proposés aux lecteurs, ayant volontiers recours à l’affabulation, voire à la pure imagination, à la spéculation et à l’anathème afin de faire mousser l’intérêt du public pour les feuilles qu’on lui propose d’acheter.
À leur début, ces différents types de publications paraissent de manière ponctuelle, occasionnelle. Quand la question de la périodicité se pose, les imprimés sont d’abord annuels ou semestriels. Ces derniers apparaissent presque un siècle et demi après la découverte de l’imprimerie, et il faut attendre la fin du XVIe siècle pour les premiers mensuels. En mettant en place des courriers qui partent des villes importantes une fois par semaine, la poste favorise la création d’hebdomadaires au début de XVIIe siècle. Mais ce n’est qu’en 1650, deux siècles après la découverte de l’imprimerie typographique, que paraît le premier quotidien [2].
Du fait même de la lenteur des circuits empruntés par l’information, d’une composition manuelle et d’une impression à force de bras, le contenu des feuilles proposées aux lecteurs ne brille pas par sa fraîcheur. Le premier numéro de La Gazette, premier hebdo français lancé par Théophraste Renaudot, daté du 30 mai 1631, publie des informations en provenance de Constantinople (datant du 2 avril), « de Rome (26 avril), de Haute-Allemagne (30 avril), de Silésie (1er mai), de Venise (2 mai), de Vienne (3 mai), de Stettin (4 mai), de Prague (5 mai), de Francfort-sur-le-Main (14), d'Amsterdam (17), d'Anvers (24 mai) » [3]
Des censures à la liberté avant la massification
En outre, la presse subit les affres de la censure ecclésiastique (épiscopale ou papale) et celle du pouvoir civil (impérial, royal ou territorial). Car l’information est clairement perçue comme un outil indispensable aux gens du pouvoir pour qu’ils puissent exercer ce pouvoir. Bien souvent, les premiers périodiques sont d’ailleurs lancés à l’initiative de l’entourage même des souverains.
Il faut attendre 1695 pour que la censure soit abolie en Angleterre, la Révolution française, un siècle plus tard, imposant le principe de la liberté de la presse : « la libre communication des pensées et des opinions est un des droits les plus précieux de l’homme ; tout citoyen peut donc parler, écrire, imprimer librement sauf à répondre de l’abus de cette liberté dans les cas déterminés par la loi ». Quitte à ce que, pendant deux siècles encore, la censure sévisse ici et là sur le continent européen, pendant des durées de temps parfois très longues.
Avec l’industrialisation de la presse au XIXe siècle, les tirages augmentent et les journaux atteignent des publics beaucoup plus vastes. Les coûts de production par exemplaire diminuent considérablement et l’introduction de la publicité comme source de revenus (outre la vente) permet de baisser fortement le prix d’achat. D’où une diversification des publications proposées aux lecteurs, les faits divers faisant alors leur entrée à différents degrés dans des journaux autrefois consacrés prioritairement à l’information politique et culturelle.
Cette diversification des journaux et des contenus s’accentue jusqu’aux années 1950-60. Les quotidiens dits « populaires » deviennent largement dominants en termes de diffusion, consacrant une place parfois démesurée aux titres et aux illustrations, aux affaires de sexe et de sang, aux spectacles et aux sports, cherchant à susciter l’intérêt des lecteurs et l’acte d’achat. Alors que les quotidiens dits « de référence », plus sobres et privilégiant la politique, l’économie et la culture, doivent se contenter de diffusions plus modestes, de loin inférieures à celles des « populaires ».
Ainsi donc, l’histoire se répète à une échelle différente. On parle de quelques dizaines à quelques maigres milliers d’exemplaires du XVIe au XVIIIe siècles. Mais dans les dernières décennies du XIXe siècle, on parle déjà de centaines de milliers, voire de millions d’exemplaires dès le tournant du XIXe au XXe siècle. Et la logique financière s’impose, du fait d’équipements de plus en plus lourds et d’équipes de production de plus en plus nombreuses. Ce qui implique une guerre commerciale entre journaux en quête de lecteurs, entraînant une logique d’ « exclusivités » et une multiplication d’éditions tout au long de la journée [4]. Car il s’agit d’annoncer des « coups », devancer les concurrents et proposer l’information la plus fraîche possible, provoquant une surenchère et des dérapages célèbres, comme quand le parisien La Presse du 9 mai 1927 annonce sur cinq colonnes à la une l’arrivée des aviateurs français Charles Nungesser et François Coli à New York, où ils ont été accueillis par une foule enthousiaste, alors que leur avion s’est abîmé dans l’Atlantique !…
Le déclin de la presse et la montée des rivaux
La presse était alors un média tout puissant. Mais l’arrivée de la radio dans l’entre-deux-guerres va lui infliger des coups de boutoir, pouvant annoncer l’information plus vite qu’elle, les délais de production de la presse étant inévitablement plus longs. Dans des circonstances exceptionnelles, la radio va même couvrir l’actualité en temps réel : ce fut le cas en Belgique lors des funérailles du roi Albert 1er, le 20 février 1934.
Le déclin de presse en tant que média d’information dominant devient évident fin des années 1940, début des années 1950. Peu à peu, la radio s’impose comme un média d’information performant, suivant l’actualité tout au long de la journée. Et la télévision fait ses premiers pas, devenant le média auquel les citoyens consacrent le plus de temps libre et, dans les années 1960-70, le média d’information dominant. Parallèlement, radio et télévision vont recueillir de plus en plus de recettes publicitaires au détriment de la presse qui s’affaiblit, alors même que dans les années 1960-70 elle doit se reconvertir technologiquement dans la photocomposition et l’impression en offset.
Les années 1970-80 sont marquées par la démonopolisation du secteur audiovisuel. Grâce à la modulation de fréquence, aux réseaux câblés, aux satellites géostationnaires et aux antennes paraboliques, on assiste à une énorme prolifération de stations de radio et de télévision [5]. Ce qui a trois conséquences fort importantes : l’instauration d’un féroce régime de concurrence entre médias, l’adoption de plus en plus fréquente d’une pratique de l’information en temps réel et une énorme fragmentation des investissements publicitaires entre médias chaque jour plus nombreux.
