terça-feira, 30 de agosto de 2016

A informação a que temos direito...

J.-M. Nobre-Correia
Média : De uma falsa notícia mais um desmentido resultam duas notícias, dizia o diretor do maior diário francês do após Segunda Guerra Mundial. É preciso vender audiência e não credibilidade ! E estamos cada vez mais assim…

A crise do jornalismo português é manifesta. E sucedem-se os sinais de uma grave crise no que diz respeito à credibilidade da informação proposta aos leitores, ouvintes ou espectadores. É a entrevista do líder da oposição que é corrigida duas semanas depois pelo jornal que a publicou. É o desmentido das declarações que teriam sido feitas pelo antigo presidente da República em reunião do Conselho de Estado. E é agora, ao nível do “fait divers”, as sucessivas morte, morte cerebral apenas, situação médica muito grave e morte finalmente de um jovem !…
Para quem observa o mundo dos média e da informação, a constatação é clara : o jornalismo português vive largamente à base de comunicados que emanam de meios “produtores de informação”. Mas também de confidências segredadas generosamente nos ouvidos de jornalistas privilegiados. O que, em si, não são dois males a rejeitar absolutamente. Só que os comunicados são sempre concebidos de modo a propor uma imagem positiva de quem os elaborou. E as confidências têm quase sempre por função denegrir um concorrente da fonte ou pôr esta em evidente valor nos média.
Tais comunicados e confidências deveriam pois limitar-se a constituir simples alertas para as redações ou para um ou outro jornalista em particular. A partir daí, deveria absolutamente começar um trabalho de verificação dos elementos que lhes foram avançados. Verificar antes do mais a factualidade, a exatidão desses elementos. Procurar outras fontes de informação, atores, testemunhas ou conhecedores dos acontecimentos, pessoas concernidas pelos acontecimentos ou conhecedoras do contexto em que se desenrolaram estes acontecimentos. O que supõe falar com diversas pessoas, confrontar dados, documentar-se devidamente. Ora, manifestamente, estes trâmites essenciais deixaram a maior parte das vezes de ser realizados.
Médias e jornalistas baseiam-se assim cada vez mais exclusivamente nos comunicados (escritos, sonoros ou vídeo) da polícia, dos bombeiros, dos partidos, dos sindicatos, das empresas, das instituições, dos bancos, dos clubes desportivos, dos organizadores de manifestações culturais,… Sem verificarem os dados que figuram nesses comunicados. Sem procurar ir mais longe e enriquecer a informação com outros dados factuais e interpretativos originais que possam constituir uma mais valia.
As redações dos média portugueses (como aliás a maioria das redações no estrangeiro) dispõem de cada vez menos recursos financeiros e humanos. O que favorece um certo imobilismo, uma certa inatividade. Vai-se cada vez menos para o terreno em procura de novos elementos de informação. Procura-se cada vez menos encontrar diversas pessoas e multiplicar possíveis fontes de informação. Recorre-se cada vez menos a correspondentes locais e/ou especializados, que deixaram largamente de existir.
No caso português, acrescente-se a estes elementos de base insatisfatórios, uma forte relação de proximidade entre o pequeno meio jornalístico nacional e o dos “produtores de informação”. Quando o meio mediático é ele mesmo muito circunscrito, sendo a verdadeira concorrência manifestamente limitada e o autêntico pluralismo francamente reduzido. E quando até, no fim de contas, os profissionais destes meios fazem largamente parte de um microcosmos bastante incestuoso, frequentador dos mesmos bares ou restaurantes, dos mesmos espaços de lazer, dos mesmos amigos(as), companheiros(as) e namorados(as)…
A crise do jornalismo português é manifesta. E nada deixa prever que a situação venha a melhorar. Antes pelo contrário : teremos cada vez mais direito a uma informação instrumentalizada, caraterizada pela cruel falta de rigor dos factos e pela não menos cruel carência de valor acrescentado da interpretação. Até porque, no fim de contas, a ausência de uma informação de qualidade convém bastante bem aos meios dirigentes políticos e económicos do país…

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

O outro pilar da repressão

J.-M. Nobre-Correia *

Como a Pide, a Censura zelava pela imagem do salazarismo e pelo cariz ordeiro dos portugueses …

