quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Algumas lições pós-eleitorais

J.-M. Nobre-Correia
Política/Média : Donald Trump será pois o futuro presidente dos Estados Unidos. Acontecimento que põe em evidência a crise da política nos países democráticos. Assim como a da informação que nos é proposta pelos média…

Os resultados das eleições nos Estados Unidos propõem pelos menos que se façam dois tipos de análises. Uma de caráter político e outra de caráter mediático. Tanto mais que os ditos resultados surgem depois da recusa, em maio-junho de 2005, em referendo, dos franceses e neerlandeses em adotarem o tratado que estabelecia uma constituição para a União Europeia. E depois também do voto a favor da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, por ocasião do referendo organizado a este propósito em junho passado.
Em termos políticos, o que se torna cada vez mais evidente é que os eleitores se opõem maioritariamente ao reforço da chamada “construção europeia” assim como à mundialização. Porque uma e outra se têm traduzido na instauração de um mercado livre, na circulação sem limites de capitais, bens, serviços e, no primeiro caso, também de pessoas. Com consequências evidentes : o encerramento de numerosas empresas e a explosão do desemprego, ou pelo menos a conservação deste a níveis elevados ; a erosão da situação económica das chamadas classes médias e a acentuação das desigualdades entre as classes dirigentes e o resto da sociedade ; o aumento gigantesco da imigração, com os problemas que isso põe em termos socioculturais mas também económicos, com o aparecimento de uma mão de obra barata e não protegida em termos jurídico-sociais.
Quando as elites não querem saber
Perante esta evolução incontestável, as elites, largamente poupadas pela crise e até mesmo generosamente beneficiadas por ela, não veem, não querem ver e continuam a pôr todos os mecanismos de propaganda a funcionar em favor do reforço da “construção europeia” como da mundialização. É certo que estes dois movimentos tiveram consequências benéficas em países que se encontravam antes fora da intervenção direta da UE e dos EUA. Mas, no plano interno destes dois espaços, isso traduz-se na destruição das estruturas de produção agrícola e industrial, e na perda de proteção social de que (em maior ou menor grau) despunham os cidadãos.
Que no caso da União Europeia, se tenha passado em poucos anos de seis países membros para vinte e oito é tanto mais dificilmente compreensível que, historicamente, culturalmente e economicamente estes países não fazem manifestamente parte do mesmo espaço. E só considerações de caráter político, militar e estratégico levaram a UE a querer absolutamente alargar-se para Leste. As evoluções políticas internas de alguns desses países mostram agora bem até que ponto existe um fosso profundo que nos separa.
Recuar em relação a alargamentos recentes parece no mínimo problemático, senão impossível. A não ser que venha a haver países que, como a Grã-Bretanha, decidam retirar-se da UE. Há porém que marcar uma urgente, indispensável e salutar longa pausa de consolidação das situações e dos direitos adquiridos. E impedir que os profissionais do europeísmo continuem a apregoar discursos encantatórios, que mais não são do que tentativas de consolidação das posições pessoais que alcançaram e das benesses de que podem assim usufruir.
De outro modo, o espaço político europeu estará cada vez mais aberto a contestações radicais, nomeadamente dos seus aparelhos políticos, partidos e demais corpos intermediários (sindicatos, associações,…). Abrindo as portas aos mais diversos movimentos populistas imprevisíveis, como é já o caso na Grécia, na Itália e na Espanha, mas também nos Países Baixos, na Bélgica, na Grã-Bretanha ou, mais inquietante ainda, em França [1]. Suscitando ondas de cólera protestatórias dominadas muitas das vezes pelo radicalismo das propostas e pela violência das ações.
As câmaras de eco dos meios dominantes
Esta cólera protestatória visa sobretudo os meios políticos e económicos dirigentes. Mas visa também os média e a informação que neles é praticada, provocando um afastamento cada vez maior dos cidadãos que perderam a confiança neles. Como compreender, por exemplo, que nos casos evocados, e sobretudo agora nos Estados Unidos, os média tenham feito em bloco campanha pela posição contrária à que seria adotada pelos eleitores ? E que tenham até, em seguida, aceitado mal o resultado, encontrando explicações extravagantes mais ou menos condenatórias para a escolha efetuada pelos eleitores ?
É que, aqui também, como no caso dos políticos, os jornalistas deixaram de frequentar o mundo real dos cidadãos. Deixaram de ir para o terreno e de terem contactos com as pessoas, observando-as, interrogando-as, procurando compreender como elas vivem as suas vidas quotidianas. Em vez de deambularem entre sala de redação, conferências e visitas de imprensa, entre comunicados oficiais, telefones e ecrãs de computador. Admiremo-nos depois, que cada vez mais os factos políticos contradigam ferozmente os quadros apriorísticos e ideológicos que tinham proposto aos leitores, ouvintes ou espectadores. Quadros generosamente reforçados, é verdade, por empresas de sondagens que manifestamente não procuram compreender a realidade dos factos mas propor leituras que agradem aos seus clientes…



