sábado, 14 de abril de 2018

Fim de um longo capítulo

J.-M. Nobre-Correia
Média : O texto aqui publicado ontem suscitou grande curiosidade (confirmada pelo número de páginas vistas). Acrescentemos-lhe então duas informações complementares sobre a atualidade vindoira do Jornal do Fundão.
A primeira : no número da próxima quinta-feira, o Jornal do Fundão publicará um texto de Maria Teresa e Maria José Paulouro (filhas de António Paulouro, fundador e primeiro diretor do semanário), assim como de Fernando Paulouro Neves (sobrinho de António Paulouro e seu sucessor como diretor), explicando a saída da família da empresa editora do jornal.
A segunda : os novos proprietários do Jornal do Fundão serão obrigados a deixar as instalações atuais situadas na rua …Jornal do Fundão ( ! ) o mais tardar dentro de dois meses, sendo o edifício propriedade das irmãs Maria Teresa e Maria José Paulouro. Um edifício da varanda do qual o presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em visita, saudou o povo do Fundão em janeiro de 1963…
Setenta e dois anos e três meses depois do seu aparecimento, um longo capítulo da história do Jornal do Fundão vai assim ser definitivamente fechado…

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Do hermetismo à transparência

J.-M. Nobre-Correia
Média :A mudança de propriedade do Jornal do Fundão que vai ser anunciada parece tomar aspetos de matriosca russa : a boneca mostrada ao público esconderá talvez outra que não convém ser vista…
Uma antiga redatora do Jornal do Fundão retoma no Facebook o editorial do diretor interino do semanário na sua última edição. O que leva o leitor negligente a ter que ler o dito editorial, o que não é nada hábito, dado o estilo pouquíssimo jornalístico da dita prosa. E a peça da página 2 do jornal de ontem prova uma vez mais o hermetismo de uma escrita para iniciados, quando é a limpidez que deve ser caraterística do jornalismo.
Claramente, o dito editorial (intitulado enigmaticamente “Só nós ou também os outros ?”) deixa antever o próximo anúncio da mudança de propriedade do Jornal do Fundão[1]. É sabido já há algum tempo que as filhas do falecido António Paulouro, fundador e primeiro diretor do Jornal do Fundão, venderam ao grupo Global Média a parte minoritária que detinham na empresa.
O que agora irá ser anunciado é que uma jornalista de Monsanto-Estrasburgo, outro do Fundão-Vale de Urso e talvez um terceiro de Castelo Novo-Odivelas, vão tomar o controlo do Jornal do Fundão. Por alturas da Páscoa, os três, mais o marido da primeira, encontraram-se aliás no restaurante Petiscos & Granitos, em Monsanto, para tentar as últimas afinações.
No entanto, a questão que se põe é a de saber se todos os novos acionistas têm os rins financeiramente bastante sólidos para apostar em tal aquisição ? E que papel joga nesta operação o presidente da Câmara Municipal do Fundão e da Mesa da Assembleia Geral da Caixa de Crédito Agrícola (que aliás já interveio na nomeação do atual diretor interino, por ocasião da sucessão de Fernando Paulouro Neves) ?
Outra incógnita :  a notícia publicada a duas colunas no Jornal do Fundão de 5 de abril sobre o que José António Cerejo escreveu no diário Público a propósito das relações (muito bem remuneradas) de Joaquim Morão, ex-presidente das Câmaras Municipais de Idanha-a-Nova e de Castelo Branco, com a Câmara Municipal de Lisboa. Texto jornalisticamente justificável, decorrente no entanto de uma atitude diferente de assuntos ligados judicialmente à Covilhã e ao Fundão, por exemplo, e que foram mantidos sob silêncio. Texto intrigante quando Joaquim Morão esteve também implicado nas negociações para a compra do Jornal do Fundão
Seja como for, a questão essencial será a de saber com que independência a atualidade poderá doravante ser tratada pelo Jornal do Fundão, um ator que foi essencial na vida da região. Uma região que, no entanto, precisa mais do que nunca de uma informação de qualidade…


[1] Ver a este propósito « Em vésperas de vida nova… », in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018.
Ver também « Em fase de grandes manobras… », in Notas de Circunstância 2, 14 de março de 2018.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Espantos de um estrangeirado-retornado

