terça-feira, 3 de abril de 2018

Esta terra merece melhor…

J.-M. Nobre-Correia
Fundão : Quando incompetência e ilegalidades têm transformado a cidade numa mostra de ruínas e de atentados aos mais elementares princípios da estética arquitetónica e urbanística…
Tão longe quanto a memória permite ir, sempre correu água no Chafariz das Oito Bicas. De duas, de três ou de quatro bicas, mas nunca das oito ao mesmo tempo, é certo. Mas agora a grande novidade é que o Chafariz das Oito Bicas está seco, totalmente seco ! E isto depois das obras que, felizmente, graças à intervenção crítica de cidadãos, não caíram no ridículo arquitetónico e urbanismo desenhado por “especialistas” camarários. Os mesmos, ao que parece, que se esqueceram de estudar previamente a questão das condutas de água que abastecem o chafariz !
Que o mais emblemático chafariz público do Fundão esteja a seco é tragicamente significativo do descalabro urbanístico e arquitetónico em que se encontra esta terra. É verdade que isso não data de agora. E até talvez se possa dizer que, nos decénios mais recentes, tal descalabro data provavelmente da abertura da então Avenida Salazar, a atual Avenida da Liberdade.
Velhos atentados à velha vila
Graves anomalias caraterizam-na logo de início : um traçado em ângulo agudo em relação à rua Conde de Idanha-a-Nova (quando concebê-lo em paralelo teria sido a opção lógica) ; um desenho urbanístico absurdo, com uma dupla faixa de rodagem central e uma estranha faixazita lateral ; uma inacreditável interrupção da dita rua Conde de Idanha-a-Nova com a construção da chamada Auto Gare (…graças ao facto que um dos sócios desta era então vereador da Câmara Municipal salazarista !).
Vieram acrescentar-se a estas anomalias, edifícios com profundidades diferentes que, com as suas traseiras, transformaram a rua Conde de Idanha-a-Nova num buraco praticamente irrecuperável. E depois, com os anos, dos edifícios obrigatoriamente com dois andares passou-se a três, antes de serem cinco. Um conjunto de aberrações arquitetónicas e urbanística que deram àquela que os fundanenses designam muito simplesmente por “Avenida” a falta de imponência e de beleza que poderia ter, como eixo de transição entre a antiga e a nova cidade.
Continuou depois o massacre da urbe com a destruição da magnífica sala de espetáculo “à italiana” do Casino Fundanense, com uma plateia, um balcão, frisas, camarotes e uma “geral” : um crime imperdoável, absolutamente imperdoável ! E tanto mais imperdoável quando colocaram nesse espaço uma mera placa de cimento, com uma sala totalmente desprovida de graça, inteiramente nua, na parte de cima e lojas de arrecadações no rés do chão !
Depois, a edilidade municipal foi deixando destruir pequeninos bairros como aquele em frente da antiga fábrica de refrigerante A Invencível ou aquele onde se encontrava o quartel da GNR e está agora a Caixa Agrícola, tomando mesmo a iniciativa de destruir, em sucessivos atentados, o primoroso Parque das Tílias. Como deixou desfigurar tragicamente ruas tão antigas como a Marquês de Pombal (comummente chamada dos Galegos), a Quintãzinha, e por aí fora. Para não falar das tristes ruinas que se vão anunciando no eixo central constituído pelas ruas José Cunha Taborda, João Franco e Cinco de Outubro. Na João Franco, os brilhantes arquitetos da CMF deixaram mesmo construir dois horrores modernaços ao lado da conhecida Leitaria !
No outro eixo vertical, que vai da Praça Velha ao Largo de Santo António, ruínas e horrores arquitetónicos vão-se também acumulando. Com aquela esquina da rua José Germano da Cunha com a rua de Santo António, que foge totalmente à estética de origem. A que virá acrescentar-se em breve, pois já está em construção, em frente da rua do Sousa, algo que tudo leva a crer não respeitará também a arquitetura tradicional desta zona velha da cidade.