[1] Ver a este propósito J.-M. Nobre-Correia, « O deslize das placas tectónica », in Notas de Circunstância 2, 6 de fevereiro de 2015.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 9 de novembro de 2016.

As outras "baixas densidades"…

J.-M. Nobre-Correia

As assimetrias regionais não são apenas fruto do fraco desenvolvimento económico “do interior”…

O governo aprova 160 medidas de um Programa Nacional para a Coesão Territorial. E os que vivem “no interior”, no Portugal “de baixa densidade”, só podem regozijar-se com isso. Embora a imprensa deixe perceber que o dito Programa alinhe antes do mais medidas de caráter económico, ou melhor dizendo : suscetíveis de favorecer o desenvolvimento económico das regiões situadas para além do Centro-Norte Litoral.
É evidente que um dos grandes problemas deste Portugal “de baixa densidade” é precisamente o do fraco desenvolvimento económico. O que leva muitos dos seus habitantes, e sobretudo jovens, a estabelecerem-se na orla litoral entre Braga e Setúbal, onde esperam poder usufruir de melhores condições de vida e nomeadamente de emprego.
Só que a desertificação do Portugal “de baixa densidade” não é unicamente devida ao fraco desenvolvimento económico. Há infraestruturas essenciais de que é manifestamente desprovido e que não virão instalar-se por acréscimo, como fruto natural desse futuro desenvolvimento económico. Infraestruturas essencialmente de três tipos : centros hospitalares performantes, estabelecimentos de ensino de alto nível e instituições culturais com ofertas de qualidade.
No que se refere à assistência médica, o Portugal “do interior” está largamente dependente dos centros hospitalares do Porto, de Coimbra e de Lisboa. Vêem-se assim diariamente à beira destes centros um número inacreditável de ambulâncias e “transportes de doentes” vindos dos pontos mais remotos do país ! Porque, “no interior”, os profissionais de saúde, os equipamentos especializados e as valências propostas são manifestamente insuficientes, em termos quantitativos como, muitas vezes, qualitativos. E os médicos “caixeiros-viajantes” que se dignam ir até lá, vindo das três cidades indicadas, raramente são altamente qualificados, embora se façam pagar a preço de oiro…
Nas classificações nacionais ou internacionais publicadas periodicamente sobre o sector, é evidente também que os grandes estabelecimentos de ensino secundário, politécnico e universitário se encontram quase exclusivamente no Centro-Norte Litoral. E muitos “académicos TGV” dão-se ao desplante de residir nas três cidades habituais e irem até “ao interior” apenas o tempo indispensável para assumirem, um ou dois dias por semana, as suas obrigações de docentes. Pelo que, pais responsáveis ou jovens conscienciosos, fazem muitas vezes a escolha de se estabelecem na orla litoral, entre Braga e Lisboa.
A situação é tragicamente ainda mais pobre no que se refere à vida cultural. Cidades “do interior” há onde não se encontra um cinema, um teatro ou sala de concerto, nem livraria digna deste nome ou loja onde se possam adquirir CD ou DVD de qualidade. A atividade cultural resume-se na melhor das hipóteses a espetáculos de segunda ou terceira importância, muitas das vezes com intérpretes de origem puramente local ou regional. E nesta matéria, quase tudo na “grande cultura”, como aliás nos lazeres, se passa em Lisboa, só o Porto constituindo de certo modo uma pequena exceção a esta regra.
Ora, uma verdadeira “coesão territorial” capaz de pôr progressivamente termo à fragrante assimetria atual só será possível com uma verdadeira regionalização da decisão política e dos meios financeiros disponíveis. Mas também quando se tiver a lucidez de proceder ao descongestionamento da capital do país, tendo a coragem de transferir para “o interior” parte das suas numerosíssimas instituições médico-hospitalares, de ensino e de cultura. Até porque a proliferação megalocéfala que carateriza Lisboa cria evidentes dificuldades de coordenação e de gestão, assim como enormes problemas de custos.
Países há na Europa onde estes tipos de instituições, mas também algumas das mais altas instituições do aparelho de Estado, têm sido decentralizadas e instaladas noutras localidades “da província”. Criando assim nas novas localidades evidentes dinâmicas demográficas, económicas, sociais e culturais. E, nos novos tempos que vivemos, é de idêntica coragem que esperam os que continuam a acreditar “no interior” (isto é : na maioria do território nacional) dos que assumem a responsabilidade do governo da nação… 