En fait, on a joyeusement confondu prolifération des émetteurs et pluralisme, alors que la multiplication des rédactions et la baisse des recettes publicitaires entraine un effondrement des moyens humains et financiers dont ils peuvent disposer pour couvrir l’information [6]. Tandis qu’une pratique grandissante de l’information en temps réel entraine les rédactions dans des dérapages de plus en plus fréquents, faisant oublier régulièrement des principes élémentaires de la pratique journalistique.
Quand les récepteurs deviennent émetteurs
Ces tendances s’accentuent encore avec l’arrivée d’internet dans la deuxième moitié des années 1990. La prolifération des médias devient incommensurable. En outre, tout un chacun n’est plus seulement récepteur mais peut aussi devenir émetteur de messages écrits, sonores et/ou visuels. Tandis que l’aire de diffusion dépasse les frontières géographiques habituelles et s’étend désormais sur toute la planète.
Toutefois, internet offre aux annonceurs des formes d’interactivité qui facilitent grandement le contact avec les consommateurs. Dès lors, la publicité échappe progressivement aux médias classiques (presse, radio et télévision) au profit notamment des médias numériques. À ce détail près que les recettes de ceux-ci sont largement inférieures en valeur à celles des médias classiques.
Ces dernières évolutions ont des conséquences tragiques sur l’information journalistique : beaucoup de quotidiens et d’hebdos cessent de paraître ; les médias classiques, voyant leurs recettes publicitaires diminuer et leurs ventes fondre à vue d’œil, réduisent fortement leurs équipes de rédaction ; tandis que les nouveaux médias numériques disposent le plus souvent de recettes de la vente de leurs contenus très limitées (les lecteurs s’étant habitués à la gratuité de l’information), alors même que les recettes de la publicité sont fort maigres.
Autant dire que, un peu partout en Europe, il y a de plus en plus de journalistes dans des situations professionnelles précaires ou bien plus simplement au chômage. Du coup, les médias véhiculent davantage textes, sons et images proposés par des services de communication d’institutions, entreprises et individualités désireuses de les voir véhiculer des sujets qui les mettent en valeur. Une pratique développée à partir des années 1960 et fort répandue de nos jours, rappelant étrangement les contenus paraissant dans les périodiques nés au XVIIe siècle dans l’entourage des souverains…
Parallèlement se développe ce que l’on a pompeusement appelé le « journalisme citoyen ». Autrement dit : tout un chacun peut tendre compte, interpréter et prendre position face à des faits d’actualité. Et beaucoup d’éditeurs accueillent ce « journalisme citoyen », question de remplir gratuitement des pages de journal, du temps d’antenne et de l’espace des médias en ligne.
Les deux vrais changements
Au fond, les inquiétudes que l’on manifeste aujourd’hui au sujet de l’évolution du journalisme ne sont pas particulièrement originales. Insuffisances, dérapages et dérives ont marqué son histoire tout au long des cinq siècles de la presse et plus particulièrement le siècle et demi de la « grande presse ».
Les médias se trouvent à un tournant, comme chaque fois que les supports et les techniques de production ont changé : papier de tissu, caractères en plomb, presse à bras, papier de bois, presse à vapeur, composition mécanique, ondes hertziennes, photocomposition, offset, réseaux câblés, satellites géostationnaires, numérisation des signes, internet… Une suite de tournants qui ont chaque fois accéléré le processus de l’information, de la prise de connaissance d’un fait à sa communication aux citoyens. Une accélération qui conduit, le moment venu, à une pratique de plus en plus large de l’information en temps réel, qui est, par bien des côtés, la négation même du journalisme. Car le métier de journaliste consiste avant tout dans la quête de faits, situations et opinions, leur sélection et hiérarchisation selon des critères qui font la spécificité du média, leur contextualisation et interprétation, ainsi que l’éventuelle prise de position qu’ils supposent. Et tout cela en conformité avec des principes déontologiques progressivement affinés tout au long de ce dernier siècle et demi, mais aussi avec des principes éthiques qui caractérisent notre vie en société démocratique.
Pourtant, malgré dérives et dérapages, le journalisme au sens fort du terme survivra. Car les milieux dirigeants de nos sociétés auront toujours besoin d’une information de qualité (en termes de factualité et de valeur ajoutée dans l’interprétation et l’analyse) et seront toujours prêts à payer pour pouvoir y accéder. En revanche, la grande majorité des citoyens seront livrés à une information gratuite conçue dans une perspective de divertissement, de distraction : était-ce tellement différent un siècle auparavant ? En outre, cette information gratuite ou très bon marché sera largement fournie par des entreprises, institutions et hauts dirigeants, l’intervention des médias se limitant le plus souvent à des opérations purement techniques : mais ces documents prêts à publier n’ont-ils pas envahi progressivement les rédactions depuis une cinquantaine d’années ?…
Les médias d’information de qualité ont toujours été, sont et seront probablement chaque fois plus des outils destinés prioritairement aux milieux dirigeants et, au fond, cela n’a pas tellement changé tout au long de l’histoire. Un vrai changement est aujourd’hui la disparition accélérée des « éditeurs purs » en faveur de financiers et industriels peu suspects d’un amour subit pour l’activité éditoriale ou journalistique. L’autre grand changement consiste dans la possibilité que tout un chacun a désormais d’accéder à de sources d’information nombreuses et de chercher ainsi à confronter la qualité de l’information qu’on lui propose…