Mas nas partes novas da cidade, as aberrações também abundam. Basta olhar para o espaço que vai da estação rodoviária ao Pavilhão Municipal, passando pelas traseiras da Associação Distrital dos Agricultores e indo até ao Cantinho do Mimo. Alguém tem a menor dúvida sobre o gigantesco buraco que ali irá ficar para sempre ? Até que, um dia destes, alguma derrocada venha deitar abaixo a cercania da dita Associação, visto que andaram por lá impunemente a escavar e retirar terra, abrindo assim um enorme vazio…
Novos atentados à nova cidade
Mas há que falar também na aberração que foi a construção das piscinas cobertas, longe do espaço magnífico ocupado pelas piscinas de verão, na encosta da Gardunha, com uma formidável vista para a Cova da Beira e a Estrela. Para além de que a dupla localização das piscinas impede a realização das sinergias mais elementares : os novos ricos, que chegam pela política à administração pública, quando gastam o dinheiro que não é deles, não têm porém tais preocupações !
Assim vai este pobre Fundão sem visão estratégica, sem sentido algum da planificação. Prova disso é a localização de todos os supermercados na mesma saída do Fundão, todos em cima uns dos outros. Como se os bairros situados perto das outras saídas da cidade e os habitantes das aldeias que por elas têm acesso a ela não precisassem também de supermercados, dispensando eventualmente o obrigatório veículo automóvel.
E depois, pergunta essencial :  a demografia do Fundão e das aldeias do seu concelho precisam realmente de tantos supermercados ? E não foram estes que destruíram os numerosos comércios intramuros que faziam uma das marcas caraterísticas do Fundão ? Vejam-se os dois grandes eixos centrais do Fundão, do Parque das Tílias ao Jardim Municipal, do Chafariz das Oito Bicas ao Largo de Santo António : os comércios fecharam uns atrás dos outros, dando as lojas fechadas e a ausência de atividade humana uma terrível imagem de deserto em vésperas de morte anunciada.
Não impede que, na parte nova da cidade, as lojas em rés do chão são manifestamente muito mais numerosas do que as necessidades. Lojas vazias e que ficarão certamente vazias durante muitos e muitos anos. Superabundância e vazio fruto de uma ausência de planificação por parte do(s) executivo(s) municipal(ais) e de uma manifesta incompetência dos departamentos diretamente responsáveis.
O Fundão tem evoluído mal, muito mal. Sob a direção de gente “sem mundo”, preocupada antes do mais com a sua ascensão social, sem sólida cultura de fundo, incapaz de conceber uma gestão e um desenvolvimento urbanos adequados às caraterísticas históricas da cidade e a uma inserção harmoniosa das iniciativas novas no seu contexto orográfico natural.
A triste realidade é que não bastam “canudos”. Esta terra precisa urgentemente de arquitetos e urbanistas de qualidade, gente de cultura e com uma evidente sensibilidade estética. Mas também de arquitetos e urbanistas respeitadores da legalidade democrática e dos direitos dos cidadãos que escolheram o Fundão como terra de residência.
Depois é absolutamente indispensável que os fundanenses amem a sua terra e respeitem com carinho o espaço público, aquele que é precisamente de todos. Um espaço público que, por exemplo, não pode continuar a ser vulgar e aflitivo caixote de lixo comum, nem local indiferenciado de um estacionamento horrivelmente caótico…
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Normalmente, um texto desta natureza deveria destinar-se a um média local. Nomeadamente àquele a que dei a minha colaboração por intermitência durante cinquenta anos, mas em que recusei continuar a fazê-lo.
De qualquer modo, o dito média está totalmente enfeudado aos poderes locais, tendo-se transformado numa espécie de porta-voz oficioso, para não dizer na voz do seu dono. E sê-lo-á provavelmente ainda mais se as manobras atuais em torno da sua propriedade vierem a concretizar-se…


