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Uma mão cheia de mistérios

Até me jubilar, vivi toda a minha vida em meios d e  ensino, mesmo antes de entrar para escola primária, por razões de ordem familiar. Portanto, durante 65 anos e até mesmo um pouco mais, a escola, o liceu e a universidade foram o  centro quotidiano da minha vida de criança, de estudante e de docente … Quando vejo as  atuais  excursões escolares turísticas pelo país dos chamados professores que duram há longos, longos meses, e vejo o lamentável espetáculo que propõem às televisões (…e a que estas prestam sempre especial atenção),  fico perplexo.   Como é possível que gente encarregada da formação dos jovens, da preparação deles para a vida social,  se desconsider e a este ponto  e nos  ofereça tão  lamentável imagem dela própria ? Mas interrogo-me também sobre a questão de saber como é possível que profissionais que têm por missão transmitir saberes e levar os jovens a refletir e a adotar uma atitude crítica perante a vida, se entreguem ...

Uma obsessão suicidária

Nos países por onde andei, estudei e trabalhei, e de continuo a seguir diariamente os média, há uma constante que nunca fui capaz de compreender. Ou melhor: apesar de uma das minhas formações ser nessa área académica, nunca fui capaz de compreender tal tática ou estratégia política. De facto, nunca fui sobretudo capaz de compreender politicamente que formações de esquerda radical ou de extrema esquerda, nas declarações dos seus dirigentes, nas entrevistas e nas análises nos média, nas intervenções nos parlamentos (quando lá têm representantes), tenham como preocupação obsessiva permanente atacar antes do mais as outras componentes da esquerda. E sobretudo atacar aquela que, em termos eleitorais e também, quase sempre, em termos sociais e sindicais, é a principal componente da esquerda. A razão desta preocupação obsessiva? Porque, segundo essas formações minoritárias, esta principal componente era ou é “revisionista” (termo que passou de moda há já bastante tempo!), ou “social-democrata...

Tão “irritado” que ele está!

J.-M. Nobre-Correia É um gozo! O inquilino de Belém está “irritado”, muito “irritado”! Ele que é tão, tão respeitador dos poderes que lhe são conferidos pela Constituição! Ele que nunca, por nunca ser, se mete em assuntos onde não é constitucionalmente chamado! Ele que nunca, absolutamente nunca, deixa compreender que foi ele que decidiu em matérias que são da competência do governo e que foi de facto o governo que teve que as resolver! Ele que tem sempre, sempre, sempre que botar palavra sobre tudo, tudo, tudo. Mesmo em assuntos em que os outros chefes de Estado nem sequer imaginariam um só segundo ter que se pronunciar publicamente! Está muito zangado o nosso Fala-Barato nacional! Até porque deve ter finalmente compreendido que todas as suas manobras dos últimos meses (com o PSD e com as eleições antecipadas, para não ir mais longe) falharam. E que agora, com a maioria absoluta reforçada, o governo até pode de vez em quando mandá-lo ir ar uma curvas… Acreditemos, porém, no Pai Natal ...

Há aliados e aliados

  J.-M. Nobre-Correia Suponhamos que a Arábia Saudita não fosse um aliado essencial da política estado-unidense dos Próximo e Médio Orientes: o alarido, a campanha que as agências de informação, jornais e televisões estado-unidense teriam feito em torno destas 81 execuções num só dia! É que a indignação dos média estado-unidenses é infelizmente muito seletiva. E agora a guerra na Ucrânia até os ajudou a “esquecer” estes e outros comportamentos da feroz ditadura teocrática…  

José Afonso 34 e 45 anos depois

Em janeiro de 1976, José Afonso esteve em Bruxelas para um concerto. Depois foi a minha casa com Zélia, para um entrevista para o semanário "Notre Temps", de Bruxelas. Da entrevista tenho a cassete som (em francês), a datilografia e o jornal em que foi publicada. Pus a mão nas duas primeiras, mas é-me difícil pôr imediatamente a mão no exemplar do jornal!   A datilografia é do tempo em que não havia ainda computadores pessoais, pelo que era escrita à máquina e fazia-se uma cópia a papel químico. O que explica que não seja de uma perfeita nitidez , embora seja perfeitamente legível.   Tentei pôr  aqui a cópia  das 22 páginas  do documento datilografado desta entrevista com 45 anos, neste dia em que se comemoram 34 anos do falecimento de José Afonso , mas não consegui tecnicamente fazê-lo (procurarei ver se há uma solução). Documento que foi traduzido para português (e que eu revi) e cuja publicação está prevista num libro em preparação…  

