domingo, 11 de setembro de 2022

O jornalismo num tempo de promessas e incertezas

J.-M. Nobre-Correia *

 

A entrada em cena de internet provocou uma explosão do sistema mediático. Mas há princípios de base do jornalismo que se mantêm…

 

Em matéria de informação, os nossos antepassados viveram um tempo de certezas ou de quase certezas. Com jornais que lhes anunciavam as notícias com o colorido ideológico que lhes convinha, a eles, antepassados. Depois, quando, já no século XX, a rádio, primeiro, e a televisão, depois, passaram a anunciar a atualidade no mundo, esses nossos antepassados deram-se conta que, afinal, imprensa, rádio e televisão não falavam dos mesmos assuntos de atualidade nem os tratavam da mesma maneira. No entanto, as divergências eram de certo modo relativas, até porque a rádio como a televisão, na quase totalidade dos países europeus viviam em regime de monopólio público, mais ou menos numa maior ou menor proximidade com o poder político do momento em cada um dos Estados do continente.

Uma novidade importante era o facto de as populações que viviam nas aldeias e no campo onde não chegavam sequer os jornais, passarem a ser igualmente atingidas pela rádio, a partir dos anos 1920-1930, e pela televisão, nos anos 1950-1960, ingressando assim no universo dos média e de temáticas para além das preocupações decorrentes da proximidade.

A situação complicou-se sobretudo a partir dos anos 1970. Digamos que, então, a paisagem mediática europeia explodiu, como se uma bomba a fragmentação a tivesse atingido. A fotocomposição e o offset vieram consideravelmente multiplicar as possibilidades de editar jornais periódicos e mesmo diários: as instalações técnicas eram mais ligeiras e os custos de produção mais baixos do que antes. Enquanto a frequência modulada, as redes de cabo e os satélites geoestacionários, associados a equipamentos de gravação e de emissão de sons e de imagens mais ligeiros e mais baratos, vieram provocar um enorme movimento de desmonopolização dos sectores da rádio e da televisão.

As consequências foram muito logicamente a fragmentação das audiências, mas também das receitas publicitárias. O que quer dizer que os média passaram de facto a dispor geralmente de menos meios financeiros para realizarem um jornalismo de qualidade, um jornalismo que supõe recolha de factos, investigação, verificação, perspetivação, interpretação e análise. Os média tiveram então que entrar numa lógica de concorrência cada vez mais assanhada, de modo a disputarem entre si as audiências, com conteúdos de preferência mais favoráveis à sensação, à emoção e ao entretenimento do que à informação no sentido mais restrito e preciso da palavra. Na informação, o espetáculo vai ter a prioridade em relação à exposição dos aspetos fatuais do acontecimento, e a indignação será privilegiada em relação à argumentação.

A PRIMEIRA VÍTIMA DA PROLIFERAÇÃO

A imprensa escrita foi a primeira vítima desta proliferação de rádios e de televisões, com a queda das vendas, sobretudo da imprensa dita nacional, considerando as pessoas que ficavam suficientemente informadas graças ao audiovisual e que, de qualquer modo, as notícias publicadas pelos jornais estavam por vezes já ultrapassadas quando lhes chegavam às mãos. Mas a imprensa escrita foi vítima também da transferência dos investimentos publicitários da imprensa para o audiovisual e sobretudo para a televisão, dado que a audiência desta era bem mais vasta e que o impacto da imagem animada nos consumidores era considerado como mais eficiente. O que levou muitos editores a lançarem-se na aventura dos jornais gratuitos, primeiro, e dos chamados “jornais compactos”, em seguida, numa tentativa de recuperar leitores e publicidade. Os primeiros eram remetidos gratuitamente por batalhões de distribuidores às pessoas de passagem no caminho para os empregos ou à entrada de espaços de lazer (de salas de espetáculos, por exemplo). Os segundos endereçavam-se sobretudo aos jovens e propunham, a um preço reduzido, um conteúdo menos diversificado, mais sintético, mais leve, do que outro jornal editado pelo mesmo grupo, concebido mais em conformidade com o figurino clássico e vendido a um preço mais elevado. Uns e outros constituíram porém, de certo modo, “o canto do cisne” de muitos editores…

Esta situação foi-se acentuando com o passar do tempo, até que o aparecimento da internet e o acesso a ela do grande público, a partir da segunda metade dos anos 1990, veio provocar um forte abalo na paisagem mediática mundial. Enquanto a crise financeira dos anos 2007-2008 agravou a situação com o desmoronamento da publicidade como fator maioritário e algumas vezes mesmo único da economia dos média tradicionais. Até porque o volume global dos investimentos publicitários não continuou a aumentar como nos anos anteriores.

Esta nova situação económica provocou um enorme movimento de concentração dos média em boa parte dos países da Europa. O que suscitou uma inevitável redução do número de redações, a constituição por vezes de equipas de redação comuns a diferentes média do mesmo grupo e, em boa parte dos casos, a uma diminuição do número de efetivos das redações. Assim como levou muitas vezes a uma redução das condições salariais dos jornalistas e a uma fragilização das remunerações dos jornalistas independentes “a recibo verde”.

No que diz respeito à publicidade, a situação é simples: os anunciantes compreenderam que os custos das inserções publicitárias na internet eram bastante mais baixos do que nos média tradicionais. Que estas inserções publicitárias lhes permitiam alcançar audiências muito mais vastas do que nos média tradicionais. E que a internet lhes permitia até delimitar mais precisamente os públicos que pretendiam alcançar, de “conversar diretamente com os consumidores e os clientes”[1]. Foram assim desaparecendo os jornais gratuitos como os “jornais compactos”, privados que eram de grande parte das receitas publicitárias com que contavam, até porque, no caso dos segundos, os jovens sentiram-se mais atraídos pelas novas tecnologias que lhes davam acesso à informação (…e a muitos mais conteúdos de divertimento). Em 2020, Google controla quase metade das despesas publicitárias mundiais, Facebook situando-se em segunda posição[2].