J.-M. Nobre-Correia *
Para quem viveu toda a vida profissional na “capital da Europa”, Portugal é uma caixinha de surpresas mediáticas e de tristes constatações ! As surpresas não vêm das estruturas socioeconómicas dos média, de que se tomou conhecimento de longe. Mas sim da prática quotidiana da informação e, no caso do audiovisual, da conceção da programação.
Na maior parte dos média, a informação diária é construída em torno de três ingredientes : o sensacional (que provoca medo, repulsa, revolta), a partidarite (sobretudo em torno de comunicados e declarações de líderes, de ministros e do inevitável presidente da República) e o futebol (com especial enfâse para as elucubrações de treinadores, presidentes e capitães). A hierarquização entres eles varia porém de um dia para o outro.
O resto, pouca importância merece. A atualidade estrangeira e internacional é diminuta e tratada segundo as agências anglo-norte americanas. Enquanto a economia e a cultura, fora da abordagem política de uma e de outra, são quase inexistentes. E é  claro : a vida gira em torno do umbigo da “capital do império”. Até porque, contrariamente ao que acontece na maior parte dos “grandes países” e até mesmo dos “pequenos países” europeus, redações e centros de produção estão unicamente sediados em Lisboa, com uma pequena exceção do Porto. O resto do país está pois largamente ausente da informação diária nacional.
É verdade na rádio e na televisão, mas é-o ainda mais na imprensa. Uma imprensa diária e semanal quase inexistente em termos de tiragens como de títulos publicados. Em tiragens, a situação da imprensa generalista é miserável, com valores próximos de um Luxemburgo, país com apenas 500 mil habitantes, as duas línguas oficiais dominantes sendo o alemão e o francês, o que leva os luxemburgueses a ler também a imprensa dos países limítrofes. Depois, e com a exceção de um pequeno título em Évora, nenhum diário é publicado fora da orla litoral centro-norte.
No que se refere à televisão, média dominante em Portugal, boa parte das emissões são à base de espaços “concessionados” aos mesmos palradores de sempre, “especialistas” em tudo. Vêm acrescentar-se-lhes produções estrangeiras, sobretudo brasileiras (com as abundantíssimas telenovelas) e estado-unidenses (no caso de filmes e de séries). O que quer dizer : uma televisão largamente desprovida de produção própria, quer em termos de informação como de divertimento. Um subdesenvolvimento particularmente inquietante, caraterístico de verdadeiro terceiro mundo…
* Professor emérito de Informação e Comunicação na Université Libre de Bruxelles, autor da “Teoria da Informação Jornalística” publicada estes dias pela editora Almedina.

Texto publicado no jornal Meios & Publicidade, Lisboa, n° 811, 6 de abril de 2018.

sábado, 7 de abril de 2018

Vivemos num país formidável ! 2

J.-M. Nobre-Correia
Ordens :Vivemos de facto num país formidável : a sorte que nós temos !…
E eu é que vivi quase toda uma vida (mais de 45 anos) num país atrasadito ! Um país que, é certo, foi historicamente o segundo na Europa a iniciar o processo de industrialização. De velha tradição democrática. Que nunca conheceu censura desde a sua independência. E que só a universidade em que estudei e trabalhei conta o dobro de prémios Nobel de Portugal inteiro.
Mas um país que, apercebo-me agora, não tem a felicidade de contar, como Portugal, com um sem número de corporações que usufruem de formidáveis regalias e ultrapassam claramente a suas razões de ser teóricas, funcionando como perturbadores permanentes da vida política do país…
A propósito do “Dia da Saúde”, o Diário de Notíciasde hoje abre as suas colunas ao “bastonário da Ordem dos médicos”, à “bastonária da Ordem dos enfermeiros” e à “bastonária da Ordem dos farmacêuticos”. E, na mesma área, ainda lá faltam pelo menos a dos médicos dentistas e a dos nutricionistas…
Diz-nos aliás a Wikipédia que há nada menos do que 18 ordens profissionais em Portugal : ah !, grande país ! No miseravelzito país em que vivi apenas ouvia falar de longe em longe da ordem dos médicos e da ordem dos advogados. É possível que houvesse mais uma ou outra ordem, mas não se ouvia sequer falar dela.
Mas mais do que isso : em Portugal, zés-espertos há que descobriram esta maneira de não se sujeitarem a horários e regras de trabalho de simples empregados. E de ganharem muito bem a vidinha deles : assim, segundo o Públicode ontem, o bastonário da Ordem dos médicos poderá vir a receber em breve uns modestíssimos 6 231 euros ilíquidos : coisa de somenos, não é verdade ? Pois, mas acrescentem lá mais as despesas de representação, para deixar o salário do senhor bastonário totalmente disponível…
Em resumo : ordens e “bastonariados” são belas máquinas de agradável descanso e de fazer um não menos agradável dinheiro. Mas há mais… Diz a Wikipédiaque, no “ordenamento jurídico português”, uma ordem é “uma entidade pública de estrutura associativa representativa de uma profissão que deva ser sujeita ao controlo do acesso e exercício, à elaboração de normas técnicas e deontológicas específicas e a um regime disciplinar autónomo por imperativo de tutela do interesse público prosseguido”.
Todos nós sabemos porém que andam por aí toda uma série de ordens a fazer de grupos de pressão, quando não de sindicatos-bis ou de minipartidos políticos. Enquanto os senhores bastonários e as senhoras bastonárias, verdadeiros líderes de contestação, vão desfilando alegremente pelos média e mais particularmente pelas televisões, sempre dispostas que estas estão a servir-lhes generosamente a sopa…