[1] Voir à ce propos J.-M. Nobre-Correia, « Journalisme : une certaine mort annoncée », in Politique, Bruxelles, n° 37, décembre 2004, pp. 46-49 ; ou, dans une version plus développée, « Une certaine mort annoncée… », in Communication et Langages, Paris, éd. Armand Colin, n° 147, mars 2006, pp. 15-24.
[2] On considère généralement The Daily Courant, lancé en 1702, comme le premier quotidien au monde. On sait aujourd’hui qu’il y a eu avant lui le Norwich Post, en 1701, toujours en Angleterre. Mais un demi siècle auparavant il y a eu l’Einkommende Zeitungen, en Allemagne, dès 1650.
[3] L. Trenard, "La Presse française des origines à 1788", in Cl. Bellanger et al. (dir.), Histoire générale de la presse française, vol. 1, Paris, PUF, 1969, p. 87.
[4] Fin des années 1960, le bruxellois Le Soir publiait encore sept éditions tout au long de la journée…
[5] Depuis la fin de la Seconde Guerre mondiale, radio et télévision vivaient en Europe en régime de monopole public ou du moins de monopole public pour chacune des communautés linguistiques d’un État. Curieusement, seuls les régimes autoritaires du Portugal et de l’Espagne reconnaissaient l’existence de stations publiques et de stations privées en radio. Alors que la France, en plus de la radio publique, tolérait l’existence de quatre « radios périphériques » privées émettant depuis la périphérie du territoire français : RTL (Luxembourg), RMC (Monaco), Europe 1 (Sarre) et Sud Radio (Andorre)…
[6] Voir à ce propos J.-M. Nobre-Correia, « L’aube d’un nouveau monde », in Politique, Bruxelles, n° 91, septembre-octobre 2015, pp. 16-18.