MUDANÇAS E CONVULSÕES DE FUNDO

No entanto, esta redefinição da estratégia publicitária era mais evidente do que aquilo que a chegada da internet supunha no que diz respeito aos média de informação e, mais particularmente, ao jornalismo. Porque a internet vai de facto intervir de maneira determinante no processo de trabalho dos média tradicionais, afetando tanto a forma como o fundo do que será proposto aos seus públicos[3], representando paralelamente mudanças e mesmo verdadeiras convulsões de fundo:

• os média passam a dispensar os habituais suportes de difusão (papel, ondas hertzianas, redes de cabo…), com o que isso significa até como redução de custos (no que diz respeito à aquisição, à gestão e à manutenção de tais suportes),

• todo o recetor de uma mensagem passa a poder ser igualmente emissor. E basta-lhe hoje um simples telemóvel para poder assumir as duas funções,

• a circulação da informação deixa assim de ser vertical, de cima para baixo, de um para muitos, dos profissionais para os simples leitores, ouvintes ou espectadores e passa a ser largamente horizontal, de muitos para muitos, entre pessoas conectadas entre elas. O que quer dizer também que as mais diversas personalidades, instituições ou empresas passam a poder dirigir-se diretamente aos seus públicos, utentes ou consumidores sem precisarem de passar pelos média tradicionais, evitando a capacidade de filtragem destes. “Cada um pode ser produtor, criador, editor e difusor”[4].

• toda e qualquer mensagem passa a ultrapassar as fronteiras habituais (locais, regionais, nacionais) e a ser difundida a nível planetário, captável nos lugares mais recônditos do mundo. Mesmo quando a mensagem é concebida visando um público local, ela pode ser igualmente captada na outra ponta do mundo, por puro acaso ou porque ela interessa particularmente alguém,

• esta difusão opera-se imediatamente, em tempo real. O que permite evitar longos transportes em matéria de imprensa para ser posta à “venda em banca”, por exemplo, ou para ser levada aos assinantes pelos correios postais ou por distribuidoras especializadas,

• os equipamentos móveis fazem que a informação passa a ser consultável a todo o momento e por toda a parte, e não, como tradicionalmente, sobretudo em casa ou em empresas, instituições e estabelecimentos diversos, mas também durante toda a espécie de deslocações ou de lugares,

• com a possível exceção das transmissões em direto de competições desportivas e de serões de eleições[5], o consumo da rádio e da televisão deixa de ser linear (às horas a que as redações querem, com a escolha de assuntos e o alinhamento que as redações querem) e passa a ser, sobretudo entre os jovens, à maneira do consumo da imprensa: quando o consumidor quer e aquilo que quer, na ordem em que quer. A informação deixa de ser proposta e de ser consumida “empacotada”, e passa a dar direito a um consumo “à la carte” pelo consumidor. E isto graças aos magnetofones, magnetoscópios, podcasts e replays, nomeadamente,

• opera-se uma convergência dos três média tradicionais, cada um deles sendo levado a conceber também conteúdos que eram tradicionalmente próprios dos outros dois média. Os jornalistas passam a ter que conceber conteúdos formulados de maneira diferente segundo o suporte a que se destinam. Mas deixam também de ser apenas autores de textos destinados a ser impressos ou ditos, mas também autores de fotografias, de gráficos, de gravações de sons e de imagens.

• enquanto os jornais diários se veem obrigados a “semanalizarem” ou a “magazinarem” os seus conteúdos, abordando assuntos que não decorrem da atualidade imediata mas sim de uma atualidade intemporal, os periódicos não-diários são levados a ter uma atividade diária e a procurar cobrir de certo modo a atualidade do dia,

• a todas estas novidades vem acrescentar-se a capacidade que a internet oferece de cada média poder fazer referência e permitir consultar documentos complementares provenientes dos próprios arquivos, de instituições diversas ou de outros média, documentos que enriquecem e completam a própria informação de atualidade.

AS CONSEQUÊNCIAS EDITORIAIS

Mas a internet significou também a entrada em cena anos depois, já nos primeiros anos do novo milénio, de toda uma série de novas ferramentas e de equipamentos até então desconhecidos que vieram provocar um gigantesco sismo no mundo da comunicação e da informação: os blogues, o ITunes (2001), os iPod (2001), os podcasts (2004), o Gmail (2004), o Facebook (2004), o Youtube (2005), o Twitter (2006), os iPhone (2007), o WhatsApp (2009), as iPad (2010), para citar apenas alguns, que passaram a ser novos canais de informação ou instrumentos de acesso a estes canais, quase sempre mais rápidos do que os média tradicionais. O que quer dizer que a revolução de fundo a que estamos a assistir está a operar-se há apenas vinte anos e até mesmo há menos tempo.

Em termos editoriais, as consequências destas mutações são numerosas:

• as edições em papel dos jornais estão a perder cada vez mais terreno. O que fez que muitos jornais em papel tenham pura e simplesmente desaparecido ou reduzido a periodicidade, embora em muitos casos as edições digitais tenham sido mantidas. O que quer dizer que

• desaparecem as fases da impressão, da distribuição e dos postos de venda, para não falar dos ardinas, e até por vezes a maquetagem tradicional, que fizeram parte da história da imprensa, velha de mais de cinco séculos,

• em consequência dos desaparecimentos evocados, as empresas editoras de jornais dispensaram o pessoal das tipografias (linotipistas/teclistas e rotativistas, nomeadamente), passando a haver mais grafistas e informáticos, mas também técnicos de fotografia, de som e de vídeo.

• os leitores passam a receber o jornal no instante mesmo em que é posto em linha pelo editor, sem terem portanto  que esperar que as transportadoras os levem até aos pontos de venda (e tendo depois os leitores que o ir procurar aqui) ou que os serviços postais os levem até às caixas do correio, quantas vezes com atrasos de horas ou mesmo de dias.