quarta-feira, 14 de março de 2018

Em fase de grandes manobras…

J.-M. Nobre-Correia
Média : a Global Média decidiu separar-se do Jornal do Fundão. Personagens mais ou menos encobertos agitam-se há já algum tempo nos bastidores, perante a espantosa indiferença de quem não deveria sê-lo…
O texto sobre o Jornal do Fundão aqui publicado há duas semanas [1], estava escrito em termos tão feutrés, tão feutrés (como diriam os francófonos) que pareceu de facto hermético para boa parte dos leitores. Ou, pelo menos, muitos não perceberam o que estava por detrás da análise proposta. Vamos então mais longe…
Como seria de esperar desde que o Jornal do Fundão passou a fazer parte de grupos de média nacionais que não tinham qualquer outra atividade na imprensa regional que se antevia um desfecho assim, uma inevitável separação. Até porque a informação regional nunca fez parte do “coração do negócio” desses grupos (Lusomundo, Portugal Telecom, Controlinveste e Global Média), sendo o Jornal de Notícias de facto um “diário nacional” publicado na segunda cidade do país.
Porém, enquanto as vendas e as receitas publicitárias se mantiveram, e os balanços anuais da empresa não se soldaram por défices, em Lisboa, na administração central do grupo, ninguém se preocupava seriamente com o Jornal do Fundão. Mas os tempos mudaram e os principais acionistas do grupo média proprietário também. Pelo que o semanário fundado por António Paulouro em 1946 foi posto à venda.
Num primeiro tempo, pessoas houve que, solicitadas, não se mostraram interessadas. Mas poderes locais há que se agitaram e entraram em ação. Nomeadamente os que já tinham tirado os cordelinhos para fazer nomear o atual diretor interino. Com o inconveniente extremamente desagradável de não poderem aparecer como líderes da operação : isso daria uma imagem muito negativa junto dos leitores e das gentes da região, com efeitos muito provavelmente negativos em termos de credibilidade e de vendas.
A dita operação está a ser delineada assim : os acionista atuais, com uma única exceção, vendem. E há presentemente dois candidatos à compra : uma residente em França e um residente no Fundão. Suscitando tais candidatos as habituais interrogações : serão eles os verdadeiros compradores ?, e com que dinheiro compram e vão poder assumir a gestão ? A primeira pergunta tem tanto mais razão de ser que há de facto outros personagens que se agitam na sombra de conveniências diversas. Quanto à segunda, é preciso não esquecer, por exemplo, que há instituições bancárias regionais em que interessados na operação ocupam lugares-chave e poderão assim facilitar o indispensável financiamento.
O certo é que, se a operação se concretizar, o Jornal do Fundão não será mais aquilo que foi. É verdade que, historicamente, o Jornal do Fundão foi muita coisa. Mas foi certamente a grande instituição que, nos anos 1960-70, “pôs o Fundão na mapa de Portugal” : há que render essa homenagem a António Paulouro, homem de iniciativa e de um extraordinário dinamismo.
Mas o que há de surpreendente nesta história é a maneira como gente com responsabilidades no Jornal do Fundão não viu nem quis ver o futuro há longos anos anunciado. Como surpreendente é a maneira como os que poderiam e deveriam não ser indiferentes aos destinos de um jornal importante na região (embora em fase de anemia) preferem ignorar a situação : mal vão os tempos em termos de cidadania e de implicação das “elites” na vida da polis !…



[1] Ver a este propósito J.-M Nobre-Correia, “Em vésperas de vida nova”, in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Em vésperas de vida nova…

J.-M. Nobre-Correia
Média : ano após ano, o Jornal do Fundão tem vindo irremediavelmente a perder vendas. Há pois que esperar que no dealbar de nova etapa possa voltar a afirmar-se como ator de primeira linha…
Os números que acabam de ser publicados pela APCT (Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação) mostram que as coisas não estão a correr lá muito bem ao Jornal do Fundão. É verdade que a situação da imprensa em papel é bastante negativa um pouco por toda a Europa. E que o é particularmente em Portugal, onde há diários, por exemplo, que com as vendas que têm já teriam desaparecido há muito em países onde a imprensa não está prioritariamente ao serviço de interesses exteriores ao mundo da informação.
Em janeiro-dezembro de 2017, o Jornal do Fundão teve em média uma “circulação impressa paga” de 7 586 exemplares, quando em idêntico período do ano anterior ainda tinha 8 006. O que significa uma perda de 420 exemplares. Só que, há dez anos atrás, a “circulação impressa paga” era de 14 025 em 2007 e de 14 440 em 2006. Isto para não falar de um documento endereçado pelo fundador António Paulouro ao autor destas linhas em 2 de abril de 1972 onde escrevia que a “tiragem média” do Jornal do Fundão era de 27 000 exemplares.
É verdade que, sem controle oficial de tiragens e difusões (“circulações” como se diz agora sob a influência do inglês…), todo e qualquer editor (…”publisher” !), em Portugal ou na Europa, declara números superiores à realidade, esperando assim seduzir mais facilmente os anunciantes. Mas talvez esses números fossem, na realidade, no início dos anos 1970, umas três vezes superiores aos de hoje.
É evidente que o Jornal do Fundão beneficiou antes do 25 de Abril do facto de ser desde os começos dos anos 1960 um dos raríssimos jornais situados na área de oposição ao salazarismo. Pelo que teve então vendas bem mais altas do que depois do desaparecimento da Censura, do regresso da liberdade de imprensa e do lançamento de numerosas novas publicações.
Sabemos também que a compra da maioria do capital do Jornal do Fundão pela Lusomundo não foi consequência de um verdadeiro interesse mediático, jornalístico ou publicitário do coronel Luís Silva. E é claro que os proprietários seguintes (a Portugal Telecom, a Controlinveste e atualmente a Global Média, maioritariamente angolana primeiro e agora chinesa 1) não manifestaram seriamente interesse pelo Jornal do Fundão. Os interesses de Joaquim Oliveira, da Controlinveste, na área do futebol explicam no entanto a designação de um diretor geral para o Jornal do Fundão que, na verdade, se encontrava há demasiado tempo desprovido de gestores nas áreas industrial e comercial.
Esta falta de interesse de proprietários maioritários sucessivos explica que tal situação não pudesse durar eternamente. Novos dias se anunciam pois para o Jornal do Fundão. Desejemos-lhe então que ventos generosamente favoráveis lhe permitam afirmar-se de novo na cena jornalística da Beira raiana e, porque não, na paisagem mediática nacional…