Texte publié dans Politique, revue de Débats, Bruxelles, n° 95, mai-juin 2016, pp. 22-25.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

O encanto de Trinidad

J.-M. Nobre-Correia

Uma das cidades coloniais mais bem conservadas de todo o continente americano, diz a literatura sobre Cuba…







12 de abril de 2016

segunda-feira, 25 de abril de 2016

domingo, 24 de abril de 2016

O esplendor de Havana 1

J.-M. Nobre-Correia

A magnificência de uma terra de contrastes…








5-6 de abril de 2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

Médias et terrorisme : des noces barbares

J.-M. Nobre-Correia
Voici sept ans, en avril 2009, la bruxelloise Politique revue de débats publiait ce texte dont je suis l'auteur et crois qu’il garde encore toute sa pertinence.

Tout dans l’évolution du monde du journalisme est de nature à favoriser l’attrait pour l’actualité qui concerne la violence, l’insécurité et l’intégrité physique des gens. Au risque de renforcer une logique où l’information cède le pas à la propagande et aux manœuvres de déstabilisation…

Longtemps, trois types de publications ont coexisté : celles qui faisaient le compte rendu d’événements importants, celles qui traitaient de faits divers, du mystère et du merveilleux, et celles enfin axées sur l’expression d’opinions et le combat idéologique. Puis, plus tard, et surtout à partir du XIXe siècle, quand la presse s’est industrialisée et qu’il a fallu aller à la conquête d’un public plus large, les trois démarches ont cohabité au sein des journaux « grand public ». Avant que l’opinion et le combat idéologique en soient écartés, afin de ne pas heurter des susceptibilités, et que l’on mette plus l’accent sur les sujets suscitant l’émotion, de façon à toucher les milieux populaires.
Dans une telle conception de l’information, la primauté va être accordée à ce qui se caractérise d’abord par l’« a-normalité », par le côté « extra-ordinaire », autrement dit à ce qui constitue une transgression à l’égard de la quotidienneté, une rupture par rapport au cours des choses, au détriment donc du compte rendu serein des faits signifiants qui sont advenus [1]. Une démarche de plus en plus exacerbée par la concurrence entre journaux et qui s’étendra plus tard aux autres médias.
Cette façon de concevoir la « couverture » de l’actualité n’échappera pas aux milieux dirigeants (surtout politiques) qui chercheront à l’exploiter en proposant aux médias leur pitance d’actualité originale, plus ou moins fracassante et émoustillante. Ce faisant, ces milieux dirigeants se mettront en valeur auprès de la population et chercheront à renforcer des stratégies de consolidation de leur pouvoir ou d’affaiblissement de celui de leurs rivaux.
Les exclus entrent en scène
À force de se servir ainsi des médias, les milieux dirigeants ont donné des idées à des groupes minoritaires ou exclus de nos sociétés, voire à des individus qui s’estiment marginalisés, négligés ou victimes d’injustices. À cette grande différence près : il faudra que leurs initiatives prennent un caractère singulièrement original, inhabituel, de préférence violent, choquant, dramatique [2]. Car c’est pratiquement le seul moyen pour que les médias leur prêtent une oreille attentive…
Les exemples d’événements créés à l’intention des médias sont légion : de la conférence de presse à la manifestation publique, en passant par la déclaration plus ou moins retentissante. Disposant de plus de moyens financiers et humains, les milieux dirigeants sont particulièrement performants sur ce terrain : des agences de « communication événementielle » déclenchent pour leur compte des opérations dont la capacité de mobilisation des médias dépasse largement celle des initiatives non professionnalisées de simples individus ou de petits groupes. Il faudra donc que ces derniers passent à un stade supérieur de « spectacularisation », en prenant des initiatives qui supposent une certaine dose de violence [3], la dimension « spectaculaire » ayant pris toute son importance quand la télévision est devenu le média d’information dominant.
Le plus souvent la violence a la menace pour corollaire. Menace envers soi-même : si l’on ne satisfait mes revendications, je poursuivrai ma grève de la faim, je me jetterai du haut de cette grue, je me tirerai une balle, je m’immolerai par le feu… Ou, dans un registre toujours « soft », relevant le plus souvent du « bluff », on prendra d’autres individus en otage, en les privant momentanément de liberté : si on ne répond pas de manière positive à mes demandes, je ne rendrai pas la liberté à ceux que j’ai kidnappés, j’éliminerai ceux que je détiens… De telles démarches ont le plus souvent pour origine une revendication personnelle (suite à un licenciement, à un divorce difficile,…), parfois aussi des revendications sociales, non explicitement politiques (suite à des licenciements massifs, à la fermeture d’une entreprise, à une contestation étudiante,…).