Porém, há que reparar que o desaparecimento de uma boa parte das edições em papel não significa de modo algum o desaparecimento das publicações escritas. O suporte dos conteúdos escritos muda, como tinha mudado antes do papiro para o pergaminho e o velino, e destes para o papel de trapos e, muito mais tarde, para o papel de madeira[6]. Mas as publicações escritas continuarão a ser perfeitamente viáveis sob a forma digital e na internet. E diários há que têm mesmo aumentado consideravelmente o número de assinantes e de leitores, sobretudo se se trata de jornais de referência ou jornais de economia e de finanças: em 2021, Le Monde 78,10% das suas 531 316 vendas (as mais elevadas de toda a sua história) têm como origem o digital, 45 % das suas receitas provêm das assinaturas em digital e em papel, e 23% das vendas em banca[7]; em maio de 2022, El País anuncia 204 295 assinantes, dos quais 164 200 “exclusivamente digital”[8].

Paralelamente, tem-se assistido por essa Europa fora ao lançamento de diários escritos puramente digitais, entre os quais um exemplo de grande sucesso é o parisiense Mediapart, lançado em 16 de março de 2008, propriedade de jornalistas, contava 218 099 assinantes há precisamente um ano e é largamente beneficiário há muitos anos. Ou Arrêt sur Images, jornal digital consagrado ao tratamento da informação pelos média, propriedade da sua equipa, sem publicidade, que anuncia 26 mil assinantes[9]. Da mesma maneira que os boletins especializados (as “lettres confidentielles”, as “newsletters”) muito específicos (sobretudo sobre economia e finanças, política nacional e internacional, tecnologias…), destinados a públicos muito circunscritos, tendem a multiplicar-se, alguns dos quais com muito sucesso, sendo geralmente assumidos por equipas de redação extremamente reduzidas.

REPENSAR A PRÁTICA JORNALÍSTICA

Mas a internet vai sobretudo obrigar a repensar a prática jornalística[10]. E isto, para começar, porque as pessoas deixaram de esperar que sejam os “média tradicionais” a anunciar-lhes o que se passa no mundo. As chamadas “redes sociais” (Facebook, YouTube, WhatsApp, Twitter, Instagram) e demais plataformas digitais estão hoje cada vez mais na origem da informação de que dispõem as pessoas[11]. Pelo que estas mesmas pessoas estão hoje à espera sobretudo que os “média tradicionais” e mesmo os média nascidos já nos tempos da internet

• assumam, não a função de anúncio, mas as funções de verificação dos factos anunciados, de recolha de novos factos originais, de investigação de dados complementares dos factos, de verificação dos factos públicos e inéditos, de perspetivação dos factos num contexto (histórico, sociológico, económico, político…) mais largo, de interpretação dos factos (dos antecedentes, das prováveis evoluções e das possíveis consequências) e de análise prospetiva dos factos (qual poderá ser o seguimento e as consequências destes), e até de tomada de posição perante acontecimentos particularmente importantes da vida política ou societal. Num momento da história em que o preço da informação anunciada tende a diminuir e mesmo a ser próximo de zero, dar sentido aos factos, aos acontecimentos, tem mais valor do que nunca, e isso é sobretudo apanágio dos jornalistas[12], que terão assim que ir mais longe do que as clássicas interrogações sobre “o quê”, “quem” “onde”, “quando” e “porquê”.

Este novo tipo de jornalismo, assim como o indispensável reforço dos princípios fundadores do velho jornalismo nascido a partir dos séculos XVI-XVII e claramente reforçados com a industrialização da imprensa no século XIX, faz que os média que gozam de mais credibilidade e de melhor aceitação pela sua qualidade, tenham em alguns casos reforçado fortemente as suas equipas de redação, em termos quantitativos e sobretudo em termos de competências. Em maio de 2022, um jornal como Le Monde conta atualmente 520 jornalistas, quando contava apenas 310 onze anos antes[13]; e El País conta com “mais de 400 redatores, fotógrafos e outros profissionais” nas suas principais redações de Madrid, Barcelona, Cidade de México e Bogotá[14].

Por outro lado, assiste-se nalguns casos a uma deslocalização da produção jornalística para países em que os custos são de longe inferiores, mas onde se encontram profissionais de grande qualidade e sem problemas no que diz respeito à prática da língua do média que os emprega. Mas assiste-se também a uma intervenção cada vez maior de robôs na produção de peças de informação, sobretudo em matéria de relatos e resultados desportivos (casos do sítio estado-unidense StatSheet), de cotação de valores na bolsa e de tendências bolsistas (como a agência Bloomberg), de resultados de eleições[15].

Há ainda a inteligência artificial que permite já, por exemplo, propor a leitura de artigos do londrino Financial Times ou do parisiense Les Échos por vozes de síntese, o ouvinte podendo mesmo escolher a voz que prefere. E, em matéria de rádio, o DAB+ permitirá cada vez mais que o ouvinte tenha igualmente acesso às palavras da música e às imagens dos intérpretes, por exemplo. A inteligência artificial irá também transformar um texto escrito numa banda-som ou num espetáculo vídeo, e reciprocamente. E é anunciada a chegada de animadores holográficos como apresentadores de telejornais e de outros tipos de emissões, perspetiva que existe já concretamente a nível experimental.

PERANTE O TSUNAMI PERMANENTE

Todas estas novas tecnologias têm consequências fundamentais na prática jornalística: o ciclo da informação passou a ser ininterrupto, o poder das fontes afirma-se perante o dos jornalistas, qualquer indivíduo passa a poder difundir informação, a polémica ganha peso em detrimento da factualidade dos acontecimentos, os assuntos com caráter chocante tomam importância de modo a procurarem reunir mais largas audiências[16].

Esta revolução tecnológica opera-se a uma velocidade vertiginosa, sendo a duração de vida das novas tecnologias bastante breve. O que supõe da parte dos média uma reconversão tecnológica frequente, com os custos que isso supõe. Como supõe também que os consumidores sejam igualmente levados a dever procurar equipar-se com as novas tecnologias se quiserem poder ter pleno acesso nas melhores condições às produções destes média.

Perante este tsunami permanente, um problema de fundo se põe: vamos nós ser dominados em termos de informação por uma meia dúzia de grandes conglomerados do género dos GAFA estado-unidense ou, num próximo futuro, dos seus equivalentes BATX chineses? Quer dizer: por conglomerados “que controlam a navegação a os seus parâmetros na internet”[17] e cujo poder os faz já largamente escapar aos poderes instituídos dos nossos Estados de direito europeus democráticos? Uma interrogação absolutamente essencial.