Do ativismo à prisão, à deserção e ao exílio

A evocação da guerra colonial, da chamada “guerra no Ultramar”, continua a ter aspetos raramente abordados e que são por vezes até mesmo apagados da memória coletiva. Pouco se fala deles nas conversas em sociedade. E jornais, revistas e livros pouca atenção prestam a tais temas. Há por aí, pelo país fora, monumentos e lápides que recordam aqueles que participaram na guerra colonial e os que, numerosos, faleceram vítimas desta mesma guerra. Mas quem recorda os que se sentiram forçados ao exílio, empurrados para fora do seu país?… Sabia-se desde o início que a guerra nas colónias estava irremediavelmente perdida e seria inevitavelmente inglória. Porque o movimento geral de reivindicação da independência por povos colonizados começara há largos anos. Porque grandes potências mundiais tinham já abandonado ou estavam a abandonar as suas antigas colónias. Não era pois Portugal, com os seus meios humanos, técnicos e económicos reduzidos que iria poder manter-se em territórios dispersos p...

O culpado é bem conhecido!

J.-M. Nobre-Correia Estes telejornais, à hora do almoço ou do jantar em família, são uma provocação que suscita irritação …ou sorrisos amarelos! Ver um telejornal português às horas das principais refeições constitui um momento perigosamente favorável para uma suprema irritação …ou para provocar amargos sorrisos amarelos! Eu resumo: esta pandemia que por aí anda é manifestamente obra do governo. Não há dúvidas! Sabe-se lá até se não foi o próprio governo que fez importar esse tal coronavírus… Mas o que é claro é que o governo tem gerido muito mal esta pandemia (digam lá o que disserem os média de referência estrangeiros: nós é que cá vivemos!)! Quem sabe bem o que se passa e diz tudo claramente sobre o assunto são essas ordens e esses sindicatos todos que por aí há. Sobretudo os seus formidáveis bastonários, presidentes e demais secretários gerais. Tudo gente altamente competente em tudo e desta feita competente em virologia e infetologia. É verdade que nenhum deles tem a inte...

Uma desgraça nacional

J.-M. Nobre-Correia Nestes anos de democracia, foi criado um sem-número de ordens. Há que nos interrogarmos sobre a sua verdadeira função… Há uma desgraça, uma horrível desgraça que descobri no meu regresso a Portugal, depois de ter vivido toda a minha vida profissional no estrangeiro: as chamadas “ordens profissionais”. E há ordens para toda e qualquer profissão (ou quase)! Sem que se saiba por vezes o que poderá bem ser a função de tais ordens em tais profissões. E pior do que isso: há profissões que só podem ser exercidas se o candidato a um posto de trabalho tiver o indispensável reconhecimento pela respetiva ordem. E sobretudo, claro, se pagar as exigidas quotas. Dois verdadeiros escândalos nacionais!… Depois há os bastonários, personagens que fazem algumas vezes carreira na política partidária ou que ambicionam entrar futuramente na vida política. Enquanto vão tomando iniciativas que são clara e prioritariamente de caráter sindical. E alguns deles, pelo menos, vão levand...

No reino dos hipócritas

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J.-M. Nobre-Correia É bem sabido: os “responsáveis” de base não são responsáveis de coisa nenhuma. E só sabem apontar o dedo para cima… Lembram-se dos grandes incêndios florestais de há dois, três anos? E de como população e autarcas consideravam não terem responsabilidade absolutamente nenhuma no assunto? Se as florestas não estavam limpas, não era culpa deles! Se havia queimadas sem controlo, umas brasitas acesas para um churrasco ao ar livre, uns cigarritos acesos deitados pela janela do carro fora, não tinham sido eles, mas sim outros! Outros, outros, não especificados, evidentemente. E claro, no fim de contas, era notório que o responsável pela catástrofe só podia ser o governo da República! Com esta brilhante demonstração, tivemos então direito a uma série de autarcas, envergando uniforme  ad hoc , a porem-se em bicos dos pés perante as câmaras de televisão e demais jornalistas. Primeiro para dizerem, em tom mais ou menos agitado, que sempre foram uns autarcas impecáve...