[1] Profundo conhecedor da realidade macaense, um leitor deste blogue explica-me por que é desejável dizer que a Global Média é maioritariamente macaense e não chinesa : aqui fica pois a nuance

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Os critérios jornalísticos da RTP…

J.-M. Nobre-Correia
Média : ingenuamente, estamos sempre à espera que o serviço público nos proponha um telejornal com um pouco de qualidade. Com a morte do João Varela Gomes, ela ilustrou uma vez mais a sua mediocridade…
Viram no telejornal das 20h00 da RTP 1 de terça-feira 27 de fevereiro, o tempo consagrado à morte de João Varela Gomes (militar que foi um ator da história da resistência ao salazarismo e da construção do Portugal do após 25 de Abril) e a forma de tratamento adotada para esta sequência ?
E logo imediatamente a seguir, viram também o tempo consagrado à vitória do Sporting sobre o Moreirense e forma como foi tratada esta sequência, com a inevitável entrevista do omnipresente quotidiano treinador do dito clube ?
Assim vai esta lamentável televisão dita de "serviço público". E assim vai tristemente o lamentável jornalismo televisivo praticado em Portugal…
É esta a tristeza da "informação" que é proposta diariamente aos cidadãos portugueses…
Vamos mais longe : não se trata aqui de estar ou de não estar de acordo com as posições assumidas por João Varela Gomes ao longo da sua vida. Trata-se muito simplesmente de dar a devida importância a um tema de atualidade e mais concretamente a um personagem que marcou a história contemporânea portuguesa.
Ora, uma redação a sério, uma redação que se preza, é uma redação que procura saber o que se passa em redor. Que sabe assim que João Varela Gomes tinha a idade que tinha. Que sabe que ele, provavelmente, já não se encontraria na melhor forma física. E que, em consequência disto, tem uma ou mais sequências devidamente preparadas "no frigorífico" para sair na devida altura e completar com um ou outro aspeto mais de atualidade…
Mas para isso são precisos jornalistas, uma redação, um chefe de redação, um diretor da informação que façam jornalismo a sério. Que saibam o que quer dizer seleção e hierarquização dos factos de atualidade, mas também perspetivação, análise e eventualmente comentário sobre os factos da atualidade. O que não é manifestamente o caso nesta grande casa (…em termos de tamanho, evidentemente) chamada RTP, que é, ao que parece, a radiotelevisão de serviço público em Portugal : pobre país !…

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Dos pequenos potentados locais…