sexta-feira, 6 de abril de 2018

Vivemos num país formidável ! 1

J.-M. Nobre-Correia
Telejornais :Vivemos de facto num país formidável : a sorte que nós temos !…
Nos anos 1950-60, a televisão foi impondo o seu ritmo nos lares europeus. Sobretudo com o telejornal, as famílias começaram progressivamente a iniciar o jantar (e mais tarde, nos anos 1970, o almoço) à hora do programa de informação.
No caso português, a aberração que consiste em que as três televisões generalistas tenham os seus telejornais à mesma hora, faz que 20h00 seja a hora em que muitas famílias se sentam à mesa para jantar e se informar.
Pois bem, hoje às 20h00, a RTP 1(…televisão de “serviço público”, ao que parece) transmitia um encontro de futebol feminino entre a Bélgica e Portugal (aliás nestas últimas semanas, os “diretos” de futebol às 20h00 têm sido muito frequentes).
Por seu lado, na SIC, o telejornal começou manifestamente antes da hora para logo à hora normal nos anunciar durante quase um quarto de hora a “crise no Sporting” !
E para bem informar os cidadãos, a TVI abriu o seu telejornal com a “crise no Sporting” durante um quarto de hora !
Chama-se a isto “pluralismo da informação” e “hierarquização dos factos de atualidade” !
Não aconteceu nada hoje em Portugal e no mundo : só, só futebol !…
Grande país este ! Excelente qualidade de informação !
Ou melhor, agora a sério : desesperadamente inquietante este horizonte proposto diariamente aos cidadãos !…

O que há de inédito no jornalismo português

J.-M. Nobre-Correia
O jornalismo português tem práticas absolutamente inéditas no jornalismo europeu (…mas é verdade que eu não conheço todos, todos os jornais europeus) !
Assim o caso Rui Tavares, cronista trissemanal de última página (uma boa meia página !) do Público. Crónica assinada como “historiador, fundador do Livre”. O que significa que o facto de se ser dirigente de um partido político em Portugal não impede que se seja também cronista periódico de um jornal português !…
Mas há mais, hoje (sexta-feira 6 de abril) o dito cronista periódico (o que faz dele um homem da casa) é entrevistado e fotografado em página inteira no mesmo jornal !…
Decididamente, o jornalismo português tem práticas que o jornalismo europeu desconhece !…
Para que não haja mal-entendidos : Rui Tavares é um intelectual perfeitamente estimável. O que não é estimável é este triplo estatuto que o Público o faz assumir hoje : dirigente político, cronista e comissário de conferência entrevistado…

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O respeitinho é muito bonito !

J.-M. Nobre-Correia
Fundão : Quando os leitores de um blogue são particularmente  numerosos, abstendo-se no entanto cuidadosamente de assinalar uma presença e de manifestar uma opinião…
Dentro de precisamente um mês, este blogue fará quatro anos. E até agora, o texto que teve mais sucesso foi um sobre a noção de censura (“Uma indesejável confusão”). Só que este texto foi publicado em 30 de julho de 2015 e já foi retomado no Facebook por ocasião do primeiro e do segundo aniversários da sua publicação, multiplicando por conseguinte as consultas. E trata-se de um texto que interessou certamente estudantes e professores de jornalismo, o que explica o seu sucesso.
Porém, logo a seguir, em vias mesmo de ultrapassá-lo, vem o texto sobre o Jornal do Fundão (“Em fase de grandes manobras” [1]) publicado há apenas três semanas, em 14 de março. E o texto publicado anteontem (“Esta terra merece melhor…”), em  3 de abril, aproxima-se a passos largos dos dois textos evocados.
No entanto, e muito curiosamente, estes últimos dois textos, se bem que muito consultados, dão lugar a muito poucos “gosto” e ainda menos “comentários”. O que quererá significar três coisas : que, no fim de contas, os textos sobre o Fundão interessam muitos leitores deste blogue ; que estes leitores se interessam particularmente por uma leitura crítica da vida da cidade (e não à l’eau de rose como lhe propõem os média locais) ; mas daí até manifestarem publicamente, aos olhos do mundo, que gostaram e que até têm comentários a fazer vai uma grande distância…
Este último aspeto leva a concluir que a “cultura” do salazarismo, com o respeitinho imposto às instituições e aos “notáveis” da terra, deixou profundas marcas no comportamento das pessoas. E que, quase 44 anos depois, os cidadãos continuam a considerar que mais vale viver arredados de assuntos que deveriam democrática e civicamente interessar-nos a todos. De modo a que os pequenos potentados locais [2] não continuem a impor-nos soberanamente as suas decisões arbitrárias e os seus atentados à legalidade…



[1] Ver também « Era uma vez o ‘Jornal do Fundão’ », in Notas de Circunstância 2, 8 de fevereiro de 2018.
Ver ainda “Em vésperas de vida nova…”, in Notas de Circunstância 2, 28 de fevereiro de 2018.
[2] Ver « Dos pequenos potentados locais… », in Notas de Circunstância 2, 15 de fevereiro de 2018.