Texto publicado no diário Público em linha, Lisboa, 8 de novembro de 2016.


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 9 de novembro de 2016.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Coimbra numa nota só…

Neste verão de São Martinho (l’été indien, como dizem os francófonos…) — cheio de céu azul, sol e calor — no Parque Verde, à beira do Mondego, ao fim da manhã…







domingo, 30 de outubro de 2016

Ousar estratégias que se impõem…

J.-M. Nobre-Correia
Para o mediólogo, professor emérito da Université Libre de Bruxelles, há que dar à agência Lusa uma nova e desejável ambição

Depois ter vivido quatro anos em Lisboa, onde casou, Charles-Louis Havas, regressou a França e anos depois, em 1835, fundou a primeira agência de informação da história : a atual Agence France Presse. Outras apareceram depois ao longo do século XIX na Europa e nos Estados Unidos. E hoje a grande maioria dos países dispõem no mínimo de uma agência nacional.
O universo das agências de informação é extremamente diversificado : entre a agência mundial e a local, entre a de informação geral e a especializada, entre a plurimédia e a monomédia. No caso das agências nacionais de informação geral, há países demograficamente comparáveis que fazem opções diferentes : o caso de Belga que, com apenas 100 jornalistas, produz um serviço em francês e outro em neerlandês, e não conta nenhuma delegação no estrangeiro ; e o caso de Lusa, com 280 jornalistas e delegações em 24 países estrangeiros.
Há porém diferenças fundamentais de estatuto destas duas agências. Se os principais média belgas têm condições financeiras que lhes permitem assinar agências estrangeiras que propõem serviços em francês ou em neerlandês, o mesmo não acontece com a grande maioria dos média portugueses. E a presença histórica da Bélgica no mundo é suficientemente recente e limitada para que no resto do mundo se esteja à espera de uma informação com essa proveniência, quando a presença histórico-cultural de Portugal, da língua portuguesa e de portugueses no mundo é considerável.
A necessidade de uma grande agência de informação em língua portuguesa salta pois aos olhos de qualquer conhecedor do mundo dos média. A agência Lusa sofre porém de patologias muito incapacitantes : o Estado como acionista maioritário (o que é de natureza a facilitar instrumentalizações por partidos no poder) ; uma reduzidíssima presença de média no seu capital (só Global Média e Impresa têm presença significativa) ; total ausência de clientes não-média ; acionistas com origem apenas no território nacional.
A inserção geopolítica da Lusa é porém de natureza a que possa vir a ser a grande agência em língua portuguesa. Do momento em que saiba fazer entrar no seu capital uma sociedade representativa dos média regionais portugueses, uma outra dos meios empresariais, uma terceira dos interesses dos diferentes países lusófonos. Caso necessário, esta última poderia mesmo resultar de sociedades representativas, por exemplo, de diferentes regiões do mundo.
Outra etapa de desenvolvimento é concebível : a entrada no seu capital das transnacionais espanhola, Efe, e italiana, ANSA, agências de países cuja presença migratória e cultural no mundo tem caraterísticas em muitos aspetos comparáveis às de Portugal. Desta conjunção do mundo lusófono e de dois grandes países latinos poderia surgir uma segunda grande agência mundial europeia ao lado da francesa AFP, em face das estado-unidenses AP e Reuters.
Quando tudo no mundo dos média e da informação evolui a uma velocidade vertiginosa, decisões há que têm que ser tomadas a tempo, se não quisermos ser cilindrados por uma mundialização frenética e devorante… E não é reduzindo a indemnização compensatória do Estado que a Lusa poderá ter uma salutar ambição…

