quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Um “comentador” do antigamente…

J.-M. Nobre-Correia
Público de terça-feira 27 de novembro publicou nada menos de dois « comentários » de Augusto M. Seabra : um sobre um realizador de cinema e outro sobre um cantor de ópera. Confesso nunca tal ter visto num diário de referência europeu, onde os comentários de cinema e de ópera são assumidos por especialistas diferentes e claramente confirmados em cada uma destas áreas culturais.
Ora, o dito Seabra procede no caso do cinema como no caso da ópera com uma incrível ligeireza, inadmissível num diário de referência.
No primeiro texto, Seabra afirma a certa altura, a propósito do filme Antes da Revolução « que Bertolucci fez na sua cidade — também a cidade de Verdi —, Parma ». Ora Verdi nasceu em Roncole (que se chama hoje Roncole Verdi !) na província de Parma, o que não é a mesma coisa que a cidade de Parma.
Por outro lado, Seabra despacha em grande velocidade o filme Novecento de Bernardo Bertolucci : « Sim, Bertolucci fez filmes tão desastrados ou mesmo horrendos como 1900 ». Sem se dignar explicar por que é « desastrado ou mesmo horrendo », quando é isso que um leitor espera de um crítico de cinema : quais as razões técnicas e estéticas que o levam a fazer tais afirmações a propósito de um filme que muitos consideram no entanto como uma verdadeira obra prima ?
Quanto ao texto sobre o falecimento do cantor Álvaro Malta, o dito Seabra permite-se afirmações tão aproximativas como « E foi aí que, salvo erro em 1971 ». Ora, a obrigação de um especialista é de verificar precisamente os dados que avança antes de escrever sobre qualquer assunto, sobretudo se é considerado e se considera como especialista na matéria.
Seabra faz jornalismo no segundo decénio do século XXI como se fazia ainda nos últimos decénios do século XIX, quando os leitores tinham praticamente acesso apenas ao “seu” jornal. Só que um século e meio passou sem que manifestamente Seabra se tenha dado conta e continue a fazer um jornalismo inaceitável hoje em dia, sobretudo num diário de referência. É que, agora, os cidadãos podem ter acesso a uma multiplicidade de fontes de informação e darem-se assim conta das insuficiências pedantes de certos “comentadores”…

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Estas estranhas anomalias

J.-M. Nobre-Correia
Os média portugueses inventaram o estatuto e até a profissão de “comentador” que bota “opinião” em regime de concessão…
O jornalismo português sofre de enfermidades que o impedem de se situar ao nível do que de melhor se faz no resto da Europa. E uma dessas enfermidades é a que reúne duas estranhas anomalias : a superabundância dos “comentadores” todo-o-terreno em regime de concessão e a entronização de políticos profissionais como “comentadores”.
Os “comentadores” titulares (“residentes” !) dos média portugueses são de facto uma espécie de concessionários de espaço em papel ou em linha, ou de tempo de antena. Espaço com periodicidade e enquadramento preestabelecidos. E até, pasme-se, com variações de “escrita” autorizadas e adornos da intervenção do “comentador” estabelecidos por este…
Nesse espaço concessionado, o “comentador” escreve ou fala sobre o que lhe apetece. Sem sequer se concertar previamente com a redação que o acolhe. Ou então, no audiovisual, é-lhe anunciado o tema da emissão em que vai afrontar outros “comentadores” (quase sempre os mesmos). Uma confrontação numa espécie de pugilato em que procurará ocupar o máximo de tempo e impedir que os adversários falem, cobrindo com as suas intervenções as tomadas de palavra destes…
Mas o que há ainda de mais trágico nesta conceção do “comentário” é que os “residentes” são-no porque se autoproclamam competentes em tudo. E quando abordam temas que o leitor, ouvinte, espetador ou internauta conhece, é manifesto que a ignorância dos ditos “comentadores” é por vezes incomensurável. Só que são “bons clientes”, como se diz nos média francófonos : falam bem e têm garbo, possam embora dizer banalidades para encher o espaço ou o tempo que lhes é concedido…
Como se todas estas insuficiências não bastassem, para terem audiência e suscitaram reações nas edições em linha ou nas chamadas “redes sociais”, os “comentadores” recorrem à agressividade. Atacando rivais de média concorrentes. Atacando outros “comentadores” do média de que são “residentes”. Ou, sublime perfídia, criticando e mesmo chantageando a direção do média que lhes paga como “residentes”. Quando não insultam gratuitamente uns e outros, ou brincam aos irresponsáveis engraçadinhos…
Da “concessão” que lhe foi atribuída, muitos “comentadores” aproveitam para fazer a própria promoção (profissional ou narcísica) ou para ganhar mais ou menos faustosamente a vida. Mais do que isso : a falta de escrúpulos reinando, fazem referência às suas próprias vidas privadas e atividades profissionais ou a funções em que estão implicados. Enquanto vão “comentarizando” em vários média, de modo a ganharem mais notoriedade e dinheiro, provocando uma inacreditável concentração dos “fazedores de opinião”…
Mas o requinte máximo deste “comentarismo” é quando os profissionais da política são entronizados “comentadores”, com rubricas permanentes na imprensa, na rádio, na televisão ou em linha. Como se um profissional da política fosse naturalmente capaz de se alhear dos seus interesses partidários, tomar as devidas distâncias e analisar serenamente a atualidade nacional, internacional ou estrangeira.
A grande confusão nos média portugueses é que tudo é considerado “opinião”. Quando há uma diferença fundamental a fazer entre a “tribuna” de opinião e a “análise” de atualidade. Em princípio, a “tribuna” não tem titulares permanentes. É antes um espaço aberto em que personalidades da vida política, social, económica, cultural,… intervêm quando consideram deverem tomar posição sobre temas de atualidade e explicitar esta posição, propondo a um média uma contribuição puramente pontual.
A “análise” constitui ao contrário uma rubrica regular (e até mesmo diária), que surge em função da atualidade ou de maneira periódica (muitas vezes semanal). Nela, jornalistas seniores do próprio média, incontestáveis especialistas do assunto, ou personalidades exteriores de reconhecida autoridade na matéria, propõem perspetivações de um tema ou situação. Deixando os leitores, ouvintes, espectadores ou internautas tirar as próprias conclusões, reformulando eventualmente as suas próprias opiniões.
O que se faz na grande maioria dos média de informação portugueses pouco ou nada tem a ver com os géneros nobres do jornalismo que são, nomeadamente, a crónica, a análise, a entrevista, o debate. Antes pelo contrário, dizem sobretudo respeito a uma “recreatividade” que em nada contribui para uma informação jornalística de qualidade…
Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro Teoria da Informação Jornalística(Almedina)

Texto publicado no diário Público, Lisboa, 17 de novembro de 2018, p. 62.