J.-M. Nobre-Correia
Política : Consideram-se donos-disto-tudo e acham que podem viver em total impunidade, praticando à ligeira uma singular arbitrariedade sem deverem prestar contas a ninguém…
Viver no Portugal “do interior” é de certo modo uma punição. É viver num país de segunda ou mesmo de terceira ordem. Longe dos grandes estabelecimentos públicos e privados de assistência médica do Porto, de Coimbra ou de Lisboa. Longe das escolas secundárias, superiores e universitárias de prestígio da faixa litoral Norte-Centro. Longe da generosa oferta em matéria de cultura e de lazeres largamente centrada em Lisboa.
Viver no Portugal “de baixa densidade” é pois sentir-se marginalizado. É ver-se automaticamente considerado pelas gentes do Portugal “de alta densidade” (ou da anti-“baixa densidade”) como cidadãos de segunda categoria. Como indivíduos que pouco ou nada contam nas decisões sobre os destinos do país (e as vagas de incêndios do verão e do outono passados puseram em evidência a ignorância das gentes da “capital do império” em relação a este Portugal “do interior”).
Mas, atenção, há quem vivendo neste Portugal “de baixa densidade” tire largamente proveito de uma tal situação e viva de certo modo numa larga impunidade. Fazendo das instituições como dos bens públicos a sua coisa privada. Assumindo funções institucionais considerando que não tem que dar satisfações aos cidadãos sobre as desenvolturas, as irregularidades e até mesmo as ilegalidades dos seus procedimentos, da sua maneira de agir.
Claro, tudo isto é possível porque os “senhores da terra” vivem longe das associações socioculturais de peso, das estruturas dirigentes políticas ou sindicais, dos média capazes de exercerem a desejável função de contrapoder. No Portugal “de alta densidade”, teriam grandes probabilidades de serem rapidamente denunciados. Após o que teriam muito possivelmente que pôr fim a tais arbitrariedades e abusos.
No Portugal “do interior”, a casta dos novos senhores e os seus mangas de alpaca gozam serenamente da impunidade. Porque o Estado central longínquo não vê ou não quer ver. E porque, bien malgré eux, os cidadãos foram habituados durante demasiados anos a curvar a espinha e a não agir. Enquanto que os média locais/regionais vivem geralmente na órbita dos “senhores da terra”, enfeudados aos poderes locais, quantas vezes mesmo controlados por amigos que acederam à direção dos ditos média porque são sobretudo amigos deles…
Só que, hoje em dia, mesmo os cidadãos “do interior” já não vivem em círculo fechado [vase clos] longe dos círculos nacionais do poder, da justiça e dos média. Muitos vão e vêm entre mundos diferentes, nomeadamente se “têm mais mundo”. Rezem pois aqueles que pensam ser donos-disto-tudo (e os mangas de alpaca que os acolitam fariam bem em ouvir igualmente o conselho), para que esses que “têm mais mundo” não decidam um belo dia sacudir o coqueiro e proclamar no tal Portugal “de alta densidade” que, em certos lugares “do interior”, os reizinhos locais vão escandalosamente nus…

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Era uma vez o 'Jornal do Fundão'…

J.-M. Nobre-Correia
Média : Quando um semanário de tradição republicana se põe repetidamente a “cobrir” factos de nula importância referentes a um regente agrícola que pretende ser “herdeiro da coroa portuguesa” (sic)…
Setenta e dois anos depois, a história do Jornal do Fundão está ainda por escrever. Esperando que, se algum dia o vier a ser, o seja por alguém competente em matéria de história e de imprensa. E, esperemos, que o seja então de maneira multifacetada, à imagem daquilo que foi a história do jornal. E não, de preferência, de maneira unidimensional como tem sido o caso desde há largos anos, por conveniência (no caso de conhecedores no Fundão e arredores) ou por ignorância (daqueles que pensam tudo saber, sobretudo dos lados de Lisboa).
Mas se há uma caraterística que parece ter atravessado a história do Jornal do Fundão (salvo análise mais aprofundada sobre o assunto) é o do seu republicanismo. Ora, eis o Jornal do Fundão em três números recentes a cobrir visitas de “D. Duarte Pio” (sic), “Chefe da Casa Real Portuguesa” (resic, e em maiúsculas !) a aldeias do Fundão…
Duarte Bragança é um pobre regente agrícola que, por conveniência, decidiu brincar aos principezinhos num daqueles contos de fadas que faz as delícias dos adoradores da Causa Monárquica. Não querendo estes de modo algum darem-se conta que o “ancien regime” está morto e bem morto, que já ninguém acredita que os reizinhos o sejam por unção de um deus-nosso-senhor-todo-poderoso, e representantes dele na Terra.
É evidente que o “pretendente ao trono” é contestado por muitas e boas razões até nos próprios meios monárquicos. E que o pobre regente agrícola, a quem nunca se ouviram pronunciar senão banalidades mais ou menos ocas e tontas, prefere não saber que vivemos em República há mais de um século. E nada leva a crer que possa haver alguma mudança de regime em perspetiva, nem em favor dele, nem em favor do miúdo que ele e os da laia dele designam por “Dom Afonso” (sic) !!!
Tudo isto não impediu o presidente da Câmara Municipal do Fundão, eleito da República, ter andado a servir de cicerone ao autoproclamado reizinho que nunca fez nada na vida, em momento algum da história nacional. Levando-o nomeadamente até Castelo Novo, de que “o herdeiro da coroa portuguesa” (sic, como proclamam nada mais nada menos do que duas escreventes do Jornal do Fundão), um pouco mal educadamente, disse não gostar das obras feitas no castelo — como ouviu quem assistiu ao delicioso espetáculo de commedia dell’arte.
Estamos assim. O presidente da Câmara Municipal do Fundão, que nem sempre tem disponibilidade para receber os seus concidadãos, tem todo o tempo para acompanhar um regente agrícola fora do ativo. E o Jornal do Fundão, na edição da semana passada deu nada menos do que meia página e um título a cinco colunas à visita do dito regente agrícola.
Haverá quem diga no que se refere ao Jornal do Fundão que a visita de Duarte Bragança era notícia : não, perdão !, quem fez do assunto anódino notícia foi o Jornal do Fundão. Quando o dito Jornal do Fundão se tem “esquecido” de tantos e tantos assuntos de atualidade local verdadeiramente significativos, da demissão forçada de um vice-reitor de uma universidade à constituição como arguidos de um presidente de executivo e de um presidente de assembleia municipal, entre outros exemplos recentes. Quando este último exemplo até deu lugar a uns dois terços de página do semanário lisboeta Expresso.
Digamos, ironicamente, que esta ignorância de acontecimentos locais diversos só pode ter sido fruto de um falhanço na recolha dos factos de atualidade da semana. Pois não é pensável sequer imaginar que tal ignorância tenha sido consequência de uma miopia de circunstância voluntária da parte da redação do Jornal do Fundão e/ou da sua direção interina !…