Catalunha : as razões de uma retirada

No  Público  desta manhã apareceu um manifesto pela Catalunha intitulado “Contra a judicialização da política”, assinado por quatro autores e subscrito por várias dezenas de pessoas. Na realidade, este manifesto tinha na origem cinco coautores, sendo eu um deles. Como já tinha sido aliás o caso com o manifesto intitulado “Pela democracia e pela liberdade na Catalunha” publicado no mesmo jornal em 23 de abril. A explicação para o facto do manifesto de hoje ter apenas quatro autores é simples. Preparado desde sábado 12, na perspetiva da sentença que seria pronunciada na segunda-feira 14, o texto final foi-me submetido na manhã de sexta-feira 18, pouco antes de ser endereçado ao  Público . Descobri então que o manifesto era subscrito por quatro dirigentes da Fenprof, entre os quais Mário Nogueira. Note-se que, salvo um único caso, a Fenprof é o único sindicato (ou federação) a estar representado entre os subscritores. Ora, eu considero há muito que Nogueira é um provoca...

Questões de democracia e de calendário

J.-M. Nobre-Correia Dizem os francófonos, naquela que é minha outra língua, que …il y a des choses qu’on ne dit pas, mais cela va mieux en le disant.  Com duas traduções possíveis : há coisas que não se dizem, mas mais vale dizê-las / sentimo-nos melhor dizendo-as ! Tenho para mim, há muitos, muitos anos, que há três instituições que não foram devidamente democratizadas depois do 25 de Abril : a Justiça (eternamente insatisfatória, lenta e conservadora), a Diplomacia (elitista, mundana e conservadora) e as Forças Armadas (tendo o 25 de Abril tido como origem um golpe militar, quem não foi saneado foi sobrevivendo entre os sobressaltos da democracia). E, pelo menos no que diz respeito à Justiça e às Forças Armadas, é manifesto que elas vivem em roda livre, longe do controlo mais elementar das instituições democráticas. O que se está a passar atualmente com a Justiça e com as Forças Armadas é significativo. Manifestamente na (inacreditável e escandalosa) questão de Tancos, os ...

Portugal : le "modèle". Quel modèle ?

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La droite comme l’extrême gauche annonçaient l’expérience de majorité parlementaire de gauche comme condamnée d’avance. Quatre ans après, en fin de législature, le bilan est largement satisfaisant et annonce peut-être même un avenir prometteur… Soudain, après avoir ignoré « l’expérience portugaise »  [1] , l’Europe, de Madrid à Bruxelles en tout cas, se met à évoquer « le modèle portugais ». Mais est-ce qu’il s’agit vraiment d’un « modèle » ? Et en quoi consiste-t-il ? La première chose qu’il faut savoir c’est que le « modèle portugais » n’a vraiment pas été le fruit d’une élaboration stratégique préalable. Ce fut plutôt la conséquence de deux événements malheureux. D’abord, une coalition de droite, réunissant PSD et CDS  [2] , qui a gouverné le pays de juin 2011 à novembre 2015, rabotant de nombreux acquis sociaux, augmentant fortement le chômage, poussant à l’émigration, remettant entre les mains d’intérêts étrangers b...

Uma obsessiva omnipresença

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J.-M. Nobre-Correia No pós-25 de Abril, o atual chefe de Estado concebeu informação em proveito próprio que em nada dignifica o jornalismo… É evidente que, depois da manifesta falta de dimensão de homem de Estado do seu predecessor, o novo titular da função teria um acolhimento positivo. E como o novo eleito é um personagem caloroso e sorridente, quando o outro era cinzentonamente crispado, grande parte dos cidadãos acolheu-o naturalmente com curiosidade, simpatia e até entusiasmo. No entanto, é notório que o atual presidente da República foi lentamente alargando o espaço da sua intervenção pública. Ultrapassando cada vez mais os limites da função e tomando repetidamente iniciativas que, nos termos da Constituição, não são da sua competência. Abuso que só a fragilidade parlamentar congénita do presente governo permite compreender que não suscite confrontações graves e seja tolerado. Mas há um domínio em que a conceção da presidência pelo atual locatário de Belém é absolutament...

O descalabro anunciado

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J.-M. Nobre-Correia Sindicatos, ordens e ligas são geralmente fatores de reforço do Estado democrático. Não é isso que acontece em Portugal… Um vento nauseabundo sopra sobre a Europa. Um após outro, os pilares fundamentais das sociedades democráticas vão-se desmoronando. De maneira estrondosa na chamada “Outra Europa”. Aquela para a qual a União Europeia quis alargar-se por pura opção anti-russa, quando boa parte desses países não partilharam uma história comum com a Europa Ocidental. Para constatarmos agora que o compreensível anti-soviétismo deles era fruto de considerações histórico-culturais e não exatamente de um real desejo de vida em democracia liberal. E os melhores exemplos de “democraturas” autoritárias são agora a Hungria e a Polónia. Para cá da antiga “cortina de ferro”, os pilares da democracia pluralista desde o século XIX e sobretudo desde após a Segunda Guerra Mundial vacilam fortemente. Com o fim das grandes famílias políticas (e não apenas dos partidos) na Itál...