Mais le souci d’attirer l’attention des médias peut également relever d’une démarche plus explicitement politique. Une particularité semble néanmoins constante : ce sont précisément des groupes dont l’enracinement populaire fait défaut et dont les initiatives à caractère légal passent plutôt inaperçues qui ont recours à de tels procédés [4]. Leurs gestes de violence obéissent d’habitude à trois types de démarches : répandre largement leurs principes doctrinaux et leurs analyses d’une situation ; exiger une prise de position ou décision de la part des autorités ; déstabiliser et discréditer une institution ou appareil d’État. Ce qui suppose la mise en place d’un véritable « plan médias » d’accompagnement : annonce de la prise d’otage aux médias, envoi de communiqué avec les revendications des auteurs, communication de photos, d’enregistrement vidéo et plus rarement d’enregistrement de son pour confirmer la détention de l’otage et la gravité de la situation de ce dernier.
Un éventail de registres
Plusieurs exemples, plus ou moins célèbres, ont mis en évidence un crescendo dans la démarche à l’égard des médias. Ainsi, le 20 février 1981, l’ETA a enlevé les consuls d’Autriche, du Salvador et d’Uruguay pour faire bra­quer les pro­jec­teurs de l’actualité sur le Pays basque espagnol. Mais l’organisation nationa­liste a été prise à son propre piège : un nouvel événe­ment (la tenta­tive de coup d'État du 23 février à Madrid) détournera les attentions des médias et l’ETA n’a pu que re­lâ­cher ses otages.
Mais dans cette même perspective de pure d’utilisation des médias comme véhicules d’un message, les « otages idéaux » sont les journalistes, l’esprit de clan faisant attribuer à l’enlèvement d’un confrère une attention tout spéciale, voire quotidienne, avec, au besoin, l’énumération du nombre de jours de sa détention. Le cas récent de Florence Aubenas [5], et celui un peu plus ancien de Christian Chesnot [6] et Georges Malbrunot [7] ont à cet égard été particulièrement parlants.
L’assassinant de Lord Mountbatten (oncle du mari de la reine d’Angleterre et dernier vice-roi de l’Inde), le 27 août 1979, relevait d’une stratégie semblable, bien que plus tragique [8] : des respon­sables de l’IRA ont clairement déclaré alors que le choix d’une person­na­lité connue dans le monde entier avait eu pour seul but d’attirer une fois de plus l’attention des médias internatio­naux sur la situation en Irlande du Nord [9].
Dans les cas précédents, le « plan médias » a chaque fois été mis en application après le déclenchement de l’opération violente. Mais il peut, au contraire, la précéder : le 25 novembre 1999, à 10h40, au téléphone, une voix annonce au rédacteur en chef de France 3 Corse : « nous avons placé des bombes [dans quatre bâtiments publics]. Elles exploseront dans 25 minutes ». À 11h23, la déflagration a lieu dans un de ces bâtiments. Une équipe de France 3 filme la scène. « À 11h40, les deux journalistes foncent à leur station, les images en boîte. […] À 12h26, les images [d'un des bâtiments] en feu atterrissent à la rédaction de France 3 national, qui les diffuse aussitôt dans son journal, de 12-13. À 12h30, le scoop de France 3 Corse arrive dans toutes les rédactions des chaînes françaises […]. LCI passe et repasse l'explosion. TF 1 et France 2 en font de même dans leur JT de 13 h. ». Avant que les rédactions ne prennent conscience d’avoir été utilisées et ne décident de ne plus diffuser les images [10].
L’enlèvement d’Aldo Moro relève, lui, d’une démarche poussée beaucoup plus loin. Pris en otage le 16 mars 1978, le corps sans vie de l’ancien Premier ministre italien et président du principal parti politique du pays a été retrouvé le 9 mai [11]. Huit semaines de captivité pendant lesquelles les Brigades rouges ont adressé une série de communiqués aux médias, déclenchant la publication d’éditions spéciales et une violente altercation entre rédactions sur l’attitude à adopter face à de tels communiqués : les publier ou ne pas les publier ? Car, cette fois-ci, les médias ont été utilisés comme arme, comme agent de déstabilisation de la société italienne, de sa police et de ses partis politiques, comme ins­trument de dé­sagrégation de l’appareil d'État, en cherchant à le contraindre à céder aux exi­gences des Brigades rouges. Et, dans tous les cas, aux yeux de celles-ci, le refus des médias de publier leurs com­muniqués prouvait la nature censoriale d’un État faussement démocratique et libéral [12].