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Viver fora do tempo

J.-M. Nobre-Correia
Média : Os critérios de seleção e de hierarquização da informação de atualidade na imprensa diária portuguesa são por vezes surpreendentes, espantosos : a Catalunha é um triste exemplo disso…
Muitas vezes, a imprensa portuguesa dá o sentimento de viver fora do tempo. Demasiadas vezes. E demasiado fora do tempo…
Assim, por exemplo, os dois diários ditos “de referência”. No Público, as eleições de ontem na Catalunha merecem na primeira página de hoje um título bastante secundário, a uma única coluna num total de cinco (1/5) : “Cidadãos não evitam maioria favorável à separação de Espanha”. Enquanto que o Diário de Notícias põe o acento numa ilustração em baixo de página, a 4/5 colunas, com um título pouco visível : “Vitória histórica do Ciudadanos, mas Catalunha continua dividida ao meio”.
É verdade e bem sabido : a Espanha é um Estado situado bastante longe das fronteiras portuguesas. Enquanto que a Catalunha fica mesmo no outro extremo do mundo. Pelo que o que por lá se passa não pode ter a menor incidência em Portugal e na vida dos portugueses : pelo menos é o que parece ao vermos estas primeiras páginas dos diários “de referência” nacionais.
Se não, vejamos como procederam os principais diários de referência dos países geograficamente mais próximos nas suas primeiras páginas. Em França, o matutino Le Figaro tem como título principal a 5/6 colunas : “Élections en Catalogne : le choc indépendantiste” e o vespertino Le Monde faz como título principal a 6/6 colunas : “Catalogne : les indépendantistes renforcés”.
Na Itália, o milanês Corriere della Sera põe como título principal a 4/6 colunas : “Spagna, vincono i separatisti”. O romano La Repubblica tem como título principal a 4/5 colunas : “In Catalogna un voto anti-Madrid ma brilla Ciudadanos”. E no turinês La Stampa o título principal de abertura a 2/6 colunas : “Barcelona nuovo strappo con Madrid” [Barcelona nova rutura com Madrid].
Por fim, na Bélgica, onde se refugiaram o presidente e quatro ministro catalães, o francófono Le Soir põe com título principal a 4/6 colunas : “La Catalogne toujours coupée en deux” e o neerlandófono De Standaard ocupa quase toda a primeira página com o tema, com um título a 4/4 colunas : “ Rajoy gokt en verliest” [Rajoy joga e perde].
Em Portugal, nos dois diários dito “de referência” os títulos de primeira páginas são claramente secundários e situam-se na parte inferior da página. Até porque, ao que parece, a Espanha e a Catalunha ficam longe, muito longe ! Admiremo-nos depois se, vivendo fora do tempo, os potenciais leitores acham que, no fim de contas, podem muito bem dispensar-se da compra e da leitura de jornais em papel…