Outro debate tem surgido nestes últimos anos, nos Estados Unidos como em França, por exemplo, que consiste em afirmar que a qualidade da informação é indispensável ao bom funcionamento da democracia e constitui um “bem público” que deve, por isso, ser fruto de instituições “não-lucrativas”. Um debate que conviria abordar num país como Portugal onde paisagem mediática é de uma extrema pobreza e manifestamente pouco plural, e onde a informação jornalística deixa notoriamente muito a desejar

Repensar o futuro da paisagem mediática é tanto mais urgente que, parafraseando Jean-François Fogel e Bruno Patino, “internet não é um suporte mais; é o fim do jornalismo tal como ele viveu até aqui”, acrescentando mesmo que os média não iniciaram “um novo capítulo da sua História, mas sim uma outra História, sob o regime d’internet”[18]. Ao que os estado-unidenses Bill Kovach e Tom Rosenstiel poderiam replicar: “cada geração cria o seu próprio jornalismo. Mas o objetivo, ele, permanece o mesmo”[19]

 

Professor emérito de Informação e Comunicação na Université Libre de Bruxelles.

 

Texto que serviu de base à intervenção do autor no doutoramento em Ciências da Comunicação da Universidade de Beira Interior, em 11 de março de 2022.



[1] Éric Scherer, A-t-on encore besoin des journalistes?, Paris, PUF, 2011, p. 29.

[2] Jacques Attali, Histoires des médias, Paris, Fayard, 2021, p.336.

[3] Jean-François Fogel e Bruno Patino, Une presse sans Gutenberg, Paris, Grasset, 2005, p. 147.

[4] Éric Scherer, A-t-on encore besoin des journalistes?, p. 28.

[5] Jean-François Fogel e Bruno Patino, Une presse sans Gutenberg, p. 27.

[6] Ver J.-M. Nobre-Correia, História dos Média na Europa, Coimbra, 2021, pp. 23, 28 e 101.

[7] Le Monde, Paris, 22 de dezembro de 2021 e 1 de fevereiro de 2022; ACPM, consultado em 8 de março de 2022.

[8] El País, Madrid, 1 de maio de 2022.

[9] Nascida como emissão semanal na La Cinquième (futura France 5) em 28 de janeiro de 1995, Arrêt sur Images é suspensa em 17 de junho de 2007 pela direção do canal. Em 13 de setembro de 2007, Arrête sur Images regressa sob a forma de um sítio na internet, cuja versão definitiva aparece em 7 de janeiro de 2008 como média em linha a pagamento por assinatura.

[10] Ver J.-M. Nobre-Correia, Média, informação e democracia, Coimbra, 2019, pp. 343-353.

[11] Jacques Attali, Histoires des médias, p. 328.

[12] Éric Scherer, A-t-on encore besoin des journalistes?, pp. 99, 101, 107 e  110.

[13] Le Monde, Paris, 12 de maio de 2022.

[14] El País, Madrid, 1 de maio de 2022.

[15] Éric Scherer, A-t-on encore besoin des journalistes?, p. 96.

[16] Jean-François Fogel e Bruno Patino, Une presse sans Gutenberg, p. 32.

[17] Jean-François Fogel e Bruno Patino, Une presse sans Gutenberg, p. 63.

[18] Jean-François Fogel e Bruno Patino, Une presse sans Gutenberg, p. 16.

[19] Bill Kovach e Tom Rosenstiel, Principes du journalisme, Paris, Gallimard, 2015, p. 31 (col. Folio actuel, n° 160).



Texto publicado na revista Jornalismo & Jornalistas, Lisboa, n° 78, maio-setembro de 2022, pp. 12-17.

sábado, 10 de setembro de 2022

Comment les médias reconfigurent la démocratie

J.-M. Nobre-Correia

Professeur émérite d’Information et Communication à l’Université Libre de Bruxelles

Durant quelques longues décennies, ils ont joué un rôle d’insertion des individus dans la vie de la cité. Mais cela a bien changé…

Le média est le message, disait Marshall McLuhan. Une affirmation que suppose diverses implications. Par exemple : quand le média change de nature, on assiste également à une redéfinition des contenus. Ainsi qu’à une redéfinition de la relation du média avec son public. Et encore à une redéfinition des liens que les citoyens établissent entre eux, ainsi qu’entre eux et les structures sociopolitiques dans lesquelles ils s’insèrent.

En d’autres termes : l’évolution technologique, économique et sociologique des médias a inévitablement des répercussions sur la conception de l’information et des contenus des médias, et, par conséquent, sur le fonctionnement socioculturel et politique de la vie quotidienne et de la démocratie. Et les six grands moments qui ont marqué l’histoire dos médias sont significatifs de cela.

AU-DELÀ DU CERCLE ÉTROIT DU CLERGÉ

Ainsi, au XVe siècle, la « découverte » de la presse typographique va provoquer une multiplication du nombre d’exemplaires d’un document dont les lecteurs pourront disposer, un nombre d’exemplaires bien plus grand, sans comparaison avec ce qui était auparavant la production des copistes. Mais le passage du document manuscrit au document imprimé provoquera également une fixation de la langue écrite, alors que jusqu’alors de nombreux copistes introduisaient des modifications dans la manière de formuler stylistiquement un texte ou même d’orthographier un mot de ce texte.

Bien entendu, la multiplication du nombre d’exemplaires d’un document va permettre un élargissement considérable du nombre de lecteurs. Les textes écrits vont ainsi sortir du cercle étroit de ce qui était globalement le monde du clergé. Et les nouveaux textes imprimés touchent désormais le monde de l’enseignement, des écoles et universités naissantes, ainsi que le monde de l’administration publique et celui de la nouvelle bourgeoisie commerçante.

Cet élargissement du public lecteur sera toutefois limité aux élites lettrées et ayant un pouvoir d’achat suffisant pour acquérir des publications assez chères, ce qui en faisait des produits de luxe. D’autant plus chères que les tirages étaient limités et, par conséquent, le prix de revient de chaque exemplaire élevé. Et, outre les raisons économiques, la délimitation du lectorat était également due au fait que les contenus des publications étaient aussi alors surtout littéraires, culturels, philosophiques.