Breves notas de perplexidade…

J.-M. Nobre-Correia Estas duas últimas semanas foram férteis em acontecimentos inquietantes sobre o nosso Estado de direito e a nossa Democracia … Os acontecimentos das últimas duas semanas nos meios das Forças Armadas e da Justiça deixam um muito desagradável sentimento de que estas duas instituições vivem verdadeiramente em roda livre. À margem do Estado de direito e da Democracia. Sem se preocuparem muito nem com aquele nem com esta. E sem que os supostos autores dos atentados a um e a outra sejam imediatamente suspensos, postos fora do ativo, enquanto se desenrolam os devidos processos de instrução. Este sentimento em relação às Forças Armadas e à Justiça é extensivo às chamadas forças da ordem, que são aliás teoricamente um elo de ligação entre aquelas e esta. Mas que se ilustraram estes últimos dias com comportamentos absolutamente inaceitáveis. Quer no que diz respeito à publicação de fotos intoleráveis. Quer no que se refere à recente manifestação em frente da Assembleia...

Vivemos num país formidável ! 2

J.-M. Nobre-Correia Ordens : Vivemos de facto num país formidável : a sorte que nós temos !… E eu é que vivi quase toda uma vida (mais de 45 anos) num país atrasadito ! Um país que, é certo, foi historicamente o segundo na Europa a iniciar o processo de industrialização. De velha tradição democrática. Que nunca conheceu censura desde a sua independência. E que só a universidade em que estudei e trabalhei conta o dobro de prémios Nobel de Portugal inteiro. Mas um país que, apercebo-me agora, não tem a felicidade de contar, como Portugal, com um sem número de corporações que usufruem de formidáveis regalias e ultrapassam claramente a suas razões de ser teóricas, funcionando como perturbadores permanentes da vida política do país… A propósito do “Dia da Saúde”, o  Diário de Notícias de hoje abre as suas colunas ao “bastonário da Ordem dos médicos”, à “bastonária da Ordem dos enfermeiros” e à “bastonária da Ordem dos farmacêuticos”. E, na mesma área, ainda lá faltam pelo menos...

Dos pequenos potentados locais…

J.-M. Nobre-Correia Política : Consideram-se donos-disto-tudo e acham que podem viver em total impunidade, praticando à ligeira uma singular arbitrariedade sem deverem prestar contas a ninguém… Viver no Portugal “do interior” é de certo modo uma punição. É viver num país de segunda ou mesmo de terceira ordem. Longe dos grandes estabelecimentos públicos e privados de assistência médica do Porto, de Coimbra ou de Lisboa. Longe das escolas secundárias, superiores e universitárias de prestígio da faixa litoral Norte-Centro. Longe da generosa oferta em matéria de cultura e de lazeres largamente centrada em Lisboa. Viver no Portugal “de baixa densidade” é pois sentir-se marginalizado. É ver-se automaticamente considerado pelas gentes do Portugal “de alta densidade” (ou da anti-“baixa densidade”) como cidadãos de segunda categoria. Como indivíduos que pouco ou nada contam nas decisões sobre os destinos do país (e as vagas de incêndios do verão e do outono passados puseram em evidência...

Os catalães, os média e a Bélgica

J.-M. Nobre-Correia Política : O debate em torno da atualidade catalã tem sido objeto de uma informação pouco cuidada e bastante instrumentalizada. Quando o que está em questão é o direito de um povo escolher o seu destino… Três razões me levaram a aceitar a proposta de intervir nesta sessão consagrada à Catalunha. Quando especificidade e identidade são incontestáveis A primeira : a perceção que eu guardei dos meus primeiros contactos há vinte-trinta anos com colegas professores e investigadores de diferentes autonomias de Espanha, assim como das minhas estadias em diversas autonomias desta mesma Espanha. Duas situações me impressionaram. Nos meios universitários, todos os meus colegas falavam entre si em basco, em catalão e em galego, o castelhano só sendo utilizado no diálogo entre universitários de autonomias diferentes. Mas na rua, e contrariamente ao que pensava antes, tanto em Bilbao como em Pontevedra, a maior parte das pessoas falavam castelhano. Enquanto que na rua...