domingo, 16 de outubro de 2016

Da quieta melancolia à morte lenta…

J.-M. Nobre-Correia

A informação geral impressa vai pouco a pouco definhando. Perante a indiferença do mundo político…

Na outrora chamada Europa ocidental, Portugal é o país onde se leem menos jornais. E onde são publicados menos jornais diários, tendo em conta a superfície e a demografia do país. O pós-25 de Abril fez desaparecer a maioria dos diários de informação geral ditos “nacionais” de Lisboa e do Porto. Mas a crise da imprensa em Portugal é manifestamente grave desde há decénios. Nela se conjugaram erosão consequência da proliferação de rádios, televisões e média em linha com o velho descrédito da informação jornalística e a tradicional iliteracia. Veio depois juntar-se-lhes a mais recente crise dos investimentos publicitários e do poder de compra dos cidadãos, dando uma machadada abaladora ao sector.
Porém, parlamentos e governos sucessivos têm preferido ignorar tal situação. Até porque desde que os média escaparam à alçada do Estado, o mundo político prefere não afrontá-los, essenciais que são para proporem aos cidadãos uma imagem indispensável em democracia eletiva. Mas também por manifesto desinteresse do mundo político pelo bom funcionamento da democracia representativa, para a qual a qualidade da informação é todavia um elemento contributivo essencial.
Nestes novos tempos de maioria parlamentar das esquerdas, esperava-se que parlamento e governo tomassem iniciativas determinantes na matéria. Um ano depois, nem uma agulha buliu na quieta melancolia do sector !…


 Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 16 de outubro de 2016.

sábado, 15 de outubro de 2016

Por uma verdadeira autoridade

J.-M. Nobre-Correia

Da necessidade de uma reformulação da ERC no que se refere aos seus membros e às suas competências…

O mandato dos atuais membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) chega ao fim. E a Assembleia da República vai ter que proceder à eleição de quatro dos cinco membros, sendo o quinto designado por cooptação.
O balanço de cinco anos de atividade do atual Conselho Regulador é manifestamente insatisfatório. Até porque esteve demasiado ausente, inerte, silencioso, em situações mediática e jornalisticamente criticáveis e até mesmo intoleráveis. Pelo que conviria que a nova maioria parlamentar tome a iniciativa de eleger novos membros notoriamente competentes e com a coragem indispensável para tomar decisões que se impõem.
Porém, antes desta eleição, há que lamentar que a nova maioria parlamentar não tenha tomado a iniciativa de reformular e reforçar as competências de uma nova ERC. Até porque há uma necessidade urgente de pôr cobro à desregulação das estruturas e da propriedade do sector mediático. E regulamentar de modo a favorecer um verdadeiro pluralismo em matéria de conteúdos e de informação…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 15 de outubro de 2016.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Outra abordagem da atualidade


J.-M. Nobre-Correia


Para que novos tempos políticos e sociais sejam viáveis, é essencial uma nova conceção da informação

Nenhum poder político pode realizar obra duradoira sem média de informação que lhe sejam globalmente favoráveis. E as probabilidades serão ainda mais escassas se o sistema mediático lhe for notoriamente hostil. O que é o caso quando o poder político se quer norteado por princípios de justiça social e os média são largamente orientados por uma ideologia conservadora pretensamente neoliberal…
Não quer isto dizer que um poder político progressista precise de uma informação “oficiosa” e muito menos às ordens ! Mas os cidadãos têm que dispor de uma informação realmente pluralista, concebida de modo diferente do que era habitual. Fruto de uma seleção judiciosa de factos socialmente significativos que ocorreram. De uma hierarquização que dê prioridade à incidência desses factos sobre a vida quotidiana dos cidadãos. De uma tratamento jornalístico capaz de factualidade, perspetivação e interpretação de qualidade dos acontecimentos.
Ora, em Portugal, os média dominantes propõem-nos sobretudo futilidade e mediocridade. Há pois que conceber novas iniciativas e novos modos de proceder, para que os novos tempos políticos e sociais sejam realmente viáveis…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 14 de outubro de 2016.

sábado, 24 de setembro de 2016

A perda de autonomia anunciada…

J.-M. Nobre-Correia

Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, a presença de interesses estrangeiros nos média é inquietante

Decididamente, a indiferença dos meios dirigentes políticos, económicos, sociais e culturais ao que se passa nos média portugueses é absolutamente espantosa ! Talvez até nem possa ser comparada à de idênticos meios dirigentes de outros países europeus. E, no entanto, a situação tem progressivamente vindo a tornar-se preocupante, altamente preocupante…
Foram primeiro espanhóis, foram depois angolanos, são agora chineses. Só que no que diz respeito aos primeiros, trata-se de gente vinda de um país democrático e membro da União Europeia. Embora, historicamente, as ambições latentes no subconsciente de grande parte dos nossos vizinhos não seja propriamente pacifica no que diz respeito a Portugal.
Quanto aos angolanos e aos chineses, já a questão se formula em termos totalmente diferentes. Trata-se, num caso como no outro, de gente vinda de sociedades ditatoriais em que só quem faz parte das nomenclaturas cleptómanas dominantes dispõe de meios financeiros para investir no estrangeiro. E não é graças ao dinheiro a rodos que ela passou a integrar os valores mais elementares de uma sociedade democrática. E que integrou noções essenciais de pluralismo e de tolerância.
A capacidade de aceitação destas noções essenciais é ainda menos evidente no que diz respeito aos média. E é mesmo largamente, senão totalmente inexistente no campo da informação. Atitude que globalmente até partilharão espanhóis, angolanos e chineses quando se trata de informação referente à política interna dos seus países de origem, às opções políticas dos seus governos, às caraterísticas dominantes dos seus meios económicos, à política externa dos seus países. Com uma certa subtileza e flexibilidade no que diz respeito a espanhóis. Com uma evidente rudeza e intransigência no que se refere a angolanos ou a chineses.
Com gloriosas exceções cada vez mais diminutas, os portugueses estão pois progressivamente confrontados a uma informação largamente dominada por interesses estrangeiros. Uma informação que não pode de maneira alguma escapar a empenhos considerados vitais pelos meios dominantes na democrática vizinha Espanha. E a empenhos que as clepto-nomenclaturas dos partidos únicos angolano ou chinês têm demasiado tendência a estender às raias de um horizonte obscurantista.
Perante uma situação que assume traços cada vez mais sombrios, a total ausência de reação dos meios dirigentes políticos, económicos, sociais e culturais portugueses é absolutamente inquietante. O sociólogo estado-unidense Herbert Schiller (1919-2000) advertiu há largos anos : “uma nação cujos média são dominados pelo estrangeiro não é uma nação”. Excelente e arrepiante reflexão a submeter à consideração dos apáticos meios dirigentes do país. A supor que eles tenham consciência da situação de uma informação já largamente dominada por semanários, diários, rádios e televisões cujos donos são empresas ou cidadãos estrangeiros. E consciência do horizonte tragicamente sombrio que este controle dos média grande público deixa antever… 
Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 24 de setembro de 2016, p. 35.