Há ideias de livros interessantes. E há ideias de reedições que também o são. Só que, depois, lido o livro, descobrem-se lados insatisfatórios da primeira edição. Como se constatam aspetos muitos criticáveis da reedição…
Vir a lume em 1979 com um livro sobre a censura era uma ideia interessante e até mesmo essencial. Tanto mais quanto é certo que o dito livro era largamente constituído pela retranscrição de “telegramas telefonados da Comissão de Exame Prévio do Porto” (selecionados entre 5/1/1967 e 24/4/1974) e de “circulares dos Correios e Telecomunicações de Portugal sobre livros e revistas proibidos de circular”. E nada melhor para pôr em evidência o lado autoritário, inacreditável e por vezes até ridículo das decisões que provocavam um verdadeiro sufocamento da prática jornalística durante o salazarismo.
Quase quarenta anos depois, reeditar Os Segredos da Censura está longe de ser desprovido de pertinência. Dizem-se e escrevem-se por aí tantas barbaridades sobre o que foi o Portugal salazarista e sobre a jornalismo praticado então, que nunca é demais lembrar o que foi um país e um jornalismo privados de liberdade. Não impede que se tenham de lamentar diversos lados perfeitamente insuficientes da edição original e ainda mais desta segunda edição.
Primeiro que tudo há que lamentar a quase total ausência de explicitações sobre os acontecimentos a que fazem referência as decisões da Censura (com oito brevíssimas exceções em rodapé a propósito dos “telegramas” e nenhuma sobre as “circulares”). Quando, 42 anos depois, boa parte da população portuguesa usufrui o privilégio de não ter vivido sob o salazarismo, era absolutamente indispensável indicar os acontecimentos a que se referiam os “telegramas” ou as “circulares” e contextualizá-los de modo a que os leitores pudessem compreender o sentido real da intervenção da Censura.
Por outro lado, é lamentável que erros que figuram na primeira edição não tenham sido corrigidos na reedição, 37 anos depois. Como por exemplo : não escrever que “Domenach” (sem nome próprio) foi “o fundador-director da revista católica Esprit” (p. 16), quando Jean-Marie Domenach tinha dez anos quando a revista Esprit foi lançada por Emmanuel Mounier. Ou fazer referência a “Jaques Schreiber, director de L’Express” (p. 20), quando o fundador do magazine se chamava Jean-Jacques Servan-Schreiber.
A estas insuficiências vem juntar-se uma “introdução” de César Príncipe que peca por um tom ostensivamente ideológico e militante, onde não faltam o “grande capital”, a “luta de classes” e as “mafias patronais” (p. 23). Sem uma real preocupação histórica, sociológica e política, de simples jornalismo de qualidade, para pôr em evidência os grandes princípios de ação da Censura (apesar das breves linhas da p. 24). E, por conseguinte, sem explicitar o modelo de sociedade que a Censura queria propor aos leitores. E não é o prefácio de quatro páginas de Francisco Duarte Mangas, que constitui a única novidade desta reedição, que acrescenta o que quer que seja nessa perspetiva.
Vale a pena, no entanto, ler os “telegramas” e as “circulares” transcritas em Os Segredos da Censura. E ver como a Censura tinha antes do mais como preocupação que os média (e mais concretamente os jornais) propusessem do país a imagem de uma sociedade onde reinava a serenidade. Onde “nem uma agulha bulia na quieta melancolia” do regime salazarista. Onde não havia oposições, nem manifestações, nem contestações, nem greves, nem presos políticos, nem guerra nas colónias, nem mesmo demissões no interior das estruturas do regime, nem sequer acidentes ou mortes com pessoas ligadas ao regime : a nave do salazarismo deslizava serenamente, em águas tranquilas, em “defesa de interesses superiores da Nação” (Salazar dixit) !…


César Príncipe
Os SEGREDOS DA CENSURA
Edições Afrontamento, 140 pp, 12,00 euros


* Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles



Texto publicado no quinzenário JL Jornal de Letras, Lisboa, 17 de agosto de 2016, pp. 26-27.

sábado, 30 de julho de 2016

Esta cruel valsa fúnebre...