L’industrialisation de la presse va s’opérer lentement à partir de la fin du XVIIIe siècle et de manière plus accélérée surtout dans les années 1830-1860. Les innovations techniques — presse à vapeur, composition mécanique, rotative — vont considérablement augmenter le nombre d’exemplaires proposés au public. Cette augmentation des tirages permettra de baisser considérablement le coût de production de chaque exemplaire. L’introduction de la publicité comme troisième recette — en plus des abonnements et des ventes au numéro — fera encore baisser le prix de vente de chaque exemplaire.

Or, ces transformations technologiques et économiques interviennent à un moment de l’histoire où les processus d’urbanisation, d’instruction et de démocratisation des sociétés européennes se déroulent à des rythmes plus ou moins lents ou accélérés, selon les pays, avec l’élargissement considérable de ceux qui ont acquis le droit de vote. Un ensemble de processus qui fera augmenter les besoins d’information indispensable à la souhaitable intégration des individus dans les nouveaux espaces de vie économique, sociale et politique. De ce fait, les contenus deviennent alors avant tout liés à l’actualité immédiate, traitée en termes de plus en plus factuels.

Dès lors, le nombre de lecteurs augmentera considérablement : le journal ne sera plus un produit de luxe uniquement à la portée d’une élite alphabétisée et au pouvoir d’achat élevé. Il devient un produit de consommation courante, auquel a accès un lectorat chaque fois plus populaire, chaque fois plus issu de milieux sociaux défavorisés. Et c’est ainsi que le journal passe à assumer une fonction d’insertion des individus dans la société où ils vivent, dans de nouvelles pratiques économiques, dans de nouveaux types de relations sociales et dans la nouvelle vie politique démocratique.

VERS LE MONDE DE LA RURALITÉ

Née sur le plan technique avant la Première guerre mondiale, ce n’est qu’après que la radio fera son entrée dans l’espace public de démocraties généralement jeunes et encore peu solidifiées. Désormais la radio va permettre l’entrée de deux nouveaux types de population dans l’espace public : celles des analphabètes, qui étaient très nombreux, surtout dans les pays de culture catholique et plus particulièrement dans le sud de l’Europe ; mais aussi tous ceux qui vivaient loin des grands centres et des grandes voies de communication, dans le monde de la ruralité, où les journaux n’arrivaient même pas.

Mais la radio va aussi permettre d’atteindre des auditeurs en dehors des frontières de l’État d’origine, quand la presse écrite était interdite de traverser les frontières par les polices des douanes. Ce que déclenchera une « guerre des ondes » entre pays belligérants, mais même entre pays non impliqués dans les champs de bataille.

Ajoutons à cela le fait socialement important de la radio contribuer aussi fortement à une homogénéisation de la langue parlée, en éliminant de nombreux parlers régionaux en termes lexicographiques comme de prononciation.

L’entrée en scène de la télévision s’opère avec des aspects semblables à ceux de la radio : née aussi au stade expérimental avant la Seconde guerre mondiale, elle n’atteint le grand public qu’après celle-ci et surtout à partir des années 1950-1960. Plus que la photographie dans la presse, grâce à des images animées, la télévision va permettre aux téléspectateurs de voir des personnes, des objets, des maisons, des monuments, des paysages, …d’autres peuples et d’autres modes de vie.

Il est vrai que, avant la télévision, les actualités cinématographiques, nées en 1908, initialement hebdomadaires et ensuite parfois bihebdomadaires, avaient déjà donné à voir tout cela. Mais lesdites actualités cinématographiques passaient uniquement en salles de cinéma et vont finalement disparaître face à la concurrence des journaux télévisés, vus par le public en espaces ouverts, d’abord, ou dans l’intimité des foyers, ensuite.

En termes sociologiques, en effet, la télévision, après une première phase de consommation collective, va, dans un deuxième temps, dans les années 1960-1970, éloigner les spectateurs de la vie en société (dans les cafés, les associations, les clubs,…) pour l’isolement d’une consommation limitée à ceux qui vivent dans un même foyer. Et, même plus tard, dans un troisième temps, déjà dans les années 1990-2000, avec la baisse du coût des récepteurs, vers une consommation individuelle dans sa chambre, son bureau ou sa cuisine,…

Mais il convient de signaler un autre effet collatéral : la télévision a amené à la professionnalisation des campagne politiques, et plus particulièrement des campagnes électorales, ainsi qu’à une (hyper-)personnalisation des campagnes et de la politique en général, les attributs visuels devenant prédominants dans la vie politique. Il est vrai que, dans quelques pays, la radio avait déjà amorcé cette personnalisation de la vie politique et des campagnes électorales, mais à une échelle bien plus modeste, sans comparaison avec celle qu’elle prendra en télévision, un peu partout, dans tous les pays aux pratiques démocratiques ou qui théoriquement prétendent ainsi procéder.

Remarquons cependant que, comme dans le cas de la radio, le nombre de stations de télévision était alors fort limité : d’abord, une seule station, après, dans les années 1960 deux stations, parfois dans les années 1970 trois stations et, comme dans le cas de la radio, ces télévisions étaient presque toujours de service public[1]. Seuls deux pays disposaient de télévisions publiques et privées : la Grande-Bretagne et la Finlande. Et ce n’est que dans deux petits États que la télévision comme la radio étaient des activités privées, commerciales : le Luxembourg et Monaco.

DE L’INTÉGRATION À LA FRAGMENTATION SOCIALE

Disons de façon schématique que, jusqu’aux années 1970, les médias dits traditionnels (presse, radio et télévision) ont globalement constitué des instruments d’intégration des individus dans la vie de la cité. Notamment de ceux qui faisaient partie de groupes socioculturellement minoritaires ou qui, immigrés, avaient des origines géographiques différentes. Les amenant à partager une actualité (politique, économique, sociale, culturelle, sportive) globalement commune. Leur proposant des thèmes de conversation globalement communs. Et en leur proposant ces thèmes dans un langage, dans une terminologie, globalement commun.