Concurrence et frénésie
Une constatation saute aux yeux : le plus souvent, de telles opérations n’ont été conçues qu’en fonction de la couverture que les médias leur accorderaient. Parfois même, elles n’auraient tout simplement pas été déclenchées si les médias n’avaient pas accouru à l’invitation des organisateurs qui leur avaient fait miroiter une « exclusivité ». Or, face à une telle perspective, peu de journalistes osent rejeter les invitations et se tenir à distance de telles pratiques. Car, depuis le XIXe siècle, l’histoire de l’information journalistique est marquée du sceau de la concurrence face aux « confrères ». Une concurrence qui s’est particulièrement accentuée avec la démonopolisation du secteur audiovisuel, dans les années 1970-80, et la pratique chaque fois plus importante de l’information en temps réel, qui a pris une ampleur inconnue auparavant avec l’arrivée d’internet dans le champ médiatique, dans les années 1990-2000.
Le but de ce sens effréné de la concurrence est évident : vendre un maximum d’exemplaires du journal, élargir le plus possible l’audience de la radio ou de la télévision. Or, tout ce qui est de nature à affecter notre sécurité, celle des nôtres, de ceux qui nous sont proches ou qui font partie du milieu auquel nous appartenons, constitue un des tout premiers centres d’intérêt des gens en matière d’information. Et ce qui relève de la violence publique et plus généralement du terrorisme, avec son cortège de menaces et de brutalités, constitue une actualité majeure aux yeux des médias.
Outre l’omniprésence du sens de la concurrence, une autre caractéristique domine l’histoire des médias : un obsédant sens de l’indispensable et inévitable course contre la montre chez ceux qui pratiquent le journalisme quotidien et doivent impérativement respecter des délais de « bouclage » fort stricts. Parce que les rotatives et les horaires des journaux parlés ou télévisés ne peuvent pas attendre, au risque de voir lecteurs, auditeurs ou spectateurs se tourner vers les concurrents. Ce qui provoque un stress qui grandit à l’approche du couperet horaire et impose des courses frénétiques au sein des rédactions, avec les indispensables décharges d’adrénaline qu’elles impliquent…
Ces courses frénétiques font pourtant les délices de la plupart des journalistes du quotidien, le journalisme de périodique, de « magazine », relevant à leurs yeux d’une démarche plutôt « littéraire » et « intellectualisante », même si les contraintes horaires y sont aussi présentes ! Quitte à ce que de telles cavalcades interdisent bien souvent de prendre le souhaitable recul par rapport à l’actualité et d’exercer le non moins souhaitable sens critique face aux événements.
L’instant et la mémoire
Face aux critiques de plus en plus acerbes dont ils font l’objet, les journalistes cherchent à se dédouaner en parlant de leur devoir d’informer et du droit du public à l’information. Encore faudrait-il s’entendre sur ce que veut dire information et en quoi consiste le métier de journaliste.
Certes, on ne peut pas contester le fait que les actes d’initiative personnelle ou groupusculaire qui mettent en risque la sécurité et l’intégrité physique des personnes relèvent clairement du champ d’action du journalisme, du devoir d’informer et du droit à l’information. La question qui se pose néanmoins est celle de savoir combien de ces actes sont réellement de nature à avoir des répercussions sur la vie quotidienne des citoyens ? Et celle, somme toute essentielle, de savoir si bien de ces actes ne doivent leur existence même au seul écho, à la seule surexposition que ses auteurs escomptent trouver auprès des médias ?
Beaucoup de journalistes se posent ces questions et ont conscience que ces noces barbares que les partisans de la violence comme méthode de revendication ou d’action politique sont parvenus à sceller avec les médias ne peuvent qu’être néfastes pour l’avenir des sociétés démocratiques. Et que l’importance accordée aux « stratégies de communication » des apologistes de la terreur relève, tout compte fait, d’une cécité coupable des médias. Mais le journalisme est bien trop souvent un métier de l’immédiat, de l’instant, un métier dépourvu de mémoire. Et entre une éthique de la retenue et la course aux exclusivités les plus fracassantes et vendables, les médias oublient bien trop souvent leurs beaux principes et leurs bonnes intentions…