J.-M. Nobre-Correia
Média : Uma ininterrupta sucessão de demissões e nomeações nas direções de importantes jornais de informação (impressos, radiofónicos, televisivos e digitais) deixa recear mais um acelerar da crise do que a sua ultrapassagem…

Para quem viveu quase toda a vida de adulto no estrangeiro e frequentou logo de início os média do país de residência como dos países limítrofes, Portugal constitui um caso espantoso. Um caso cuja especificidade é nomeadamente ilustrada pela “valsa” atual nas direções de diversos média. “Valsa” cujos primeiros passos começaram a ser dados há meses atrás e dizem respeito à maioria dos diários, dos semanários, dos radiojornais e dos telejornais que contam.
A primeira caraterística que espanta nesta “valsa” é o facto de se tratar largamente de permutas entre membros de um pequeno microcosmos. Entre gente que se conhece, que se frequenta, que muitas vezes mantem relações de amizade …que não impedem um omnipresente e acutilante sentimento de rivalidade. Neste microcosmos, quem chegou a um lugar de direção tem grandes probabilidades de vir a ocupar sucessivamente outros lugares de direção noutros média. Sem que haja pois um verdadeiro afluxo de sangue novo, de oxigénio, capaz de favorecer o aparecimento de uma prática jornalística nova adequada aos tempos que correm …de que este país tanta necessidade tem.
Outra particularidade posta em evidência, mais noutras ocasiões do que propriamente agora, é a que consiste em transferências dificilmente concebíveis (embora não totalmente impossíveis nalguns casos) para além da fronteira luso-espanhola. De um média popular para outro de referência, de um desportivo para um generalista, de um diário para um semanário jornal ou magazine, de um jornal impresso para um radiojornal, telejornal ou jornal digital. E vice versa. Quando cada um destes média supõe práticas de jornalismo bastante diferentes e recurso a meios técnicos de “escrita” e de edição próprios, assim como a suportes de difusão totalmente distintos.
Terceiro aspeto igualmente surpreendente é o que leva os proprietários dos média a escolheram indiferentemente como diretores gente cuja consistência intelectual, cultural e política (no melhor sentido da palavra) nem sempre é adequada àquilo que, em princípio, constitui a identidade do média. Casos há em que a clivagem é mesmo por demais evidente, brutal. Mas este aspeto constitui precisamente um dos dramas dos média portugueses e sobretudo, é claro, das publicações impressas diárias ou semanais : alguém poderá afirmar claramente qual é a identidade sociocultural de cada uma das principais publicações de informação geral deste país (Correio da Manhã excluído, …et pour cause) ?
Em boa verdade, as oscilações de estilo jornalístico e de orientação político-cultural, e a consequente flacidez das “colunas vertebrais” identitárias, têm sido uma constante de praticamente todos os jornais impressos em 42 anos de democracia. Com o que isso significa de roturas sucessivas no contrato de leitura que tinham implicitamente estabelecido com os seus “leitorados” e as inevitáveis perdas de vendas em vagas sucessivas cada vez mais aceleradas. E, à primeira vista e na maioria dos casos, as mudanças atuais não parecem poder evitar o suicídio a que gestões muitas vezes incompetentes e proprietários maioritariamente ainda mais incompetentes têm condenado os média portugueses. No país da União Europeia que conta menos diários impressos e a mais baixa taxa de leitura de jornais. E num país em que, tudo leva a crer, a credibilidade dos média anda cada vez mais preocupantemente de rastos…

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais frequentados no dia-a-dia, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares assíduos, relacionamento fácil, sociabilidade mais concreta, baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se discorra repetidamente sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva em situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de inverter a acentuada tendência para o despovoamento.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que tudo o que faz largamente falta “no interior” virá necessariamente por acréscimo desse desenvolvimento. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem a situação como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos “do interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos profissionais de saúde a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte, na melhor das hipóteses, de uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa sobretudo em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja possível adquirir publicações que não façam parte do consumo mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora dos propostos como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se no Portugal da tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…

Original do texto publicado no diário Jornal de Notícias, Porto, 4 de julho de 2016, p. 34
•••••
Publica-se em seguida a primeira versão do texto que, por razões editoriais, teve que ser reduzida pelo autor de 4 780 para 4 404 carateres :