Divers équipements d’enregistrement et d’émission plus légers et moins chers, tant en radio qu’en télévision, vont être mis à la portée de beaucoup de citoyens et provoquer une prolifération d’émetteurs de ces deux médias à partir des années 1970. Viendront ensuite s’y ajouter des réseaux câblés et des satellites géostationnaires. Et tout cela est apparu dans le contexte d’une vague chaque fois plus forte de néolibéralisme économique et politique et, par conséquent, de la volonté de groupes économiques d’avoir un accès plus facile à la publicité, mais aussi à la propriété des médias audiovisuels.

La prolifération absolument gigantesque des émetteurs qui s’en est suivi a eu deux conséquences. Première conséquence : on a assisté à une fragmentation des audiences. Les publics sont devenus chaque fois plus délimités et plus spécifiques, cessant pure et simplement d’entendre et de voir des émissions à caractère généraliste et plus particulièrement des émissions d’information générale. Ils ont commencé à entendre surtout des émissions de nature presque exclusivement musicale en radio et des émissions de cinéma, de sport et de musique, surtout de ces trois, plus toute une série de thématiques minoritaires, en télévision. Ils ont cessé donc d’être au courant de ce qui se passe dans la société où ils vivent. Comme ils ont passé, en termes thématiques et même de langage, à être difficilement capables de dialogue, de communication avec ceux qui font partie d’autres groupes. D’autre part, deuxième conséquence, les publics venus d’autres contrées de par le monde, ont commencé à consommer les radios et surtout les télévisions provenant des pays d’origine et/ou des milieux socioculturels dont ils sont issus ou auxquels ils ont adhéré. Comme ils sont passé à avoir accès à des journaux imprimés à distance, avec ces mêmes caractéristiques.

L’affirmation sociale d’internet à partir de la deuxième moitié des années 1990 (c’est-à-dire : il y a un quart de siècle) est venue encore accentuer cette situation de fragmentation sociale et de déconnexion par rapport à la société où l’on réside, travaille et vit au jour le jour. D’autre part, internet a accentué également la notion d’information en temps réel, et plus exactement d’immédiatisme de l’information, de la communication et de l’intervention sociale de chacun : le temps de la prise de recul et de réflexion a cessé fréquemment d’exister, comme a pratiquement cessé d’exister une quelconque médiation. Mais internet a également accentué la notion de dimension planétaire de n’importe quelle information, communication ou intervention, au-delà, donc, de ce qui était habituellement leur dimension locale, régionale ou nationale.

À toutes ces nouveautés est venue s’ajouter la possibilité pour tout récepteur de messages de devenir également émetteur de messages, ce qui a amené à l’affirmation d’individualités, hors de toute action collective. Dorénavant il n’y a plus d’espace public commun, mais bien une société en archipel, constituée par une multiplicité d’îles et îlots qui vivent en régime d’autonomie thématique et de langage, en termes d’information comme de communication.

Les journalistes ont cessé d’être la principale source de connaissance des faits d’actualité, de leur mise en perspective, de leur analyse et de la prise de position face à ces faits. Tout citoyen estime désormais avoir le droit de le faire, même si, en ce qui concerne le journalisme, il y ait des procédures et des principes à respecter qui définissent une profession et qui ne sont pas à la portée de tout un chacun dépourvu de formation adéquate.

REPENSER LA DÉMOCRATIE PLURALISTE

En revanche, la délégation de pouvoirs que les électeurs accordaient aux représentants de la commune, de la municipalité, du pays (c’est-à-dire : de la nation) et, par conséquent, aux partis, mais qu’ils accordaient également, comme adhérents de syndicats, aux leaders de ceux-ci, est aujourd’hui mise en question en permanence. Ou plutôt : on assiste à une crise de la représentation. L’effondrement de quelques grandes familles politiques traditionnelles, tout comme l’érosion de grandes organisations syndicales, illustrent bien cette crise. Les citoyens revendiquent désormais le droit de se représenter eux-mêmes, de prendre position sur toute sorte de sujets et d’agir individuellement ou en groupes de dimension variable en permanence. 

La politique cesse d’être un processus collectif et devient de plus en plus une agrégation de processus individuels, notamment parce que la sociabilité, la vie en société, cède progressivement le pas à une solitude en réseau, derrière un téléphone portable, une tablette, un écran de télévision ou un écran d’ordinateur.

Ce qui fait que, un peu partout en Europe, il y ait une tendance générale à une participation chaque fois moins importante à des élections organisées par les pouvoirs publics, et à un nombre chaque fois plus réduits de militants de partis et de syndicats. Mais aussi à avoir chaque fois plus de nouvelles structures politiques et syndicales qui échappent à l’influence des organisations traditionnelles reconnues légalement et ayant parfois des histoires centenaires. Remarquons ce qui s’est passé ces derniers temps avec la prolifération des listes candidates à des élections nationales ou européennes[2], ainsi comme avec la multiplication de syndicats ou les actions du type des « gilets jaunes » en France ou des « convois de la liberté » dans différents pays lors de la pandémie do covid 19.

Ce qu’on appelle les « réseaux sociaux » sont devenus la grande source d’information des gens, le grand réceptacle de la publicité et le grand point de rencontre des citoyens. En faisant perdre la capacité d’intervention aux médias traditionnels progressivement plus fragilisés en termes d’audience, comme de moyens financiers et humains pour pouvoir continuer à assumer ce que, à partir des XVIe-XVIIe siècles ont été ses traditionnelles fonctions sociales, clairement renforcées avec l’industrialisation de la presse au XIXe siècle : annoncer les faits d’actualité, les mettre en perspective, les analyser, prendre position face aux faits majeurs en termes incidences sociales. Et, par conséquent, faire de ceux qui avaient accès à la presse, à la radio et à la télévision des citoyens à part entière, les intégrant dans la vie de la cité, de la polis, dans la vie de la société démocratique.

Internet a provoqué une prolifération de médias, mais aussi une fragmentation sociale et un potentiel d’émancipation individuelle sans égal dans l’histoire, que nous obligera à repenser le fonctionnement de la démocratie pluraliste et même la conception d’une nouvelle démocratie pluraliste.