[1] A. du Roy, Le Serment de Théophraste, Paris, Flammarion, 1992, pp. 193-194.
[2] F.-H. de Virieu, La Médiacratie, Paris, Flammarion, 1990, p. 280 ; A. du Roy, La Mort de l’information, Paris, Stock, 2007, p. 207.
[3] G. Bechelloni, « Terrorismo, giovani, mass media », in Problemi dell’informazione, Bologne, vol. 2, n° 3, 1977, p. 307 ; J. Ferniot, Ça suffit !, Paris, Grasset, 1973, p. 38 ; R. Lasserre et D. Muzet, « La Violence, moyen d’information », in Communications, Sankt Augustin, vol. 2, n° 2, 1976, p. 253.
[4] Gilles Kepel in Le Monde, Paris, 11 septembre 2004, p. IV (Dossier).
[5] À l’époque journaliste à Libération.
[6] À l’époque pigiste à Radio France et à RFI.
[7] À l’époque journaliste indépendant pour Le Figaro, Ouest-France, RTL radio et la RTBF.
[8] Louis Mountbatten et trois de ses proches ont été tués, sur les côtes d’Irlande, dans l’explosion de son bateau, piégé par l’IRA.
[9] Le Matin de Paris, Paris, 31 août 1979, p. 8.
[10] Libération, Paris, 26 novembre 1999, p. 2.
[11] M. Wieviorka et D. Volton, Terrorisme à la une, Paris, Seuil, 1987, pp. 27-32.
[12] U. Eco, « Una colossale conferenza stampa », in Prima Comunicazione, Milan, n° 55, 1978, pp. 41-46 ; G. Bechelloni, « Il Colpe di Stato in diretta », in Problemi della’informazione, Bologne, vol. 3, n° 1, 1978, pp. 3-19.