Insuficiências muito incapacitantes

J.-M. Nobre-Correia
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles

Quando a apregoada “qualidade de vida” é de facto de “baixa densidade”…

Andam por aí umas teorias todas modernaças que afirmam que é “no interior” que, em Portugal, há de facto “qualidade de vida”. E, com esta noção, os seus apregoadores entendem qualidade do ar que se respira, proximidade dos locais entre os quais é partilhada a vida diária, menor tensão no ritmo de vida, contactos familiares mais frequentes, relacionamento humano mais fácil, sociabilidade mais concretamente viável, mais baixo custo de vida,… Uma série de frases feitas que, porém, nem sempre correspondem à realidade.
Não impede que em congressos, colóquios e demais conferências se use interminavelmente da palavra sobre esta “qualidade de vida”, considerando os oradores quase unânimes que só o fraco desenvolvimento económico impede que se viva numa situação quase ideal. Embora alguns, um pouco mais lúcidos, acrescentem também a falta de natalidade capaz de assegurar o futuro demográfico e até, melhor ainda, de provocar uma inversão na tendência permanente para o despovoamento desde há largos decénios.
Só que estes arautos da “qualidade de vida” em regiões “de baixa densidade” não parecem dar-se conta que nem só de desenvolvimento económico vivem os cidadãos. E nem que todo o resto, tudo o que faz largamente falta “no interior”, virá necessariamente por acréscimo desse tal desenvolvimento económico. Porque há condições de base de que o Portugal “do interior” continua tragicamente desprovido e que manifestamente pouco interessam autarcas e demais responsáveis. O que leva os que lá sempre viveram a sonharem com uma futura instalação possível no Centro-Norte Litoral. E os que lá se instalaram por razões de ordem profissional a considerem esta situação pessoal como provisória.
Este desapego endémico que mina o Portugal “do interior” tem sobretudo como origem a falta de centros hospitalares performantes, de estabelecimentos de ensino de alto nível e de infraestruturas culturais com ofertas de qualidade. Em matéria de medicina, os cidadãos residentes “no interior” estão largamente dependentes dos numerosos centros hospitalares públicos e das numerosíssimas clínicas privadas do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Pela simples razão que, “no interior”, os hospitais públicos ou das Misericórdias, assim como as consultas privadas, não se encontram em condições de propor a normal e indispensável variedade de especialidades, equipamentos e profissionais de saúde. Deixando mesmo em muitos casos o sentimento que só a impossibilidade de singrar nas “grandes capitais” levaram boa parte dos escassos profissionais de saúde a serem levados a instalar-se “no interior”.
Na educação, é também por demais evidente que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se situam largamente no Centro-Norte Litoral. Que fora deles, o ensino superior “do interior” é geralmente considerado como fazendo parte de, na melhor das hipóteses, uma “segunda divisão”. E um número sensível de docentes que ensinam nestes estabelecimentos, verdadeiros “académicos TGV”, residem nos grandes centros do Centro-Norte Litoral e dignam deslocar-se apenas um ou dois dias por semana à localidade que lhes permite todavia ganhar a vida.
Um pouco com a exceção do Porto, é verdade que a vida cultural em Portugal se passa largamente em Lisboa. Que o resto do país tem, na melhor das hipóteses, direito a uma vida cultural assumida antes do mais por atores de segunda ou de terceira importância. Tanto mais que, “no interior”, cidades há onde as salas de cinema, teatro ou concerto são inexistentes. Onde não há uma livraria ou loja de jornais onde seja realmente possível adquirir livros e publicações que não façam parte do consumo corrente mais ou menos “popularucho”. E onde se possam comprar CD ou DVD, fora daqueles propostos por vezes como “complementos” de jornais ou magazines…
Desde logo, como conseguir atrair gente para “o interior” e convencê-la a instalar-se duradoiramente, definitivamente, se neste Portugal a que atribuem essa tal “qualidade de vida” esta é manifestamente de “baixa densidade” em termos médicos, académicos e culturais ? Ainda se autarcas e demais responsáveis pelas regiões “do interior” tivessem realmente consciência disso e procurassem seriamente colmatar estas grandes deficiências !…
Ora, proliferam em Lisboa as instituições públicas ligadas à saúde, ao ensino e à cultura. Uma proliferação megalómana, megalocéfala, que cria sérias dificuldades de coordenação e gestão, e não menos sérios problemas de custos. Os mais elementares princípios de uma democracia equitativa e eficiente não deveriam aconselhar a transferir as instituições em demasia para “o interior” ? Decisões deste tipo foram tomadas noutros países europeus : por que não em Portugal ? Isso até ajudaria Lisboa a aliviar-se de um preocupante congestionamento…