Cette profonde mutation de notre vie collective prendra du temps, beaucoup de temps, à affirmer ses contours, ses valeurs, la nouvelle identité qui la distinguera de celle d’une ère industrielle qui, différents signes portent à croire, se trouve en phase terminale. Et dans cette nouvelle société qui semble s’annoncer, les médias (le plus souvent dans leurs versions numériques et en ligne) assumeront très probablement un rôle de poids comme acteurs essentiels. Le journalisme, au sens fort du terme, devenant alors, plus que jamais, indispensable au bon fonctionnement de la démocratie et à la cohésion de la collectivité humaine dans un État de droit…



[1] En matière de radio, les dictatures salazariste et franquiste ont constitué des exceptions au plan européen autorisant la cohabitation d’un certain pluralisme des stations publiques et privées. Dans le cas de France et, dans un moindre degré, de l’Italie, existaient de « radios périphériques » privées qui émettaient de pays limitrophes, c’est-à-dire : de l’extérieur du territoire national.

[2] Lors des élections européennes de mai 2019, il y a eu 34 listes qui se présentaient en France, tandis qu’au Portugal il y en a eu pas moins de 17. 


Texte publié dans la revue "Politique", de Bruxelles, n° 120, septembre 2022, pp. 122-127.


domingo, 4 de setembro de 2022

Uma urgência a não ignorar

J.-M. Nobre-Correia

Globalmente, a paisagem mediática portuguesa é pobre e pratica um jornalismo que não está à altura das necessidades da democracia…

 

Há como que um mistério na chamada “Contemporaneidade” portuguesa: como é que um povo pôde viver mais de dois séculos sem uma informação de qualidade? E sobretudo sem uma informação suficientemente difundida por entre a população? Três primeiras explicações saltam aos olhos: a alta e duradoira taxa de analfabetismo, alargada a uma instrução reduzida e manifestamente deficiente; um poder de compra que também ele foi durante longos decénios reduzido, fazendo desde logo dos jornais e dos recetores de rádio e de televisão produtos de luxo; um clima político repressivo em diversas fases da história, impedindo a afirmação de uma prática jornalística livre e de uma informação de qualidade.

Mas estas explicações liminares não respondem a outra interrogação: como é que, globalmente, ao longo destes mais de dois séculos, os meios dirigentes deste país não sentiram a necessidade de dispor de uma informação de qualidade, abundante e plural para melhor exercerem as suas próprias funções de direção? Interrogação tanto mais pertinente que, até aos anos 1990, grosso modo, o acesso a média estrangeiros foi bastante difícil e limitado.

Resta-nos uma explicação particularmente desagradável: os meios dirigentes deste país foram-se concentrando ao longo dos séculos na “capital do império”, onde círculos de poder diversos se foram habituando a reinar sem prestar contas ao resto do país. E pior do que isso: interiorizaram um modelo de governação que não só ignora largamente a população, como prefere mantê-la longe dos corredores do poder, das suas manobras, negociações e decisões. O que explica o desinteresse profundo dos meios dirigentes em relação à situação de subdesenvolvimento atroz dos média em Portugal e da preocupante insuficiência da informação que praticam. E o constante desinteresse dos meios governamentais que se têm sucedido no poder da atual Segunda República[1] é terrivelmente significativo disso.

Porque Portugal vive de facto num inaceitável estado de subdesenvolvimento em matéria de média de informação jornalística, particularmente evidente no que diz respeito à imprensa escrita (em papel ou em digital). São raros os diários nacionais como os regionais, sendo as difusões (circulações) de todos eles inconcebivelmente baixas num país com a dimensão demográfica que é a sua. E, embora os periódicos (não diários) sejam relativamente numerosos, as difusões são igualmente bastante reduzidas e até mesmo, em muitos casos, insignificantes. 

A própria paisagem mediática dita “nacional” (imprensa, rádio, televisão e média em linha) está unicamente sediada em Lisboa, com uma pequena exceção no Porto, sendo o resto do país um desolador deserto. Um duplo deserto aliás: nenhum média “nacional” emana deste resto do país e a pretensa imprensa “nacional” pouco se vende na chamada “província”. Enquanto jornais, rádios e televisões com origem na “província” praticam um jornalismo particularmente pobre. Uma situação que tem tendência a acentuar-se, dada a evolução atual dos investimentos publicitários nos chamados média “tradicionais”.

Ora, uma democracia no pleno sentido do termo supõe cidadãos bem informados e meios dirigentes dispondo de elementos fatuais de informação e de análise que permitam a uns e outros tomar as decisões que lhes parecem impor-se. O que pressupõe a existência de uma paisagem mediática diversificada e plural, mas também redações numerosas e competentes. Porque um dos dramas dos média de informação jornalística em Portugal é a pobreza das redações, em termos quantitativos como de especializações. O que se traduz por conteúdos editoriais bem mais reduzidos do que os de confrades com posicionamentos comparáveis noutros países da Europa. Mas também por conteúdos menos substanciais, tratados quantas vezes por jornalistas que passam, por exemplo, de uma área geopolítica para outra de um continente diferente, de um tema médico-hospitalar para outro sobre um caso judicial, de uma guerra no estrangeiro para um fogo de floresta. Uma larga ausência de especialistas a que vem acrescentar-se uma escassez de correspondências e de reportagens no interior do país como no estrangeiro que, quando realizadas, revelam quase sempre uma manifesta falta de meios técnicos e humanos. O que é particularmente evidente em audiovisual, o jornalista mantendo-se longe do acontecimento, enquanto as gravações e as montagens prévias são extremamente raras.

