J.-M. Nobre-Correia
Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, a
presença de interesses estrangeiros nos média é inquietante
Decididamente,
a indiferença dos meios dirigentes políticos, económicos, sociais e culturais
ao que se passa nos média portugueses é absolutamente espantosa ! Talvez até nem
possa ser comparada à de idênticos meios dirigentes de outros países europeus.
E, no entanto, a situação tem progressivamente vindo a tornar-se preocupante,
altamente preocupante…
Foram primeiro espanhóis, foram depois
angolanos, são agora chineses. Só que no que diz respeito aos primeiros,
trata-se de gente vinda de um país democrático e membro da União Europeia.
Embora, historicamente, as ambições latentes no subconsciente de grande parte
dos nossos vizinhos não seja propriamente pacifica no que diz respeito a
Portugal.
Quanto aos angolanos e aos chineses, já a
questão se formula em termos totalmente diferentes. Trata-se, num caso como no
outro, de gente vinda de sociedades ditatoriais em que só quem faz parte das
nomenclaturas cleptómanas dominantes dispõe de meios financeiros para investir
no estrangeiro. E não é graças ao dinheiro a rodos que ela passou a integrar os
valores mais elementares de uma sociedade democrática. E que integrou noções essenciais
de pluralismo e de tolerância.
A capacidade de aceitação destas noções
essenciais é ainda menos evidente no que diz respeito aos média. E é mesmo largamente,
senão totalmente inexistente no campo da informação. Atitude que globalmente
até partilharão espanhóis, angolanos e chineses quando se trata de informação
referente à política interna dos seus países de origem, às opções políticas dos
seus governos, às caraterísticas dominantes dos seus meios económicos, à
política externa dos seus países. Com uma certa subtileza e flexibilidade no
que diz respeito a espanhóis. Com uma evidente rudeza e intransigência no que
se refere a angolanos ou a chineses.
Com gloriosas exceções cada vez mais diminutas,
os portugueses estão pois progressivamente confrontados a uma informação
largamente dominada por interesses estrangeiros. Uma informação que não pode de
maneira alguma escapar a empenhos considerados vitais pelos meios dominantes na
democrática vizinha Espanha. E a empenhos que as clepto-nomenclaturas dos
partidos únicos angolano ou chinês têm demasiado tendência a estender às raias
de um horizonte obscurantista.
Perante uma situação que assume traços
cada vez mais sombrios, a total ausência de reação dos meios dirigentes
políticos, económicos, sociais e culturais portugueses é absolutamente
inquietante. O sociólogo estado-unidense Herbert Schiller (1919-2000) advertiu
há largos anos : “uma nação cujos média são dominados pelo estrangeiro não é
uma nação”. Excelente e arrepiante reflexão a submeter à consideração dos
apáticos meios dirigentes do país. A supor que eles tenham consciência da
situação de uma informação já largamente dominada por semanários, diários,
rádios e televisões cujos donos são empresas ou cidadãos estrangeiros. E
consciência do horizonte tragicamente sombrio que este controle dos média
grande público deixa antever…
Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 24 de setembro de 2016, p. 35.