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Os riscos do híper-ativismo

Política e média
J.-M. Nobre-Correia
A nova conceção da Presidência abre portas a derrapagens inquietantes…
Os cidadãos têm motivos de regozijo. A um presidente da República obtuso, cinzento e distante sucedeu outro capaz de fulgurância, entusiasmo e sociabilidade. O anterior era incapaz de se assumir como homem de Estado e ultrapassar clivagens políticas, de dar valor a quem reconhecidamente o tinha e não cair no enaltecimento de gente civicamente pouco recomendável. O atual é manifestamente mais aberto, culto e intuitivamente capaz de perceber o que é conforme a um Estado de direito democrático.
Mas os cidadãos têm também motivos para se inquietarem. Porque há no comportamento do novo presidente duas opções constantes e preocupantes. Há antes do mais um ativismo em nada comparável à atitude dos seus quatro predecessores e que dá sinais de transbordar a área habitual, constitucional, da ação presidencial. Um ativismo que o leva a imiscuir-se notoriamente na área de ação governamental. O que só tem sido possível porque o governo é levado a fechar os olhos, sabendo que precisa de um aliado em Belém para contrapor à fragilidade original de acordos parlamentares que não ousaram traduzir-se em coligação ministerial. Com uma base de apoio mais sólida, não teria o governo reagido ao singular convite a Mario Draghi para participar numa reunião do Conselho de Estado e à não menos singular visita a Berlim para conversar com a chanceler alemã sobre a  relação de Portugal com a União Europeia ?
A outra opção inquietante é a da omnipresença quotidiana nos média, com telejornais a consagrarem uma, duas, três, quatro ou mais sequências ao dia do presidente e às suas declarações a propósito de tudo e de nada. Uma omnipresença que o próprio presidente manifestamente favorece e que o serviço de comunicação de Belém indubitavelmente promove. Quando o chefe de Estado num sistema constitucional não presidencialista deve saber preservar uma certa reserva, de modo a que a sua palavra e a sua ação possam ter o devido peso quando necessárias forem.
A atual banalização dos atos e da palavra do chefe de Estado não tem comparação alguma com a dos seus congéneres (presidentes ou monarcas) nos outros países da Europa ocidental. Olhe-se em redor, digamos de há cinquenta anos para cá : nem no sistema constitucional francês, que atribui poderes mais largos ao presidente do que no português [1], os média evocam todos os dias os seus atos ou declarações. E as televisões não pensariam um só instante consagrar diariamente uma série de sequências aos factos e gestos do presidente. Nem o grande Charles de Gaulle, no tempo em que dominava soberanamente o audiovisual francês, tinha direito a tal atitude de cega reverência…
Que se trate da República francesa ou da Monarquia belga, por exemplo, o chefe de Estado só intervém nos média nas grandes ocasiões : a festa nacional e o primeiro dia do ano. Excecionalmente, por ocasião de uma grave crise governamental ou de um referendo considerado decisivo para os destinos da nação. Embora, no caso francês, tenha havido algumas entrevistas excecionais dos sucessivos presidentes da República, sobretudo em televisão, desde os tempos de Valéry Giscard d’Estaing. Como houve algumas raríssimas emissões nas televisões belgas, mais ou menos hagiográfico-laudativas, sobre o atual monarca e os seus dois predecessores [2].
Ora, o híper-ativismo nomeadamente verbal do presidente português já começou por levantar um e outro problemas que necessitaram ulteriores esclarecimentos dos serviços de Belém. Só que as derrapagens são consequência inevitável deste híper-ativismo potencialmente suscetível de provocar problemas maiores de natureza constitucional e de inconvenientes confrontos entre a presidência e o governo.
A omnipresença diária nos média é também de natureza a levar estes mesmos média a quererem saber mais sobre a “face oculta” do presidente e da presidência. A quererem ir para além da versão oficial da vida quotidiana do personagem, das suas relações familiares, sociais e afetivas, dos meandros do seu passado nomeadamente político. O que tem grandes probabilidades de lhe retirar a aura simbólica indispensável à magistratura suprema junto da opinião pública. Esvaziando desde logo muito seriamente, junto dos cidadãos, a sua capacidade de intervenção e decisão política, com autoridade e serenidade, desmonetizado que foi o seu titular ao longo dos meses por um híper-ativismo omnipresente…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles


[1] O presidente da República francesa preside nomeadamente o conselho de ministros semanal e representa a França nas reuniões de chefes de Estado e de governo da União Europeia, num caso como no outro sejam quais forem as maiorias parlamentares do momento.
[2] Sobre os efeitos da mediatização da monarquia belga : J.-M. Nobre-Correia, "L'"affaire Delphine" : l'inévitable rupture", in Le Soir, Bruxelles, 25 de outubro de 1999, p. 2.


Original do texto publicado no diário Público, Lisboa, 20 de junho de 2016, p. 47.