Tal escassez de meios financeiros, técnicos e humanos, aliada a formações académico-profissionais muito discutíveis, faz que os jornais sejam muitas vezes meros canais amplificadores do que foi produzido pelas assessorias mais diversas (ministérios, partidos, ordens, sindicatos, corporações, polícias, bombeiros, autarquias…), quantas vezes sem que a mais elementar distância, a desejável verificação e o salutar sentido crítico tenham sido exercidos. Vêm juntar-se-lhes despachos, sons e imagens propostos por agências de informação, muitas vezes unicamente a portuguesa Lusa, por vezes também as britânico-estado-unidenses, com o que isso significa como visão da atualidade no mundo. Um conjunto de conteúdos ou perspetivas de conteúdos acolhido como maná por redações e que as leva a produzir jornais exageradamente monotemáticos-folhetinescos (covid, fogos, Ucrânia, urgências hospitalares…).

Para que Portugal possa de facto vir a ser um membro entre os melhores da União Europeia nesta matéria, é pois urgente que o seu sistema mediático e o tratamento da informação sejam repensados. Mas, numa perspetiva puramente liberal, a sociedade portuguesa sendo o que é e tem demonstrado ser, haverá provavelmente pouco a esperar dos meios económicos em termos de iniciativa, ab ovo, a última tendo sido a criação do Público pelo grupo Sonae em 1990, há 32 anos. Aos poderes legislativo e executivo de tomarem pois iniciativas de modo a incrementarem as indispensáveis evoluções. Criando uma fundação dotada de um fundo capaz de permitir o financiamento parcial de iniciativas provenientes dos meios editoriais e jornalísticos com vista a criar novos média de informação ou a reforçar iniciativas (jornalísticas e promocionais) de média existentes. Este fundo proviria do Estado e da União Europeia, mas também de empresas, instituições ou pessoas privadas, como consequência de uma legislação fiscal favorável às doações à fundação. Da mesma maneira que uma legislação devidamente adequada deveria garantir a independência e a sua não recuperação por criaturas partidárias notoriamente incompetentes na dupla matéria mediática e jornalística.

A entrada de Portugal na rota de um verdadeiro progresso democrático, quase meio século depois do 25 de Abril, depende largamente do estatuto que soubermos dar aos média de informação e à sua prática jornalística. Os meios dirigentes responsáveis do país não podem continuar a ignorá-lo…



[1] De 1926 a 1974, Portugal viveu em Ditadura e não em República.

Professor emérito de Informação e Comunicação da Université Libre de Bruxelles, autor do livro “História dos Média na Europa” (Almedina).


Texto publicado no diário Público, Lisboa, 3 de setembro de 2022, p. 10.


sexta-feira, 5 de agosto de 2022

A tentação do sexo pelas bandas da Beira Raiana…

J.-M. Nobre-Correia

Dizem jornais de hoje que Manuel Felício, bispo da Guarda, encobriu atos de pedofilia da parte de padre(s) da Diocese: imaginem!…

“Graças” a esta pedofilia reinante, o Seminário Menor do Fundão deixou de existir: só o gigantesco edifício e a quinta em torno continuam de pé.

Mas nem tudo está perdido: a Câmara Municipal do Fundão paga uma soma importante à dita Diocese para poder dispor deste edifício e desta quinta. Pode assim o Município assumir atualmente uma admirável função humanitária que aparentemente não interessou a Diocese…

Dizem os mesmos jornais que Felício vai pedir a passagem à reforma: bon débarras! E, não duvidemos que, chegado o momento, embarcará para as profundas do inferno: é pelo menos isso que a Igreja dele apregoa!!!

  

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

A função do intelectual

J.-M. Nobre-Correia

Nos primeiros dias da intervenção militar da Rússia na Ucrânia, partilhei no Facebook um texto de Edgar Morin e outro de Boaventura de Sousa Santos. Dois artigos que achei particularmente interessantes em termos de argumentação, mas que deram lugar a insultos e acusações de uma violência inesperada e absolutamente inacreditável. Percebi assim que tínhamos entrado num tempo em que toda e qualquer argumentação razoável e serena era impossível. Pelo que decidi não intervir mais sobre este tema…

Mas, como se diz na minha outra língua, …il y a des choses qu’il ne faut pas dire, mais cela ira mieux en les disant!… E é isso que me leva a partilhar aqui o texto publicado hoje pelo Professor Sousa Santos no Público. Pouco importa saber se concordo ou não com os artigos dele e é evidente que nem sempre concordo, mas penso que, no fim de contas, isso até é secundário.

Considero no entanto que os textos de Sousa Santos (aqueles que li e é evidente que não os leio todos…):

• são sempre formidavelmente bem informados e

• revelam sempre uma argumentação extremamente interessante.

Acrescento ainda um terceiro aspeto que me impressiona:

• apesar dos numerosos e inqualificáveis ataques de que tem sido alvo, Sousa Santos continua serenamente a propor-nos a sua reflexão sobre temas da atualidade, sem reagir sequer a tais ataques…


https://www.publico.pt/2022/08/03/opiniao/opiniao/mereceu-pena-2014464

Um dia ver-se-á mais claro…

J.-M. Nobre-Correia

Artigo extremamente importante do Professor André Lamas Leite, da Universidade do Porto, ontem no Público.

Um dia, historiadores, politólogos e constitucionalistas dirão quão nefasta foi a presidência do atual residente em Belém, em termos de imagem da presidência da República como em termos de solidez da nossa carta constitucional, fragilizando claramente a Democracia portuguesa e o Estado de direito. Sabendo como funcionam as chefias de Estado dos países da União Europeia que nos são mais próximos, geográfica e culturalmente, estou absolutamente convencido disso…


sexta-feira, 29 de julho de 2022

E se o telejornal mudasse de nome?…

J.-M. Nobre-Correia

Hoje vi corajosamente o telejornal das 20h00 da RTP1 até à primeira interrupção publicitária (publicidade que é legalmente proibida noutros países europeus, nos jornais das televisões públicas como das televisões privadas).

Reparei que nos primeiros 20 minutos, o residente de Belém apareceu três vezes a falar em três assuntos diferentes. E, sonhador, lembro-me uma vez mais daquelas democracias europeias onde os chefes de Estado não falam aos média durante semanas e mesmo meses a fio, só o fazendo em circunstâncias raras e verdadeiramente excecionais…

Tenho pois uma proposta a fazer: e se o telejornal da RTP passasse a chamar-se o “Pequeno Marcelo Ilustrado”? Não seria mais adequado à triste realidade?…