Texte publié dans Politique revue de débats, Bruxelles, n° 59, avril 2009, pp. 33-35.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Estas interpelantes apatias

J.-M. Nobre-Correia
Média : A imprensa em Portugal tem uma história dolorosa que explica o seu fraco desenvolvimento. Mas há também vários corresponsáveis da situação atual estranhamente instalados numa inquietante indiferença…

É fácil identificar algumas das causas do fraco desenvolvimento da imprensa em Portugal [1]. Começando pelas razões históricas, a primeira das quais é a pertença do país à Europa católica. Porque, um século depois da “descoberta” da prensa tipográfica (em 1440-50), a Reforma protestante e a Contra-Reforma católica adotam posições opostas no que diz respeito à leitura. No mundo protestante, o “povo de Deus” tem por obrigação ler a Bíblia e os textos sagrados : a alfabetização é fomentada e os indivíduos passam naturalmente à leitura de outros textos. No mundo católico, pelo contrário, o clérigo é o intermediário entre Deus e o “povo de Deus” : só ele tem necessidade de saber ler para aceder aos textos religiosos que são explicados ao “povo de Deus”. A imprensa vai pois desenvolver-se antes do mais na Europa protestante. Até porque, se em fins do século XVII encontramos na Alemanha populações já globalmente alfabetizadas, na Europa do sul, católica, um analfabetismo importante perdurará três séculos depois : no caso português a taxa de analfabetismo é de 25,7 % em 1970 e ainda de 5,2 % segundo o censo de 2011.
Como se esta “deficiência original” não bastasse, a imprensa em Portugal conheceu longos períodos de censura severa que a descredibilizaram e que em nada ajudaram ao aparecimento de um jornalismo de qualidade em termos de rigor dos factos, agudeza da interpretação e excelência da análise da atualidade. E se o 25 de Abril de 1974 lhe permitiu (re)descobrir a liberdade de informar, o radicalismo das opções político-económicas e socioculturais em que Portugal viveu então deixaram claramente marcas tenazes pouco gloriosas na prática jornalística atual. Só que, aquando da (re)descoberta desta liberdade pela imprensa, a televisão invadia os lares e impunha-se progressivamente como média de informação dominante. Pelo que a imprensa entrou numa fase de acentuada erosão : hoje em Portugal publicam-se bastante menos diários impressos do que no tempo do salazarismo e vendem-se provavelmente muito menos exemplares de jornais diários do que antes do 25 de Abril [2].
Há porém duas fraquezas no atual panorama da imprensa diária portuguesa dificilmente compreensíveis. A primeira é a que diz respeito à manifesta inércia dos editores, incapazes de tirarem proveito da revolução tecnológica em curso de há dois decénios a esta parte. Não adotando rapidamente as iniciativas indispensáveis a uma mais acelerada passagem do papel impresso para a informação em linha. Não criando edições regionais em linha dos seus jornais, de modo a sair de uma informação “guetizada” e largamente centrada sobre a “grande Lisboa”. Não concebendo os seus jornais numa perspetiva global, dirigindo-os aos leitores em língua portuguesa onde quer que eles vivam no mundo, propondo-lhes nomeadamente uma perspetiva europeia da atualidade. Quando, sem um alargamento considerável das audiências atuais, não poderão haver receitas de vendas e de inserções publicitárias suficientemente importantes para cobrir os custos de produção.
Mas há outra incógnita ainda maior : a da quase total letargia do meio profissional jornalístico. Como é possível que num meio onde passaram a predominar os licenciados e mestres em “jornalismo” ou em “comunicação” de escolas superiores (seja qual for a apreciação que se possa fazer sobre o ensino que nelas é dispensado…) mas também os desempregados, não surjam iniciativas em matéria de diários digitais em linha ? Como explicar que tenham sido tomadas imensas iniciativas deste género em Espanha e em França, para falar apenas nos países mais próximos, e que Portugal continue a caracterizar-se por uma situação muito próxima do deserto ? Será necessário lembrar a estes jornalistas afastados da atividade profissional que os custos de lançamento e de manutenção de tais iniciativas são sem comparação com os de um diário impresso ?
É verdade que o Estado português não tem assumido as suas responsabilidades em matéria de favorecimento do pluralismo da informação. E que os meios políticos, económicos, sociais e culturais parecem secretamente sonhar com uma sociedade democrática de fachada onde todo e qualquer controle seja reduzido a pura expressão formal. Quando, como a História mostra suficientemente, a dinâmica de uma sociedade está diretamente ligada à da sua informação pluralista. O que supõe, é verdade, jornalistas conscientes da função social que é a sua e decididos a assumi-la, tomando o seu destino em mãos…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « Uma urgência demasiado esquecida », in Público, Lisboa, 2 de março de 2016, p. 43.
[2] Uma das enormes carências da historiografia portuguesa é a da total ausência de dados factuais fiáveis sobre as vendas dos diários e semanários nos tempos do salazarismo.


Original do texto publicado no diário Público, Lisboa, 21 de março de 2016, p. 45.