Texto publicado no semanário Expresso, Lisboa, 29 de outubro de 2016, p. 34, com duas ligeiras supressões e um antetítulo/subtítulo diferente.

domingo, 16 de outubro de 2016

Da quieta melancolia à morte lenta…

J.-M. Nobre-Correia

A informação geral impressa vai pouco a pouco definhando. Perante a indiferença do mundo político…

Na outrora chamada Europa ocidental, Portugal é o país onde se leem menos jornais. E onde são publicados menos jornais diários, tendo em conta a superfície e a demografia do país. O pós-25 de Abril fez desaparecer a maioria dos diários de informação geral ditos “nacionais” de Lisboa e do Porto. Mas a crise da imprensa em Portugal é manifestamente grave desde há decénios. Nela se conjugaram erosão consequência da proliferação de rádios, televisões e média em linha com o velho descrédito da informação jornalística e a tradicional iliteracia. Veio depois juntar-se-lhes a mais recente crise dos investimentos publicitários e do poder de compra dos cidadãos, dando uma machadada abaladora ao sector.
Porém, parlamentos e governos sucessivos têm preferido ignorar tal situação. Até porque desde que os média escaparam à alçada do Estado, o mundo político prefere não afrontá-los, essenciais que são para proporem aos cidadãos uma imagem indispensável em democracia eletiva. Mas também por manifesto desinteresse do mundo político pelo bom funcionamento da democracia representativa, para a qual a qualidade da informação é todavia um elemento contributivo essencial.
Nestes novos tempos de maioria parlamentar das esquerdas, esperava-se que parlamento e governo tomassem iniciativas determinantes na matéria. Um ano depois, nem uma agulha buliu na quieta melancolia do sector !…


 Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 16 de outubro de 2016.

sábado, 15 de outubro de 2016

Por uma verdadeira autoridade

J.-M. Nobre-Correia

Da necessidade de uma reformulação da ERC no que se refere aos seus membros e às suas competências…

O mandato dos atuais membros do Conselho Regulador da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) chega ao fim. E a Assembleia da República vai ter que proceder à eleição de quatro dos cinco membros, sendo o quinto designado por cooptação.
O balanço de cinco anos de atividade do atual Conselho Regulador é manifestamente insatisfatório. Até porque esteve demasiado ausente, inerte, silencioso, em situações mediática e jornalisticamente criticáveis e até mesmo intoleráveis. Pelo que conviria que a nova maioria parlamentar tome a iniciativa de eleger novos membros notoriamente competentes e com a coragem indispensável para tomar decisões que se impõem.
Porém, antes desta eleição, há que lamentar que a nova maioria parlamentar não tenha tomado a iniciativa de reformular e reforçar as competências de uma nova ERC. Até porque há uma necessidade urgente de pôr cobro à desregulação das estruturas e da propriedade do sector mediático. E regulamentar de modo a favorecer um verdadeiro pluralismo em matéria de conteúdos e de informação…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 15 de outubro de 2016.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Outra abordagem da atualidade


J.-M. Nobre-Correia


Para que novos tempos políticos e sociais sejam viáveis, é essencial uma nova conceção da informação

Nenhum poder político pode realizar obra duradoira sem média de informação que lhe sejam globalmente favoráveis. E as probabilidades serão ainda mais escassas se o sistema mediático lhe for notoriamente hostil. O que é o caso quando o poder político se quer norteado por princípios de justiça social e os média são largamente orientados por uma ideologia conservadora pretensamente neoliberal…
Não quer isto dizer que um poder político progressista precise de uma informação “oficiosa” e muito menos às ordens ! Mas os cidadãos têm que dispor de uma informação realmente pluralista, concebida de modo diferente do que era habitual. Fruto de uma seleção judiciosa de factos socialmente significativos que ocorreram. De uma hierarquização que dê prioridade à incidência desses factos sobre a vida quotidiana dos cidadãos. De uma tratamento jornalístico capaz de factualidade, perspetivação e interpretação de qualidade dos acontecimentos.
Ora, em Portugal, os média dominantes propõem-nos sobretudo futilidade e mediocridade. Há pois que conceber novas iniciativas e novos modos de proceder, para que os novos tempos políticos e sociais sejam realmente viáveis…


Texto publicado no blogue A Vaca Voadora, Lisboa, 14 de outubro de 2016.